Silvio Caldas: Seresteiro das perdidas ilusões

“Arrancando do coração
– Arrancando pela raiz –
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.” Manuel Bandeira

Silvio-Caldas-seresteiro

Não é nenhum exagero dizer que Silvio Caldas é o maior seresteiro que o Brasil já teve. Dono de uma interpretação preciosa e de grande voz, que usava para esmerilhar a beleza de cada palavra da melodia, o Caboclinho Querido foi um dos cantores mais requisitados pelos maiores compositores de sua época, a exemplo de Ary Barroso e do poeta Orestes Barbosa, de quem, mesmo a contragosto, musicou inúmeros poemas, sendo o mais famoso deles: “Chão de Estrelas”. A história dessa música começa em 1935, quando Silvio visitou o poeta Guilherme de Almeida e lhe mostrou os versos, até aquele momento intitulados “A Sonoridade que Acabou”. Ao final da apresentação, impressionado com as imagens das “estrelas no chão”, Guilherme sugeriu novo nome. E ali eram escritos e ensaiados um dos mais belos passos da música brasileira, agora com o título de “Chão de Estrelas”. Anos depois, em uma crônica publicada em 1956, o poeta Manuel Bandeira definiu com precisão toda a força daquela poesia: Se se fizesse aqui um concurso para apurar qual o verso mais bonito de nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes: “tu pisavas nos astros distraída…”. Versos esses imortalizados na voz sofisticada e galanteadora de Silvio Caldas, sempre ouvida, mesmo que dentro d’almas, nas melhores serestas do país.

“Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões”

O Desenho Original Da Música De Nássara

“leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura” Paulo Leminski

nassara

Antônio Nássara, ou simplesmente Nássara, nasceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 11 de novembro de 1910 e faleceu no dia 11 de dezembro de 1996. Compositor e caricaturista, Nássara foi vizinho de Noel Rosa, e compôs com ele a marcha “Retiro da Saudade”, gravada por Francisco Alves e Carmen Miranda em 1934. Nássara completaria em 2010, 100 anos de vida, e foi o autor de sucessos como “Alá lá ô”, com Haroldo Lobo, “Mundo de Zinco” e “Balzaquiana” com Wilson Batista, “Formosa”, com J. Rui, “Periquitinho verde”, com Sá Róris, entre outros. Autor do primeiro jingle do rádio brasileiro, Nássara tinha como uma de suas marcas registradas parodiar e utilizar versos de outras músicas em suas composições. Além disso, foi ele o ilustrador da capa do LP “Polêmica”, que trazia caricaturas de Noel Rosa e Wilson Batista. Por sua irreverência afiada de traços melodiosos e firmes, Antônio Nássara será sempre lembrado como um dos grandes artistas brasileiros, tanto na música, como no desenho, e merece todas as homenagens nesse centenário do seu nascimento.

Crítica: “Cazuza – Pro dia nascer feliz – O Musical” não alivia barras nem emoções

“Todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito!” Cazuza

cazuza-musical

A trajetória de Cazuza já foi contada em cinema, livro e televisão, e agora chega ao teatro com o musical “Pro dia nascer feliz”, mas é inegável que a melhor montagem da vida do protagonista foi feita por ele mesmo no contato diário com pessoas e sentimentos que transformou em canções. O próprio Cazuza afirma que “no final tudo vira letra de música”, ao conciliar-se com o namorado Serginho em uma das muitas brigas apresentadas no espetáculo.

Aliás, um dos maiores acertos do musical é não aliviar a barra para seu herói, como o próprio sempre fez questão. Preferia ser “amado por uns e odiado por outros como Caetano” do que “amado por todos como Roberto Carlos”. Além da persona pública explosiva, tendente a chiliques, esculhambações e agressividades, fica clara a ternura de Cazuza nos atos subliminares, nas palavras doces ditas em meio a ameaças, no humor inteligente e ágil usado para enfrentar a morte, na flexibilidade das ideias em contraposição à rispidez dos modos, e a comoção final a um personagem que tinha tudo para soar antipático é a catarse de uma vida legada à integridade, sem meios termos ou poucas palavras.

10 Sucessos de Jair Rodrigues

“Ao compasso da cadência
Do brotar das estrelas até a meia-luz
Da meia-luz até a meia-luz
Incessante a cadência” Ezra Pound

Jair-Rodrigues

Jair Rodrigues colocou de cabeça pra baixo e jogou para cima a música brasileira como no movimento das mãos que embalam o rap. Uma invenção tão faceira quanto a mania nunca abandonada de plantar bananeira em pleno palco, ou onde quer que fosse chamado para se apresentar. O “Cachorrão”, como era conhecido pelos mais íntimos por questões que escapam ao domínio da figura pública, emendou uma coleção de sucessos desde o princípio da carreira. Alcançou o auge de maneira tão instantânea que em pouco tempo já cantava com Elis Regina, consolidava ao mundo o talento de Geraldo Vandré numa “Disparada”, vencia aquele Festival e cativava a plateia com uma nova ordem. A ordem de Jair Rodrigues, onde só a alegria era permitida e a tristeza só entrava em letra de samba.

Entrevista: Todos os T´s e acentos nos IS de Tetê Espíndola

“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.” Manoel de Barros

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Tetê Espíndola nunca foi artista de um voo só. E não é espantoso para os que conhecem de perto a trajetória da cantora e instrumentista, além do espanto de admiração já recorrente, que ela alce voo duplo ao lançar o álbum que contém duas fases distintas da carreira. Com link para venda no site oficial da artista, o novo trabalho agrega no mesmo encarte os discos “Pássaros na Garganta”, lançado em 1982 com músicas de Tetê, Arrigo Barnabé e Carlos Rennó, e que lhe rendeu à época o prêmio APCA de artista revelação, e “Asas do Etéreo”, totalmente inédito, com participações deliciosamente ao sabor de Tetê.

“O álbum duplo já foi lançado em São Paulo, no SESC Vila Mariana, em março, com a participação de todos os convidados”, revela. Entre estes figuram nomes habituais das andanças pelos ares de Tetê, como Arrigo Barnabé, DuoFel, Felix Wagner, Paulo Lepetit, e outros convocados para esta ocasião especial, cuja sintonia com o trabalho da artista é inegável. Lá estão Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Jacques Morelenbaum, Almir Sater, Trio Croa, Teco Cardoso, Bocato, Marcelo Pretto e o rebento natural da artista, o filho querido Dani Black. Com lançamento pelo selo SESC, a arte da caixa ficou a cargo de Lula Ricardi.

Valesca Popozuda no Museu de Paris

“A maioria das gentes vive de convicções e não de ideias.” Mario Quintana

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É daquele célebre desconhecido a frase sobre “o que falamos dos outros revelar mais de nós mesmos”. A recente celeuma provocada pela inclusão de uma pergunta sobre Valesca Popozuda numa prova de filosofia tem muito a esclarecer sobre esta tese. Parece-me mais revelador analisar a reação da sociedade em sua pretensa maioria do que a questão propriamente dita que é, sem dúvida nenhuma, mal formulada.

Em todo caso, lembra-me uma atitude um tanto mais ousada e bem empregada, que data do século passado, quando o artista plástico e poeta francês Marcel Duchamp enviou um urinol para o “Salão dos Artistas Independentes” de Nova York, na tentativa de exposição. À época rejeitada hoje a obra que confunde e prejudica muitos “artistas considerados modernos” figura entre as peças mais cobiçadas de um museu em Paris.

O escritor dos silêncios

“Tudo aquilo para que temos palavras é porque já ultrapassamos.” Nietzsche

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Nunca sequer disse uma palavra. Seus livros eram páginas em branco. Emanava.

Não alcançara nada porque sempre esteve todo. Chegara ao ponto máximo. Almejado por todos entre todos os escritores, sem nunca ter pronunciado: Não tinha o que dizer.

Não utilizava palavras, conjunções verbais, imagens, sons, metáforas, linguística, gramática: Ultrapassara.

A Flor & O Espinho De Nelson Cavaquinho

“Quando eu passo
Perto das flores
Quase elas dizem assim:
Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim” Nelson Cavaquinho

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O jeito de tocar o violão e o cavaquinho que lhe rendeu o apelido, beliscando as cordas com dois dedos, e a voz sempre embargada de uma profunda tristeza, ajudavam a compreender a essência daquele artista. Mergulhado na boemia, Nelson Cavaquinho fazia da melancolia seu mote para compor sambas sinceros e profundos, como “Folhas Secas”, “A flor e o espinho” e “Quando eu me chamar saudade”, todas com Guilherme de Brito, além de criar a obra-prima “Luz Negra”, na qual mais uma vez se despedia da vida, alçada ao sucesso nas vozes de Nara Leão e Elizeth Cardoso. Sempre ligando o amor à tragédia, Nelson Cavaquinho foi um instrumentista, compositor e poeta que viveu a vida inspirado pela morte, e que soube tirar dela, letras e melodias cheias de luz, mesmo negras, cheias de flores, mesmo que com espinhos e cheias de folhas, até mesmo as secas.

A flor e o espinho (samba, 1957) – Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha
“A flor e o espinho” nasceu do cavaquinho de Nelson com a ajuda de mais um desses parceiros que ele conheceu nas mesas de boteco. Guilherme de Brito pediu a todos que tirassem o “sorriso do caminho”, pois ele ia passar com sua dor. O autor desses versos imponentes e tristonhos realmente conheceu Nelson em seu habitat preferido, mas diferente de outros “compositores de ocasião”, participou com poesia e não com dinheiro da canção gravada pelo cantor Raul Moreno, em 1957. O outro parceiro de Nelson na canção é Alcides Caminha, que só mais tarde teria sua identidade revelada, era o desenhista Carlos Zéfiro, famoso pelos quadrinhos eróticos nas décadas de 50 e 60. Escondido com sua voz nos porões do “Cabaré dos Bandidos”, Nelson só apareceria em disco em 1965, ao tocar seu violão rústico na música que era cantada por Elizeth Cardoso. O álbum chamava-se “Elizeth sobe o morro”. Nelson descia aos poucos para o estrelato.

5 Músicas Cantadas Por Grande Otelo

“Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir” Hilda Hilst

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Nas palavras de Herivelto Martins, Grande Otelo tinha “mania de compositor”. O pequeno Sebastião Prata que nasceu em Uberlândia transformou-se num dos maiores atores cômicos do Brasil, e morreu como o inconfundível Grande Otelo no aeroporto de Paris, quando se preparava para receber uma homenagem. Imortalizado na alma brasileira de Mário de Andrade, ao interpretar Macunaíma no cinema e receber o prêmio de melhor ator, Otelo também se destacou como cantor e compositor de grandes sambas.

Praça Onze (samba de carnaval, 1942) – Herivelto Martins e Grande Otelo
Em 1941, quando ficou sabendo da intenção da prefeitura de demolir a Praça Onze, abrigo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Otelo indignou-se e escreveu versos românticos e tristonhos sobre o fato. Então levou a letra para músicos como Wilson Batista, Max Bulhões e Herivelto Martins, a fim de que a musicassem. Nenhum deles se interessou muito, mas o azar de Herivelto era que esse o via todo dia, pois os dois trocavam-se juntos no Cassino da Urca. Herivelto dizia que não cabia samba naquela letra, pois o que Otelo tinha escrito era um romance, com versos do quilate de “Oh Praça Onze, tu vais desaparecer”. Eis que devido à insistência diária do noviço compositor, Herivelto irritou-se e começou a cantar de improviso versos sambados, dizendo para o humorista: “O que você quer dizer é isso: vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai…”, Otelo empolgou-se e começou a escrever ali mesmo os outros versos da canção, enquanto Herivelto tocava a melodia no violão. Quando ficou pronta, a música foi gravada pelo Trio de Ouro com a companhia de Castro Barbosa, e trouxe na execução uma novidade inventada por Herivelto e que fez grande sucesso entre os foliões, o uso do apito para dar ritmo. Todos que sentiam a perda da Praça cantaram e dançaram na avenida a música que dividiu o prêmio de melhor samba do ano de 1942 ao lado da clássica “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Grande Otelo ria como fazia rir, apesar da tristeza pela perda da praça, ele conseguiu o que queria.

As Músicas Na Voz De Jamelão

“nenhuma nuvem, mas o corpo de cristal
a tangente formada na concha da mão
como vento vivo em alamedas de faias
como vigoroso ar entre ciprestes” Ezra Pound

Jamelao

Dormia o fruto na planta, quando um ruído doce o despertou. Veio assim, de repente, sem saber de onde vinha, pra que vinha, com a perfeição que a natureza confere aos pré-destinados. José Bispo só saíra de casa com seu pandeiro na intenção de paquerar as meninas, e divertir-se ao som do ritmo. Não imaginava que o coração guardava a verde e rosa coloração da Mangueira, nem que tua pele negra marotamente lhe daria uma assinatura.

Única e inimitável, como estilo, não como nomes que se repetem. Despertou o fruto, a assinatura, a cor, o ritmo, a voz vigorosa, extrema, suspensa e pesada, puro aço cintilante e admirável. Jamelão cantou o samba de sua escola, e a dor de cotovelo do professor do samba-canção, Lupicínio Rodrigues. Excursionou com a Orquestra Tabajara de Severino Araújo, desfilou em parques europeus o brasileiro autêntico que sempre foi, e é ainda, pois é possível ouvir em discos a deflagração do objeto que amanheceu vida.