Nelson Gonçalves: O Vozeirão da Música Brasileira

“morre a vida e tranqüiliza-se o sangue
até que rompe o novo movimento
e fica ressoando a voz do infinito.” Pablo Neruda

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Um terno alinhado, uma camisa de botão, para as ocasiões mais especiais uma gravata, cabelos penteados para trás, anel de brilhante no dedo, metralha na cintura e na garganta, no gogó, como ele dizia. Assim ele subia ao palco, disparava o vozeirão e era adorado por seu povo. Com sua porção sofisticada e sua porção considerada brega Nelson Gonçalves agradava tanto ao gosto popular como aos ouvidos mais exigentes. Porque Nelson cantava de tudo, tinha voz para cantar de tudo, e cantava como ninguém. Escolhia seu repertório através das canções que mais lhe comoviam e se encaixavam em sua voz. E era exatamente por causa dessa última condição que ele cantava de tudo. A voz de Nelson Gonçalves era maior até que as próprias canções que cantava. Maior do que o próprio mito em torno dele. Nunca ouve voz capaz de vibrar tanto quanto aquele grave. Quando cantava os versos de “Pensando em Ti” com a voz embargada por supostas lágrimas ou concedia a força necessária para a “Renúncia”, Nelson costumava dizer que ele mesmo se emocionava com suas interpretações. Era um homem vaidoso, que gostava de se elogiar, centrado em si, que deixou suas mulheres, sua mãe e seus filhos. Mas que deixou principalmente sua voz, para que pudéssemos ouvi-la e nos emocionar como ele. Municiado por seus “dós-de-peito” Nelson cantava sem nenhum esforço. Cantar, para Nelson Gonçalves, era a coisa mais fácil do mundo.

“Eu amanheço pensando em ti
Eu anoiteço pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite pensando em ti
Eu vejo a vida pela luz dos olhos teus
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus”

Herói de cinema a Rei do Ritmo: as canções de Jackson do Pandeiro

“mas eu antecipo.
Não há substituto para uma vida inteira. (…)
dez mil anos de ritmo-do-coração-pensar-dizer,” Ezra Pound

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Quando nasceu aquele José na Paraíba, os traços nordestinos já prenunciavam que ele seria miudinho, de cabeça chata e pele morena, mas não prenunciavam que aquele José Gomes Filho se transformaria no “Rei do Ritmo”. Um pouquinho que ele cresceu, a cabeça achatou e a pele escureceu devido ao sol que lhe queimava todos os dias, e já começaram a chamá-lo de Jack, herói do cinema mudo americano que desembarcava no faroeste da Paraíba. A mãe não gostou nada daquela história, e enquanto cantava uns cocos aproveitava também para lhe bater e lhe passar o sermão: “Mas é danado mesmo, batizar um filho com nome de José e ver trocarem o nome assim pra Jack.” Mas não adiantou, foi só ele começar a se vestir com chapéu coco na cabeça achatada, inventar um caprichado bigodinho fino e segurar com mãos maliciosas o pandeiro, que lhe batizaram pela terceira e definitiva vez: Jackson do Pandeiro, rei de Alagoa Grande, rei da Paraíba, rei do ritmo do Brasil.

“Vixe como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraíba”

Gay, mal-amado e suicida

“Saio quase nada, vejo quase ninguém. Uma vida pra dentro, numa cidade indiferente.” Caio Fernando Abreu

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Vivia na morte desde que matara seu último personagem em um acidente de carro.
Tinha os ombros largos, olhos amarelados e sorria de lado. Sempre sorria de lado, era um modo de parecer simpático sem ser chato. Aliás, tinha horror de ser chamado de chato, embora acontecesse com freqüência quando em uma mesa de bar com os amigos se recusava a tomar mais um chopp ou a cheirar cocaína no banheiro. Aí vinham os insultos: careta, mal-amado, chato. Era de fato mal-amado, isso sempre soubera. A mãe não lhe tinha muito agrado e preferia os outros irmãos, formados em engenharia e com esposas belas. Além disso, deram-lhe o que ela sempre sonhara: netos. Muitos netos. Praticamente um rebanho inteiro. Uma prole saída dum forno de lebres. A mãe ficava tão entusiasmada que parecia sonhar com os filhos fodendo suas mulheres e lhe garantindo mais netos. Como se fosse prova de virilidade, masculinidade, sucesso. E era. E ela sempre dizia. E por isso ás vezes fazia comentários maliciosos com relação à sexualidade dele.

As Canções de Ângela Maria: Estrela Infinita

“Por essa vida fora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!” Florbela Espanca

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Ângela Maria, a voz doce e quente que canta para o mundo.
A voz do adeus, das brigas e despedidas.
A voz que perdoa os “tapas na cara” e confia no poder de amar do coração.
Como disse Chico Buarque: “Ângela é todas numa só voz.”
Uma voz imensa que enche a “noite vazia” de amor e luz.

“Em nome do amor
Que houve entre nós dois
Deixemos pra depois
O adeus”

Crítica: peça “Toda Nudez Será Castigada”, com montagem da Cia. Arlecchino, mantém poder de fogo do texto de Nelson Rodrigues

“Só os profetas enxergam o óbvio!” Nelson Rodrigues

Toda Nudez - Alexandre C Mota

O texto de Nelson Rodrigues da peça “Toda Nudez Será Castigada” prevalece na montagem da Companhia Arlecchino, apresentada no Cine Brasil como uma das atrações da 40ª Campanha de Popularização do Teatro e Dança de Belo Horizonte na última sexta-feira (24). Encenada pela primeira vez em 1965, sob a direção de Ziembinski, mantém o poder de choque e desconforto sobre a platéia, em cenas que falam e apresentam uma visão cínica e debochada sobre o sexo, a religião e a família, o que leva a uma reflexão de quanto a sociedade mudou daqueles tempos para cá ou se o alvo do dramaturgo permanece inalterável: a hipocrisia e a obsessão do comportamento humano.

As máximas proferidas por Paulo Rezende, o intérprete de tio Patrício, alter ego de Nelson responsável por desmanchar qualquer convenção e alimentar o circo de fogo, e o desenrolar da história em si, pendendo para o absurdo à medida que o final se aproxima, além da habilidade em dramatizar ao grotesco as situações a partir de frases que mais as ridicularizam e tornam banais, com referência a cuecas, talco nas meias, gravata preta, e etc., servem ao intento do autor de traduzir o quanto sofrimento, prazer e morte podem reverberar na vida das pessoas de diferentes maneiras, basta um olhar ou necessidade, não estando ninguém atrelado a limites que não os do próprio corpo e pensamento.

Canção do morro: a música que nasce na favela

“E este por sobre nós espelho, lento,
bebe ódio em mim; nela, o vermelho.
Morro o que sou nos dois.
O mesmo vento
que impele a rosa é que nos move, espelho!” Ferreira Gullar

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O morro sempre teve melodia.
Sempre teve música entre seus caminhos.
Caminhos tortuosos, de subidas difíceis e perigosas descidas.
Mas caminhos que apesar das dificuldades sempre criaram bonitas canções.
Caminhos de Cartola, de Wilson Batista.
Caminhos de Carlos Cachaça, de Ismael Silva.
Caminhos dos bambas, dos passistas da escola de samba e da vida.
Das mulatas guerreiras que erguiam suas latas d’água na cabeça e seguiam em frente, em direção ao novo dia.
Canções que foram feitas para o céu, para Ave Maria, pras cabrochas de pé no chão.

Paixão Cearense: A música que vem do Ceará

“um círculo de pássaros e chamas.
E pelos canaviais,
testemunhas que sabem o que falta.
Sonho concreto e sem norte
de madeira de guitarra.” García Lorca

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O Raimundo mais famoso do Ceará levou as velas do Mucuripe para velejar o Brasil inteiro. Seu parceiro na música mostrou aos jovens seu descontentamento com a própria geração. O poeta que nasceu no Ceará era na verdade agricultor. O poeta que levou essa paixão no nome não era cearense. O grupo que se tornou mais conhecido exibiu com orgulho seus “Quatro Ases e um Coringa.” Outro compositor daquela terra desfilou na avenida seu bloco do prazer. E o letrista mais proclamado nas canções do Rei do Baião foi a síntese desse povo rico e diverso.

Mucuripe (1972, MPB) – Fagner e Belchior
Fagner e Belchior se conheceram em Fortaleza, depois do primeiro sair de Orós e o segundo deixar Sobral. Juntos, ao lado de Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra formaram o “Pessoal do Ceará”, que se apresentava semanalmente em um programa de rádio. Levando na bagagem as lembranças de sua terra, seguiram roteiros distintos, Fagner indo para Brasília estudar arquitetura e Belchior indo para o Rio de Janeiro estudar medicina. Mas em 1971, no Festival de Música Popular do Centro Universitário de Brasília, Fagner inscreveu uma música que havia feito com o conterrâneo agora distante. “Mucuripe”, destino solitário das jangadas em Fortaleza, tirou o primeiro lugar e atentou os olhares brasileiros para a permanente poesia das águas da canção cearense. Um ano depois, a música foi interpretada por Elis Regina. Com esse êxito, Raimundo Fagner mudou-se para o Rio de Janeiro e Belchior para São Paulo. Além disso, Fagner fez seu próprio registro, na série “Disco de Bolso”, lançada pelo jornal “Pasquim”, com Caetano Veloso cantando no outro lado do compacto “A Volta da Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Refletia no canto arraigado de Fagner, a permanente poesia das águas. Da flor fez-se o agasalho. Da vela que ilumina o mar, a esperança de um rapaz novo encantando.

O conto da revelação: Garrafa no mar

“como uma folha se dobra com o vento ou uma flor se verga sob a pata do leopardo, entregar-se ao seu poder.” Truman Capote

Portrait of Ralph McWilliams Paul Cadmus

Dulce Veiga,

as coisas não estão fáceis (ando lendo muito Kafka, daí, acho, que o tom lamentoso…)…trago um sintoma na gaveta (nos arquivos) e tenho encontrado imensa dificuldade em revelar minhas alucinações, especialmente essa doença (pregação, que seja), que é uma coisa que vejo necessidade de FAZER ACONTECER, como um álibi que me permita dedicar mais tempo ao que realmente almejo: sonhos, ou, a magia.

A pressão é grande para que eu desista e volte ao mundo da realidade que tanto me chateia, e tenho tanta vontade de entrar em outros cantos, labirintos espirais, soturnos, mas em certos momentos o sintoma se esgota, quase desiste, pinço uma frase de Tennessee Williams (um dramaturgo enfermo de insônia que lhe afetava o dia todo: sonhava acordado e dormindo – ou seja, não dormia o repouso linear e estrito, mas somente naufragava ares e desembarcava navios nas estrelas):

“Não quero realismo. Quero mágica. Sim, mágica. Tento dar isso às pessoas. Sei que deturpo as coisas! Digo o que deveria ser verdade. Se isso é pecado, castigue-me!”

Apelos de mulher na música brasileira

“ – essa frágil e bela criatura diante da qual os homens se curvavam, essa criatura limitada e circunscrita que não podia fazer o que bem quisesse, essa borboleta com milhares de facetas nos olhos e uma delicada e fina plumagem, com dificuldades e suscetibilidades e tristezas inúmeras; uma mulher.” Virginia Woolf

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“Toda mulher gosta de apanhar”, disse Nelson Rodrigues. Talvez não seja isso. Mas talvez o sofrimento seja sim essencial ao amor, o amor verdadeiro. Talvez as lágrimas caiam para inundar de peixes os rios caudalosos das paixões. Assim como a chuva, que destrói e irriga a vida, o amor talvez precise penar para depois florescer. No amor verdadeiro, sêmen é lágrima. No programa especial de hoje você vai ouvir “apelos de mulher”. Músicas cantadas por mulheres que retratam todo o sofrimento de seus mundos e a espera, a luta, a busca pelo seu amor. Todos os apelos feitos para que esse amor vá embora, sofra ou fique com elas. Vocês ouvirão mulheres que sangram, que fazem loucuras, que rondam a cidade, que se deixam dominar, usando todos os artifícios e apelos possíveis. Hoje, vale tudo por amor.

1- Sufoco / Com açúcar, com afeto:
Dos vários tipos de amor que existem, um deles é o que sufoca, machuca, maltrata. O outro é o que cuida, constrói, espera, prepara o café e o doce predileto. Em comum, o fato de serem amores e passarem por cima do sofrimento, da indiferença e da loucura para sobreviverem. Pois embora seus cardápios sejam diferentes, um mais doce o outro mais amargo, ambos se alimentam do mesmo ingrediente indispensável ao amor: a superação. O amor é uma questão de superação. Só quem supera o sufoco é capaz de amar e de deliciar os seus sabores, com açúcar e com afeto, um apelo ao amor.

Crítica: peça “Eu não dava praquilo”, com Cassio Scapin, reverencia a irreverente Myrian Muniz

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande…” Adélia Prado

5D III

É na comparação entre o assaltante de uma bolsa e um político que reside o segredo do monólogo protagonizado por Cassio Scapin em que a atriz Myrian Muniz é homenageada. Evidentemente o bandido do bem de pequeno porte tem mais autenticidade, outra expressão identificada com o universo da personagem, que entre dar a mão a Deus e ao diabo não deixa passar em branco uma suma necessidade: a força da palavra.

Essa descoberta é feita por Myrian em um sonho no qual conversa com seu amigo, o Papa, e lhe questiona se a hóstia é realmente o corpo de Cristo. O pontífice deixa claro que a resolução depende mais do olhar que do objeto, o que só corrobora com algo que na infância já se iluminara aos olhos da menina brincando de interpretar: a força das coisas que não existem, da imaginação. Com uma didática própria, Myrian Muniz apresenta a vida ao teatro.