Dança: Cancan

“Louca, a tarde de figueiras
e de rumores ardentes
cai desmaiada nas coxas
machucadas dos ginetes.
E negros anjos voavam
através do ar poente.
Anjos de compridas tranças
e de corações de azeite.” García Lorca

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Há um ambiente reservado, no fundo de uma sala escura, destinado a mulheres e homens. Polidos, os cavalheiros passam panos por sobre óculos embaçados. Descontraídas, mulheres em vermelhos vestidos vulgares erguem as pernas à altura de cabelos castanhos. A saia está ali para ser levantada. A brisa, a rigor, uma cócega, em minutos expande-se. O furacão alça coxas, canelas, rumores. No varal, a cinta-liga desprendeu-se.

Apertadas por baixo de seios, barrigas, tremores, as pernas não mais resistem à tentação libidinosa. Gorjeiam a liberdade. A tentativa logo se entrosa a um debochado jogo de copas. Aos corações, atarantados, emulam sonhos, desejos, camas. Mas é no palco que desenrola-se, a carícia de dedos e unhas. Bem costurados, os vestidos das moças. Antes, vulgares. Agora, damas. Homens carregam-nas pelas coxas, que apenas voam para as masmorras.

Munhoz & Mariano – Camaro Amarelo Na Prova da UnB

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Em meio a suspeitas e confirmações de fraude em universidades particulares de todo o Brasil, a UnB – federal de Brasília, saiu-se com uma maior. Incluiu o hit da dupla Munhoz & Mariano, “Camaro Amarelo”, na primeira etapa do PAS (Programa de Avaliação Seriada), alternativa ao modelo único de vestibular. A medida, além de causar estupefação, acendeu outras questões.

É nítida a distância que o mundo acadêmico, em especial das universidades públicas, mantém da população, do que é tido como uma vida prática mais banal e intransigente. Essa notícia, portanto, vai de encontro a certo anseio de aproximação entre o universo da teoria e o que de fato aflige a atual geração. Indiferentemente a preconceitos e gostos.

Waldir Azevedo (Chorinho)

“O choro foge sem vestígios,
mas levando náufragos dentro.” Cecília Meireles

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Um estribilho é o suficiente para que as pessoas reconheçam “Brasileirinho”. A contadora de histórias Beatriz Myrrha, mineira e apresentadora do “Projeto Pizindim”, lembra que a composição “ocupa o primeiro lugar no ranking dos choros mais conhecidos do mundo”. Escrito em 1949, cuja primeira parte mantém-se, praticamente, em uma corda, é tido como o primeiro de Waldir Azevedo.

Se lhe faltava experiência para inegável feito, a posteridade tratou de garantir ao músico a eternidade devida. Nascido em 27 de janeiro de 1923, completaria, esse ano, 9 décadas de vida. Para Beatriz, a principal contribuição do aniversariante foi “ter dado ao cavaquinho o lugar de destaque no choro, pois até então servia como instrumento de mero acompanhamento”.

Beyoncé – Playback na posse de Obama?

“O vocábulo se desprende
Em longas espirais de aço
Entre nós dois.
Ajustemos a mordaça
Porque no tempo presente
Além da carícia, é a farsa
Aquela que se insinua.” Hilda Hilst

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A desconfiança sobre a apresentação da cantora Beyoncé na posse do presidente norte-americano Barack Obama, segue rendendo discussão. O boato surgiu quando algumas mídias cravaram a utilização do recurso do playback, ou seja, música ao fundo com o artista dublando a si mesmo. Seja como for, parece-me escapar das principais manchetes o fator relevante.

Outros já se insurgiram, defendendo a pop star através de “especialistas do ramo” que, por inúmeras detecções repelem a suposta “farsa” de Beyoncé. Pois o playback começou a ser utilizado, em larga escala, na década de 80, quando os programas de auditório e shows para massas em estádios de futebol lotados garantiram cada vez mais numerários aos empresários do ramo.

Lúcio Alves (Cantores brasileiros)

“Era como se o mundo onde se juntavam fosse um navio, um navio preso em calmaria entre as duas ilhas que eram eles dois: com esforço, ele conseguia ver a margem dela, mas a dele se perdia em meio à espessa bruma.” Truman Capote

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Lúcio Alves, a voz das brumas, das manias, da solidão e da amargura. A voz de um sábado ensolarado em Copacabana.Desde os 14 anos sua voz já embalava os corações apaixonados dos “Namorados da lua”.

Uma voz grave que parecia sair das narinas e perfumava os ares cheios de dor e vida. Uma voz grave que cantava os dramas do samba-canção e as saudações otimistas da bossa nova que nascia.

PSY – US$ 8 milhões ao Youtube

“talvez o que divide o mundo não seja a política, mas a cama” Quino

PSY

Dentre tantas coreografias grotescas porque uma, especialmente, sobressai-se sobre as outras? Não cabe discutir a letra, afinal quase ninguém entende o que quer dizer o alarido inusitado de PSY. Autor e propagador do hit “Gangnam Style” em escala mundial, o sul-coreano rendeu ao Youtube, até agora, a exata quantia de US$ 8 milhões em publicidade.

Para ficar de queixo caído, não é mesmo? O visual extravagante, o contraste dos óculos pretos com o terno simetricamente azul, e o descabido de uma alegria infundada daquelas podem explicar o sucesso? Talvez. Mas não é o suficiente. Afinal, personagens aparecidos do mais absurdo dos mundos, por incrível que pareça, o nosso, existem milhões.

Cinema: Zózimo Bulbul

“O sol caía quase a pino sobre a areia e o seu brilho no mar era insustentável.” Albert Camus

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Da argila surgiram cabelos. Cabelos crespos, avolumados, em chumaços. Uma tira inteira com dentes de peixe foi retirada do bolso. Usou-a para penteá-los, embora desobedecesse à ordem da retina acesa, os olhos esbugalhados, as mãos cravejadas por estúpidas bolhas. Estourou-as uma a uma. Então notamos os braços: grossos e algemados.

“- Zózimo Bulbul”, emitiu o som solene e áspero. Na fronte, havia resquício de aparição antiga. Lembrava uma profecia, sombras, antepassados. “Africano”. Com única palavra compreendeu a dúvida, e nos revolveu em próprios enigmas. Não demorou a notar a espera de nossas atitudes, retirou o restante do corpo debaixo da lama, avançou rápido.

Latino quer provar ser compositor e prepara disco autoral

“Um autor, primeiro, é assunto. Mas a glória, mesmo, é quando ele vira falta de assunto.” Mario Quintana

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Há, para toda sorte de “aproveitadores”, uma recepção específica. O cantor Latino, que agora se sai com essa de lançar “disco autoral”, é peça figurativa, quase caricatural, no cenário da música pop brasileira. O nicho pelo qual caminha está bem traçado. É um produto massivo da indústria, até outro tempo, altamente lucrativa. O que revigora a permanência do cantor nesse meio de reciclagem, provavelmente, é o ridículo dos gestos.

Existe sempre algo de cômico em Latino, o que espanta a antipatia e lhe denota aquilo que chamamos “carisma”. Tal característica é inegável em sua personagem, assim como a baixíssima qualidade do repertório, se o olharmos do ponto estritamente artístico, cultural, de estilo. É, no entanto, sucesso de entretenimento. As recentes patacoadas protagonizadas, como a expulsão do Youtube e o “roubo” da música de Psy, alicerçam os argumentos.

Peça Meu Tio É… Tia! – Crítica Teatral

“escancaro os tabus, mas não revelo os mistérios.” Rita Lee

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A peça “Meu Tio é… Tia!”, há nove anos em cartaz na capital mineira, chega ao palco do Palácio das Artes por conta da39ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. O descuido com a parte técnica, como evidentes chiados e falhas no microfone dos atores, deixa transparecer o desdém com o “santo de casa”, ou, em outras palavras, a crença de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

O que não livra o espetáculo de críticas contumazes. Há, obviamente, embora sem creditar a “homenagem”, uma transposição do enredo de “A Gaiola das Loucas”, originalmente francesa, para a realidade regionalista. Várias piadas aprecem adaptadas a clichês e locais de Belo Horizonte. Outro artifício usado é recorrer a expressões “hit” na web e na TV. As novelas da Rede Globo servem de esteio e aparador.

Teatro: Walmor Chagas

“A arte não está no geral, mas no detalhe.” Stanislavski

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Esta é a história de um senhor de idade acometido por uma tentativa fúnebre de suicídio. Que se revelou vitoriosa. O fracasso da existência terrena frente à material morte parece-me assunto para outra hora. Antes é necessário concentrar-se nesse homem, estendido sobre uma cadeira de balanço, cujo sangue agora espesso, duro, cobre-lhe o colo, onde jaz um revólver calibre 38, esvaziado da única bala que lhe penetrou o ventre cinza e insosso.

Embora a aparência de um revólver possa suscitar em alguns o medo, tal perspectiva locomover-se-á ao extremo oposto, se o apontarmos para pensamentos de infância. A maneira pomposa à qual me refiro ao denominá-lo “senhor de idade” certamente incomoda o falecido, que mais tarde verão, ainda vive. Por isso o trataremos por velho, não idoso, e aqui revelamos as dificuldades advindas da diabetes, para caminhar, e a praticamente extinta visão.