Análise: Kid Vinil orbitou a cena e influenciou outras estrelas

“E a luta de resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.” Ferreira Gullar

Kid Vinil e seu acervo musical

Kid Vinil foi dessas figuras que orbitam a cena sem se preocupar, necessariamente, em estar no centro. Se emplacou dois sucessos no posto de vocalista da banda Magazine, ambas no estilo de crônica e tendo como pano de fundo a cidade de São Paulo – com “Sou Boy” e “Tic Tic Nervoso” – sua contribuição para além da própria carreira certamente foi mais efetiva, e se estendeu até outras estrelas. Além de influenciar gerações que empregaram ou mantiveram os preceitos do rock com as informações imprescindíveis para se entender essa história, repassadas através de suas participações no comando de programas de rádio e televisão, Kid lutou para adiar ao máximo o arrefecimento do gênero consagrado nos anos 1980 em seu país, movimento do qual fez parte dentro e fora dos palcos.

O Amigo da Onça

“O fantasma é um exibicionista póstumo.” Mario Quintana

Nem que a vaca tussa existe país no mundo mais pródigo em ditados do que esta terra de cego aonde quem tem um olho é rei. Dizem que este ouro em pó, tal diamante de sangue, como madeira de lei, é herança dos escravos trazidos da África, que não tomavam manga com leite e para tirar leite de pedra se comunicavam uns com os outros dessa maneira sem ter de engolir o sapo. Se quem veio antes, o ovo ou a galinha, não convém reclamar de barriga cheia, porque quem pega no pé ainda lhe puxam a orelha. São ossos do ofício, e dá pano pra manga tentar dar um nó em pingo d’água, coisa de quem tem um parafuso a menos. É muita cara de pau fazer um negócio da China a preço de banana. Segura que lá vem chuva de canivete. Já vi gente ficar tanto tempo com uma pulga atrás da orelha que acabou soltando os cachorros. Tinha o diabo no corpo. É como dizem, quem cedo madruga, Deus ajuda. Quem tarde se deita, o diabo aceita. Força de expressão, ou fraqueza do espírito de porco. Cada macaco no seu galho é a receita ensinada para não ter de pagar o pato.

Crítica: peça “Sem título, óleo sobre tela” promove alegoria da situação política

“Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total. O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento. Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e prestimosos. É a vossa função social!” Oswald de Andrade

Peça debate situação política do país

Datada de 2014, quando foi encenada pela primeira vez, a peça “Sem título, óleo sobre tela” parte de uma premissa política sem se prender exclusivamente a ela. A questão temporal também não engessa a montagem, que tem o mérito de oferecer elementos capazes de se conectar às várias sensibilidades. Dito isto, escapa da redoma que invariavelmente distancia o teatro que propõe certo engajamento nos últimos tempos, sem dar voltas ao redor de discurso cujo alvo é justamente o isolamento e a criação de nichos por parte das classes dominantes. Com uma dramaturgia, a rigor, simples, todo o potencial da trama está contido no subtexto e, nisto, o texto tem habilidade ao selecionar palavras que jamais se encerram em apenas um sentido. Assim como os gestos, já que o humor físico é uma das apostas feitas para trazer a reflexão através de risos.

A Arte imita a Vida

“Não tenho absolutamente nenhuma ojeriza pelas adivinhas; acho até que são bastante úteis, pois mantêm e sustentam no nosso espírito essa coisa que é mais necessária à nossa vida que o próprio pão: a ilusão.” Lima Barreto

Nelson Xavier interpreta Chico no cinema

Pixinguinha, Chacrinha, Bozo e Carlos Marighella irão viver novamente, graças à magia do cinema. Figuras da atualidade como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, o maestro João Carlos Martins e a trupe do Planet Hemp também terão suas vidas contadas na tela grande em 2017. Nada que já não tenha acontecido com Olga Benário, Leila Diniz, Luz Del Fuego, Noel Rosa, Tiradentes, Heitor Villa-Lobos, Xica da Silva, Madame Satã e Bruna Surfistinha. A prática é comum também fora de terras brasileiras – vide os casos de Napoleão, Gandhi, Edith Piaf, Truman Capote, Oscar Wilde e mais uma infinidade – e, embora crescente, está longe de ser novidade. No entanto, a quantidade de filmes com essa temática prevista para estrear no Brasil este ano revela que há algo de novo acontecendo no mercado.

Em 2016, por exemplo, a cinebiografia de Elis Regina levou 538 mil espectadores às salas de cinema, sendo a nona maior bilheteria de um filme nacional no ano. Protagonizado por Andreia Horta, a mimese da personagem impressionou leigos e especialistas, embora o longa-metragem não tenha sido tão bem recebido pela mídia especializada, que acusou a “opção claramente conservadora do ponto de vista cinematográfico, o que, aliás, é norma do cinema brasileiro atual”, escreveu o crítico Inácio Araújo. Luiz Bolognesi, roteirista do filme, ao lado de Hugo Prata (diretor) e Vera Egito, afirma que a maior dificuldade em uma empreitada deste vulto “é condensar uma vida que teve 36 anos em uma hora e meia de duração, pois é preciso estabelecer um recorte e definir a linha que iremos seguir para contar a história”. No caso de “Elis” a opção foi priorizar “a relação dela com os homens, desde o pai, passando pelos maridos (Ronaldo Bôscoli e César Camargo) até os amantes, pois tiveram uma importância fundamental na obra dela, foram todas relações intensas e atribuladas que ela levou para a música”, considera.

Análise: Almir Guineto tomou partido de sua gente com o pagode

“Tem que lutar, não se abater
Só se entregar a quem te merecer
Não estou dando nem vendendo
Como o ditado diz
O meu conselho é pra te ver feliz” Adilson Bispo & Zé Roberto

Almir Guineto gravou a música "Conselho"

Ironicamente Almir Guineto jamais registrou em disco o seu maior sucesso como compositor, “Coisinha do Pai”, lançada por Beth Carvalho e regravada com igual êxito por um dos parceiros na criação, Jorge Aragão. Por outro lado, uma das músicas mais lembradas na voz de Guineto não foi escrita por ele. “Conselho”, dos versos “deixe de lado esse baixo astral/erga a cabeça, enfrente o mal/que agindo assim será vital para o seu coração”, é uma obra de Adilson Bispo e Zé Roberto. O que apenas revela a coesão da identidade artística e social do sambista, quase que unicamente ligado e preocupado com a sua gente e as questões relativas a ela, dando nenhuma ‘pelota’ para o que vinha de fora. Tanto que desprezou um fã ilustre, quando Mano Brown, vocalista do grupo de rap Racionais MC’s, assumiu a sua idolatria. O comportamento autossuficiente de Almir Guineto era também a sua resistência.

Análise: Canto marcado de Belchior definiu gerações

“Eis uns poucos exemplos/de ser a palo seco,
dos quais se retirar/higiene ou conselho:
não o de aceitar o seco/por resignadamente,
mas de empregar o seco/porque é mais contundente.” João Cabral de Melo Neto

Belchior é autor de "Como nossos pais"

Quando gravou o seu primeiro LP, em 1974, o Brasil vivia, há dez anos, sob o pleno domínio da tenebrosa ditadura militar que assolou o país até 1985. Para a música de Belchior esse contexto era imponderável. Nascido no interior cearense, as agruras de uma pobreza social uniam-se à violência estabelecida pela política em suas crônicas, cujas letras eram transformadas em música com o auxílio do violão. Todavia, o caráter altamente narrativo e a maneira marcada de se expressar – com forte referência do canto falado de Bob Dylan e da dicção pausada da carioca Nora Ney, sucesso absoluto na “Era de Ouro” do rádio – deram às canções de Belchior, especialmente quando interpretadas por ele, uma característica muito diferente de tudo o que se fazia na sua época. A palavra, ali, se posicionava antes da melodia, e sobressaltava a ela sem nenhuma culpa. Tanto que ainda hoje é possível recitá-las como um manifesto.

Centenários 2017: Ella Fitzgerald, o estilo a serviço da emoção

“E ao redor de todas aquelas cenas pitorescas e modorrentas, acima das árvores e das casinholas e dos rios lamacentos, flutuava o calor, nunca hostil, apenas reconfortante, como um grande peito cálido e nutritivo, amamentando a terra ainda criança.” F. Scott Fitzgerald

Ella Fitzgerald, dama da canção

Não existe comprovação de nenhum parentesco sanguíneo envolvendo Ella Fitzgerald e F. Scott Fitzgerald, mas é certo que tanto a cantora quanto o escritor norte-americano tinham algo em comum nas funções que desempenharam ao longo da vida: o estilo conciso, elegante e, até certo ponto, discreto, marca o canto de Ella assim como a escrita do autor de “Um Diamante do Tamanho do Ritz” e outros contos notáveis. O que não significa que houvesse falta de sentimento, na verdade, em ambos os casos, o estilo estava a serviço da emoção, mas não entregue a ela, prova de uma consciência que, associada a experiências de vida, fornece aos ouvintes e leitores o que se considera uma obra de arte em música e na literatura. Ella teve uma infância pobre e, tal qual a nossa exemplar brasileira Elza Soares, vestia-se tão maltrapilha que quase foi recusada pelo famoso chefe da orquestra que a acompanharia por vários anos, Chick Webb. No caso, sempre como coadjuvante, pois o estilo vinha todo de Ella Fitzgerald, “a dama do jazz”.

Análise: Jerry Adriani moldou personalidade com versões românticas

“Doce, doce amor, onde tens andado
Diga por favor, doce, doce amor
Doce, doce amor, que eu vou te encontrar
Meu bem, seja onde for” Raul Seixas & Mauro Motta

Jerry Adriani cantou em português, inglês e italiano

É curioso notar que o cantor Jerry Adriani tenha influenciado artistas tão diferentes como Renato Russo e Raul Seixas. Embora ambos sejam associados ao rock ele exerceu sobre cada um impressões díspares. O que vem a revelar uma característica marcante da trajetória de Jerry. É difícil defini-lo não pela amplitude de seu estilo, mas, justamente, porque este foi moldado a partir de um repertório que procurou abarcar várias vertentes. Associado à Jovem Guarda, Jerry é, sobretudo, um cantor romântico. Nesse sentido, tanto a canção italiana que seduziu o líder da Legião Urbana quanto a sensualidade rebelde de Elvis Presley presente na gênese de Raul Seixas convergem para a mesma direção: a passionalidade. É certo que Renato a compreendia de maneira sincera, emocionada, tal como Jerry, ao passo que Raul se valia do sentimento para desferir suas ironias ferozes e inteligentes sarcasmos. Não é o caso de “Doce, doce, amor”, música que Seixas e Mauro Motta escreveram para o já consagrado Adriani no ano de 1972.

3 músicas brasileiras para Tiradentes

“Ele representava o eterno dissidente, o constante inconformado, o eterno rebelde.” Reinaldo Arenas

Tiradentes foi retratado na música de Minas

Símbolo da insurgência por sua atuação destacada na Inconfidência Mineira – mártir e principal símbolo do movimento – o alferes Joaquim José da Silva Xavier teve sua trajetória retratada na música, no cinema, na literatura, no teatro e nas artes plásticas, dentre outras manifestações culturais igualmente populares, tanto que o apelido tornou-se, inclusive, nome de cidade mineira: Tiradentes. Especificamente na canção, o rebelde Tiradentes foi exaltado em forma de samba-enredo, usado em paródia carnavalesca e cantado com lirismo numa valsa cuja matriz principal é o chorinho. Seja como for, sua imagem permanece levando para gerações a premência da liberdade, ainda que tardia.

10 álbuns essenciais de Milton Nascimento

“Trabalhando o sal, pra ver a mulher se vestir
E ao chegar em casa, encontrar a família a sorrir
Filho vir da escola, problema maior de estudar
Que é pra não ter meu trabalho, e vida de gente levar” Milton Nascimento

Milton Nascimento é símbolo do Clube da Esquina

Milton Nascimento quer voltar às origens. Há 50 anos ele iniciou sua “Travessia” dentro da música brasileira com álbum de título homônimo. Agora o cantor celebra as “bodas de ouro” e estreia show. O retorno é também a Minas Gerais. Em junho do ano passado Milton deixou o Rio de Janeiro e fixou residência em Juiz de Fora. Como se não bastasse, escolheu Belo Horizonte para apresentar, pela primeira vez, o espetáculo “Semente da Terra”. Os ingressos esgotaram-se rapidamente. “Esse show marca o meu presente, minha carreira, meus amigos, meu passado e, sobretudo, as coisas que eu vejo no mundo de hoje, todos esses fatores convergem para a minha música”, assinala o artista, que retornou aos palcos após mais de um ano afastado.