Crítica: peça “Lampião e Lancelote”, com Cassio Scapin e trilha de Zeca Baleiro, oferece atrativos para crianças e adultos

“Se as coisas são inatingíveis
Ora…não é motivo para não querê-las
Que tristes os caminhos
Se não fora a presença distante das estrelas.” Mario Quintana

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Inspirada no livro de Fernando Vilela, a peça “Lampião e Lancelote” é um exercício de fantasia que permite refletir sobre aspectos básicos da trajetória humana. O mítico encontro entre uma personagem real e outra lendária, acentuando-se, no entanto, que ambas tornaram-se parte do folclore de suas terras, é, por si só, interessante. Afinal percebemos que o cangaceiro Lampião e o cavaleiro Lancelote, mesmo distantes em questão de tempo e espaço, e principalmente ideologia, passam por motivos comuns a quase toda e qualquer vida: luta, sobrevivência, revolta, amor, medo, tristeza, alegria, talvez felicidade.

Cenários, luz e figurinos carregam nas tintas, na beleza, nos brilhos, nas mirabolantes reviravoltas, o que certamente encantará a crianças de todas as idades, assim como o texto, simples e didático, seguindo o ritmo e a temática dos cordéis, a fim de angariar menos complexidade e mais divertimento para a fábula. A condução do espetáculo é bem feita por Cassio Scapin, melhor quando tem a oportunidade de utilizar sua veia cômica, assim como o restante do elenco que, embora tenha desempenho desigual, não compromete o andamento, com menção especial para a intérprete de Maria Bonita.

Crítica: exposição “Segredos do Egito” elucida contradições de uma civilização

“O homem move um dedo. Devagar e com cuidado, ele move um dedo para pegar uma gota de mel. Ameaçado por tantos perigos, e amedrontado por ver a morte por todos os lados, ele ainda não era livre do desejo. O desejo pelo mel o manteve vivo.” Krishna Dvapayana Vyasa

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A exposição “Segredos do Egito”, apresentada gratuitamente em shoppings de quatro cidades brasileiras, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Ribeirão Preto, elucida as contradições de uma das civilizações mais fascinantes da história da humanidade. A obsessão pela beleza e pela morte pode ser conferida de perto tanto nos mínimos detalhes de precisão artesanal quanto no desenvolvimento da ciência e das questões matemáticas que conservou corpos e elevou pirâmides até hoje indestrutíveis antes mesmo das nomenclaturas “medicina” e “engenharia” ocuparem os dicionários.

O misto entre fantasia e realidade condensa toda a cena, de uma exuberância sem fim na ostentação do ouro, das pedras preciosas, dos papiros e dos desenhos minuciosos. É inegável o talento dos egípcios para a arte, não à toa eles influenciaram um dos grandes nomes da pintura austríaca e mundial, o simbolista Gustav Klimt. O tom de mistério, petrificado nos olhares dos deuses, e especialmente da esfinge corroboram para a ludicidade da exposição. As construções suntuosas de época aparecem em miniatura, e nem por isso perdem a imponência, ao contrário.

Entrevista: Gerson Conrad, ex-Secos & Molhados, relembra trajetória

“Mas só não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária” Vinicius de Moraes

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De cara limpa o músico Gerson Conrad, ex-integrante da formação clássica do grupo “Secos & Molhados”, relembra, em livro, essa trajetória. Lançado em 2013 pela editora Anadarco, “Meteórico Fenômeno”, no entanto, não pôde contar com fotos de um dos envolvidos na banda que revolucionou a imagem e o som da música brasileira na década de 1970. “Em verdade, não houve problemas em relação ao livro que pudessem me preocupar. Eu e minha editora tomamos os cuidados legais, solicitando aos antigos companheiros de ‘Secos & Molhados’ a autorização do uso de imagem. O Ney, de cara, autorizou. João reservou-se ao direito de não querer sua imagem publicada. Simplesmente respeitamos sua decisão”, esclarece Gerson.

Os dois que ele chama apenas pelo primeiro nome são nada mais nada menos que Ney Matogrosso, vocalista dos históricos discos lançados em 1973 e 1974, e João Ricardo, fundador do trio ao lado de Conrad, e autor de sucessos como “O Vira”, com Luhli e “Sangue Latino”, com Paulinho Mendonça, entre outros. As desavenças com João Ricardo, que muitos apontam como responsável pela dissolução do grupo, já são conhecidas há tempo. O próprio Ney Matogrosso declarou em entrevistas que o fator ganância foi determinante. Dono da marca “Secos & Molhados”, João apresenta-se atualmente com a quinta formação do nome, ao lado de Daniel Iasbeck. Sobre a não autorização, disse à imprensa: “De jeito nenhum! Seria uma estupidez, há 39 anos não nos relacionamos”.

Inofensivo

“Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou
sublime.” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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– A conversa que nunca houve faz falta. As ondas assobiavam na sua passagem. Tia Sueli, a mulher traída. Uma pilhéria de ossos e fendas. Abriam pele e carne, onde encontraram apenas coração. Esferas nos olhavam aquela noite. Olham tudo que está morto, ladeado de feéricas atitudes passíveis amordacei a colmeia, como comédia de costumes e erros, quem pensa após o jantar na rotunda sesta. Sabor de hibisco lavrava a mor te. Aquiles, nosso herói grego, descansava em terras morenas, cantilenas indígenas, peito da mãe virgem. Queria tanto para mim um Ser sem compromisso. Um Deus que me negasse isso ou aquilo, mas no final das contas fizesse as pazes comigo. Nisso todos morremos, vivemos também. Levita a Cordilheira dos Andes onde trafegam carícias e cicatrizes.

Alain Resnais: cinema “sem tempo”

“Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam um sentido para mim.” Albert Camus

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O francês Alain Resnais optou por um tipo de cinema que influenciou e recebeu influência não apenas do próprio meio, mas estendeu-se à literatura, à fotografia, às artes plásticas e ao teatro. Basta ver em seus filmes como os atores e os planos se comportam. Como outro exemplo concreto o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, amante do cinema declarado, escreveu um conto em que usava o nome da que provavelmente seja a mais famosa e enigmática película de Resnais, “O Ano Passado em Marienbad”, de 1961.

É impossível passar por Resnais incólume, como prova o sucesso de bilheteria “Medos Privados em Lugares Públicos”, de 2006, mais de um ano em cartaz em São Paulo, e o aclamadíssimo “Hiroshima, Meu Amor”, de 1959. Seja pelo incômodo que o cineasta provoca, ou até pela beleza que emergem das cenas filmadas e das falas que entremeiam o desconexo à precisão, não à toa o homem que viveu 91 anos escreveu o nome na história do cinema mundial, com decisiva participação no movimento da Nouvelle Vague.

O Blecaute Que Iluminou O Brasil

“e aquela auréola que possuía, ao afastar-se de seu rosto, estendeu-se mais além, para iluminar outros sonhos.” Gustave Flaubert

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O rosto negro iluminando um sorriso branco são as primeiras armas que o General da Banda dispõe. Sem firulas ele ameaça com voz despojada de brasileirismo que cedo perdeu os pais e num rompante alcançou degrau artístico. Por ordenamento sugestivo do Capitão Furtado, radialista da Difusora de São Paulo, virou Blecaute e lançou para o carnaval sucessos do povo: Maria Candelária, Pedreiro Waldemar, Maria Escandalosa, Natal das crianças. Todas emergiram com letra maiúscula de sua garganta privilegiada. Otávio Henrique de Oliveira não foi nada mais que um cantor e compositor esquecido pela grife da música brasileira, mas alavancado às alturas em sua época áurea e definitiva.

General da Banda (samba de carnaval, 1949) – Sátiro de Melo, Tancredo Silva e José Alcides
Elegantemente trajando a farda que lhe foi ofertada, Blecaute se investe de alamares e dragonas para desfilar com alegria expressiva ao lado do Rei Momo, Rainha Moma, suas Princesas e Cidadão Samba. O ponto de macumba é sua criação refletida na fantasia que usa. Moldada por Sátiro de Melo, Tancredo Silva e José Alcides, começou a persegui-lo na rua. Até que ele foi certa noite em direção à batucada: “Chegou o General da Banda, ê! ê!, chegou o General da banda, ê! á!”. Em 1949, o pico de energia nas ruas chamava-se Blecaute.

Crítica: Espetáculo “Jovens Hermanos” do Ballet Jovem Palácio das Artes converte poesia em dança

“Dance, dance, senão estamos perdidos.” Pina Bausch

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Percebe-se que é uma dança quando o movimento das cores explode no quadro. Logo de cara, percebe-se que é uma dança. No entanto a dúvida permanece até o fim do ato. Percebe-se que é uma dança das cores, das tintas, no quadro. Portanto são bailarinos ou borrões de guaxe, acrílica, látex? Entre o azul da Argentina e o vermelho Portugal uma rã Brasil pula em verde, mancha as patas, escorre a língua entre uma perna e outro braço.

E uma cabeça, e quadris e um quadro: cores de véus, de vens, de vais. Aplausos. Risca no sol um chão, que racha. Escondem-se as cores, a luz se afasta, a escuridão é que toma conta. Cai o pendão, anuncia a morte, tão solitária, que ainda dança uma cor covarde. Toda amarela ela ri e chora, ela limpa as lágrimas, ela então implora: que volte o quadro. E então à noite aparece a lua, ainda brilham, milhões de anos, as estrelas mortas.

Entrevista: O Grande Amor de Ana Terra

“Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras” Ana Terra

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Não é por acaso que as letras de Ana Terra parecem cartas de amor. Embora muita gente não saiba é ela a mulher por trás de versos cantados na boca de Nana Caymmi, Milton Nascimento, Angela Ro Ro, e vários outros. Pois como num passe de mágica tudo começou de forma inesperada, até para a dona do condão. Tanto que ela tem dúvidas em considerar qual a primeira letra de música composta, mas nenhuma em apontar a mais especial dentre todas. “‘Meu menino’, por ter sido apenas um bilhete que deixei para Danilo Caymmi quando começamos a namorar, nunca imaginando que um dia ele musicaria e seria gravada por Nana e Milton”, revela.

Com a espontaneidade e despretensão dos grandes compositores, Ana desfia mais contornos dessa história. “Era apenas uma forma de dizer que adorava seu lado brincalhão de moleque e que meu amor não significava uma posse. Muitas pessoas me dizem que é tudo que uma mulher gostaria de dizer para um homem e que um homem gostaria de ouvir”. Como se não bastasse, além da aclamação popular, a canção recebeu o aval do sogro da letrista, aquele considerado o maior compositor da Bahia, e um dos imortais dentro do cancioneiro nacional. “Da minha parceria com Danilo, essa era a que Dorival mais gostava” orgulha-se.

Entrevista: No Ritmo de Lucina

“Sol subiu: trabalho
Sol desceu; descanso
cave o poço e beba a água
cave o campo; coma o grão
Poder imperial existe? e para nós o que é?
A quarta; a dimensão do sossego.
E o domínio das feras.” Ezra Pound

Lucina

Quando ouviu João Gilberto cantar no rádio “Chega de Saudade”, Lucina decidiu ser música. E é para matar a saudade dos fãs e entusiastas de sua obra que a consagrada cantora, compositora e instrumentista, ainda com alma de criança, lança em 2014 três álbuns, shows, oficinas e é a protagonista, ao lado de Luhli, do documentário dirigido por Rafael Saar que conta a história das duas. Sobre a iniciativa, a entrevistada analisa: “Há muito várias pessoas tinham essa ideia do documentário, porque fomos ícones da geração 1970 e 1980 e cumprimos um papel único na música”, afirma.

A constatação de Lucina tem lastro. Natural de Cuiabá, capital mato-grossense, ela se encontrou com a carioca Luhli no Rio de Janeiro para fomentarem, com sucesso, uma carreira em parceria que incluiu sete álbuns, músicas gravadas por diversos artistas do primeiro time da MPB, além de contribuir efetivamente com a criação de uma música ligada às raízes campestres no Brasil, através do uso de tambores, violões, violas e letras, de rara sensibilidade, inspiradas nesse universo. “O financiamento do documentário será pela ‘Rio Filme’, logo ele estará nas telonas”, entrega ansiosa.

Crítica: espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui” incorre em excessos e não envolve espectador

“‘Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?’, e ás vezes: ‘Morcegos comem gatos?’, pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava.” Lewis Carroll

Nowhereland - Agora estamos aqui

Há boas referências ao universo do cineasta Tim Burton, que o coletivo “Movasse” se propõe a homenagear no espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui”, como às personagens de Beetlejuice, Edward Mãos de Tesoura, Alice no País das Maravilhas, Sweeney Todd – o Barbeiro de Sevilha, e outros. No entanto, a primeira parte do título em inglês já é prenúncio do distanciamento com o público e a incapacidade de envolvê-lo com uma dramaturgia que se perde, confusa, quanto mais se pretende explica-la. A inserção de falas em meio à dança nada acrescenta, pelo contrário, gera momentos constrangedores e despropositados à montagem, como na cena em que uma das atrizes emposta a voz com grossura e depois dirige graças à plateia.

Por outro lado, há os belos e mínimos movimentos de dança que almejam expressar o esquisito, grotesco e incômodo do ser humano tanto explorado pela lente aguda de Tim Burton. Andréa Anhaia, Carlos Arão, Ester França e Fábio Dornas acertam seus chutes à meta. O instante em que uma das protagonistas despe-se externamente e depois do coração, o acompanhamento pelos braços da música ao piano e principalmente o delicado arrumar de cabelo num canto do palco, enquanto outros acontecimentos se sucedem, mostra que a atração tem acertos pontuais, o que não é o bastante para arrebanhar o espectador, que a esta altura, em razão dos outros erros do espetáculo, já tem a exata noção de que tudo não passa de teatro.