Miséria Humana à Luz de Sebastião Salgado

“Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Lavoisier

Sebastiao-Salgado

Observei. A miséria humana deve ser mostrada. Ossos, cartilagem, membros, diafragma: estraçalhados. Estilhaços de vida imunda, feia, funda, gasta. Nas costelas à mostra, nos dentes pastosos, no langor dos tornozelos empastados repica a luz. Menina me olha. Menino beija. Mulher implora. Homem ajoelha. Gado apodrece. Feijão se colhe. Corpos amontoados servem-se às vespas, moscas, marimbondos, abelhas. No reino dos mortos arfa a mãe natureza.

A escuridão comum. O forte como um boi zebu. Aguarda a faca, o corte, a ferida. No entanto franzem as correntes de prata, as valiosas armadilhas. O corpo magro não as impediriam. O tornozelo ao chão está restrito. O teu sorriso é um mero veredicto. Os amuletos, vestes, bichos, filhos; foram primeiro; incidem em reza e vício. Mas afinal franzino franze os fios, punhos cerrados, incólumes; martírio. Resiste o bravo, calmo, apolíneo.

Dominguinhos, o relâmpago de Garanhuns

“A pressão de seus dedos parecia aumentar na flor o que ela de mais brilhante continha; realçá-lo; torná-lo mais fresco, franzido, imaculado.” Virginia Woolf

Dominguinhos

O primeiro dia de trabalho. Plural e diminutivo. Nome de batismo, a preceder o companheiro de Maria – José – mas que passara despercebido. Preferira, até aquele momento, o apelido. Até que houve o encontro. Não descansara no sétimo, nem no seguinte, ou nos de antigamente, desde miúdo acostumado a encarar o batente, o sol quente, chapéu coco circulando à espera das mãos, abertas e suadas, da caridosa gente.

Nas feiras de Garanhuns, Caruaru, interiores de Pernambuco, cidade natal e os municípios ao redor. Conterrâneo ilustre o viu pequeno, jamais teria crescido, talvez por isso agarrara-se ao modo como o conheciam. Mas Luiz Gonzaga logo o convenceu a abandonar o Neném para atender a partir dali e todo o sempre: Dominguinhos, herdeiro artístico, sanfona nos dedos, coração e astúcia de forrozeiro nato, atrevido, incansável.

Alô, Dolly!, com Marília Pêra e Miguel Falabella brinda com humor preciso e canto robusto

“Acredito que aquele amor permanece tão forte e intenso em sua lembrança porque foi sua primeira solidão profunda, o primeiro trabalho íntimo com que o senhor elaborou sua vida.” Rilke

alo-dolly

“Alô, Dolly!” é peça de nostalgia para Miguel Falabella. O diretor, que vem se debruçando sobre o tema da retrospectiva ao vislumbrar os próximos passos – como na série televisa “Pé na Cova”, onde o enfoque é a morte e a natural tendência humana a recordar o passado ante a perspectiva futura – tem uma óbvia relação afetiva com o espetáculo e este sentimento o conduz. Primeiro por ter sido o primeiro musical que assistiu, aos nove anos de idade, época da montagem protagonizada no Brasil por Bibi Ferreira e Paulo Fortes, em 1966. A escolha de Marília Pêra para interpretar Dolly Levi segue o mesmo caminho. A atriz foi a primeira diretora de Miguel nos palcos.

Agora os papéis se invertem. Além de dirigir, Falabella atua e assina tradução e adaptação. No texto o acerto é em cheio, comprovando a boa mão do intérprete do rabugento comerciante Horácio para distribuir as palavras tanto nas canções quanto nos diálogos. Já a adequação poderia ter apostado numa cisão mais profunda com o original, ambientando a história em cidades nacionais que a comportariam perfeitamente, como São Paulo substituindo Nova York e qualquer outra interiorana do estado no lugar da caipira Yonkers. Não seria nenhum absurdo, afinal o próprio Falabella confessou a inspiração em Mazzaropi para a composição de seu personagem.

Um Método Perigoso, de David Cronenberg

“Por vezes, o olhar dos dois homens se encontrava; o do jovem, taciturno e sombrio, inalterável em sua obstinação; o do velho, escarnecendo com um desprezo incansável.” D. H. Lawrence

Um-Metodo-Perigoso

A madeira crepitava insistentemente. Como lascas soltando-se do corpo roliço da árvore e alcançando a mortal liberdade em toras de fumaça dobradiças a definhar. O cheiro das cinzas empanzinava o ambiente em igual modelo a pneus inúteis recheados por água podre. O barulho, no entanto, e os sentimentos correlatos estavam imperceptíveis ante a agrura de Freud. O sofrimento do homem de nervoso charuto detivera-se no chão como prego.

À sua frente, coaxando feito sapo em noite de lua que para a espécie é orgia, o protestante Jung avolumava-se em contrações na medida exata da madeira a crepitar de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, o ritual resultou numa esfera de paralelas estanques. O medo recusou-se a surgir na cabeça de Freud, enquanto os pés de Jung não eram capazes, sequer, de encostar-se sem temerem as faíscas.

Disfarces

“Il y a toujours
quelque chose d’absente
qui me tourmente.” de Camille Claudel para Rodin

Gustav-Klimt

Nuca no bafo. Não se olham. Palavras intactas na garganta. Árida, rareando seca saliva dentro’boca. Incômodos, sérios, prosseguem caminho no silêncio itinerante.

Levanto-me depressa. Tonteira me arremessa. Rascunho um poema. Já foi embora (o outro). Pensei.

Mas não escrevi. Já não sinto orgulho nenhum. Humildade nenhuma. E sou só esse resto em meio ao meio que restou. Concreto caoticamente caibo na liquidez da vida.

Canção Encantada do Peterpan de Alagoas

“Clair de lune, chiaro de luna, claro de luna…mas os franceses, os italianos e os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago só?” Mario Quintana

peterpan 1944

José Fernandes de Paula ou José Borba, o popular Peterpan (21/01/1911 – 28/04/1983), seria mais popular se fosse diretamente associado às suas composições. Embora poucas tenham alcançado sucesso contínuo, algumas permeiam com certa insistência o imaginário musical brasileiro.

Gravado por nomes como Aracy de Almeida, Quatro Ases e um Coringa e Nana Caymmi, o herói do Brasil com apelido herdado da eterna criança americana completaria em 2011 seu centenário, não fosse a morte vir lhe precipitar aos 72 anos. Não importa, para quem gosta de música e olha pro céu, o Peterpan de Alagoas continua criança.

Brasil, Esse País Dos Aflitos

“Brasil, mostra a tua cara!” Cazuza

Brasil-aflito

Análise

Muita gente é cativada a participar dos protestos em várias extremidades do Brasil, e até fora dele; casos de Inglaterra, Irlanda e França; ao acessar no Facebook, Twitter, e outros, um tipo de informação ali amplamente difundida, em contraposição inicial ao silêncio da imprensa massiva, depois reprimida a modificar a cartilha.

É contumaz o equívoco quando se avalia a importância da rede social. Costuma-se apontá-la como fator determinante para a série de acontecimentos. Essa teoria não se sustenta por um único argumento: ela é suporte, não conteúdo.

Ney Matogrosso No Show Atento Aos Sinais

“Uma cega labareda me guia
para onde a poesia em pane me chamusca

Vou onde poesia e fogo se amalgamam.
Sou volátil, diáfano, evasivo.

Escapo que nem dorso de golfinho
que deixa a mão humana abanando” Wally Salomão

Ney-Matogrosso-Atento-Sinais

A rua deveria dar passagem em direção a um suntuoso prédio localizado na parte mais pobre do vilarejo. A razão de ter-se erguido ali era de conhecimento público, inclusive imprensa e polícia, mas forças políticas impediam a divulgação do caso e consequentes penitências aos envolvidos. Agora, no entanto, um incêndio alastrava-se, tendo se iniciado na parte mais elevada da construção, e já se estendia até as bases. Centenas de microfones, câmeras, fios e aparelhos eletrônicos variados, de celulares a laptop´s, aglomeravam-se até os limites da barricada ali improvisada como impedimento à aproximação do fogo. Do outro lado bombeiros esforçavam-se para pôr fim à farra das chamas e decretar o império da fumaça sobre a outrora prova de soberania da inteligência e eficácia humana pautada na engenheira e conhecimentos arquitetônicos, estes últimos despidos de qualquer senso do bom gosto.

Roendo as unhas, o prefeito enfim aceitou o convite dos ávidos entrevistadores, submetendo-se a prestar esclarecimentos à ensandecida população, a se expressar de maneira parecida a animais confrontados em seu território. Tal comportamento, aliás, muitíssimo raro e particular naquela gente, acendeu ainda mais a dúvida sobre as causas do incêndio. Uma gente a princípio pacata, da qual jamais se teve notícia sobre o reclame de qualquer situação, sobretudo quando contemplada com quilo de arroz e saco de feijão, promessa cumprida e feita prioritariamente em épocas de eleição. Todo o mistério findaria com a palavra do excelentíssimo e magnânimo, como se lhe referiam os assessores, mandatário máximo da cidade; o prefeito disse: “É uma vida louca vida esta, pois se num dia tudo transcorre às mil maravilhas, noutro assombra-nos a catástrofe!”.

A Música Livre e Sórdida de Claude Debussy

“Ver o dia nascer é mais útil do que ouvir a Sinfonia Pastoral (de Beethoven). Quando o senhor assiste a esse maravilhoso espetáculo cotidiano que é a morte do Sol, alguma vez já teve a idéia de aplaudir?” Debussy

Debussy

Foi ouvindo Debussy a minha loucura. Encontro-me num asilo, lenitivo, leniente. Imagino como deva ser um concerto de Debussy. Abro os olhos e ele está na minha frente. Letargia das almofadas fofas me faz espreguiçar igual ratazana extraviada.

Nunca se encontrará. São Paulo é uma cidade esplendorosa, se vista de longe. Como Górgona, te aliena e devora. Gárgulas ensaiam tudo quanto é lento. O trânsito da cidade, o martírio cauteloso dos pedintes rueiros. Bueiros aos montes. Vejo do átrio – uma janela caudalosa, e saio.

Astolfo Barroso Pinto, a Rogéria do Brasil

“Persigo algumas palavras. São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema… Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as…” Pablo Neruda

Rogeria

O poder formigava nas mãos grandiosas, calejadas e protegidas. Para disfarçar as marcas de expressão não se abstinha em colar sobre elas brilhos, inventar costuras, remodelar aspectos frios e assim torná-los quentes. Expressava-se criativa. Ao fim do processo riscara, por cima da blusa de linho, um fósforo, e, muito próxima ao fogo, mordiscando a parte inferior do lábio, soprava a “velhinha” e se dava vivas. Comemorava, aludia, enfeitava a vida a menina.

Rogéria, uma transformista, um homem pleno, sambando com seios ao vento, bunda arrebitada, na avenida. A multidão a reconhece, reconhecida Rogéria desce, ajeita o salto: urra, grita, cacareja, brinca. Um maquiador, uma mulher pluma, requebra o funk com músculo rijo, membro mantido, na rua, no enredo, na coxia. Um bem de origem, recontado, recriado, repetido em novela, musical, cinema, dramaturgia, pinta a borda a criaturinha.