10 Músicas Do Brasil Sobre Futebol

“é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.” João Cabral de Melo Neto

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Música e futebol, no Brasil, têm vocabulário próprio. Não por acaso algumas expressões podem ser usadas para se referir tanto a uma quanto ao outro. Por exemplo: ginga, suingue, ritmo, harmonia, direção. Outras ainda mais inusitadas provam o poder de criação e improviso nos dois campos. Só no Brasil cabe dentro de uma partida de futebol a pelada, o drible da vaca, a bicicleta, a folha seca e alguns cachorros que vez em quando invadem. É que o brasileiro joga como se fosse música, e toca como se fosse futebol.

“Jardim Urgente” é destaque em “Tá no ar: a TV na TV” ao criticar comportamento policialesco

“(…) o ridículo é a tragédia sem grandeza.” Mario Quintana

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Welder Rodrigues é um capítulo à parte na composição do personagem Jorge, o apresentador do programa “Jardim Urgente”, mais um dentre os quadros de “Tá no ar: a TV na TV” que parodiam a mídia brasileira. Merece destaque, não apenas por imitar todos os cacoetes, os exageros e as esquizofrenias, como pela alta crítica que carrega em cada gesto, seja milimétrico ou expansivo. Um dos momentos auge é a transição da pretensa indignação com a “bandidagem” para a hora do merchandising, em que é preciso “falar de coisa boa”.

Ponto que indica o quanto tudo não passa de atuação, não neste humorístico em especial, mas no original. É óbvia e hilária a alusão a José Luís Datena, certamente o principal nome do gênero que incita e estimula o comportamento policialesco, e a seus repórteres. A sacada de ambientar os “crimes” em maternais e creches, onde os “infratores” são “menores”, e alguns até bebês também é de rara inspiração.

Produtos naturais

“no começo assim como quem cava um poço no deserto, depois, aos poucos, sentindo a areia mais úmida, uns filetes d’água brotando lentamente, até agora, quando me sinto na iminência de mergulhar o corpo nesse lago (talvez mar)-eu-os outros-cosmos, não sei.” Caio Fernando Abreu

max-ernst-elefantes

Claudete não é Soares, nem queria ser cantora. À verdade, desconheço-lhe sobrenome. Aviso sua profissão tão antiga quanto outras: servir aos homens. Pode-se identificá-la (Claudete, a secretária) facilmente como uma solteirona macilenta que fuma ou inala litros de cigarro entre telefones ocupados e surdos, crispados por um amarelo ocre.

Estes (os cigarros, não os telefones) Claudete pede ao velho pai que sempre a amola com questões sobre impotência, que os compre. Não que ele seja um velho tarado, nem que não seja. É que Claudete sem sobrenome trabalha vendendo produtos naturais que ajudam o homem (e a mulher) a ter desempenho melhor esperado na cama. Como já deve ter dado para perceber, são produtos energéticos e revigorantes.

O Compositor Preferido De Carmen Miranda

“E a rota que deviam seguir estava escrita nos ritmos,” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

Synval-Silva

Carmen Miranda seguiu seu cortejo final ao som de música. A música escrita por Synval Silva, o motorista que conferiu sucessos inestimáveis para os quais a Pequena Notável foi eternamente grata. Muito mais do que os contos de réis que ela pagava para Synval, sua real recompensa foi o nome gravado com pérolas na música brasileira. “Adeus, adeus, meu pandeiro de samba, tamborim de bamba, já é de madrugada…” é o tom da despedida que saúda o compositor mineiro entronizado carioca, com anel de samba, cidadão legítimo do ritmo dessa gente bamba.

O Samba Elegante De Walter Alfaiate

“Nenhum gato vira-latas tem tal linha de omoplatas
E o talhe das calças fino.” T. S. Eliot

Walter-Alfaiate

Do bigode cortiço, o sorriso largo, entre janelas. Do chapéu ajeitado, a cuca rara, imagina sambas e festas. Da profissão de batismo, o nome artístico, para toda a vida: Walter Alfaiate. Porque há certas coisas impossíveis de serem ensinadas, requentadas, postas na panela, apenas se nasce, com elas. Assim foi com este menino, conhecido do grande público quando já um homem maduro, respeitado e respeitador, especialmente com o ritmo que tudo lhe deu.

Dolores Duran: O amor renasce a cada manhã

“É de manhã, vem o sol
Mas os pingos da chuva que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me traz esta canção” Dolores Duran

Dolores-Duran

Dolores Duran, a cantora da noite do seu bem que viajou na “Aza do Vento” em busca da “Estrada do Sol”.
Dos 10 aos 29 anos cantou todas as línguas do amor.
O amor magoado.
O amor triste.
O amor que nunca desiste.
Todas as línguas da dor.
A dor do filho que não nasceu.
Do final feliz que não aconteceu.
Do amor eterno, que morreu.

“Eu não te amo por que quero
Se eu pudesse esqueceria
Vivo, e vivo só por que te espero
Esta amargura, esta agonia”

A Graça & A Música De Ivon Curi

“Se tem uma coisa que detesto nesse mundo são as festas obrigatórias em que as pessoas choram porque estão alegres” Gabriel García Márquez

Ivon-Curi

Lá vem o mineiro distinto de Caxambu, rodando uma bengala da tradição francesa, com o sotaque apaziguado de bobo da corte. Engana-se quem julga a primeira aparência e não confere a peruca, o sujeito dito é um lorde, mímico das canções que não dispensa a fala e os gestos para acrescentar riquezas ao que canta e salienta.

Ivon Curi, assim meio discreto, meia cachaça, meio pão de queijo, firmou-se como um dos grandes nomes da era de ouro do rádio por saber explorar o que tinha de melhor, e mais, encontrar praticamente um nicho virgem à sua espera. Ali, no território da sátira, da brincadeira, e da impertinência charmosa, ele conquistou milhares de fãs, ouvintes assíduos, clamorosos por sua presença, enfim, fez o que se esperava de um grande artista: plantou a semente da eternidade.

Os Últimos Dias De Paganini

“Agora, a furtiva serpente desliza
Na dócil humildade
E o justo enfurece nos desertos
Onde vagam os leões.” William Blake

Paganini

Cansado dos boatos a seu respeito. Acalmar os nervos. Copo d’água com açúcar. Vê-se no espelho com ossos a intimidar a rotina. Frívolo, ferve numa xícara rosa a mistura. Prepara chá de amendoeiras. Sacode as ancas que ainda lhe restam. Pressionadas. Distendidas. Extensas. Recolhe as pernas compridas e largas à cadeira de palha a incinerar cortina defronte lareira aquecida. Febre. Gripe. Simulações esquisitas. Há o que não entendo.

O que sobrar ao manejo serve para cutucar risos, relva, raiva. Austero. Copo se quebra. Despedaça de sua mão fragilizada em ramos circulares. Outrora insano, agora contemplativo. Restabelece memórias no coração enferrujado. Capim, palha. Óleo acende tuas olheiras. Conduz eletricidade.

Entrevista: Luhli segue na estrada das montanhas

“À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.

O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.” Hilda Hilst

Luhli

A história de Heloisa Orosco na música brasileira começa mesmo antes dela nascer. Afinal não é qualquer pessoa que é sobrinha-neta de Noel Rosa, nome que dispensa as apresentações. Já com o apelido de Luhli e ao lado de Lucina essa carioca que hoje vive refugiada em Nova Friburgo, no distrito de Lumiar, onde ela carinhosamente chama “as montanhas”, se embrenhou em carreira de sucessos, luzes e experimentações. Sem esquecer, é claro, os tambores que ela ainda fabrica. “Dou oficinas sobre música e cristais, faço presentes musicais e dirijo um coral experimental percussivo que está em plena expansão”, emenda na sequência de um apanhado de projetos e planos.

Um dentre eles chama especialmente a atenção. O lançamento do filme que contará a história da dupla, de Rafael Saar e batizado “Yorimatã”, nome de disco e canção das duas. “Acho que não se deve batizar os sonhos. Criar expectativas é querer programar o futuro, isso pode impedi-lo de ser o que deveria. Prefiro deixar fluir”, analisa a respeito do tema. E acrescenta: “Esse filme é sobre uma dupla que se desfez há anos, eu e Lucina somos amigas, mas cada uma tem a sua vida e carreira. Não gostaria que o filme fizesse parecer que voltamos a ser dupla, isso está fora de questão”, garante. A expectativa de lançamento é ainda para 2014, trailers já circulam na internet.

Ciro Monteiro: O Samba do Formigão da Música Brasileira

“Enquanto teus lábios cantam
Canções feitas de luar,
Soluça cheio de mágoa
O teu misterioso olhar…” Florbela Espanca

Cyro-Monteiro

Há raros casos de formigas que exercem o papel de cigarra. Nessa desordem, Ciro Monteiro se encaixa. O apelido no aumentativo (Formigão), veio em decorrência da criatividade do parceiro Eratóstenes Frazão. A razão permanece misteriosa em tempos recentes. O que nunca foi segredo para ninguém que entendesse do riscado, ou, em outras palavras, de samba, é que o primo de Cauby Peixoto (outro bom de apelido, “Professor”), sempre esbanjou talento rítmico para cantar as preciosidades feitas na época. Claro, auxiliado pela inseparável caixinha de fósforos a fim de marcar o compasso.