Pixinguinha (Chorinho)

Carinhoso música

A doença aliada à origem africana da avó rendeu-lhe o apelido inusitado. As baixarias ouvidas em casa pelo choro do pai e dos amigos deram a ele uma flauta mágica. O ouvido desaforado fez com que se transformasse em maestro, inepto e aclamado: Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, todos foram unânimes em aplaudi-lo. As vaias vieram quando excursionou com os Oito Batutas para ver o mundo. E se tornou um brasileiríssimo arranjador influenciado pelo jazz americano e os ritmos africanos. As dificuldades financeiras, a bebida e o fumo, o presentearam com um sax. E todas essas rasteiras terrenas ajudaram a compor o gênio que transcendeu as barreiras do tempo: Carinhoso, Lamentos, Um a Zero, Rosa. Pixinguinha, música semente.

Geraldo Pereira (Samba)

Samba Falsa Baiana

O samba recheado de quebradas marcou a vida irregular do compositor. O rebolado das baianas o colocou no chão. De queixo caído ele assistiria ao rebuliço em torno da bossa nova que ele próprio antecipara, não tivesse partido tão cedo. Sem saber, o mineiro que alimentou fama e discórdia no Rio de Janeiro foi um precoce e um privilegiado. Por ter assistido de perto à criação da Estação Primeira de Mangueira e ter convivido com grandes bambas da malandragem teve o prumo certo para tirar melodia e letra do mel que brotava na sua frente. Nem sempre doce, o sambista Geraldo Pereira foi um prodígio, reconhecido mesmo em sua brevidade, como talvez nunca tivesse sido não fossem as tempestades em sua vida.

Maria Alcina (Cantoras brasileiras)

Cantora brasileira

É homem ou mulher? A voz que range feito porta em noite assombrada, as penas esvoaçantes qual quadril de fêmea em orgia enluarada. Como anjos, artistas não têm sexo, portanto Alcina é Maria, chame do que quiser, contanto que clame aos ouvidos a soberba presença daquela criatura extravagante, imponente e deliciosa.

Mineira, de Cataguases, implodiu o Maracanãzinho ao apresentar à platéia toda virilidade e força do ‘Fio Maravilha’, peça de Jorge Ben encourada com entusiasmo ímpar. Nunca abnegou as raízes, cruzes, carregou consigo no peito a madre Carmen Miranda, portuguesa de nascimento, brasileira no coração, assim como emprestou a potência às esquecidas cantoras do rádio: Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, Bando da Lua, revoltas em todas as verves, condensadas.

Artes Plásticas: Gol de placa

“Para Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio.” Armando Nogueira

Futebol Cruzeiro

O olho inchado antevê a jogada. Não como antevê o hábil bailarino que distribui elásticos. O jogo truncado é resolvido no ato. Não como resolve o distribuidor de canetas. Como num ricocheteio a perna esquerda alcança a bola, que rodando encontra o fundo das redes.

O grito da arquibancada funde-se ao grito ensandecido de um corpo entroncado, coberto por longas tranças capilares que soltas ao sabor do vento alardeiam o combate do homem com a arte.

Bob Dylan (Cantores internacionais)

Cantores internacionais

Não, não me atrevo a dizer conhecer Bob Dylan. Mas também quem será, nem o mais arguto detetive parecerá (nos termos de parecer) o contrário. E a essa altura das pedras que rolam (aqui está meu jogo de palavras) uma pesquisa surgiria inócua. Portanto abstenho-me, levo e trago apenas os bolsos furados, cheios de canções surradas do folk, livre-me.

Que este não é o seu nome, não, não é o seu nome, sonâmbula dica na porta da geladeira às 4h da manhã, em busca do que? Robert Allen (uma coincidência com o poeta beat americano) Zimmerman, nascido no Minnesota, neto de imigrantes judeus russos, ou apenas um garoto.

“The answer, my friend
Is blowin’ in the wind
The answer
Is blowin’ in the wind”

Show: Alceu Valença & Orquestra Ouro Preto

Músico pernambucano une as influências à mineralidade do erudito

Show com Orquestra

Alceu Valença é o artista tipicamente, genuinamente, nativamente brasileiro, um popular. Por isso a apresentação sua acompanhado da Orquestra Ouro Preto é desastre aéreo, explosão culpada de comoção, transformação e sentimento pela perda de algo tão precioso que volta (à origem).

O sino da capela inicia o ritual da noite, ainda faltando presença do mestre de cerimônia, sendo a regência entregue aos trabalhos do maestro Rodrigo Toffolo, empunhado de vestimenta e musicalidade adequadas. Frevos, batuques, badulaques, pérolas esquecidas o nome, por esse vão, reles manuscrito póstumo.

“A bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vem chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento
E o sol parando nossas roupas no varal”

Teatro: O Libertino

Cássio Scapin destaca-se em peça dirigida por Jô Soares

Cássio Scapin

Chegar até o destino é um problema. Afinal, a filosofia oferece muito mais perguntas do que soluções. Essa é a função atroz reverenciada pelo humor de Jô Soares e seus dirigidos no espetáculo ‘O Libertino’, apresentado no teatro SesiMinas no último domingo.

Romance do dramaturgo francês Éric-Emmanuel Schmitt, a peça recebe contornos que aproximam o espectador brasileiro de uma realidade de época, fator por vezes aplaudido, mas que no meu julgo perde um pouco do charme da apresentação, tão bem disposto em roupas (ou na falta delas, no caso do ator principal Cássio Scapin) e cenário.

Hyldon (Soul Music)

Hyldon as dores do mundo

Muita gente desconhece o baiano de pronúncia improvável, radicado no Rio de Janeiro, responsável pela fermentação de ritmo americano em terras tupiniquins, ao lado de Tim Maia e Cassiano. Bolo de influências revolvidas ‘na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê’.

Hyldon é palavra simples, circunflexa, direta como flecha no alvo da matriz Soul Music. São dele os verbos, melodias e batidas de duas das mais repetidas canções dos últimos setembros, primaveris, de retomada, entoadas tanto bêbadas quanto sobriamente, em reuniões de dor de cotovelo e saudade.

“E eu vou, esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber quem fui
Mas sim o que sou”

Literatura: A Subversão da Ilegalidade

Discussão sobre a descriminalização da maconha

A Subversão da Ilegalidade

A boca seca e os velhos olhos vermelhos voltaram de vez?

Não, porque sempre estiveram aí. São mais antigos que a ressaca de Capitu e a discussão já solucionada por Clarice Lispector sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha.

As drogas quase sempre fizeram parte da história do homem. A origem da maconha data de 2723 a.C., segundo registros da Farmacopéia Chinesa, tendo chegado na Europa por volta do século XVIII, assim como no Brasil, de acordo com documentos referentes à época das Capitanias Hereditárias.Da mesma forma, as drogas também fizeram parte da vida e obra de artistas importantes e por vezes fundamentais na história da arte.

Cinema: Tropa de Elite

Uma reflexão sobre os valores imprimidos no sucesso nacional de bilheteria

Cinema nacional

Diariamente jovens são presos no Morro e estampam a capa de jornais por posse de drogas ou crimes mais ilegais. Morro geográfico, conhecido como favela ou aglomerado, e morro que dá nome à causa.

Jovens que por vezes são estudantes de classe média a alta, cursam Odontologia, outros Gestão Ambiental, e talvez estivessem fazendo alguma pesquisa para a faculdade ligada ás ervas provenientes do seio da Mãe Natureza. Capturados pela Polícia prestam depoimento e são liberados.