Crítica: peça “Humor”, do grupo Quatroloscinco, é melhor quando não se explica

“Dever de legisladores e magistrados
de cuidar pelo interesse sobre a literatura
e princípios de… bom humor…” Ezra Pound

Humor

Com texto próprio o grupo “Quatroloscinco – Teatro do Comum” se propõe a desvendar e apresentar os enigmas que emergem da palavra “humor”, título da nova empreitada. O trabalho dos atores é notável, assim como a montagem de cenário, trilha sonora, figurinos e os criativos efeitos visuais, como penas que voam de travesseiros e até da boca do médico. A construção em prosa com floreios à poesia se vale de excelentes ironias, como as direcionadas aos profissionais das áreas de saúde, direito e das artes cênicas, e a proposital mistura entre real e imaginário chega, de fato, a confundir a plateia, neste que é certamente o principal mérito da encenação.

O único porém fica por conta do excessivo monólogo que o intérprete de Amadeu trava com o público. Na tentativa de relativizar ele expõe uma opinião que é, justamente, objetiva. Isto empobrece a principal magia do teatro, jamais centrada na auto-explicação, mas sim no auto-entendimento de cada espectador. As imagens formadas na menção de pombos, cactos, cartas não recebidas, entre outras, contribuem para o clima árido a contemplar a cena, enquanto esta se debate com a caricatural chancela imprimida pelas personagens, seus artefatos e afetações. A irreverência e imprevisibilidade da trama como um todo merece destaque.

Crítica: peça “Pas de Deux para 2 mulheres” é comovente obra-prima

“Deixe então perecer sua esperança; e minha alegria esmorecer no deserto; avance nua.” Virginia Woolf

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Dizer que a peça “Pas de Deux para 2 mulheres” é baseada, além de em três textos de Virginia Woolf, na vida da escritora inglesa soa quase como uma redundância. Afinal a artista se entregou ao ofício como à própria vida, que refratava e auxiliava na difícil missão de permanecer, seguir, quando os impulsos de abandonar o mundo eram vários, constantes, diários. Foi em diários, contos, romances e peças entre um modelo e outro, a exemplo da preferência em contestar a exatidão das biografias, que Virginia escreveu um dos capítulos mais marcantes, inquietos e emotivos da moderna literatura. A frouxidão do tempo, do espaço e da condição humana aparece na obra “Orlando”, em que a personagem atravessa séculos e gêneros.

Ao passo em que “Mrs. Dalloway” centra-se na questão da memória, do vazio existencial e das pesadas correntes do passado. Entre uma e outra, um cachorrinho, personagem central de “Flush”, que fará o papel de aproximação e distanciamento entre as duas protagonistas, vividas, na peça, por Andréia Gomes e Luciana Veloso. O desempenho das intérpretes é arrebatador, do começo ao fim, e, por incrível que pareça, cresce à medida que o enredo se desenvolve, deixando no espectador a sensação de extensa proximidade com aquelas vidas, a ponto de não querer que elas se dissolvam ao cerrar das cortinas, aqui invisíveis, como tantas coisas que só se percebem no espetáculo, a partir da magia improvável do bom teatro.

As Músicas Que Clodovil Cantou

“Em assuntos de vital importância, o estilo, e não a sinceridade, é o verdadeiramente vital.” Oscar Wilde

Clodovil

O falar empolado e as idiossincrasias da personalidade tornaram Clodovil uma figura caricata. Infelizmente, a imagem que cristaliza o tempo nem sempre é a mais próxima da realidade. Estilista consagrado, após estrondoso sucesso passou a se dedicar menos à alta costura e mais àquilo que considerava a realidade da maioria da população de seu país, oposta à dele, já incorporado a uma privilegiada minoria da elite financeira do Brasil. Astuto, Clodovil tanto se ofereceu às artes como estas a ele. Criou moda para peças teatrais e filmes.

Nos palcos não apenas interpretou personagens, inclusive na televisão, quase unicamente sendo o próprio ou algo muito próximo disto – com algum disfarce de troca de nome, quando muito – como se deleitou a soltar a voz com o rigor e a elegância que pautaram suas costuras e alfinetadas, em canções tarimbadas. Além da pecha de barraqueiro, polêmico e briguento, alcunhas construídas pelo apresentador ao longo dos anos em programas muito populares, Clodovil foi um homem com talento e dom para a cultura e a arte.

Entrevista: Passoca, o violeiro da vanguarda

“olhe a luz nas tábuas, a mesma que incendeia as árvores lá fora. A tarde nas tábuas. Deixe que lhe penetre a densa espera do chão.” Ferreira Gullar

Passoca

Marco Antônio Vilalba, apesar do apelido popular, não se encontra em qualquer banca. Um dos ditos que profere talvez ajude a resolver o enigma. “Toda arte tem que ser experimental”, diz. Passoca, compositor, cantor e violeiro, tem um trabalho associado tanto à música caipira quanto à vanguarda paulista. Natural de Santos, formou-se em arquitetura na faculdade de São José dos Campos, onde começou a construir o caminho que culminou no mais recente disco, “Suíte Paulistana”, de 2012, uma ode à cidade de São Paulo quando de seu aniversário de 458 anos.

“Conheci Arrigo Barnabé na década de 1970, através de uma amiga em comum”, relembra. Nesta época, Passoca tocava na banda “Flying Banana”, que lançou um disco em 1977, e também abriu show para o compositor cearense Ednardo, antes de lançar o primeiro trabalho solo, “Que Moda!”, com composições que já refletiam o espírito rural-urbano de sua obra, onde constavam parcerias com Renato Teixeira e clássicos de Hekel Tavares e Joracy Camargo, tudo sob a ótica pouco ortodoxa do entrevistado. “Minhas influências começam na era do rádio, de lá pra cá passou muita gente”, avisa.

Entrevista: Déa Trancoso, o bem-te-vi de Almenara

“pôr de sol pingo de saudade
a flor cheiro de mel na água cor de leite
acorda o peixe
sonho de fósforo” Paulo Leminski

Dea-Trancoso

Déa Trancoso era uma ilustre desconhecida do grande público quando recebeu indicação ao Prêmio de Música Brasileira em 2007, nas categorias disco regional, cantora regional, projeto visual e cantora por voto popular, em razão do disco “TUM TUM TUM”. Não levou nenhuma. Mas o fato já lhe valeu “um louro enorme”, diz ela sobre concorrer “com grandes nomes da MPB”. Além disto, o álbum, inicialmente lançado por seu próprio selo, foi relançado em 2010 pela “Biscoito Fino”. Agora, depois de 30 anos morando em Belo Horizonte, Déa está de volta ao Vale do Jequitinhonha, de onde saiu e que lhe inspirou o incensado trabalho. “Hoje resido em São Gonçalo do Rio das Pedras, alto do Vale, minha região natal”, confirma.

Nascida em Almenara, perto da divisa de Minas Gerais com a Bahia, Déa é hábil experimentadora de sotaques, influências, origens. Seu trabalho confunde-se com a pesquisa, onde ritmos embrionários, como o semba, e rituais indígenas, como o catimbó, constituem espinha dorsal. A respeito dos planos para o novo ano, a entrevistada segue a natureza. “Em 2014 completo 50 anos. Não tenho planos. Desse modo quem comanda, hoje, é o vento. Meu único desejo é lançar meu primeiro livro de poemas. No entanto, isso está vinculado ao destino. Se ele quiser, chegará a hora de lançar. Senão, aguardo. Tudo sem pressa. Tudo calminho”, diz. Com uma discografia iniciada em 2006 e que contém três títulos, a artista colocou no mercado em 2012 box completo.

Entrevista: Cida Moreira, a dama continua indigna

“Há uma rosa linda
No meio do meu jardim
Dessa rosa cuido eu
(quem cuidará de mim?)” Bertolt Brecht

Cida-Moreira

Em época de modelo, manequim e dançarina, Cida Moreira, além de cantora, atriz e pianista, é um poema. Não é figura de linguagem. A artista paulista, nascida na capital em 12 de novembro de 1951, recebeu os versos de Marcelo Fonseca em sua ode, com que aproveitou o título para batizar o mais recente álbum, “A Dama Indigna”, lançado em 2011 em CD e DVD pela gravadora do DJ Zé Pedro, “Joia Moderna”, e pela “Lua Music”, respectivamente. “O essencial para a minha vida é que tudo tenha muita qualidade, opção feita por mim desde sempre, isso se aplica principalmente à música, onde passeio por muitos gêneros, pela minha própria formação musical, que é muito boa, graças a Deus”, reflete a entrevistada espirituosamente.

No disco ela entoa canções de Jards Macalé, Gonzaguinha, David Bowie, Tom Waits, Amy Winehouse, etc. Na opção audiovisual há ainda a participação de Thiago Petit, e diferentes músicas de Brecht e Angela Ro Ro. “Sou uma cantora que tem suas raízes no drama, no teatro. Minha personalidade é teatral, e é com ela que faço minha arte, seja qual for o autor ao qual me dedique, não tenho preferências. Tenho os artistas que afetam minha alma e são estes que canto. Em quem não tenho esta crença, não canto, por respeito a mim e ao autor”, arredonda. Ao longo de carreira fonográfica iniciada em 1981, e que conta com 10 títulos, além de coletâneas e participações, Cida gravou de Eduardo Dussek a Zé Rodrix, passando por Vicente Celestino.

Crítica: peça “Lampião e Lancelote”, com Cassio Scapin e trilha de Zeca Baleiro, oferece atrativos para crianças e adultos

“Se as coisas são inatingíveis
Ora…não é motivo para não querê-las
Que tristes os caminhos
Se não fora a presença distante das estrelas.” Mario Quintana

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Inspirada no livro de Fernando Vilela, a peça “Lampião e Lancelote” é um exercício de fantasia que permite refletir sobre aspectos básicos da trajetória humana. O mítico encontro entre uma personagem real e outra lendária, acentuando-se, no entanto, que ambas tornaram-se parte do folclore de suas terras, é, por si só, interessante. Afinal percebemos que o cangaceiro Lampião e o cavaleiro Lancelote, mesmo distantes em questão de tempo e espaço, e principalmente ideologia, passam por motivos comuns a quase toda e qualquer vida: luta, sobrevivência, revolta, amor, medo, tristeza, alegria, talvez felicidade.

Cenários, luz e figurinos carregam nas tintas, na beleza, nos brilhos, nas mirabolantes reviravoltas, o que certamente encantará a crianças de todas as idades, assim como o texto, simples e didático, seguindo o ritmo e a temática dos cordéis, a fim de angariar menos complexidade e mais divertimento para a fábula. A condução do espetáculo é bem feita por Cassio Scapin, melhor quando tem a oportunidade de utilizar sua veia cômica, assim como o restante do elenco que, embora tenha desempenho desigual, não compromete o andamento, com menção especial para a intérprete de Maria Bonita.

Crítica: exposição “Segredos do Egito” elucida contradições de uma civilização

“O homem move um dedo. Devagar e com cuidado, ele move um dedo para pegar uma gota de mel. Ameaçado por tantos perigos, e amedrontado por ver a morte por todos os lados, ele ainda não era livre do desejo. O desejo pelo mel o manteve vivo.” Krishna Dvapayana Vyasa

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A exposição “Segredos do Egito”, apresentada gratuitamente em shoppings de quatro cidades brasileiras, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Ribeirão Preto, elucida as contradições de uma das civilizações mais fascinantes da história da humanidade. A obsessão pela beleza e pela morte pode ser conferida de perto tanto nos mínimos detalhes de precisão artesanal quanto no desenvolvimento da ciência e das questões matemáticas que conservou corpos e elevou pirâmides até hoje indestrutíveis antes mesmo das nomenclaturas “medicina” e “engenharia” ocuparem os dicionários.

O misto entre fantasia e realidade condensa toda a cena, de uma exuberância sem fim na ostentação do ouro, das pedras preciosas, dos papiros e dos desenhos minuciosos. É inegável o talento dos egípcios para a arte, não à toa eles influenciaram um dos grandes nomes da pintura austríaca e mundial, o simbolista Gustav Klimt. O tom de mistério, petrificado nos olhares dos deuses, e especialmente da esfinge corroboram para a ludicidade da exposição. As construções suntuosas de época aparecem em miniatura, e nem por isso perdem a imponência, ao contrário.

Entrevista: Gerson Conrad, ex-Secos & Molhados, relembra trajetória

“Mas só não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária” Vinicius de Moraes

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De cara limpa o músico Gerson Conrad, ex-integrante da formação clássica do grupo “Secos & Molhados”, relembra, em livro, essa trajetória. Lançado em 2013 pela editora Anadarco, “Meteórico Fenômeno”, no entanto, não pôde contar com fotos de um dos envolvidos na banda que revolucionou a imagem e o som da música brasileira na década de 1970. “Em verdade, não houve problemas em relação ao livro que pudessem me preocupar. Eu e minha editora tomamos os cuidados legais, solicitando aos antigos companheiros de ‘Secos & Molhados’ a autorização do uso de imagem. O Ney, de cara, autorizou. João reservou-se ao direito de não querer sua imagem publicada. Simplesmente respeitamos sua decisão”, esclarece Gerson.

Os dois que ele chama apenas pelo primeiro nome são nada mais nada menos que Ney Matogrosso, vocalista dos históricos discos lançados em 1973 e 1974, e João Ricardo, fundador do trio ao lado de Conrad, e autor de sucessos como “O Vira”, com Luhli e “Sangue Latino”, com Paulinho Mendonça, entre outros. As desavenças com João Ricardo, que muitos apontam como responsável pela dissolução do grupo, já são conhecidas há tempo. O próprio Ney Matogrosso declarou em entrevistas que o fator ganância foi determinante. Dono da marca “Secos & Molhados”, João apresenta-se atualmente com a quinta formação do nome, ao lado de Daniel Iasbeck. Sobre a não autorização, disse à imprensa: “De jeito nenhum! Seria uma estupidez, há 39 anos não nos relacionamos”.

Inofensivo

“Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou
sublime.” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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– A conversa que nunca houve faz falta. As ondas assobiavam na sua passagem. Tia Sueli, a mulher traída. Uma pilhéria de ossos e fendas. Abriam pele e carne, onde encontraram apenas coração. Esferas nos olhavam aquela noite. Olham tudo que está morto, ladeado de feéricas atitudes passíveis amordacei a colmeia, como comédia de costumes e erros, quem pensa após o jantar na rotunda sesta. Sabor de hibisco lavrava a mor te. Aquiles, nosso herói grego, descansava em terras morenas, cantilenas indígenas, peito da mãe virgem. Queria tanto para mim um Ser sem compromisso. Um Deus que me negasse isso ou aquilo, mas no final das contas fizesse as pazes comigo. Nisso todos morremos, vivemos também. Levita a Cordilheira dos Andes onde trafegam carícias e cicatrizes.