O conto da revelação: Garrafa no mar

“como uma folha se dobra com o vento ou uma flor se verga sob a pata do leopardo, entregar-se ao seu poder.” Truman Capote

Portrait of Ralph McWilliams Paul Cadmus

Dulce Veiga,

as coisas não estão fáceis (ando lendo muito Kafka, daí, acho, que o tom lamentoso…)…trago um sintoma na gaveta (nos arquivos) e tenho encontrado imensa dificuldade em revelar minhas alucinações, especialmente essa doença (pregação, que seja), que é uma coisa que vejo necessidade de FAZER ACONTECER, como um álibi que me permita dedicar mais tempo ao que realmente almejo: sonhos, ou, a magia.

A pressão é grande para que eu desista e volte ao mundo da realidade que tanto me chateia, e tenho tanta vontade de entrar em outros cantos, labirintos espirais, soturnos, mas em certos momentos o sintoma se esgota, quase desiste, pinço uma frase de Tennessee Williams (um dramaturgo enfermo de insônia que lhe afetava o dia todo: sonhava acordado e dormindo – ou seja, não dormia o repouso linear e estrito, mas somente naufragava ares e desembarcava navios nas estrelas):

“Não quero realismo. Quero mágica. Sim, mágica. Tento dar isso às pessoas. Sei que deturpo as coisas! Digo o que deveria ser verdade. Se isso é pecado, castigue-me!”

Apelos de mulher na música brasileira

“ – essa frágil e bela criatura diante da qual os homens se curvavam, essa criatura limitada e circunscrita que não podia fazer o que bem quisesse, essa borboleta com milhares de facetas nos olhos e uma delicada e fina plumagem, com dificuldades e suscetibilidades e tristezas inúmeras; uma mulher.” Virginia Woolf

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“Toda mulher gosta de apanhar”, disse Nelson Rodrigues. Talvez não seja isso. Mas talvez o sofrimento seja sim essencial ao amor, o amor verdadeiro. Talvez as lágrimas caiam para inundar de peixes os rios caudalosos das paixões. Assim como a chuva, que destrói e irriga a vida, o amor talvez precise penar para depois florescer. No amor verdadeiro, sêmen é lágrima. No programa especial de hoje você vai ouvir “apelos de mulher”. Músicas cantadas por mulheres que retratam todo o sofrimento de seus mundos e a espera, a luta, a busca pelo seu amor. Todos os apelos feitos para que esse amor vá embora, sofra ou fique com elas. Vocês ouvirão mulheres que sangram, que fazem loucuras, que rondam a cidade, que se deixam dominar, usando todos os artifícios e apelos possíveis. Hoje, vale tudo por amor.

1- Sufoco / Com açúcar, com afeto:
Dos vários tipos de amor que existem, um deles é o que sufoca, machuca, maltrata. O outro é o que cuida, constrói, espera, prepara o café e o doce predileto. Em comum, o fato de serem amores e passarem por cima do sofrimento, da indiferença e da loucura para sobreviverem. Pois embora seus cardápios sejam diferentes, um mais doce o outro mais amargo, ambos se alimentam do mesmo ingrediente indispensável ao amor: a superação. O amor é uma questão de superação. Só quem supera o sufoco é capaz de amar e de deliciar os seus sabores, com açúcar e com afeto, um apelo ao amor.

Crítica: peça “Eu não dava praquilo”, com Cassio Scapin, reverencia a irreverente Myrian Muniz

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande…” Adélia Prado

5D III

É na comparação entre o assaltante de uma bolsa e um político que reside o segredo do monólogo protagonizado por Cassio Scapin em que a atriz Myrian Muniz é homenageada. Evidentemente o bandido do bem de pequeno porte tem mais autenticidade, outra expressão identificada com o universo da personagem, que entre dar a mão a Deus e ao diabo não deixa passar em branco uma suma necessidade: a força da palavra.

Essa descoberta é feita por Myrian em um sonho no qual conversa com seu amigo, o Papa, e lhe questiona se a hóstia é realmente o corpo de Cristo. O pontífice deixa claro que a resolução depende mais do olhar que do objeto, o que só corrobora com algo que na infância já se iluminara aos olhos da menina brincando de interpretar: a força das coisas que não existem, da imaginação. Com uma didática própria, Myrian Muniz apresenta a vida ao teatro.

A Comida na Música Brasileira

“Os artistas sabem que suas obras não são para ser compreendidas, mas para ser degustadas.” Rubem Alves

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É de dar água na boca. Do peixe com coco ao vatapá. A feijoada completa, sem dispensar o torresmo à milanesa. Para quem gosta tem até jiló. De sobremesa uma goiabada, doce de coco e também bananas. E ainda a jaca que a Chiquinha corta. Tudo isso no tabuleiro da baiana, no pagode do Vavá, é um tico-tico só no fubá. O prato fundo já está servido. E quem quiser pegue o seu lugar. Cadeira vazia não pode ter. E se na gula alguém engasgar, com uma espinha de bacalhau, cante uma música bem brasileira, que lhe garanto, ela sai ilesa! E requebrando nessa balbúrdia, delícia a música e a comida, ainda mais se for brasileira!

1- No tabuleiro da baiana (samba-batuque, 1936) – Ary Barroso
“No tabuleiro da baiana”, composto por Ary Barroso em 1936, é um samba-batuque que traz em seu cardápio musical suingue e malemolência, em versos que soam tão deliciosos quanto os ingredientes do tabuleiro. Misturando elementos típicos da cultura baiana ao amor e ao samba e tornando-os definitivamente parte da mesma receita, Ary Barroso criou um dos mais famosos pratos da culinária musical brasileira. “No tabuleiro da baiana tem…”

Crítica: O melhor e o pior do humor no Brasil

“‘os flamingos e a mostarda são picantes. E a moral disso é… ‘Pássaros da mesma plumagem andam em bando’.” Lewis Carroll

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Não é fácil praticar humor e manter a elegância. Muitos já disseram se tratar esta da mais difícil arte dramática. Se vários conseguem alcançar o mérito, outros patinam e até afundam no gelo e na lama por pura falta de talento, a que ingenuamente denominam “liberdade de expressão”. A discussão sobre a comédia no Brasil precisa ultrapassar a barreira do correto e errado e chegar ao que realmente importa: o que tem graça e o que não tem.

Claro que se trata de um corte subjetivo, mas assim como existem piadas prontas, ditados populares, que só repetem o óbvio, há as que surpreendem e exigem do telespectador certa dose de ironia, audácia, sarcasmo, e dispensam a grosseria simples com que se acostumaram certos nomes como Danilo Gentili, Rafinha Bastos, e outros cujo repertório baixo representa o que há de pior no humor do Brasil. Não são atores, nem coringas, mas celebridades.

Marcellino, Pão e Vinho

“Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.” Cecília Meireles

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Partiu-o ao meio. Não notou a natureza amedrontada do objeto estático. Mal lhe escapara o pé descalço a obstruir luz para couves e verduras outrem, quanto mais a natureza estática do objeto amedrontado. Feriu-lhe o bojo desprovido de pudor. Arregaçou as mangas encardidas do fiapo que protegia o próprio cadavérico corpo e iniciou o calvário da natureza inapta. Em momento algum se precipitou, nem se demorou além do necessário, a morte recolheu-se ao abrigo num acordo tácito.

A tigela, em frente, borbulhava com o leite fresco colhido das tetas da mais gorda vaca durante os primeiros raios daquela manhã. Calor e angústia aperfeiçoavam a pagã caminhada a desembocar no rito obrigatório. Aquela abatida de intrigas e indispensável desordem à fome terrena do menino magro. Agora, enquanto descia o líquido fresco que esquentava boca, pulmão, estômago, possuía nome, e um branco bigode, invisível e risonho, da infância apressada.

Reginaldo Rossi: o orgulho da vergonha

“Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

virada cultural largo do arouche reginaldo rossi

O poeta de língua portuguesa mais aclamado do mundo disse em versos estar farto de semideuses, a procura de gente que tivesse levado porrada, sido ridículo, cômico, passado vergonha, amar sem ter sido amado. Fernando Pessoa é um nome que, para quem conhece pouco, ainda sustenta uma frase, a da “dor que deveras sente”. Assim como Reginaldo Rossi, pois que ao bastante distraído não escapa a epígrafe de “Garçom”, em português claro, música de corno.

De um jeito ou de outro, embora um seja natural de Lisboa e outro de Recife, em Pernambuco, os dois espalharam em síntese os sentimentos que atingem a todos, e com uma postura diversa à da hipócrita sociedade: não esconderam os defeitos, as falhas, ao contrário, cada um a seu modo, o primeiro com elegância, o segundo de forma direta, simples, tosca, escancararam o orgulho da vergonha. O que sustenta a obra de Reginaldo Rossi é o tratamento que ele dá aos valores.

Crítica: peça “Minha Querida” une fragmentos para rir com o drama e chorar com a comédia

“Sou um artista começando… a passar fome. Batam palmas senão onde vou bater bombo?” Wally Salomão

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Baseada nas obras da argentina Griselda Gambaro e do russo Anton Tchekhov, a peça “Minha Querida”, apresentada na Funarte pelo grupo de Teatro Universitário da UFMG, com direção de Rogério Lopes, une em fragmentos um coletivo de jovens atores cujo talento ajuda a brotar pelo texto crítico, ácido, e, sobretudo, bem humorado. Há uma visão de mundo a ser explorada pelos diversos personagens no corpo da mesma Olga: o ridículo da trajetória humana, inclusive nos momentos mais dramáticos. E o que sensibiliza é que esse olhar de deboche é sempre pautado por alguma ternura, afinal andam e se afogam todos nesse idêntico barco.

Há várias passagens impagáveis, como a canção em castelhano na ode à madeira, material de trabalho de um dos maridos enfadonhos da já cansada Olga. E o desejo que esta demonstra pela morte dele, nas entrelinhas, na exaltação com a possibilidade de um romance novo, mostra que os atores em cena estão dispostos a não poupar nada nem ninguém. Tudo é visto com uma desesperança crônica, até a própria profissão que, ainda em início de carreira, almejam. Afinal os aplausos ressoam sempre que há uma situação dramática, e o riso cobre o desespero sem o menor escrúpulo. Como na cena em que uma das atrizes se joga à porta e sai de lá encharcada de palmas: apenas mãos batendo, tão banais quanto qualquer cólica, é o que parece.

Entrevista: A música da alma de Hyldon

“Na natureza existem assinaturas
a dispensar a tradição verbal,
a folha do carvalho nunca folha plana.” Ezra Pound

Hyldon

Nem sempre o primeiro a sentir os versos tem o devido reconhecimento. Isso porque na música é habitual confundir quem canta como o dono da letra. Na maioria das vezes pela capacidade do intérprete, que além de alçar a canção ao sucesso a incorpora e reinventa. Casos parecidos com o de “Vapor Barato”, de Wally Salomão e Jards Macalé, imortalizada por Gal Costa, e mesmo “Vida Louca Vida”, de Lobão e Bernardo Vilhena, no registro histórico de Cazuza, assemelham-se ao do compositor Hyldon. É ele o autor das frases marcantes de “Na rua, na chuva, na fazenda”, gravada pelo Kid Abelha, e “As Dores do Mundo”, relançada pelo Jota Quest. E é ele quem lança disco novo, onde toca, compõe e interpreta, intitulado “Romances Urbanos”.

Com discografia que reúne agora quatorze títulos, entre autorais e participações, Hyldon sempre teve como princípio a soul music, e é um dos responsáveis pela difusão do estilo na música brasileira. Como ele mesmo diz, “tudo começou com Little Richard, acho que o ano era 1958, e a música era ‘Tutti Frutti’, um rock pauleira!”, afirma. Daí por diante seus ouvidos encontraram a obra de Ray Charles, em especial a canção “I can´t stop loving you”, e do grupo vocal The Platters, estourado na época com diversos hits, a exemplo da clássica “Only You” e a não menos famosa “My Prayer”. Esses foram alguns dos símbolos que tocaram o menino de sete anos. Era só o começo de uma paixão e uma carreira que não mais se separariam. Mais estava por vir.

Não há poesia lusa no país dos empedernidos tecnocratas

“Teu dever é lutar pelo Direito. Mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça.” Eduardo Couture

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No princípio era o verbo. Até que o lustraram e encadernaram. E o verbo já não era verbo. O verbo tornara-se grave, respeitável, de terno, paletó e gravata. Encontrava-se em estantes sob uma lustrosa capa. Ah, o verbo. Agora cobrado em vestibulares o teu sentido, perdeu o bom senso, ganhou imponência. Pouco me importa se Fernando Pessoa sabe conjugar uma frase, se Clarice Lispector segue as normas gramáticas, se Antônio Prata atentou-se à ortografia nova. Pouco me importa se há argumentos jurídicos capazes de tirarem a Portuguesa da enrascada em que por conta própria envolveu-se. O senso de justiça dos homens é anterior ao de legalidade. Assim como o de Poesia.

Repito nada mais do que aprendi com Rubem Alves, um ser muito além da alcunha de escritor, pedagogo e teólogo, que me ensina a perceber o humano, e do humano o erro, e deste erro a mágica. A burocracia trancafiou a essência dos homens. Permito-me o preconceito de discriminar duas profissões e afirmo: há muito as pessoas que optam por serem médicos ou advogados não tem como princípio ajudar ao próximo e promover a justiça, mas construir um plano de carreira. Há muito quem comanda planos de saúde pensa primeiro no lucro e em seguida no câncer. Há muito concursos públicos contratam profissionais capazes de papaguear a respeito do certo, do exato, do inexorável.