João do Vale (Cantores brasileiros)

“A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce.” Ângelo Silésio

a ema gemeu

Rude João Batista. Do Vale, donde emergem misérias amarelecidas. Que o tempo não carcomeu, pois Carcará se enganchou sobre vestes rasgadas, com olhos de furar o sol. Profeta do norte, repentista sem pátria. Cabeça na bandeja de palha. A ema gemeu quando esqueceram teu parto.

Tal retirante legou em cada canto um aviso, gemido, burburinho. Num arrasta-pé sem vergonha, com muita alegria. Nutrido à carne escassa, seca mandioca, picardia. Mas se dança e belisca numa danação arredia, pouco tímida, que lança e provoca enquanto espia. Malícia de ventre em véu, sem amarras nem covardias.

Beethoven (Música clássica)

“o sonho louco de Beethoven com seu egoísmo, a perfeição e o equilíbrio de Bach e Mozart, a explosão da tonalidade pelo lado da extremidade dos acordes através de Debussy e pelo lado interno do acorde através de Wagner. (…) Nesses lugares, quando você faz o primeiro tartamudeio é como se a gênese acontecesse de novo.” Tom Zé

Música clássica

Uma vida romântica. Só queria uma vida romântica. O homem cinza, dentro de si: a Música resplandecente; Majestosa. Movimento dos contrastes, dos instrumentos, das cachoeiras, dos sons, da Vida & Morte. Ensaio. Uma vida romântica. Só queria, uma vida romântica.

Chega a ser inacreditável a Tua Morte. Surdez da alma; suicídio. Exuberância e melancolia mastigando Agonia. Começo a escrever sobre um Beethoven ensandecido, transtornado, furioso, rasgando folhas de partituras e berrando aos céus por clemência.

Teatro: Vermelho

“Todos sabem que a inteligência nos faz desembocar apenas nas névoas do ceticismo.” Salvador Dalí

Antônio Fagundes Teatro

Há um homem sentado de costas. Avisto luzes por sobre as cores, abajures baratos, um silêncio, o barulho. Tapetes, tapumes, escondem cadeiras, teto, assoalho. A cena é um mistério. Reverbera o vermelho, intacto.

Se assim continuasse, caso não descobrissem se tratar do homem aquele visto como galã, e os quadros tivessem sido referendados a um esdrúxulo bruxo, ou  a um mendigo abstrato, haveria os aplausos robustos ao final da apresentação?

Literatura: Hilda Hilst

“Ah, fui sempre
A das visões tardias!
Desde sempre caminho entre dois mundos

Mas a tua face é aquela onde me via
Onde me sei agora desdobrada.” Hilda Hilst

Sete cantos do poeta para o anjo

É difícil decifrar-se, ainda mais se tratando de Hilda Hilst. A escritora nascida em Jaú, no interior de São Paulo, que passou boa parte da vida na ‘Casa do Sol’ em Campinas, sítio construído para inspirar-se em meio aos astros, cachorros e terras que tanto admirava, foi uma das mais provocativas e líricas de seu tempo.

Qual o tempo de Hilda Hilst? Talvez o passado, arrisco o presente, o certo é que sua obra tramita numa confluência entre o douro do trigo, ainda tenro, e a madurez do pão na boca dos filhos aflitos, sozinhos, extremos.

Entrevista: Elisa Freixo

“caixas vazias, flores secas dentro de um livro,
chamam em circunstâncias solitárias
e deve-se abrir, e ouvir o que não tem voz,
deve-se ver as coisas que não existem.” Pablo Neruda

Organista da Sé de Mariana

A distância entre Alemanha e Brasil parece pequena para Elisa Freixo. Igualmente acontece o feito entre a música de concerto e a arquitetura histórica de cidades como Mariana, Ouro Preto e Tiradentes. “O repertório está ligado à história dos instrumentos, foi na segunda metade do século XVIII que os órgãos mineiros foram instalados”, afirma.

Organista consagrada e requisitada, a musicista apresenta neste final de semana e no próximo dia 7 de dezembro, nas cidades citadas, as músicas do novo disco, gravado no país da capital Berlim, convidada pela igreja Waltersdorf, onde ocorreu o registro. “Eles querem dar início a uma série chamada ‘Monographien’, com várias gravações feitas em órgãos históricos dessa região”, diz.

Entrevista: Elza Soares

“Ai, minhas blusas de linha!
Ai, meus quadris de amapola!
Com a água das cotovias,
Soledad, teu corpo molha,
e deixa o teu coração
em paz, Soledad Montoya.” García Lorca

Entrevista com a cantora do milênio

“Você já ouviu a voz que toma corpo? Da favela vem magra, faminta, intacta e assim permanece. Carrega a cabeça uma lata d’água e nas mãos uma prece, que se estende aos quadris da mulata assanhada, sobe pelas paredes. E alcança no céu um Ary Barroso e um Louis Armstrong. É a mistura sem jeito, sem tato, aos barrancos, mancando ao sapato um tamanco de barro, suor e pilão. Chame de bossa negra, suingue, jazz, funk ou samba na avenida. Ela apenas destila o que chama de corpo é a voz que arrepia: Elza Soares da vida, patrimônio mal resolvido num país de descidas, sucata e música aborígene”, declama a cantora, ao telefone, os versos que lhe escrevi em homenagem.

Emocionado, confabulo outras considerações elogiosas, a respeito da voz performática de Elza Soares, extremamente intocável e física, mas  logo sou interrompido. Ninguém melhor do que a intérprete, que se apresenta amanhã, dia 2, às 15h, na Savassi, com o show “Deixa a Nêga Gingar”, em razão do Dia Nacional do Samba, para falar da própria garganta. “É um presente de Deus, com ela faço tudo que quero, pois tem malícia, dengo, força, é rouca, agressiva e jocosa”, enumera.

Artes Plásticas: Mark Rothko

“A violência das cores, no primeiro momento, assusta-nos. Depois, as tonalidades se amaciam, as nossas pupilas absorvem os raios…” Murilo Rubião

Artes Plásticas

Olhou a primeira vez uma tangerina. Não sabia distingui-la de laranja ou mexerica. Nem tocou-a, mas um áspero farfalhar dos gomos, entupidos de polpa fresca, igualara-se à lembrança de folhas quebráveis como um galho seco.

O suco não aparente era saboreado em oposição ao som da fruta maciça. Dentro dela um mundo desconhecido, repleto de sonhos e conjecturas improváveis. Poderia brotar um dente, uma boca, ou orelha.

Entrevista: Geraldo Azevedo

“Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.” Hilda Hilst

Bicho de Sete Cabeças II

“O ser humano é maluco, cria coisas contra ele”, diz o compositor Geraldo Azevedo, autor do infindável sucesso “Bicho de Sete Cabeças II” (ao lado de Zé Ramalho e Renato Rocha), recentemente revisitado por Ney Matogrosso no espetáculo “Beijo Bandido”, assistido de perto pelo entrevistado na estreia carioca. “O Ney é impressionante, valorizou ainda mais o que já era maravilhoso, aquela performance é o gol!”, entusiasma-se.

O que não anima Geraldo é o rumo das águas no mundo, antes acostumadas a peixes, limpeza e ar puro. “As pessoas não acreditam que o planeta pode mudar, as iniciativas de revitalização são todas muito tímidas, enquanto o desmatamento, a poluição, e os maus tratos são contínuos”, desabafa.

Literatura: Dia dos mortos

“Perdeste o melhor amigo,
não tens sequer um cão
… mas e o humour?” Carlos Drummond de Andrade

Dia dos mortos

Vou para casa ouvindo Maria Callas. Volto do seu enterro. Fagulhas pinçam minha perna esquerda, costas. Cálida. Cessa. Vagarosa: compreendendo a ânsia esquiva-se do sentimento. Monótono. O dia que salvei meu cachorro da piscina. O sinal da porta quando minha tia morreu.

Não costumava ir até a parte de fora da casa, onde ficava a piscina entregue aos mosquitos e outros insetos a almejarem a água. Sem pressentir a natureza terrena este ser o fim de seu corpo íngreme. Arvoram-se em vôos dos quais serão incapazes de completá-los. Ao intento, à manobra que nem se sabe julgam arriscada. Não é pelo tique nervoso das antenas ou das minúsculas asas que se conclui a indecisão de um movimento destes. Mas eles o escolhem por pura culpa de inteligência incauta. Cega de beleza, de precisão, de identidade. Esses bichos sem nome, nem mágoa.

Show: Banda A CASA

“A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada” Nelson Rodrigues

Pau e Pedra rock

Precisamos redimir a música de fossa! Esse é o intuito (no sentido de intuição) da nossa banda. A exemplo do que escreveu Paulo Scarpa em “A nova geração perdida e o cinema”, resta-nos voltar ao hedonismo ( clichê barato do Axé sem congado e do Reggae sem gingado), à depressão ( aquela auto-piedade brega de sertanejos e emos) ou uma melancólica aceitação cínica.

A opção que fazemos é pela terceira. O cinismo ainda é um tipo de humor um tanto mais inteligente que o otimismo e o pessimismo juntos. E daí vem a palavra redenção. Queremos dor de cotovelo pra valer! Chega daqueles amores que não deram certo e são cantados com toda pompa e cabeça erguida do mundo (que só quer te ver sorrir) por aqueles que não percebem o tanto que o orgulho é brega!