Noel Rosa: sambista de todos os desejos

“Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia” Noel Rosa

Noel-Rosa

O poeta da vila, como ficou conhecido por ter nascido, vivido e consagrado o bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, nasceu no dia 11 de dezembro de 1910, e faleceu no dia 4 de maio de 1937, vítima de uma tuberculose. Noel Rosa foi um poeta jovem, que nos deixou aos 26 anos.
Um poeta jovem que nos presenteou com todos os tipos de cantos.
O canto alegre, o canto triste, o canto que enfeitiçou a Vila. O canto do samba rindo que canta a dama da Lapa e toda a dor que existe. Todo o amor que existe.

“Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende
E que me quer bem”

Sucessos da divina Elizeth Cardoso

“A voz divina ainda se dissolvia quando cada palavra voltou a cair, em chuva de flores.” Mallarmé

Elizeth-Cardoso

Elizeth Cardoso, Divina Rainha da música brasileira. Rainha negra, Mulata Maior que desde cedo cantava os sucessos de Vicente Celestino, e aos cinco anos subiu pela primeira vez ao palco. Rainha que sentava “Naquela Mesa”, no meio do povo que chorava a morte de Jacob do Bandolim, o amigo que a levou para fazer um teste na Rádio Guanabara. E ali começa sua trajetória a se tornar estrela enluarada. Logo, a menina nascida na Estação de São Francisco Xavier no dia 16 de julho de 1920, estaria entoando canções que seriam sucesso em todas as casas, todos os lares, todos os barracões de zinco do país. Elizeth Cardoso seria em breve, a própria canção de amor que cantou.

“Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de amor, saudade!”

Haroldo Lobo & as marchinhas sobre Getúlio Vargas

“o carnaval passa
guardada na mala
a tua meia máscara” Paulo Leminski

Haroldo-Lobo

Haroldo Lobo, considerado um dos maiores compositores carnavalescos de todos os tempos, nasceu no Rio de Janeiro no dia 22 de julho de 1910 e morreu no dia 20 de julho de 1965 na mesma cidade. O autor de marchinhas inesquecíveis como “Alá-lá-ô”, com Antônio Nássara, “Retrato do velho”, com Marino Pinto, “Eu quero é rosetar”, com Milton de Oliveira, e “Tristeza”, com Niltinho, sucesso imortalizado na voz de Jair Rodrigues, completaria seu centenário de vida em 2010.

Haroldo Lobo venceu diversos concursos de carnaval e teve suas músicas gravadas por nomes como Aracy de Almeida, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Jorge Veiga, Carlos Galhardo, Linda Batista, Carmen Miranda, dentre outros. O folião que transformava a vida em melodia é sempre lembrado nas rodas de bar que discutem sobre aquele que escreveu a marchinha que fala do deserto do Saara, ou aquela outra que falava sobre Getúlio Vargas. Por seu caráter popular e divertido, Haroldo Lobo terá sempre seu nome festejado como um dos imortais do carnaval brasileiro.

5 Músicas Cantadas Por Mussum

“Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

Mussum

Um dos trunfos do programa “Os Trapalhões”, que ficou no ar de 1977 a 1993 com quadros inéditos, além de um sem número de filmes, é que os personagens interpretavam a si próprios. O protagonista Renato Aragão de fato o cearense, retirante nordestino na cidade grande. Dedé Santana o suburbano carioca. Mauro Gonçalves, o Zacarias, o único com formação de ator através do rádio, sugeria piadas de homossexualidade, e não raro usava vestimentas, gestos e vozes femininas e infantilizadas. E Mussum, o sambista do morro.

Se Didi e Dedé formaram seu humor principalmente através do circo e tinham uma veia prioritariamente espontânea e de improviso, mais ainda se pode dizer desta naturalidade em Antônio Carlos Gomes. O gosto pelo samba, pela bebida, pelos dizeres invocados e a paixão pelo Flamengo eram reais. Mussum vivia na tela o que vivia nos palcos de asfalto, nas mesas de bar e nas arquibancadas. O próprio apelido sugeria uma maneira lisa e escorregadia de escapar de enrascadas, característica do peixe que inspirou Grande Otelo nesse batizado.

Pérola da noite

“para um poeta, a fantasia é a realidade e a realidade nada significa.” Oscar Wilde

toilette

Peça teatral: Gângsters. Discussão: o que arranjar com pérola da noite. Quantos: quatro. Características pessoais: todos armados. Fisionomia: um gordo, dois fortes, outro alto. Fumam: charutos. Bebem: em copos quadriculados. Substância: desconhecida. Relatório para futuras providências.

Pérola da noite está amarrada no sótão. Não no porão. O cheiro ralo atrapalharia seu penteado. São loiros seus finos fios de cabelos dourados. Entretida com um espelho, passa batom nos carnudos lábios (cor: vermelha) e se diverte ouvindo a discussão no andar de baixo. Possuidora de seios fartos e um traquejo infalível para diferenciar whisky de rum, é, no entanto, solitária.

Entrevista: Lanny Gordin, o maior guitarrista de todos os tempos

“quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor” Allen Ginsberg

Lanny-Gordin-entrevista

Não são poucos os que o consideram “o maior guitarrista de todos os tempos”, palavras que cabem na boca de Eduardo Araújo, e que com um ajuste aqui outro ali bem poderiam ser de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé ou Chico César – que o homenageou na canção “Lanny Qual?”, lançada em 1995 pela cantora Vange Milliet – todos parceiros de vida e estrada do brasileiro filho de pai russo, mãe polonesa e que nasceu na China, com passagem por Israel.

Toda essa miscelânea ajudou a formar o som de Lanny Gordin, que prepara para 2014 o lançamento de seu quinto disco solo. “O álbum já está pronto e deverá ir para as lojas em maio. Tem 13 faixas de músicas da Tropicália, standards do jazz internacional, 2 músicas free que fiz com o Edgard Scandurra na hora e mais uma minha já conhecida do público, além de outra inédita feita especialmente para este CD”, revela.

Zé Wilker: o imortal Vadinho

“Quero
Ser o riso e o dente.
Quero ser o dente
E a faca.
Quero ser a faca
E o corte.
Em
Um só beijo
Vermelho.” Tom Zé

Ze-Wilker

Dois dos personagens mais marcantes da carreira do ator José Wilker protagonizaram triângulos que se não eram exatamente amorosos são certamente cheios de humor. O papel título conseguido na novela “Roque Santeiro” e a interpretação de Vadinho na primeira versão cinematográfica de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” exploram o absurdo da existência com pouco ou nenhum grau de profundidade.

Era aí que Zé Wilker deitava e rolava. Pois de uma forma sisuda, elegante, contida, sempre aproveitava as brechas para explicitar o cinismo, desencanto e ironia com que assistia a vida. E assistia do lado de dentro do copo, com uma predileção pela maneira pop de caminhar sobre os trilhos da mídia de grande massa em elementos descombinados, espalhafatosos na cor dos óculos e dos sapatos, rindo do culto à afetação, aos maneirismos.

Ataulfo Alves, uma lenda brasileira

“ – Os primeiros cantos são feitos de rosas despetaladas. Lembram o paraíso antes do pecado.” Murilo Rubião

Ataulfo-Alves

O Negrinho do Pastoreio carrega suas velas, símbolo do agradecimento daqueles que perderam algo. O Urubu malandro e suas pastoras levam o samba, modinhas mineiras aprendidas em casa, numa pequena Miraí que circulou o país pelos “tempos de criança”. Para um são celebradas missas, rezas, oferendas de flores. Para o outro, realizam-se rodas de samba, serestas, cantorias e serenatas. São homens-meninos da mais alta estirpe popular, um tem o peito nu, o outro traja ternos elegantes. Ambos têm a condição de lendas, com toda a justiça por tantos feitos espetaculares. Por causa disso, são eternos: Tanto o menino escravo, quanto o outro, filho de violeiro e versejador, mais conhecido por sua assinatura em melodias e letras, Ataulfo Alves.

Errei, erramos (samba, 1938) – Ataulfo Alves
Filho do Capitão Severino, assim chamado o conhecido violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona Mata de Minas Gerais, pode-se dizer que Ataulfo Alves nasceu em berço de ouro da música popular brasileira. Porque foi através do DNA paterno que aprendeu a retrucar as trovas que virariam versos, e mais tarde, clássicos. O primeiro da safra do mineiro tímido que rumara da Fazenda Cachoeira para o Rio de Janeiro pode-se dizer que foi “Errei, erramos”, na interpretação do “Cantor das Multidões” Orlando Silva, depois de alguns sucessos nas vozes de Almirante, “Sexta-feira”, Carmen Miranda, “Tempo perdido”, Floriano Belham, com “Saudade do meu Barracão”, Silvio Caldas, a valsa “A você”, em parceria com Aldo Cabral, e Carlos Galhardo, na parceria com André Filho, “Quanta Tristeza”. O samba de 1938 foi lançado quando Ataulfo já detinha certo prestígio não somente aos olhos do descobridor e padrinho Bide, da dupla com Marçal, mas de grande parte do mundo do samba. Na canção, Ataulfo utiliza duas de suas temáticas favoritas, o amor e o sofrimento, que juntos recebem um julgamento filosófico com preceitos religiosos, onde o autor divide as culpas do sentimento que não vingou: “Esse princípio alguém jamais destrói. Errei, erramos.”

Dalva de Oliveira: A dor que grita

“Vieram, por ti, músicas límpidas,
trançando sons de ouro e de seda.” Cecília Meireles

Capa

Dalva de Oliveira, a Rainha do Rádio, da dor, do Trio de Ouro, da comédia e da tragédia do amor.
Sua voz emocionada e comprida procurava Deus, Ave Maria e os amores que perdeu.
Procurava as flores, a grande verdade e o segredo da vida.
Procurava bandeira branca para a guerra em que seu coração se envolveu.

“Eu, que lutei tanto contra a inveja e maldição,
Sinto essas mãos enfraquecidas a sangrar,
Que já não podem te apertar,
Foge de mim”

Or(Leans)DEM e Bragança: Progresso (?)

“há um país lutando por baixo com a bola nos pés” Wally Salomão

Eugène_Delacroix_-_La_liberté_guidant_le_peuple

Estava aquele rapaz como outro qualquer, que nada tinha de especial, impressionado com aquela vista. Mansões enormes, dignas de serem comparadas aos castelos fabulosos que ele ouvira falar na infância e vira no cinema das comédias americanas. Três, quatro, cinco andares em um único espaço, quase tão ou mais impressionantes que a grandiosidade dos maiores prédios que já havia visto. Recheados de janelas, varandas, quintais, portas, portões, portais.

Homens de preto e cara amarrada fechavam-se em pequenas casinhas embutidas nos casarões. Jardins que não possuíam apenas o verde clássico que ele apreciara muitas vezes em filmes, livros e fotos de cartão postal. Não, ali naqueles jardins que pareciam florestas havia de todas as cores, tantas cores que eram inclusive mais cores que as cores do arco-íris. Tantas flores que eram inclusive mais flores que as flores do buquê de rosas da dama do filme.