Origem do Flamenco na Espanha

“Oh cidade dos ciganos!
Quem te viu e não te lembra?
Cidade de dor e almíscar,
com as torres de canela.” García Lorca

Flamenco

A chama estendia-se involuntária. A chama era uma mulher aflita, e acuada. Por sobre as palhas a mortalha envolvia-os em Terror e Desespero. Os primeiros, ungidos pelo cascalho anil da Salvação, traziam os violões. Bem atrás, distinguidas somente após forçar-se a vista contra o sol, surgiriam, sob mantos negros do luto; mulheres despidas de suas vestes, levadas em meio às rajadas de fogo e as labaredas da ostentação. Crianças agarravam-se afobadas às mãos, não se importando se referentes a tias, mães ou avós.

As pequenas criaturinhas, quase migalhas oferecidas aos abutres que por Fome e Esperança aproximavam-se mexendo com hostilidade as asas, trataram de apressar os passos, e com isso foram soltando pouco a pouco as pedras, indiferentes ao fogo e presas ao solo. Como as senhoras lhes puxassem orelhas, por desrespeito ímpar a Deus e ao Natural, rapidamente treparam nas castanheiras e juraram virar, naquela noite, refeição para abutre. Não existiu alma viva a ignorar petulante pirraça.

Arte Lúdica de Isabela Couto Machado

“Tem o verde dos sonhos transcendentes,
A ternura bem roxa das verbenas,
A ironia purpúrea dos poentes,
E tem também a cor das minhas penas!” Florbela Espanca

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As ondas não correspondiam à expectativa. Muito contribuiu esta constatação para entender o porquê de passarem despercebidas. Tampouco a presença de três camelos, e não dromedários – como atestava as duas corcovas – fora suficiente para dirigir atenção a elas. Estes, embora enfileirados, e presos por cordas, no montante arenoso das ondas, de imediato despertaram interesse.

As sombras estalavam no chão refletindo a crueldade do sol. No entanto, e nesse instante as ondas avançam, já havia noite. Debocham-se estrelas como bochechas iridescentes e os rostos chupados têm compadecimento. Numa cruz entre casas, e sobre a principal, a cor negra, talvez uma borda, levanta: uma saia, uma manta, ou o esparadrapo.

Emílio Santiago e o Suingue Inconfundível

“- de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.” Cecília Meireles

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O curso de Direito o aguardava naquele horário, no entanto Emílio tinha feito a opção pela música. Entendedor autodidata do que se designava como teórico era na prática que o sorridente negro de olhar carismático começava a tatear o próprio espaço. Flávio Cavalcanti, àquela altura conhecido apresentador de programas de auditório, o interpelou para subir ao palco. Não titubeou, lancinou a platéia com o melhor da irrequieta alma. O suingue inconfundível de Emílio Santiago dava apenas os primeiros passos.

O cenário carioca onde nascera – na capital do Rio de Janeiro e no ano de 1946, dia 6 e mês 12 do calendário – não demorou a apresentar ao garoto os atrativos a se tornarem inegociáveis na vida adulta. Emílio não abriria mão de apaziguar a fúria dos sons; ninar, durante a insônia, as melodias; e domesticar, cheio de palavras doces; letras e harmonias dos compositores da bossa nova, do samba e das noites de balanços intermináveis. Foi numa dessas peregrinações obstinadas que o destino lhe sorriu em troca.

Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen

“Assim, despertando de um sonho de horror à meia-noite, logo a pessoa acende a luz e se mantém quiescente, adorando o gaveteiro, adorando a solidez, adorando a realidade, adorando o mundo impessoal que é prova de alguma existência que não a sua.” Virginia Woolf

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O grito de “socorro” é precedido por uma ameaça viril. Mas é dentro da mulher ouvido, somente. Ela não pode desmantelar a harmonia da casa onde vive. Lá as crianças brincam com displicência, “tomando o cuidado exigido para manter em bom estado as estampas dos vestidinhos de babado e das camisas de marinheiro” a cobrirem os corpos tenros. A babá se dirige a uma delas dotada de paciência cristã. Pergunta se já pode servir o chá. É aí que a descoberta compete aos olhos.

A bacia de água quente em cima do móvel. O criado mudo ao lado da cama. O pano úmido sobre a testa. Enferma, coberta por uma bata branca do pescoço aos pés, a matriarca. No entanto, ao olhar para fora e desligar-se de pensamentos imersos, apalpa o próprio rosto, e não obstante o percebe corado. Da mesma maneira, há rubor em seus pés, apertados nas delineadas sandálias de couro persa. Ninguém na casa poderia supor a degradação de sua natureza enfadonha, uma abobalhada boneca a serviço de todos.

Tess – Uma Lição de Vida, de Roman Polanski

“o tempo que passava em um relógio invisível, a veia vermelha de um termômetro, a luz filtrada em tênues filamentos pelas cortinas de filó, uma gota d’água suspensa na torneira e que nunca pingava: ela pegou esses objetos e com eles ergueu uma parede: mas a parede era fina demais, frágil demais, e incapaz de eliminar o som da voz” Truman Capote

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Uma parede branca antecede a desgraça da camponesa família. Por que acreditar em melhor futuro é o perigo inescapável ao ser humano. A parede no futuro estará manchada de sangue. O sangue pinga das vestes da menina. Quando colhia morangos no campo, colocaram-lhe rosas no busto. Espinhos debruçaram-se em seios brancos, e estes logo tomaram o formato da mão do carrasco. Desejos vãos, insígnias das bravatas e aspirações.

Dançavam genuinamente quando um tufão irrompeu das mansões. O velho pai que despenca da velha carroça, afirmando a condição superior, mais lembra o palhaço a esperar os aplausos da cética platéia de bretões. A tenda murcha está prestes a desabar sobre as cabeças: umas carecas, outras cobertas por polacos chapéus: todas à espreita, todas confusas: consideram arriscar a vida por um inferno de céu. A luz de lampiões imanta as fuças.

Cortes & costuras

“Bem no centro da faísca, praça central do coração da chama, a porta de um reino sem durar:” Paulo Leminski

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Tinha os olhos amarelos & xadrez. Uma anja preta. Gato a tira-colo. Colo atira gato. No céu de Olinda, ouvia Capiba. No chão de Pedreiras, João do Vale. Farpilhos desfarrapados cobriam a túnica que envolvia cabeça raspada, orelhas furadas e nuca desprotegida. Tudo doía. Nu exposto ao escrutínio.

Exaurida da casca transitória e rija dos gestos. Era um ovo, uma cobra de Tarsila. Verde-rosa. Sambava balé. A ralé ouriçava. Escrevia na tentativa íngreme de ser Maleável e Eterna como as Palavras. Mas escrever não derrama. Impreciso trabalho frágil.

Maestro Hervé Cordovil entre o samba, rock e baião

“A verdade do piano não é o piano: são as músicas que ele pode tocar.” Rubem Alves

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O mineiro Hervé Cordovil (03/02/1914 – 16/07/1979) transitou pelos mais variados gêneros com a mesma eficácia, para dizer pouco. Isso porque o pianista, regente e compositor desencorajado por Eduardo Souto, diretor da Casa Edison, no início de carreira, escreveu parcerias com Noel Rosa, Lamartine Babo e Luiz Gonzaga, para citar alguns. E foi ele o compositor sozinho de sucesso de Dick Farney, “Uma Loura”, e da Jovem Guarda, “Rua Augusta”. Nascido em Viçosa, Hervé conquistou quietinho o reconhecimento, e sem fazer barulho, apenas som de primeira.

Pé de manacá (baião, 1950) – Hervé Cordovil e Mariza Pinto Coelho
“Pé de manacá” foi composto por Hervé Cordovil em parceria com sua prima Mariza Pinto Coelho e alcançou sucesso em 1950, na interpretação de Isaurinha Garcia. O baião inocente revela a essência pura e simples do amor, enfeitado por versos de rara simplicidade.

O Humor Romântico de Eduardo Dussek

“Escutar é uma coisa perigosa, sabe. Quem escuta pode ser convencido, e um homem que se deixa convencer por um argumento é uma pessoa completamente insensata.” Oscar Wilde

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Eduardo Dussek é um dos astros do espetáculo “Sassaricando – E O Rio Inventou A Marchinha”, posto em cena, há sete anos, por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral. O elenco reúne, na atualidade, Inez Viana, Juliana Diniz, Pedro Paulo Malta, Beatriz Faria e Pedro Miranda. Isso porque desde a estréia o musical não saiu mais de cartaz. A recente temporada começou no dia 10 de janeiro e fica até 3 de março. A grande novidade é o local, uma casa de shows reaberta no Rio de Janeiro, o “Imperator”, também chamado Centro Cultural João Nogueira, no Méier, zona norte da cidade.

“O subúrbio foi o principal responsável pela sobrevivência do carnaval de rua”, afirma Dussek, que cita os tradicionais blocos carnavalescos e os conhecidos “clóvis”, palhaços cujo nome teria surgida de uma confusa leitura da palavra em inglês “clown”, tradução literal para os animadores de circo. A experiência tem lhe proporcionado um reencontro com as origens. “Embora tenha nascido em Copacabana, fui criado na Tijuca, e sempre freqüentei carnaval de periferia. Eu adoro aquela animação suburbana, típica das grandes agremiações, escolas, blocos, como o ‘Bafo de Onça’, ‘Cacique de Ramos’, e tantos outros”.

Bizet (Música clássica)

“e das profundezas da escadaria subia um sopro úmido e obscuro.” Albert Camus

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Bizet! Bizet! O músico pula no rio Sena e ninguém o ouve…no entanto uma voz suspirando, abafada, toca no ouvido do compositor como as correntes de Carmen. A cigana do romance levado ao palco não recebera aplausos, nem recebera vaias. Agora a indiferença do músico que se afoga e ninguém o ouve. A cigana afaga de leve seus torneados joelhos por baixo das ceroulas.

Bizet! Bizet! Grita a mãe do músico no leito de morte. Como Dom José, rejeitado, o músico largou as troças, traças e túnicas, todo o ouro de Salvador Dalí, outro espanhol ilustre do mundo dos sonhos (Muito embora o retratado seja da França), para velar a morte. Varar a noite, arder de açoite, as costas da cigana Carmen, morenas e nuas, queimam no chicote do toureiro e os chifres de boi. O sacrifício azul em sangue de prata corre.

Perlla lança Teaser de Disco Gospel

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A cantora paraguaia Perla, que aportou no Brasil com 20 anos, no início da década de 70, já não era lá uma novidade em termos de estética ou arranjo. Entre os maiores êxitos da carreira, está a infinita quantidade de discos de ouro, platina e prata, acumulados graças a versões de clássicos estrangeiros. Ou seja, originalidade nunca foi exatamente o forte da primeira Perla.

A Perlla seguinte, que adequou o nome ao acrescentar outra letra, faz coro ao excessivo e inflado mercado de celebridades descartáveis. Assim como na antecessora, os modos, as vestes, o canto, soam exagerados, exaustivos, mera reprodução do que existe em abundância. Falta o mínimo de contenção, tempo, pausa. De certa maneira, traduzem a vida moderna.