Crítica: “máquina”, da miúda cia., condensa gêneros para refletir a morte

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

Espetáculo "máquina" é baseado na obra de Valter Hugo Mãe

É difícil enumerar as qualidades de “máquina”, espetáculo da miúda cia. de teatro, não pela raridade, justamente em razão da fartura. Pois é esse um espetáculo raro, a começar pelo cenário, seu maior destaque. Além da inventividade, a estrutura, a despeito de sua rigidez aparente, não bastasse o fator estético ali se coloca com a finalidade de ressaltar as emoções das personagens, devolvendo o teatro ao seu lugar de origem: o espaço lúdico da criação, do deslocamento, do brincar e da transformação – pois se coloca é um equivocado modo de dizer, a estrutura, em verdade, desloca-se e nos leva juntos. É esse movimento constante e nunca óbvio – mas que não se apresenta como mera acrobacia estética, ao contrário, interfere pontualmente na história – que permite à narrativa, também, transitar pelos gêneros que sustentam a complexa natureza humana, como o humor, a tragédia e o romance, ao refletir sobre a morte, e não apenas, abranger questões relativas a maneiras de organização política e como elas afetam diretamente as relações interpessoais. O texto, inspirado em obra de Valter Hugo Mãe, só contribui para o espetáculo.

Crítica: “Um Interlúdio: A Morte e a Donzela” é realista sem panfletar

“Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto” Ana Cristina Cesar

Espetáculo é protagonizado por Christiane Antuña, Gustavo Werneck e Nivaldo Pedrosa

Não é raro que um espetáculo entregue o protagonismo para seus intérpretes, tanto em cinema quanto no teatro. Em relação à 7ª arte são casos clássicos a adaptação “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” e “Uma Rua Chamada Pecado”, com Marlon Brando e Vivian Leigh. Curiosamente, ambas oriundas do teatro. Ou talvez não seja, tão somente, um motivo curioso; bom frisar que tanto uma quanto a outra possuem textos de altíssima qualidade. Categoria que serve para abranger, certamente, “Um Interlúdio: A Morte e a Donzela” em que, a despeito da nitidez e contundência das palavras são os atores Gustavo Werneck e Nivaldo Pedrosa e a atriz Christiane Antuña quem se destacam em ambiente que oferece várias opções para contemplação: a luz atua diretamente na história, a direção sabe conjugar seus artefatos e a música sublinha toda a narrativa emocional e psicológica. Não é por acaso que se extraiu dela o nome da montagem, em referência à obra de Schubert que certamente serve para designar as duas personagens que travam ali a sua batalha: donzela e a morte.

Crítica: “Estranha Civilização”, da Cia. Absurda, aposta no risco e na fabulação

“Uma ideia absurda? Mera fantasia. Entretanto, já que nada há que não deixe algum resíduo, e como a memória afinal é uma luz que dança na mente quando a realidade é sepulta, por que não haveriam então de ser os olhos, que ali brilhavam tanto ao mover-se, o fantasma de uma família, de uma era, de uma civilização que dança sobre o túmulo?” Virginia Woolf

Estranha Civilização é nova peça da Cia Absurda

Desde o início é notório que “Estranha Civilização” insere-se entre as narrativas da contemporaneidade, não apenas em seu conteúdo, mas, principalmente, na forma. É essa certamente a grande qualidade da montagem da Cia. Absurda, que aposta no risco e na fábula, ao convidar o espectador a receber o tema de maneira indireta, por meio de uma linguagem figurada que se faz notar não apenas na maneira de reportar essa estória nada ortodoxa como, também, através de cenário, iluminação e trilha sonora, que oferece o deleite da interpretação do não menos pitoresco Tom Waits, entre outras peripécias igualmente impactantes neste quesito que é um dos destaques da atração. Infelizmente o texto não acompanha e por vezes perde-se ou até subjuga-se à ação dos atores, cuja interpretação sai prejudicada justamente por essa falha. Fica claro o potencial de todos os três em cena para alcançarem melhores resultados se lhes fossem dispostas palavras pontuais e de maior densidade.

Crítica: “A Paixão Segundo Shakespeare” apresenta texto popular e atual

“Dá-me o homem que não seja escravo da paixão,
E eu o porei no cerne de meu coração,
No coração do coração, onde eu te guardo.” William Shakespeare

Montagem de Pedro Paulo Cava une trechos de várias peças de Shakespeare

“Romeu e Julieta” é tão comum para os mineiros que virou nome de sobremesa, a famosa goiabada com queijo. O que só comprova que o clássico William Shakespeare, certamente o maior do teatro, era absolutamente popular em seu tempo. E continua sendo. É essa característica que a montagem dirigida por Pedro Paulo Cava com texto de Jota Dangelo, cuja primeira encenação ocorreu em 1995, vem a reafirmar. Sem diluir o valor das imagens e a força das palavras contidas nas obras do bardo inglês, mantendo, inclusive, muitas das vezes, a solenidade e a pronúncia original do texto, a peça consegue, com mérito, preservar o essencial ao abordar trechos específicos de “Hamlet”, “Otelo”, “Júlio Cesar”, “Macbeth”, “O Mercador de Veneza” e “Romeu e Julieta”, em que a escala de Jefferson de Medeiros para o papel do mocinho apaixonado surte um grande efeito por sua inevitável e natural dicção cômica.

Crítica: “Trilhante” percorre os caminhos da atualidade em três tempos

“o tempo que de nós se perde
sem que lhe armemos alçapão,
nem mesmo agora que parece
passar ao alcance da mão,” João Cabral de Melo Neto

Trilhante é espetáculo da Cia. Sesc de Dança

Cada vez mais tenho a impressão que o objetivo da dança contemporânea é se aproximar, além do indivíduo, da realidade. Nisso, dispensa o tom solene. Mas esta aproximação se dá no sentido de representá-la, e não imitá-la, o que nos levava, diante do balé clássico, rapidamente a associá-la à pintura figurativa. Agora seu espelho é o teatro. Pois não nos enganemos, incautos, o canto, ainda que falado, não deixa de ser canto, como a dança, mesmo que inspirada no andar, mantém sua natureza. Estamos no território da arte, sobretudo. O novo e inédito espetáculo da Cia. SESC de Dança, “Trilhante”, enfileira três apresentações de curta duração. Fica claro que “I. MEDI. ATOS”, coreografado por Joelma Barros, para além da realidade pretende abarcar o atual, e consegue, com louvas. Através, essencialmente, da luz e do trabalho do corpo de bailarinos que, aqui, mescla mulheres a homens, considera o feminismo, a tecnologia, questões de gênero, o uso de drogas, entre outras ilações possíveis, de maneira rica e vasta, sem reduzir o espectro de atuação. O figurino também contribui para que os movimentos ganhem em ressonância.

Crítica: Obra “Real”, do grupo Espanca!, procura a reflexão pelo espanto

“a beleza é o início do terror que podemos suportar” Godard

Novo espetáculo do grupo Espanca trata de episódios reais

A narrativa episódica que une temas diversos na busca de dar a eles um sentido comum foi alternativa recorrente do cinema cômico italiano nos anos 1960 e também assimilou esta brecha junto a figuras da nouvelle vague francesa. Mais recentemente, essa conduta pôde ser observada, por exemplo, no argentino “Relatos Selvagens” e há bem pouco tempo em “Código Desconhecido”, do austríaco Michael Haneke. Neste último, principalmente, o tom é muito diverso ao que os italianos propagaram mundo afora, pois trata-se de película dramática, crítica, com enfoque social voltado para as mazelas da atualidade. Pode-se dizer que “Real”, do grupo Espanca!, parte desse princípio. Constitui-se da coesão de quatro miniespetáculos, assim chamados esquetes pela curta duração e o foco em uma situação específica, cada uma delas assinada por diferentes dramaturgos que foram provocados pelos atores da companhia a criarem cenas a partir de acontecimentos recentes e reais, unidos pela violência: um linchamento, um atropelamento, uma greve e uma chacina.

Crítica: Peça “Rioadentro” extrai sentido real da fantasia de Guimarães Rosa

“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.” Guimarães Rosa

Rioadentro explora a magia da obra de Guimarães Rosa

Se o teatro é fingimento não é por tal silogismo que sua característica e consequente resultado devam ser a ausência de verdade. O intérprete não se afoga, mas o corpo dele, como a da personagem, estão, em verdade, molhados. Logo, esse ato de fantasia requer, em alguma medida, entrega real. O que acontece, deveras acontece, ainda que seja inventado. Ao carregar as tintas na construção cenográfica, “Rioadentro”, com direção de Lira Ribas e dramaturgia de Raysner de Paula, pinta universo que se aproxima da riqueza descritiva presente na obra de Guimarães Rosa, autor do conto “A Terceira Margem do Rio” que inspira a montagem. A iluminação também é responsável por desenhar objetos cênicos e sublinhar emoções que deverão emergir de gestos e palavras. E é o texto, sobretudo, que ajuda a valorizar a atuação de Lira Ribas, Sitaram Custódio, Carlos Caetano, Thiago Braz e Rainy Campos, que formam um time homogêneo no silêncio, nos cânticos e até nas danças.

5 músicas brasileiras para o Ano Novo

“Não temos proteção para o que foi vivido,
insônias, esperas de trem, de notícias,
pessoas que se atrasaram sem aviso,
desgosto pela comida esfriando na mesa posta.
Contra todo artifício, nosso olhar nos revela.
Não perturbe inocentes, pois não há perdas
e, tal qual o novo,
o velho também é mistério.” Adélia Prado

Tarsila do Amaral pintou com modernidade as tradições do Brasil

Muda o ritmo, muda o gênero, o autor, o intérprete, e até o ano muda. De velho, passa a ser novo, mas a mensagem é sempre a mesma. Adoniran Barbosa em parceria com o maestro Hervé Cordovil conclama para que o desesperado João não perca a esperança, “que amanhã tu levanta um barracão muito melhor…”, Chico Buarque declara logo nos versos inicias que “amanhã vai ser outro dia”, e Gonzaguinha reafirma que “começaria tudo outra vez, se preciso fosse…”. Já Caetano Veloso vaticina, numa das homenagens ao sociólogo e ativista Betinho: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Por fim, Guilherme Arantes, em sua belíssima balada aposta: “amanhã, será um lindo dia, da mais louca alegria que se possa imaginar…”. Que assim seja…

5 músicas brasileiras para o Natal

“Não aprofundes o teu tédio./Não te entregues à mágoa vã./
O próprio tempo é o bom remédio:/bebe a delícia da manhã.
No verde, à beira das estradas,/maliciosas em tentação,
riem amoras orvalhadas./Colhe-as: basta estender a mão.(…)
A arte é uma fada que transmuta/e transfigura o mau destino.
Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta./Cada sentido é um dom divino.” Manuel Bandeira

Desenho de Portinari sobre o Natal

O Natal se aventura à meia-noite com o som que vem do choro do Menino Jesus. O som de passos que caminham em direção ao Salvador trazendo-lhe oferendas. Os Três Reis Magos presenteiam como graça, agradecimento. É o sinal de devoção àquele que eles acreditam trazer em si a soma da união, dos bons valores, do amor à vida que se espalha em cada grão de areia, ou gota d’água. É o som surdo duma alegria que se vê no rosto de Maria e se faz na contemplação de José. É o som dos animais que permeiam a casa escolhida para nascer o Menino, na simples manjedoura que lhe abriga tal qual sua sabedoria perene. Muito antes do som, há o barulho. Muito antes de castelos, palácios, riquezas, há manjedouras. Por isso muito antes da neve, dos sinos, das luzes e da barba branca que acolhe o corpo vermelho de um senhor bondoso e carinhoso para com as crianças há a criação da fé ao homem, ao próximo, ao suplício eterno pela caridade pura e desprovida de interesses. Pelo viver em ver o outro viver bem. E alegrar-se pelo outro como a si. Então haverá o som de harpas tocadas pelos anjos, tamborins tocados pelos sambistas e tambores tocados pelos reis magos do axé. Pois lá no início houve o deslumbramento provocado pelo choro do Menino Jesus e o sorriso cândido dos que permaneceram acortinados nele. A isso, comemora-se o Natal.

5 músicas inesquecíveis com Tim Maia

“Não bebo, não fumo e não cheiro, só minto um pouquinho de vez em quando…” Tim Maia

Tim Maia foi um dos maiores cantores do Brasil

Tornou-se clichê dizer que a voz de Tim Maia e sua corpulência eram do tamanho de seu talento, justo ele que fugiu de frases feitas e aceitou outras tantas. Em sua trajetória dentro da música popular brasileira Tim foi definitivo ao trazer a influência da soul music americana, produzida pelos negros nos Estados Unidos, aonde, aliás, viveu por um tempo, o suficiente para ser preso por roubo de carro e posse de maconha. As muitas polêmicas que envolveram seu temperamento e o comportamento fora dos palcos foram por vezes traduzidas nas canções rasgadas e lamentosas, sempre de uma força rítmica impressionante. Tim mesmo dizia, em outras palavras, que o importante na vida era a levada. Ele legou sucessos inesquecíveis para a canção brasileira.