Literatura: Glória, Glória, Aleluia! – Você é o que você come (?)

“Os homens tem medo daqueles que personificam a vida que eles não viveram.” Oscar Wilde

Glória, Glória, Aleluia

Prodígio já nasceu chorando.
Não queria aquele nome.
Sua mãe, Glória prontamente o repreendeu.
E ele nunca mais chorou.
Quando completou um ano de idade pediu de presente uma mamadeira.
Recebeu um saboroso McLanche Feliz.
Aos 2 entrou na escola.
Seu melhor amigo era Nelson.
Fofocava com Guimarães.
Aos 3 quis ter um gato.
Ganhou um cachorro.
Queria chamá-lo Raul.
A mãe o chamou Jobim Tom.
Aos 4 chegou ao Exército.
E experimentou a liberdade.

João Gilberto (Bossa Nova)

“A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.” Adélia Prado

Bossa Nova

“- João, acorda João!” Disse a mãe do menino que inventaria a bossa nova. Ele, incomodado, respondeu: não faz barulho mãe, que o som do silêncio é a melhor música.

Não se enganem vocês, pensando que daí surgiu o mote para o movimento. Como passarinho, João queria voar, só que nascera cego, e os olhos que ele via eram as cores do arco-íris, sete notas musicais em fileirinhas.

Humor: Avenida Brasil

“Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.” Augusto dos Anjos

Nina e Carminha

Viajei para o interior de Minas Gerais e constatei que Débora Falabella mantém o mesmo sotaque dos tempos em que ainda morava em Belo Horizonte. Esta mania de comer as letras finais e primeiras, deixando só o sumo do interesse entre dentes é patrimônio histórico desta terra.

Na pele da malvada / boazinha Nina, a menina de boneca de pano numa das mãos e faca afiada na outra protagonizou ao lado de Adriana Esteves uma das cenas mais comentadas nos últimos dias. Digo isto pois peguei um ônibus da capital para a cidadezinha interiorana e afirmo: tudo que supera as grades e porteiras da periferia homérica é digno de nota.

Artes Plásticas: Caravaggio

“Pois o homem se enclausurou a tal ponto que apenas consegue enxergar através das estreitas frestas de sua gruta.” William Blake

Michelangelo Merisi da Caravaggio

Uma luz de lampião. Invento cela e mirra. Incenso, vela e granizo. Esganiço o grunhido a gancho. Um rosto atávico remissivo. Enfronhado num enfadonho decompor de caules. E o dedo podre, e os olhos hirtos, e o pelo branco, e a face atônita, e o tronco cheio de indelicadezas delicadas vive.

Tudo há vida, terno habita, tenso levita, cosmos transita, Eros suscita em Caravaggio. Do homem preso, ignorado. Do beiço lepra, resignado. O selo ordenha o maltrapilho, deus maltratado. Que mistérios tem o rinoceronte? De chifres e porte não lhe servem senão aos montes celestiais.

Cinema: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha

“Quero rasgos de lirismo tão incoerentes no meio da lama que cheguem a soar absurdos, com momentos de loucura.” Caio Fernando Abreu

Na luz vermelha cometem-se crimes no Brasil a torto e direito. Jornais cinzas e amassados repercutem os fatos em calhamaços pouco gastos. Locuções empostadas ecoam nas rádios azuis recompondo a gravidade do sangue coagulado. Ah mas por Arrigo Barnabé vocês não esperavam…

O tempo antigo da trama é soberba duma diretriz pensada para homenagear o pai da criança. Toma, o filho é teu, Rogério. Helena Ignez dirige o conversível com aliança de prata e revólver de borracha. Turva qual uma lacraia, alimenta-se dos ratos desesperados na fuga da sarjeta.

Show: Lobão (Elétrico)

“Ás vezes é melhor sorrir, imaginar
Ás vezes é melhor não insistir, deixar rolar
E tratar as sombras com ternura, o medo com ternura e esperar…” Lobão

show Elétrico

Cercado por uma matilha, o velho lobo bem que tentou, em vão tentou proteger sua prole, mas não foi páreo para os ataques que sofreu. Mesmo munido de unhas & dentes & guitarras seriam estes justos a falhar na hora exata.

E impedir o grito seco preso na garganta é por demais violento até para o predador mais acostumado a derrubar animais de porte superior ao teu. Impossibilitado inclusive de recorrer a estratégias outras, os ferimentos lhe jogaram ao abate.

“Canos silenciosos, nervosa calmaria
Quando todo mundo pensava que ia se divertir
É bem aí, é bem aí que o pânico todo se inicia”

Teatro: Pterodátilos

“Mas sem provocar ninguém, aceito apenas as rimas
De minha natureza estranha, sensível e sensual” Arrigo Barnabé

Teatro com Marco Nanini

Após a barba feita, um banho de água fria. Sento-me desconfortado nas cadeiras acolchoadas do pequeno teatro intitulado consciência. Nela submerjo até os meus antepassados, “Pterodátilos”, neles descubro a face oculta, cabra sacrificada do banquete servido com requinte e crueldade.

Sóbrio, sombrio, solvente, despeço-me da paz enganosa, ao sucumbir diante do vestido de Marco Nanini, uma garotinha de 15 anos, penas e planos, as primeiras de galinha, as segundas intenções de voos aterrorizantes e devastadores. É no sorriso banguela o oco do mundo casto.

Show: Jorge Mautner (3ª Mostra de Arte Insensata)

“Haverá lógica em Baco? Em Lewis Carroll? Em Fernando Pessoa?” Rubem Alves

Maracatu Atômico

4 do Kaos, mitologia numérica, os últimos ingressos são nossos. Cera da mariposa fundamental, telha da quebra inicial, pedra da leva filosofal. Entro no “Cento e Quatro”, localizado no redemoinho do furacão de Belo Horizonte, e sou recepcionado por Edy Star, um pouco tanto, alheio, mas ainda assim me fornece a chave da poesia.

Diz-me de Jorge Mautner a trocar a blusa no camarim antes de aparecer no palco com discurso violinístico e o violino discursivo de cara e terística. Pouco permaneço na figura de carimbo vermelho e santo dragão. Vamos juntos conhecer obras artesanais dos loucos, ali estão todos.

“Eu não peço desculpa
 E nem peço perdão
 Não, não é minha culpa
 Essa minha obsessão”

Show: Waldir Silva (Choro no palco)

“e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.” Lya Luft

Choro no palco

Entrego-lhe Waldir Silva semanas depois. Temo aprendido a elucubrar a inutileza (inútil gentileza) do que faço. Chego sempre atrasado ao comprometimento, e por isso o que lhe disponho não deve ter a força da utilização. É por demais delicado para o tal alcance de mãos em busca da fruta no último galho, esta tecnologia ainda não involuiu à arte, as palavras, a música.

Creio brincar de gramática errada, mas o fato-leda-fantasia é a varinha de condão do meu ancião passando o macio ferro por sobre os trilhos de um telegrama musical (pombo correio trazido por Deus? Ou Zeus? Ou Hades? Reféns felizes de um gordo Baco, ou a mitologia é mesmo lama e lema.)

“Venho lhe pedir
Que alimente a mágoa a sós
Pois o meu coração achou
A ternura e a paz, sim”

Show: Elza Soares (Simplesmente, Elza)

“Vou te falar de todo coração
Eu não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão” Lupicínio Rodrigues

Mulata Assanhada

Tantas vezes pisara naquele ambiente, pacato, resguardado (de influências outras), vazio. Mas naquela noite ontem era diferente. Havia uma mística da mulher perigosa estar ali, desinibida, exposta aos olhares, leniente. Isso sem mencionar o estouro de caras inchadas, rostos e bochechas alargadas que ali estavam à espera dela, a esperar por ti, musa-mina, deusa-pagã, voz-sem-medo.

Eu mesmo já havia sido homenageado naquele palco, e disso guardava um secreto orgulho, secreto nem tanto, pois esperava a oportunidade exata para extraviar minha comoção insana. Refratava os piscos de luz que se punham em pirâmides frente à minha percepção. Tudo lembrança dum dia outro agora posto em pedaços, como a xícara quebrada se cola com cola, desafiando meu nariz empinado.

“Que eu voltei pra me humilhar
É, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir”