Humor: A Grande Família

“O poema é uma bola de cristal. Se apenas enxergares nele o teu nariz, não culpes o mágico.” Mario Quintana

A Grande Família

O seriado “A Grande Família” completa 40 anos da primeira exibição, em 1972, quando a trama escrita por um time de redatores, que ia de Max Nunes a Paulo Pontes, passando por Oduvaldo Viana Filho (o Vianinha) e Armando Costa, invadiu os televisores nacionais. Com direção de Milton Gonçalves, no primeiro ano, e Paulo Afonso Grisolli, nos seguintes, a atração contou com bela recepção do público, e permaneceu ocupando a grade até 1975.

Os personagens eram os mesmos. Centrada na família Silva, a série descortinava a rotina de Lineu, Nenê, Tuco, Bebel, Seu Flor, Agostinho e Júnior, o único filho do casal suprimido na mais recente versão (em virtude do viés político que tornou o personagem anacrônico com o passar do tempo). Esta iniciou-se em 2001, e trouxe como novidade, claro, a mudança dos atores. Porém a qualidade do elenco manteve-se intacta, inegável trunfo capaz de seduzir crianças, jovens e adultos de variadas idades.

Literatura: Histórias divertidas para crianças (dormirem)

“Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.” Caio Fernando Abreu

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Essas histórias que nunca sei como começar. Encontrei três cegas na rua. Elas me reconheceram. Eu não as vi direito. Disseram terem sentido presença minha em tempos remotos, dispersos, mortos mesmo.

Perdidas, uma belisca a bunda da outra em sinal de alegria. Raiou uma luz nos olhos das três ceguinhas. Velhas, apoiando os cotovelos onde a dor sussurrou misto de saudade com lembranças amenas, começaram a perguntar covardemente.

The Rolling Stones (Cantores internacionais)

“hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,” Allen Ginsberg

The Rolling Stones

Das piores tragédias há de erigir sobre o mundo concreto uma banda maleável. O rapazola atrevido, de cabelos desgrenhados, atende ao chamado de Mick. Jagger eriça a língua em direção a maçãs, quentes acenos labiais.

Brian, o ruivo instrumentista viciado em sensações, experimenta do sax ao trombone, guitarra ao banjo, harpa, gaita e acordeom. Mas entre elas – as fadas sensoriais – intrometem-se os duendes trapaceiros a traficarem mortíferos desejos.

Entrevista: Saulo Laranjeira + Clara Becker + Gereba

“Luiz, respeita Januário, Luiz, respeita Januário
Luiz, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Luiz! Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai” Luiz Gonzaga

Saulo Laranjeira

Cem anos após o nascimento, num dia 13 de dezembro de 1912, Luiz Gonzaga é celebrado com homenagens de norte a sul do país. Gereba Barreto, compositor baiano que conviveu com o mestre, afirma o incômodo que Luiz sentia com o rótulo de “forrozeiro”. “Era o sonho dele ser reconhecido também como compositor”.

O CD “Luas do Gonzaga”, lançado de forma independente pelo compositor, conta com a participação de Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Lenine e outros, e joga luz sobre esse lado menos conhecido de Gonzagão, o de compositor de valsas, choros e mazurcas. “A música de Luiz Gonzaga está no DNA do brasileiro”, opina Gereba a respeito da permanência da obra de Gonzagão.

Show: Geraldo Azevedo (Salve São Francisco)

“A tragédia é o estado natural do homem.” Lúcio Cardoso

Show de Geraldo Azevedo

Geraldo Azevedo tenta debater-se contra as águas lamacentas, poluídas, sujas, dum outrora paradisíaco e transbordante em peixes, rio São Francisco. A luta não é vã, lega-nos clássicos, daqui um tempo estimados com a devida consequência, afora os que já o são, peças de Luiz Gonzaga, principalmente.

Por hora, o povo impacienta-se, irritado, irascível, pede os mesmos momentos, velhos costumes, manias. Não é culpa de Geraldo Azevedo que se acostume o público a tão belas canções que estes só queiram ouvi-las. A conta cabe à plateia, pouco atrevida, preguiçosa, recusa-se a apreciar o inédito.

Entrevista: Edson Cordeiro + Toninho Horta

“Mas acima de tudo atiraste uma pedra
Turvando esta água
Esta água que um dia, por estranha ironia
Tua sede matou” Herivelto Martins

show Herivelto Martins

“Até para lavar a roupa suja, trazia beleza”, detém-se Edson Cordeiro, que entre uma pausa e outra, completa: “Dos momentos mais delicados da vida ele tirou poesia”. O retratado por essas palavras é Herivelto Martins, compositor homenageado na noite desta terça-feira, às 20h, no projeto Compositores.BR que acontece no Sesc Palladium.

Autor de inúmeros sucessos como “Ave Maria no Morro”, “Praça Onze”, “Cabelos brancos”, “A Bahia Te Espera”, “Bom Dia” e “Segredos”, todos presentes no roteiro da apresentação, o compositor, que viveu atribulado romance com a cantora Dalva de Oliveira na década de 50 – e esteve à frente do Trio de Ouro em várias formações diferentes – tem o centenário de nascimento celebrado este ano.

Cássia Eller (Cantoras brasileiras)

“Lady of silences
Calm and distressed
Torn and most whole
Rose of memory.” T. S. Eliot

Relicário música

Cássia Eller tinha 19 anos quando compôs “Flor do Sol”, parceria com Simone Saback. Mas só agora, na data alusiva aos 50 anos de nascimento da cantora (morta em 2001, aos 39, em circunstâncias pouco esclarecedoras), a canção vem à tona.

A inédita música pode ser ouvida no iTunes da gravadora Universal Music. Gravada em Brasília pela própria Cássia, residente na capital à época, foi finalizada, este ano, em estúdio, com a participação de músicos associados ao universo da intérprete.

Artes Plásticas: Ronaldo Fraga

“um súbito murmúrio numa rajada de vento, um som de trombetas distantes, um suspiro, como o farfalhar de um grande roupão de seda” F. Scott Fitzgerald

Caderno de Roupas, Memórias e Croquis

O amarelo manga cai na cabeça antes que possamos conferir a maçã, esférica e lilás, a comprovar a lei da Física. Gravidade em Ronaldo Fraga, nenhuma. É um perfeito Salvador Dalí, a olhar-se no espelho e pentear os bigodes felinos enquanto prega poses de Andy Warhol.

Mesmo quando toca em assuntos sérios, dramáticos e abjetos, relacionando-se ao ridículo da banalidade humana, Ronaldo foca o laço na língua da cobra, seja de Guimarães Rosa, Cazuza cantando Lupicínio Rodrigues ou Fernanda Takai imitando Nara, o furacão rosa.

Entrevista: Rodrigo Faour

“Tem amor de raça e amor vira-lata
Amor com champanhe, amor com cachaça
Amor nos iates, nos bancos de praça (…)
Mas não interessa, o negócio é amar!” Dolores Duran

Autor da biografia de Dolores Duran

“Um prodígio, um gênio, dessas personalidades difíceis de explicar”. Essas adjetivações são usadas com recorrência por Rodrigo Faour, autor da biografia de Dolores Duran (A noite e as canções de uma mulher fascinante; editora Record; 558 páginas; R$49,90), para salientá-la, e acrescenta: “Ela tinha um bom gosto impressionante, detestava cafonices”.

Esse bom gosto pode ser atestado através das parcerias que a cantora e compositora, morta aos 29 anos em virtude de uma parada cardíaca, empreendeu ao longo da carreira. Rodrigo destaca com propriedade (produziu em 2010 caixa com todos os álbuns de carreira da intérprete), as uniões musicais com Tom Jobim, Carlos Lyra e Billy Blanco, que foi também namorado de Dolores.

Artes Plásticas: Oscar Niemeyer

“Os homens constroem também de acordo com as leis da beleza.” Karl Marx

Oscar Niemeyer

O homem qualquer caminha entre dois muros. Num deles, a poça d’água convida ao mergulho. Porém é ateu. No outro, o cimento une-se ao tijolo dando-lhe o aspecto de barro. Então crê em Deus, vê a costela de Adão a transmutar Eva. Enxerga. O milagre nas reluzentes vestes (desaba o concreto), engenhosas.

Mas os muros a que se ergueram põe na cabeça do homem uma dúvida. Por sobre eles diversos outros, engalfinhando-se, disputam, desarmônicos. Falta-lhes música, notas, acordes. Escuta a Sinfonia de Mozart. Talvez a Fuga de Bach. Urros do comunismo em Marx agarram-lhe a partir das entranhas e estouram os tímpanos.