Maysa (Cantoras brasileiras)

“Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem…
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também…” Cecília Meireles

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A voz caudalosa de Maysa, aqueles “oceanos não pacíficos” em seus olhos. Foram 40 anos de intensidade, navegando por entre notas musicais e doses nunca calculadas de whisky e cigarros. A cantora das fossas homéricas e das dores de amores insuportáveis usou a melancolia para dizer ao mundo que estava viva. Embora tenha tentado o suicídio, a mulher forte de sentimentos frágeis explicava que foi este mundo, e não ela, que caiu. Maysa manteve-se sempre de pé. Enfrentou o marido que não a queria como cantora e a imprensa de boataria que insistia em julgá-la. Permitiu que todo tipo de sentimento a invadisse, e dentre eles, o que mais a perseguiu foi a tristeza.

“Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você”

Entrevista: Zélia Duncan

“Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo” Itamar Assumpção

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Poucos conhecem a face sádica, malévola e agressiva de Zélia Duncan, retratada na música ‘Zélia Mãe Joana’, em frases como “Eu corto suas asinhas/te expulso do meu paraíso/eu te cozinho num tacho/tempero com molho de aranha/te quebro as pernas e braço/transformo sua farsa em drama/te faço virar bagaço/chafurdo você na lama”.

Escritos numa folha de calendário, com o crivo enérgico e irrequieto do olho atávico de Itamar Assumpção (1949-2003), compositor que remodelou os vértices da música popular brasileira através de movimento denominado “Vanguarda Paulista”, os versos foram entregues à intérprete pelas mãos do próprio autor, como uma homenagem e forma de “assustar” as pessoas.

Severino Araújo & Orquestra Tabajara (Chorinho)

“Violador enfurecido,
com sua égua Amnon debanda.
Negros lhe dirigem flechas
desde os muros e atalaias.
E quando os quatro cascos
eram quatro ressonâncias,
Davi com suas tesouras
cortou as cordas da harpa.” García Lorca

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O mestre que se intitula discípulo tanto quanto os outros crê na humildade como um sopro. Ligeiro, rastro, sem matéria definida, no entanto tocável, sensível, pela audição de projéteis bascos que rondam ao sabor do vento, ao labor das horas, latifúndio de expectativas e ânsias.

Severino Araújo assim tomou a ordem da Orquestra Tabajara aos 21 anos, como quem ordenha vacas no pasto, deixando-as livres, soltas, para simplesmente estarem, sem dificuldade, vivendo num mundo de verdes, verdades, gramas, granulados.

Marcos Nimrichter – Querência

“As palavras fizeram curvas no ar e chegaram ao meu ouvido como gotas de óleo.” Murilo Rubião

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“Querência” é fruto do projeto Faixa Musical, do Canal Brasil. Pensado como trilha sonora da série ‘América Latina’, que ouve vozes indignadas e talentosas da região, o trabalho ganhou vida própria. Filmado em preto & branco, com direção de Felipe Nepomuceno e filmado em HD, chega às lojas em formato CD e DVD, contabilizando 16 canções.

O trabalho expõe a interação do pianista e acordeonista Marcos Nimrichter com músicos, canções e instrumentos. Calcado no improviso e na entrega, os registros ganham amplitude na versão audio, mas se dispersam na tela. A inserção de imagens dilui o jogo de sentimentos, presente em clássicos de Claude Debussy (“Clair de Lune”), Beethoven (“Sonata ao Luar”) e “Aguita Serpentina”, música de autor desconhecido que conta com a participação da cantora argentina Laura Meradi.

Entrevista: Sergio Roberto de Oliveira

“ah, a felicidade corteja a luz, então acreditamos que o mundo é alegre; o sofrimento esconde-se à distância, então supomos que não haja sofrimento.” Herman Melville

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Sergio Roberto de Oliveira é nome comum, solto, desconhecido do grande público. E assim deve permanecer nos próximos anos. Isso se compararmos ao alcance em massa de nomes como “Xuxa e Roberto Carlos“. É ele próprio quem cita. Mas avisa: “Da mesma maneira, eles não alcançam a profundidade da música de concerto”.

Indicado ao Grammy Latino nas edições 2011 e 2012, nas categorias ‘Melhor Composição Clássica Contemporânea’ e ‘Melhor Álbum de Música Clássica’, o compositor, que comemora esse ano quinze anos de carreira, resolveu fazer um apanhado de toda a obra, e reunir, num box com quatro discos, “alusivos aos elementos fundamentais: água, ar, terra e fogo”, um pouco de tudo o que o compõe, como define o subtítulo do trabalho, “Quinze”.

Francis & Olívia Hime – Almamúsica (ao vivo)

“Les mots font l’amour” André Breton

Francis e Olivia Hime

Não sei ao certo, mas me parece que nenhuma poetisa tocou tanto no verso ‘alma’ quanto Florbela Espanca. Com a varinha musical, baliza da poesia, recorrente feitio da portuguesa. Também em seu sobrenome “Alma” estava presente. Foi em um concerto dedicado às canções do maestro e compositor austríaco Gustav Mahler, que Olivia Hime rabiscou as primeiras linhas do que se tornaria “Almamúsica”, música que dá nome ao primeiro trabalho dividido com o marido, Francis Hime.

Após o lançamento do formato em estúdio, o álbum chega à versão ao vivo, em CD e DVD, pela Biscoito Fino. No repertório, autores como Dorival Caymmi, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim. Mas o surpreendente é a declaração, entre espanto e conformação, de Olivia, ao deparar-se com indagação de amiga: “Você lembra qual era o nome da mulher de Mahler?”, “Sim”, ela responde: “Alma”.

Natal

“Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.” Manuel Bandeira

Natal

O Natal se aventura à meia-noite com o som que vem do choro do Menino Jesus.

O som de passos que caminham em direção ao Salvador trazendo-lhe oferendas.

Os Três Reis Magos presenteiam como graça, agradecimento.

É o sinal de devoção àquele que eles acreditam trazer em si a soma da união, dos bons valores, do amor à vida que se espalha em cada grão de areia, ou gota d’água.

É o som surdo duma alegria que se vê no rosto de Maria e se faz na contemplação de José.

Entrevista: Bibi Ferreira

“O fato de sermos habitados por uma nostalgia incompreensível seria mesmo assim o sinal de que existe um além.” Eugène Ionesco

Bibi Ferreira

Bibi Ferreira acaba de lançar novo CD, ‘Natal em Família’, pela Biscoito Fino. Concomitantemente, a partir do dia 8 de janeiro, retoma os palcos do Rio de Janeiro, no Municipal Carlos Gomes, com o espetáculo ‘Histórias & Canções’. Nada mal para uma iniciante. Com a exceção de que a entrevistada, aos 90 anos, totaliza igual quantia de carreira. Acredite, com 24 dias de vida, ela estreava no teatro.

Na ocasião, Bibi substituiu uma boneca desaparecida instantes antes da apresentação de ‘Manhãs de Sol’, de Oduvaldo Vianna. De lá para cá, interpretou Edith Piaf, deu voz e corpo à palpitante ‘Gota d’água’, peça de Chico Buarque e Paulo Pontes, além de uma intensa dedicação ao teatro, tanto na direção quanto protagonizando. O passar do tempo lhe legou muitas lembranças e uma certeza única: “Sou uma batalhadora, uma atriz, uma mulher feliz”, diz.

Entrevista: Toni Garrido

“Morre e transforma-te!” Goethe

Toni Garrido

Elba Ramalho tornou icônica música composta por Dominguinhos e Nando Cordel, a versar sobre a saudade do lar. “De volta pro meu aconchego” reflete o temor de andar de avião, que obriga o sanfoneiro nordestino a percorrer longas distâncias de ônibus.

Arnaldo Antunes também avistou o tema, com a raivosa e política “Volte para o seu lar”, na qual difama a polícia, a doença, a miséria, e recolhe-se a uma casa esquecida, mas que ainda abriga confraternizações sinceras, quando todos se sentam na mesa para comer com a mão.

Show: Edson Cordeiro (canta Herivelto Martins)

“Hoje amam, amanhã’ squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!…” Florbela Espanca

Edson Cordeiro

O breu, proposital, impedia-nos de vê-lo entrar em cena. Somente o piano de Miguel Briamonte foi possível distinguir na escuridão. Tal nome seria repetido tantas vezes, naquela noite, que jamais nos esqueceremos.

Quando a agudíssima voz ressoou no palco do teatro lotado, houve um minuto de espanto. Infinitamente inferior ao presenciado no momento em que se acenderam as luzes. Pois dotado daquela voz, inebriante, surgia uma miniatura de gente.