Alain Resnais: cinema “sem tempo”

“Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam um sentido para mim.” Albert Camus

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O francês Alain Resnais optou por um tipo de cinema que influenciou e recebeu influência não apenas do próprio meio, mas estendeu-se à literatura, à fotografia, às artes plásticas e ao teatro. Basta ver em seus filmes como os atores e os planos se comportam. Como outro exemplo concreto o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, amante do cinema declarado, escreveu um conto em que usava o nome da que provavelmente seja a mais famosa e enigmática película de Resnais, “O Ano Passado em Marienbad”, de 1961.

É impossível passar por Resnais incólume, como prova o sucesso de bilheteria “Medos Privados em Lugares Públicos”, de 2006, mais de um ano em cartaz em São Paulo, e o aclamadíssimo “Hiroshima, Meu Amor”, de 1959. Seja pelo incômodo que o cineasta provoca, ou até pela beleza que emergem das cenas filmadas e das falas que entremeiam o desconexo à precisão, não à toa o homem que viveu 91 anos escreveu o nome na história do cinema mundial, com decisiva participação no movimento da Nouvelle Vague.

O Blecaute Que Iluminou O Brasil

“e aquela auréola que possuía, ao afastar-se de seu rosto, estendeu-se mais além, para iluminar outros sonhos.” Gustave Flaubert

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O rosto negro iluminando um sorriso branco são as primeiras armas que o General da Banda dispõe. Sem firulas ele ameaça com voz despojada de brasileirismo que cedo perdeu os pais e num rompante alcançou degrau artístico. Por ordenamento sugestivo do Capitão Furtado, radialista da Difusora de São Paulo, virou Blecaute e lançou para o carnaval sucessos do povo: Maria Candelária, Pedreiro Waldemar, Maria Escandalosa, Natal das crianças. Todas emergiram com letra maiúscula de sua garganta privilegiada. Otávio Henrique de Oliveira não foi nada mais que um cantor e compositor esquecido pela grife da música brasileira, mas alavancado às alturas em sua época áurea e definitiva.

General da Banda (samba de carnaval, 1949) – Sátiro de Melo, Tancredo Silva e José Alcides
Elegantemente trajando a farda que lhe foi ofertada, Blecaute se investe de alamares e dragonas para desfilar com alegria expressiva ao lado do Rei Momo, Rainha Moma, suas Princesas e Cidadão Samba. O ponto de macumba é sua criação refletida na fantasia que usa. Moldada por Sátiro de Melo, Tancredo Silva e José Alcides, começou a persegui-lo na rua. Até que ele foi certa noite em direção à batucada: “Chegou o General da Banda, ê! ê!, chegou o General da banda, ê! á!”. Em 1949, o pico de energia nas ruas chamava-se Blecaute.

Crítica: Espetáculo “Jovens Hermanos” do Ballet Jovem Palácio das Artes converte poesia em dança

“Dance, dance, senão estamos perdidos.” Pina Bausch

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Percebe-se que é uma dança quando o movimento das cores explode no quadro. Logo de cara, percebe-se que é uma dança. No entanto a dúvida permanece até o fim do ato. Percebe-se que é uma dança das cores, das tintas, no quadro. Portanto são bailarinos ou borrões de guaxe, acrílica, látex? Entre o azul da Argentina e o vermelho Portugal uma rã Brasil pula em verde, mancha as patas, escorre a língua entre uma perna e outro braço.

E uma cabeça, e quadris e um quadro: cores de véus, de vens, de vais. Aplausos. Risca no sol um chão, que racha. Escondem-se as cores, a luz se afasta, a escuridão é que toma conta. Cai o pendão, anuncia a morte, tão solitária, que ainda dança uma cor covarde. Toda amarela ela ri e chora, ela limpa as lágrimas, ela então implora: que volte o quadro. E então à noite aparece a lua, ainda brilham, milhões de anos, as estrelas mortas.

Entrevista: O Grande Amor de Ana Terra

“Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras” Ana Terra

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Não é por acaso que as letras de Ana Terra parecem cartas de amor. Embora muita gente não saiba é ela a mulher por trás de versos cantados na boca de Nana Caymmi, Milton Nascimento, Angela Ro Ro, e vários outros. Pois como num passe de mágica tudo começou de forma inesperada, até para a dona do condão. Tanto que ela tem dúvidas em considerar qual a primeira letra de música composta, mas nenhuma em apontar a mais especial dentre todas. “‘Meu menino’, por ter sido apenas um bilhete que deixei para Danilo Caymmi quando começamos a namorar, nunca imaginando que um dia ele musicaria e seria gravada por Nana e Milton”, revela.

Com a espontaneidade e despretensão dos grandes compositores, Ana desfia mais contornos dessa história. “Era apenas uma forma de dizer que adorava seu lado brincalhão de moleque e que meu amor não significava uma posse. Muitas pessoas me dizem que é tudo que uma mulher gostaria de dizer para um homem e que um homem gostaria de ouvir”. Como se não bastasse, além da aclamação popular, a canção recebeu o aval do sogro da letrista, aquele considerado o maior compositor da Bahia, e um dos imortais dentro do cancioneiro nacional. “Da minha parceria com Danilo, essa era a que Dorival mais gostava” orgulha-se.

Entrevista: No Ritmo de Lucina

“Sol subiu: trabalho
Sol desceu; descanso
cave o poço e beba a água
cave o campo; coma o grão
Poder imperial existe? e para nós o que é?
A quarta; a dimensão do sossego.
E o domínio das feras.” Ezra Pound

Lucina

Quando ouviu João Gilberto cantar no rádio “Chega de Saudade”, Lucina decidiu ser música. E é para matar a saudade dos fãs e entusiastas de sua obra que a consagrada cantora, compositora e instrumentista, ainda com alma de criança, lança em 2014 três álbuns, shows, oficinas e é a protagonista, ao lado de Luhli, do documentário dirigido por Rafael Saar que conta a história das duas. Sobre a iniciativa, a entrevistada analisa: “Há muito várias pessoas tinham essa ideia do documentário, porque fomos ícones da geração 1970 e 1980 e cumprimos um papel único na música”, afirma.

A constatação de Lucina tem lastro. Natural de Cuiabá, capital mato-grossense, ela se encontrou com a carioca Luhli no Rio de Janeiro para fomentarem, com sucesso, uma carreira em parceria que incluiu sete álbuns, músicas gravadas por diversos artistas do primeiro time da MPB, além de contribuir efetivamente com a criação de uma música ligada às raízes campestres no Brasil, através do uso de tambores, violões, violas e letras, de rara sensibilidade, inspiradas nesse universo. “O financiamento do documentário será pela ‘Rio Filme’, logo ele estará nas telonas”, entrega ansiosa.

Crítica: espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui” incorre em excessos e não envolve espectador

“‘Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?’, e ás vezes: ‘Morcegos comem gatos?’, pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava.” Lewis Carroll

Nowhereland - Agora estamos aqui

Há boas referências ao universo do cineasta Tim Burton, que o coletivo “Movasse” se propõe a homenagear no espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui”, como às personagens de Beetlejuice, Edward Mãos de Tesoura, Alice no País das Maravilhas, Sweeney Todd – o Barbeiro de Sevilha, e outros. No entanto, a primeira parte do título em inglês já é prenúncio do distanciamento com o público e a incapacidade de envolvê-lo com uma dramaturgia que se perde, confusa, quanto mais se pretende explica-la. A inserção de falas em meio à dança nada acrescenta, pelo contrário, gera momentos constrangedores e despropositados à montagem, como na cena em que uma das atrizes emposta a voz com grossura e depois dirige graças à plateia.

Por outro lado, há os belos e mínimos movimentos de dança que almejam expressar o esquisito, grotesco e incômodo do ser humano tanto explorado pela lente aguda de Tim Burton. Andréa Anhaia, Carlos Arão, Ester França e Fábio Dornas acertam seus chutes à meta. O instante em que uma das protagonistas despe-se externamente e depois do coração, o acompanhamento pelos braços da música ao piano e principalmente o delicado arrumar de cabelo num canto do palco, enquanto outros acontecimentos se sucedem, mostra que a atração tem acertos pontuais, o que não é o bastante para arrebanhar o espectador, que a esta altura, em razão dos outros erros do espetáculo, já tem a exata noção de que tudo não passa de teatro.

Crítica: peça “No Pirex”, do grupo Armatrux, equilibra a loucura com categoria

“ – Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.” Franz Kafka

No-Pirex

O texto é tão bem construído através dos gestos, ruídos e arroubos das personagens que não se ouve sequer uma frase ao longo dos 60 minutos de espetáculo. Entenda-se por personagens também os objetos, figurino, cenário, que participam e interferem na peça “No Pirex”, do grupo “Armatrux”, com a mesma precisão e eloquência dos atores Cristiano Araújo, Eduardo Machado, Paula Manata, Raquel Pedras e Tina Dias, todos com um desempenho tão sublime que é capaz de enlouquecer a plateia com toda a insanidade posta em cena e fazê-la crer no absurdo do mundo: uma mera fantasia de traços góticos.

Os recursos de humor físico, sempre explorados em favor de um pensamento ou ideia reflexiva permitem ao grupo arrancar o riso fácil do público sem abrir mão da consciência crítica ou partir para a esculhambação pura e simples. A força de um cuspe, uma facada ou qualquer outra agressão mais grosseira e violenta é capturada em seu melhor ângulo, cuja amplidão e alcance não se perdem no jogo que é feito entre o banal e o extraordinário, o comum e o surpreendente, afinal um retrato da vida sem almejar a pretensa do ininteligível e nunca beirando a rasteira do golpe baixo e omisso. É um malabarismo.

Entrevista: Claudette Soares, uma cantora LADO A

“Quando ia passear contigo ao campo,
Tu ias sempre a rir e a cantar;
E lembra-me até uma cotovia
Que um dia se calou pra te escutar” Florbela Espanca

Claudette-Soares

Com produção de Nana, texto de contracapa de Dori e participação de Danilo, a cantora Claudette Soares lança em março a sua homenagem ao centenário do pai da família Caymmi, Dorival. Não bastasse isso, Giba Esteves, companheiro dos três últimos álbuns, assina os arranjos. O disco sairá pelo selo “Pôr do Som”. Sem dar bola à modéstia, a entrevistada se gaba do novo trabalho. “Vai ficar um disco lindo! É um orgulho receber a bênção da família Caymmi. É a primeira vez que o Dori escreve uma contracapa, e o Danilo ainda canta comigo! A resposta da Nana foi a mais genial, ela me disse, ‘Claudette você vai fazer jobiniano, vai deixar chique, a tua leitura é chique e diferente’”, afirma a intérprete para depois acentuar: “É uma responsabilidade muito grande, mas também um desafio delicioso, eu adoro buscar esses caminhos”.

Apesar da indisfarçável alegria, a cantora afirma ser este “um ano complicado” para investir em cultura, já que “todas as atenções estarão voltadas para a Copa do Mundo no Brasil”. Outro fator de desânimo é com algumas características dos tempos atuais. “Hoje, infelizmente, nos dizem que é importante um CD pequeno, por que aí a pessoa escuta mais rápido, a coisa tá assim, né? Então são só doze faixas. Eu, por mim, gravava muito mais, principalmente quando se fala de Dorival Caymmi”, sublinha. Com um currículo de colocar inveja a muito medalhão da música brasileira, a cantora contabiliza uma discografia de 20 títulos em 50 anos de carreira, além de honrarias impossíveis de se medirem matematicamente. “Tive muita sorte de conhecer e me apresentar com o Dick Farney, o Gonzaguinha, a Clara Nunes”, enumera.

Waldick Soriano: o homem do povo

“Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas” Manuel Bandeira

Waldick-Soriano-sucessos

O preconceito não é coisa do povo não. Cordial e hospitaleiro com o cachorro e o dono. O povo na verdade gosta de ser feliz. E cantar. É, é isso mesmo. Natural, não é? Querer ser feliz, e cantar, e agradar quem lhe concede essas benesses. Por isso o povo não se furta em estender tapetes que não sejam vermelhos, mas das cores daquela casa, se for a Bahia, cores de orixás, cores do mar, cor de palha do cigarro que cospe a fumaça.

Um cantor é, pois, alegria do povo. Mesmo que eu fale rebuscado e entorte as palavras, eles, que interessam, entenderão o sentido quando o cantor desengaiolar da garganta os pássaros que vivem dentro dela. Imitas Durango Kid, com os óculos escuros e vestimenta preta, sobrevive fora da tela o cinema falado cruel. E Bienvenido Granda, o cubano, é inspiração.

O Reino do Samba de Carlos Imperial

“E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.” Cecília Meireles

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O pilantra que se auto-glorificava, Carlos Imperial, era mestre para advogar elogios em causa própria. Seus pupilos foram sempre dignos de receberem “Dez, nota dez!”, bordão que ele inventou para o carnaval carioca e que espalhava aos borbotões, infiltrando-se nos espaços mais obscuros com as ferramentas mais suspeitas que um rei pode utilizar. Seu Império subiu à superfície na base de muita esperteza, pilantragem e tino para a coisa, como ele próprio sugeria. O que ficou para a posterioridade? A imagem mal afamada de um sujeito querido por suas composições, cheias de suingue e ritmo balanceado, e contestado pela exibição barata de sua cafajestagem.

Mamãe passou açúcar em mim (pilantragem, 1966) – Carlos Imperial
Sem vergonha de utilizar métodos artificiais para promover seus objetivos, o Gordo, apelido de Carlos Imperial por sua postura corpulenta e despachada no comando de seus programas de TV ou no cinema, teve fundamental importância na criação do chamado rock jovem na música brasileira, que mais tarde ele rebatizaria de “pilantragem”. Depois de tentar lançar sem sucesso o ícone da Jovem Guarda que viria a ser Roberto Carlos e de participar da produção do primeiro álbum de Elis Regina, posta para rivalizar com Celly Campelo, Imperial viu no mulato Wilson Simonal sua mina de ouro descoberta. Foi pensando nele que o apresentador, cantor e agitador cultural mais aplaudido e vaiado nos anos 60, compôs a convencida “Mamãe passou açúcar em mim”, em 1966:

“Eu era neném, não tinha talco
Mamãe passou açúcar em mim
Mamãe passou açúcar em mim”