Show: João Bosco & Orquestra Sinfônica

“O pássaro desenha
No seu vôo estrangeiro
(Porque nada sabemos
De pássaros e vôos
E do impulso alheio)
Um círculo de luz.” Hilda Hilst

Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

O tímido João Bosco pisa o palco com passos do menino de Ponte Nova. O tênis branco certamente não combina com o paletó desengomado pousado pra fora qual a blusa escapa da calça, peixe saindo do aquário. Cabisbaixo começa a desfiar sua ladainha aprendida com os antepassados: Dorival Caymmi, Oxum, Silas.

Explico: digo ladainha porque é fácil notar a influência africana com caldo de galinha à mineira nos murmúrios do moço. O molho pardo é despejado por sobre a carne branca com elegância. Como se colocam os talheres dispostos na mesa circundando a lousa branca, a senzala é a Orquestra Sinfônica regida por Roberto Tibiriçá.

Literatura: O príncipe negro

“A alma escolhe sua companhia
E fecha a porta, depois.
Em sua augusta suficiência,
Cessam as intromissões.” Emily Dickinson

O Príncipe Negro Literatura

Como comemoração ao conto que havia escrito. Desci à cozinha, e quebrei um prato. Seguida, celebrei a vitória com o príncipe negro: Átila. Permita-me não recorrer à figura histórica. É que esse nome, para mim, diz respeito somente a meu conhecido íntimo, e essa é uma das benesses a que me dou o direito.

Um cachorro de personalidade felina: arredio e esnobe. Pouco se mexe quando alguém aproxima. Jamais balançou o rabo. Nega-se a dar a pata. Não se considera um animal da espécie, em suma consciência. As perguntas mais freqüentes que se faz, pois pouco (ou quase nada) se dirige aos outros, são: Qual o sentido da existência? Quando?

Humor: Luan Santana

“Meio mundo gosta de cachorro e até hoje ninguém sabe o que quer dizer AU AU” Quino

Sertanejo Universitário

Não dedicarei mais do que seis parágrafos a esse assunto. E olha que são muitos. Quando me pediram para escrever sobre o sucesso do portentoso rapaz não resisti à tentação de fazê-lo através do humor. Afinal levar a sério certas abobrinhas é como misturar salada com o molho indevido.

Sério é sim a influência maléfica que determinadas imposições podem gerar sobre a cultura de alguns países. Disto darei conta mais tarde. A priori quero falar da estupenda interpretação de Luan Santana, como quem mastiga pedras enquanto, hmm hmm, engasguei, canta.

Show: Mauro Zockratto (Isso é que é viver)

“Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante: Poeta é o que encontra uma moedinha perdida…” Mario Quintana

Show Isso é que é viver

Perdoem a indiscrição. Sei desse ser um show de grupo. Com três estrelas circundando a Ursa Maior. No entanto fui até lá para ver o Mauro, apenas. Estivesse ele só naquele palco, as cadeiras do conservatório vazias, e o som pifando, lá estaria.

Dispenso explicações geométricas e matemáticas e métricas demais pra pouca rima. Mauro Zockratto é cantor de repente. Assim se encontrou na minha vida como quem tromba em elefantes sem ver, e descobre continentes (reproduzo Mario Quintana).

Show: Elba Ramalho (canta Luiz Gonzaga)

“A Rosa modesta eriçou um espinho,
A humilde Ovelha um chifre ameaçador;
E o Lírio branco num deleite de Carinho,
Nem espinho ou ameaça, mas a luz e o esplendor.” William Blake

Elba canta Gonzaga

Elba Ramalho adentra a noite com claros olhos da manhã. Toda a beleza que vi não cabe num parágrafo. Tigre alaranjado, de tiras pretas no dorso, desperta rasgando palmeiras verde-escuro. Ruge e urde, pés vermelhos, terra batida, roda a saia amarela, lilás, reclina o colo, solta a voz, brinda e arranha e corta e gira e morde com seu espetáculo.

Elba Ramalho é assim tão sonsa e sina a nossa saboneteira. Não está ali para brincadeira. Está só para brincadeira e improviso e espontânea esbarra nos erros toda vez sem abrutamento ou dedicação ao palco. É pura dedicação ao palco. Por isso desfila como na vida, ensaia mas deixa o momento tomar conta, com sua mania de ser irreverente e estragar os planos dos metódicos.

Vinicius de Moraes (Bossa Nova)

“A própria felicidade é dolorosa.” Vinicius de Moraes

Poetinha Bossa Nova

Sentado no meio de sua sala, com um copo de uísque na mão, cabelos longos, lisos e grisalhos, lá estava ele, rodeado por amigos que adoravam rir de suas piadas, cantar seus poemas, ouvir suas histórias de amor e tocar as músicas que eram feitas com suas letras. Amigos que sabiam que sem ele aquela comunhão não seria possível. Vinicius de Moraes chamava a todos por diminutivos, como prova de seu imenso carinho.

O poetinha, como ficou conhecido por conta dessa carinhosa mania, era um reconhecido galanteador, um poeta indiscutível, um letrista que fazia do simples a obra de sua arte, um homem apaixonado que exaltou o amor a vida inteira. Exaltou as mulheres e as belezas brasileiras. Quem poderia dizer que aquele diplomata demitido pelo governo militar se tornaria um dos maiores poetas do nosso país?

Show: Falamansa (As Sanfonas do Rei)

“É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante…” Florbela Espanca

Forró na Torre

Porque o show na companhia dos amigos é sempre confortante. Estou bonzinho hoje, sem demagogia. Fui assistir ao “Falamansa”, o Forró que já não é lá meus pés de patas nem quadris de gazelas. Mas a minha cara, pouco suada em conferência aos demais, é a de Luiz Gonzaga.

Foi por isso e para vê-la, à bailarina, ah, vocês não sabem, precisam vê-la dançar e rodopiar por serpentinas e confetes absolutamente invisíveis e claros enquanto dança, e provoca uma aceleração ínfima, de tão bonita é o sorriso da bailarina. Sim, ela não sorri com os dardos disparados em frente ao arco. Ela é a flecha duma índia abismal e antecedente, muito antes da dança ser séria.

Teatro: Ensina-me a viver

“No pórtico de Belém
os ciganos se congregam.
São José, cheio de chagas,
amortalha uma donzela.
Teimosos fuzis agudos
pela noite reverberam.
A Virgem cura os meninos
com salivinha de estrela.” García Lorca

Glória Menezes Teatro

Da onde vem o riso? De onde vem à morte? Sóis, vida. Inúmeras despedidas. O humor pode aparecer na parede, num relance, na casca ou na bola de um sorvete. Os negros fiapos de pera apodrecida descascados em cena pela faca amolada de Colin Higgins ajudam a enternecer, entreter e tecer o suco de coloração creme e seca da peça “Ensina-me a Viver”.

Nas claquetes cinematográficas arrastadas em princípio qual cortinas de castelos belgas, logo a influência mórbida dos ingleses tilinta os talheres. Há um veneno de serpente no chocalho do réptil feminino cascateado no vestido da mãe. Persegue o rabo e morde o próprio filho. Uma dinamite prestes a explodir. Vulcão em erupção. Fios da cerca eletrificada.

Show: Ney Matogrosso (Beijo Bandido)

“não se destinam a sustentar outra coisa senão a famosa libélula de abdômen mole e pesado como o bloco de chumbo maciço onde ela foi esculpida de forma sutil e etérea, bloco de chumbo concebido (por seu ridículo excesso de peso que introduz, no entanto, a ideia necessária de gravidade)” Salvador Dalí

A libido altiva de Ney Matogrosso, o gato arisco e maroto a ronronar de alforria e encanto. É a libertação do gozo, do jovem velho moço homem mulher caubói macaco, do porte de seus mais de 70 anos, do alto das árvores em troncos rijos e bem arraigados, na moleza do quebranto.

Requebra e horroriza, ojeriza a caretas e línguas voláteis demais, sensíveis de sais, mergulhadas em água de mar, rio doce, bentas. Ney Matogrosso professa amargura e medo, aventura e vento, enquanto mexe a colher de pau do voluptuoso caldo de bruxas e maçãs pecaminosas.

Cinema: Para Roma, Com Amor

“Porque criar uma obra de arte, se sonhar com ela é tão mais doce?” Giotto (Pasolini – Boccaccio)

Woody Allen

Woody Allen é contumaz usurário em esfregar nas fuças com pano de chão torcido e pia pingando uma única gota: o absurdo, crível e ridículo da sobriedade nossa de cada dia. Sim, não há nada de alucinante no homem cantando ópera debaixo do chuveiro, no mísero desconhecido sendo atacado por repórteres como migalhas por roliças pombas, nem nos desfechos e fechos a tetra-chave dos relacionamentos amorosos.

Para Roma, Com Amor – cartão postal timbrado a água da Fontana di Trevi, só pode ser subversivo porque decide colocar essas situações sobre o pano da caixa sem fundo do mágico de araque. Bingo! Araponga perfeita para o ataque do escrutínio do diretor: o homem debaixo do chuveiro cantando ópera debocha da moderna arte; o mísero desconhecido fugindo qual pomba desdenha das célebres celebridades; e entre outras veleidades o amor perfeito e convicto de fábulas é tão superficial quanto comer sopa de garfo.