Naldo Na Veia – Amor de Chocolate

“Não adianta dar um ano novo para eles! Logo já vão quebrando!” Quino

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O mercado, frequentemente, alça e derruba teus eleitos. É preciso entender a lógica de reciclagem que impera nesse modelo. O segmento musical não foge ao controle da indústria, altamente lucrativa, do entretenimento. Ao sabor da novidade, torna-se preponderante mudar obstinadamente, elevando e pondo ao chão quaisquer tendências. Vender 25 mil cópias, levar “Disco de Ouro”, emplacar hits radiofônicos como “Exagerado”, “Chantilly”, “Na Veia”, e outros, parte deste processo.

O cantor Naldo parece e perecerá como a nova “sensação” do mercado. O adjetivo relembra nome de famoso chocolate, ao leite por fora, com recheio de morango. Tal como a comparação, o músico esbalda-se no topo das paradas, e a exemplo do citado, deverá enjoar rápido. O mercado aguenta pouco um sabor repetido. Embora haja referências, batidas, a Claudinho & Buchecha e eletrônica. O próprio Naldo aguentou e superou barra após perder o irmão, com quem fazia dupla. Há de se louvar o ato.

Evaldo Braga (Romantismo)

“Se chego, riem mais alto os regatos,
Brinca a brisa mais travessa;
Por que então, olhos meus, vossa névoa de prata?
Ó claro dia estival, por quê?” Emily Dickinson

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Os mais novos o associarão a anúncios publicitários. Os antigos, a sucessos de rádio. É possível afirmar que mesmo quem não ligue o nome à pessoa certamente conhece a voz de Evaldo Braga. É ele quem entoa os versos: “Sorria, meu bem, sorria!/Da infelicidade, que você procurou/Chorar, pra quê?/Chorar/Você deve sorrir/Que outro dia será bem melhor!”.

Morto há 4 décadas, em 31 de janeiro de 1973, num acidente de carro, aos 25 anos, o cantor colecionou êxitos que, ainda hoje, ocupam lugar de destaque na preferência dos brasileiros. É o que revela o radialista Acir Antão, apresentador do matinal ‘A Hora do Coroa’, na Itatiaia. “As músicas dele estão entre as mais pedidas do programa, rivalizando com Nelson Gonçalves”.

Amy Winehouse (Cantoras internacionais)

“Eu era uma criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim, sempre calava.” Hilda Hilst

Amy Winehouse

As lágrimas caem por elas mesmas. Nem que você queira, me levará ao centro de reabilitação. Estou na Motown. Anos 50. Negras vozes, melodias negras. Amores desfeitos na gravidade de um contrabaixo.

A tinta é uma mágoa na sobrancelha. Os cílios cortinam, mas o olhar revela. E a boca adquire o remorso compartilhado. Coração de alicate nas tatuagens. Marcas no corpo. Rouca alma.

Miltinho (Samba)

“emergem pela primeira vez no mundo das ondulações duras da água esculpida com o cuidado fotográfico da instantaneidade, até então desconhecido.” Salvador Dalí

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Miltinho é a voz do poema das mãos, da lágrima, da menina moça e da mulher de trinta. A voz que conta as estrelas do céu, as fases da lua e as gotas de água do mar. Na voz de Miltinho, o mundo ganha novas medidas, deixando um cheiro de saudade a cada instante.

“Nas minhas mãos a despedida
Nas tuas mãos a minha vida”

Miltinho divide os sambas com a destreza de quem esculpe uma pedra. Sambando com elegância por entre as notas. Juntando corações numa única batida de frases.

Literatura: O Boi No Telhado

“La frivolité est la plus Jolie réponse à l’angoisse.” Jean Cocteau

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A música brasileira já era internacional antes de Carmen Miranda e mais ainda da bossa nova. Darius Milhaud, principal personagem do livro organizado por Manoel Aranha Corrêa do Lago (“O Boi No Telhado”, Instituto Moreira Salles, 2012, 304 páginas, R$60), foi um compositor francês que desembarcou no Rio de Janeiro em 1917, plena I Guerra Mundial, aos 25 anos, e ao se assombrar com a diversidade musical do país, de Chiquinha Gonzaga a Ernesto Nazareth, criou, com partituras, honrarias e homenagens.

“O Boi No Telhado”, canção que absorveu o nome de outro título do compositor tupiniquim Zé Boiadeiro, abre a janela do passado para debater, em seis ensaios, assinados por diferentes autores, os aspectos harmônicos, melódicos e conceituais de obra que, a partir do processo de colagem, cita os compositores primeiros do cancioneiro nacional, que se encarregaram de dar cara nova à música brasileira e foram, aos poucos, tornando-se independentes em relação à influência da polca, do maxixe e do tango, como Catulo da Paixão Cearense, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Marcelo Tupinambá, Alberto Nepomuceno e outros nove músicos.

Entrevista: Leny Andrade

“iluminada por luzes roxas dispostas nos cantos, ofuscava os olhos com uma brancura que só podia ser comparada consigo mesma, algo que ultrapassava o desejo e o sonho humanos.” F. Scott Fitzgerald

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Ela se intitula “queridinha dos músicos”. Não por acaso. Como faz questão de ressaltar, além de cantora profissional é formada em piano clássico. Leny Andrade chega aos 70 anos de idade no dia 25 deste mês, com a força e o vigor de quem está só começando. E uma agenda de colocar inveja em qualquer iniciante. Nova York, nos Estados Unidos, Trancoso, na Bahia, e Rio de Janeiro estão no roteiro.

O primeiro voo é para a cidade americana. De 13 a 17 de fevereiro, a intérprete se apresentará no palco do Dizzy’s Club Coca-Cola, acompanhada do “Nilson Matta’s Black Orpheus”, formado por Nilson Matta (baixo), Steve Wilson (saxofone), Klaus Mueller (piano), Alex Kautz (bateria) e Fernando Saci (percussão). O repertório é centrado na peça ‘Orfeu da Conceição’, de Vinicius de Moraes. Da lavra do ‘poetinha’, cujo centenário de nascimento é celebrado este ano, Leny destaca a “paixão por ‘Valsa de Eurídice'”.

Entrevista: Folashade Ogunlade

“Uma gota suspensa e cintilante,
límpida e imóvel como um desafio…
Tua ausência, – é a presença triunfante
daquela gota que ficou no fio…” J. G. de Araújo Jorge

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Há um mito africano, especificamente de Máli, que conta como o mundo foi criado a partir de uma gota de leite. Após sucessivas transformações, que passam por fogo, ar, terra e água, o tédio vence a morte, e a eternidade redime a existência humana.

Talvez Folashade Ogunlade aspire, com sua arte, a uma eternidade. Mas é inegável que em seu trabalho o que importa é a “origem”, como ela faz repetir em palavras traduzidas por Olu Akinruli, representante do projeto que une Brasil e África.

Literatura: Rubem Braga

“Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.” Rubem Braga

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Um senhor que recebe a admiração de Millôr Fernandes e o gracejo de Vinicius de Moraes merece certo respeito. A alcunha senhoril lhe cabe, afinal Rubem Braga estaria completando cem anos, de acordo com o registro de nascimento, datado de 12 de janeiro de 1913. Não bastasse o óbvio, o escritor, que sempre se utilizou do simples para dar vida ao inesgotável campo da fábula real, definia-se, desde cedo, como o “velho Braga”.

“Sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas”, avisou na crônica intitulada ‘Natal’. Para celebrar a efeméride, livros inéditos, relançamentos e leitura de textos na internet. A Record repõe no mercado, em março, ‘200 crônicas escolhidas’. No mesmo mês e pela mesma editora, será lançado ‘Rubem Braga – O Lavrador de Ipanema’, organizador por Leusa Araújo e Januária Alves.

Entrevista: Eliana Pittman

“Pois a imagem não existe. É só um jogo de luz. Pelo fascínio de uma imagem refletida nos olhos da mulher amada, um homem fica belo. Pelo fascínio de uma imagem refletida numa fonte, Narciso se transformou numa flor.” Rubem Alves

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Musa da bossa nova. Rainha do ritmo alucinante do Pará. Os mais antigos irão apostar em Nara Leão. Os novos, em Gaby Amarantos. No entanto, o rosto surpreendente apresenta-se ao nome de Eliana Pittman. Carioca, natural do Rio de Janeiro, cantora, atriz, filha adotiva do clarinetista e saxofonista de jazz Booker Pittman, falecido em 1969. Rebento legítimo da música brasileira.

“Para entrar em meu repertório é imprescindível ter letra e melodia bonitas. Adoro trabalhos com ritmos, preciso sentir o que estou cantando”, avisa ela que, recentemente, estreou o show ‘Soul Bossa Jazz’, no teatro do Sesc, em Sorocaba. Durante a quarta música, porém, um acontecimento inusitado por pouco não pôs fim à apresentação.

Maysa (Cantoras brasileiras)

“Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem…
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também…” Cecília Meireles

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A voz caudalosa de Maysa, aqueles “oceanos não pacíficos” em seus olhos. Foram 40 anos de intensidade, navegando por entre notas musicais e doses nunca calculadas de whisky e cigarros. A cantora das fossas homéricas e das dores de amores insuportáveis usou a melancolia para dizer ao mundo que estava viva. Embora tenha tentado o suicídio, a mulher forte de sentimentos frágeis explicava que foi este mundo, e não ela, que caiu. Maysa manteve-se sempre de pé. Enfrentou o marido que não a queria como cantora e a imprensa de boataria que insistia em julgá-la. Permitiu que todo tipo de sentimento a invadisse, e dentre eles, o que mais a perseguiu foi a tristeza.

“Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você”