Show: Cauby Peixoto (A Voz do Violão)

“o universo é pouca coisa comparado à vastidão de uma fronte pintada por Rafael.” Salvador Dalí

Cauby Conceição

Estou procurando uma inspiração com a foice. Estou no deserto, onde caminho rente ao chão, procurando uma inspiração com a foice. Mas com a foice não se consegue inspiração, nem se captura inseto, relva, ou a flor da mais doce. O instrumento incorreto, vezes outras, pode ser a arma da glória. A bajulação precede mesmo os minutos afoitos de sua entrada triunfal.

Vem o cônego, apoiando nos próprios ombros o peso daquele homem a quem todos conclamam, o peso daquela voz insustentável. A cadeira lhe foi construída especialmente, está certo que a memória falha, mas a voz, suprema, se mantém, rente ao chão do deserto estou procurando uma inspiração com a foice. Ela chega. Cauby ergue o cetro: começa a cantar.

Teatro: Hell

“cada um de nós, de repente, vai morrer em algum momento terrível e aterrorizar todos os nossos amantes e apodrecer o mundo – e estragar o mundo” Jack Kerouac

Bárbara Paz

A infernal Bárbara Paz está de volta em “Hell”, que me desdiga seu sobrenome. A atriz divide com a iluminação o posto de principal atração do espetáculo, dirigido por Hector Babenco e adaptado de livro da escritora francesa Lolita Pille.

Pílulas e pílulas são engolidas por Bárbara na mesma proporção e medida em que esta fuma seu cigarro indevassável, cheira o pó branco da mortífera cocaína e se deleita entre cortes e costuras das roupas e marcas que se insinuam tão descartáveis quanto ela mesma.

Arrigo Barnabé (Cantores brasileiros)

“A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.” Allen Ginsberg

Clara Crocodilo

Turva felicidade a de Arrigo Barnabé. Essa que se agarra às ostras, que se agarra às algas. Ainda assim, espontânea. Ainda assim, clandestina. Tal e qual uma flor de Clarice Lispector, que ao “se erguer, parece quebrar-se”.

Quando emerge do pântano, sob o relento do olhar de crocodilos, espia uma luz clara que tamborila de instrumentos multicoloridos: ali está Schoenberg, e sua escala de arco-íris sem tom.

A homossexualidade na música de Cazuza

“O mundo é azul
Qual é a cor do amor?” Cazuza

Exagerado

Cazuza foi um dos mais importantes cantores e compositores da década de 80, tendo sido um dos principais personagens do rock nacional que se instalou definitivamente na música brasileira a partir dali. Em sua obra, a representação da homossexualidade não se deu de forma linear e única, pelo contrário, Cazuza tocou de diversas formas no assunto, a maioria das vezes nas entrelinhas e através de metáforas, como era seu estilo.

Além de ter se assumido bissexual publicamente, Cazuza foi um dos compositores mais importantes na música popular brasileira na abordagem do tema, por tê-la feito de tantas maneiras tão distintas em mais de 10 canções durante a breve carreira, de1982 a1990.

Show: João Bosco & Orquestra Sinfônica

“O pássaro desenha
No seu vôo estrangeiro
(Porque nada sabemos
De pássaros e vôos
E do impulso alheio)
Um círculo de luz.” Hilda Hilst

Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

O tímido João Bosco pisa o palco com passos do menino de Ponte Nova. O tênis branco certamente não combina com o paletó desengomado pousado pra fora qual a blusa escapa da calça, peixe saindo do aquário. Cabisbaixo começa a desfiar sua ladainha aprendida com os antepassados: Dorival Caymmi, Oxum, Silas.

Explico: digo ladainha porque é fácil notar a influência africana com caldo de galinha à mineira nos murmúrios do moço. O molho pardo é despejado por sobre a carne branca com elegância. Como se colocam os talheres dispostos na mesa circundando a lousa branca, a senzala é a Orquestra Sinfônica regida por Roberto Tibiriçá.

Literatura: O príncipe negro

“A alma escolhe sua companhia
E fecha a porta, depois.
Em sua augusta suficiência,
Cessam as intromissões.” Emily Dickinson

O Príncipe Negro Literatura

Como comemoração ao conto que havia escrito. Desci à cozinha, e quebrei um prato. Seguida, celebrei a vitória com o príncipe negro: Átila. Permita-me não recorrer à figura histórica. É que esse nome, para mim, diz respeito somente a meu conhecido íntimo, e essa é uma das benesses a que me dou o direito.

Um cachorro de personalidade felina: arredio e esnobe. Pouco se mexe quando alguém aproxima. Jamais balançou o rabo. Nega-se a dar a pata. Não se considera um animal da espécie, em suma consciência. As perguntas mais freqüentes que se faz, pois pouco (ou quase nada) se dirige aos outros, são: Qual o sentido da existência? Quando?

Humor: Luan Santana

“Meio mundo gosta de cachorro e até hoje ninguém sabe o que quer dizer AU AU” Quino

Sertanejo Universitário

Não dedicarei mais do que seis parágrafos a esse assunto. E olha que são muitos. Quando me pediram para escrever sobre o sucesso do portentoso rapaz não resisti à tentação de fazê-lo através do humor. Afinal levar a sério certas abobrinhas é como misturar salada com o molho indevido.

Sério é sim a influência maléfica que determinadas imposições podem gerar sobre a cultura de alguns países. Disto darei conta mais tarde. A priori quero falar da estupenda interpretação de Luan Santana, como quem mastiga pedras enquanto, hmm hmm, engasguei, canta.

Show: Mauro Zockratto (Isso é que é viver)

“Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante: Poeta é o que encontra uma moedinha perdida…” Mario Quintana

Show Isso é que é viver

Perdoem a indiscrição. Sei desse ser um show de grupo. Com três estrelas circundando a Ursa Maior. No entanto fui até lá para ver o Mauro, apenas. Estivesse ele só naquele palco, as cadeiras do conservatório vazias, e o som pifando, lá estaria.

Dispenso explicações geométricas e matemáticas e métricas demais pra pouca rima. Mauro Zockratto é cantor de repente. Assim se encontrou na minha vida como quem tromba em elefantes sem ver, e descobre continentes (reproduzo Mario Quintana).

Show: Elba Ramalho (canta Luiz Gonzaga)

“A Rosa modesta eriçou um espinho,
A humilde Ovelha um chifre ameaçador;
E o Lírio branco num deleite de Carinho,
Nem espinho ou ameaça, mas a luz e o esplendor.” William Blake

Elba canta Gonzaga

Elba Ramalho adentra a noite com claros olhos da manhã. Toda a beleza que vi não cabe num parágrafo. Tigre alaranjado, de tiras pretas no dorso, desperta rasgando palmeiras verde-escuro. Ruge e urde, pés vermelhos, terra batida, roda a saia amarela, lilás, reclina o colo, solta a voz, brinda e arranha e corta e gira e morde com seu espetáculo.

Elba Ramalho é assim tão sonsa e sina a nossa saboneteira. Não está ali para brincadeira. Está só para brincadeira e improviso e espontânea esbarra nos erros toda vez sem abrutamento ou dedicação ao palco. É pura dedicação ao palco. Por isso desfila como na vida, ensaia mas deixa o momento tomar conta, com sua mania de ser irreverente e estragar os planos dos metódicos.

Vinicius de Moraes (Bossa Nova)

“A própria felicidade é dolorosa.” Vinicius de Moraes

Poetinha Bossa Nova

Sentado no meio de sua sala, com um copo de uísque na mão, cabelos longos, lisos e grisalhos, lá estava ele, rodeado por amigos que adoravam rir de suas piadas, cantar seus poemas, ouvir suas histórias de amor e tocar as músicas que eram feitas com suas letras. Amigos que sabiam que sem ele aquela comunhão não seria possível. Vinicius de Moraes chamava a todos por diminutivos, como prova de seu imenso carinho.

O poetinha, como ficou conhecido por conta dessa carinhosa mania, era um reconhecido galanteador, um poeta indiscutível, um letrista que fazia do simples a obra de sua arte, um homem apaixonado que exaltou o amor a vida inteira. Exaltou as mulheres e as belezas brasileiras. Quem poderia dizer que aquele diplomata demitido pelo governo militar se tornaria um dos maiores poetas do nosso país?