Crítica: Exposição “Barroco – Brasil / Itália – Prata e Ouro”, exibe martírio na forma de beleza

“Para trazer ao feno
o senso da escultura,
concentro-me: sou boi.” Carlos Drummond de Andrade

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Os românticos já choravam, os hebreus já choravam e os barrocos também. Por trás dessa ideia de sofrimento a redenção como combustível para a esperança humana. No caso da exposição “Barroco – Brasil / Itália – Prata e Ouro” oferecida pela Casa Fiat de Cultura em Belo Horizonte, ocorre uma divisão entre a arte dos napolitanos, talhada com o primeiro material, e a dos homens das Minas Gerais, com a madeira e o segundo. Além de exibirem figuras santas, deixam clara a capacidade artística de extrair do martírio o belo, e talvez nisso a chave para suportar as idiossincrasias da vida e do universo.

5 Sucessos do Quarteto em Cy

“para quê expressar-se melhor do que estes lótus, estas rosas, estes jasmins quietos, inapanhados: já não tinham dito tudo?” Mallarmé

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A história do “Quarteto em Cy” é uma estória de mudanças. Da Bahia, no interior, em Ibirataia, para o Rio de Janeiro. Do Rio para os Estados Unidos. Dos Estados Unidos para a Europa e da Europa para o Japão. De Cyva, Cynara, Cybele e Cylene, as irmãs iniciais, para Sônia Ferreira, Dorinha Tapajós, Sandra Machado, Regina Werneck, Cymíramis e Keyla. Neste caminho passaram Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, MPB-4, Ivan Lins, e outros. Pois uma coisa é permanente, nessa história e nesta estória, o “Quarteto em Cy” não dá ponto sem nó, nem deixa sem pingo o Y. E a música flui sabiámente.

7 Músicas de Paulo Leminski

“um pouco de mao
em todo poema que ensina
quanto menor
mais do tamanho da china” Paulo Leminski

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O “samurai malandro”, como ficou conhecido o poeta de Curitiba Paulo Leminski, traduz, logo no codinome, a gama de contradições e opostos que atraíram o artista. Com descendência polonesa e africana, Paulo furou o umbigo do Paraná e de lá puxou oriente, Brasil e Europa. Cinema, judô e arte plástica. Aquele que com aparente superficialidade ia do raso ao profundo, do clássico ao populacho. E foi sendo “mínimo em matéria de máximo” que Paulo Leminski construiu uma obra cuja precisão e musicalidade o eternizou junto a gentes variadas. Pois como pede o mendigo da praça, sobre os poetas deixem os poemas falarem.

Entrevista: O Universo Cabeludo de Carlos Careqa

“Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.” Allen Ginsberg

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Rogério Skylab esquece de perguntar o assassino de Carlos Careqa em sua canção “Eu Quero Saber Quem Matou”, mas Cida Moreira, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Tetê Espíndola não deixaram de prestigiá-lo em seu CD de estreia, “Os Homens São Todos Iguais”, em 1993, com sugestiva capa recheada de ironia, e eis aí bom indício de por onde trafega o compositor, ainda que afirme em seu terceiro disco: “Não Sou Filho De Ninguém”, lançado em 2004. Dez anos depois contabiliza dez títulos na discografia, além de participações e trabalho como produtor. Muito longe desses números, ao acaso, redondos, Carlos traça seu caminho na inventividade. “O mercado não quer um cara rebelde como eu. Não quero ficar cantando a mesma música a vida toda”, afirma.

Nascido em Lauro Muller, interior de Santa Catarina, o intérprete mudou para Curitiba aos cinco anos, e lá se formou como artista frequentando grupos de teatro e participando de campanhas publicitárias. Sobre a importância da arte dramática em seu processo de composição musical, define: “Importância Suprema. Tudo é cena. E a todo o momento tenho que prestar atenção no que está acontecendo, e isto vai virando música”. Já a possível “escolha” por uma carreira pautada no mercado independente é rechaçada. “Eu não optei. As coisas foram acontecendo. Tenho ideias, e assim vou caminhando. A música independente é isto, sem amarras, sem gente mandando. Faço o que quero, o que me der na telha. Não faço música experimental. Acho que eu faço coisas bem palatáveis, mas sou independente por que a vida me quis assim”.

100 anos de Aracy de Almeida: a jurada e a cantora

“Quis levar também um bom floreiro e um ramo de rosas amarelas para conjurar a sorte ruim trazida pelas flores de papel, mas não encontrei nada aberto e tive que roubar num jardim particular um ramo de recém-nascido amor-perfeito.” Gabriel García Márquez

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Engana-se quem pensa que a participação de Aracy de Almeida como jurada do programa de calouros do apresentador Chacrinha, e depois Silvio Santos, tenha distorcido a imagem da cantora. Basta ouvir as gravações de entrevista da intérprete contando de sua relação com Noel Rosa, o começo da carreira, e a forma despojada no uso da voz na canção para perceber que Aracy sempre teve uma personalidade ímpar, da qual não se podia descolar, a princípio, personagem e vida. Se muitos dos seus maneirismos pareciam caricaturais e provocavam o riso é porque ela nunca fez questão de enquadrar-se em “bons modos”, “princípios”, e é justo nisso que se diferenciou, na década de 1930, entre tantas cantoras do Brasil. Foi, ao lado de Carmen Miranda, um destaque.

Entrevista: A independente Selmma Carvalho lança festa própria

“ao ruído do rufar dos tambores, para devorar resíduos
para a festa de um usuário a fim de mudar o
valor de uma moeda” Ezra Pound

Selmma Carvalho foto Miguel Aun 4

Desde que foi indicada ao Prêmio Sharp na categoria “cantora revelação”, em 1997, muita coisa rolou na trajetória de Selmma Carvalho. Acompanhada, à ocasião, pelo amigo, jornalista, compositor e conterrâneo Ezequiel Neves – conhecido, sobretudo, pelas parcerias com Cazuza – a entrevistada lançara um ano antes o seu primeiro disco. Natural de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, hoje ela celebra o lançamento e os shows de “Minha Festa” no tom apropriado. “Um ano após a gravação do meu terceiro CD, ‘O que será que está na moda?’, eu já pensava no próximo, mas não sabia ao certo o que queria”, confessa. No repertório, além de quatro canções autorais, uma novidade na carreira, figuram composições de Samuel Rosa, Nelson Cavaquinho e parcerias com Sérgio Moreira, Vander Lee e Paulo Santos.

“Quando resolvi gravar, tinha somente umas quatro canções em mente e algumas composições próprias ainda por terminar. Por isso mesmo, a maior parte do repertório foi definida ao longo do processo de gravação”, contorna Selmma, que faz questão de ressaltar a importância do produtor Rogério Delayon. “Conversamos muito sobre sonoridades, timbres, músicos convidados, vocais, participações especiais. Construímos aos poucos, experimentando instrumentos e ouvindo os resultados. Com certeza, a etapa mais demorada de todo o processo.”, afirma. Entre os participantes estão Chico César, Sérgio Pererê e Fred Martins. Com mais um CD lançado de forma independente, Selmma pretende seguir nesse caminho. “Sou independente desde o primeiro CD, portanto nem penso em procurar uma gravadora, somente meu segundo álbum tem o selo da CPCUMES, de São Paulo”.

Análise: Lauren Bacall, o brilho do cinema noir

“Se a lua sorrisse, teria a sua cara.
Você também deixa a mesma impressão
De algo lindo, mas aniquilante. (…)
Nela, a boca aberta se lamenta ao mundo; a sua é sincera,
E na primeira chance faz tudo virar pedra.” Sylvia Plath

Lauren Bacall

Quando Lauren Bacall aparece na tela é impossível desviar o olhar. Não por acaso ela se tornou uma atriz muito mais famosa por cenas do que personagens. Algumas antológicas podem ser vistas em “Uma Aventura Na Martinica” e “À Beira do Abismo”, ambos da década de 1940, em que Bacall empresta o magnetismo a aparentes banalidades como acender cigarros e cantar amparada ao piano. O olhar sedutor acompanha toda e qualquer ação.

Não é por acaso que no período áureo da carreira de Lauren ela não tenha se destacado em nenhuma interpretação específica. Estrela da espécie de filmes cujo maior representante segue sendo um de seus maridos, que conheceu nas filmagens, Humphrey Bogart sempre foi aclamado por representar o mesmo personagem – ele próprio – em qualquer película. Com Bacall, nessa época, não foi diferente. E o cinema noir deve ao casal muito de seu melhor brilho.

Análise: Robin Williams, um típico ator norte-americano

“O nome dos gatos é um assunto matreiro,
E não passatempo dos dias indolentes;
Podem me achar doido igual a um chapeleiro
Mas um Gato tem TRÊS NOMES DIFERENTES.” T. S. Eliot

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Robin Williams foi um típico ator norte-americano, identificado e representante de um modo de fazer cinema baseado na extrema qualidade técnica e em conteúdos geralmente rasos, onde a tríade de clichês determinava o andamento da história: orgulho, superação e a conquista. Mas se destacou entre tantos justamente por um caráter específico. Robin trazia algo de incorreção, improviso, e soube usar muito bem a força de sua expressão facial e física, como provam alguns dos seus mais famosos filmes. “Popeye”, “Uma Babá Quase Perfeita”, “Patch Adams”, “Jumanji” são exemplos.

Crítica: Tímida, “Cássia Eller” explode em direções diversas em “O Musical”

“Eu poderia ser um monge do Nepal
Um jardineiro, um marinheiro, etc e tal
E não há nenhuma outra hipótese que eu não considere, mas
O que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller” Péricles Cavalcanti

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É difícil, num musical cheio de méritos, apontar um só. Então vamos por partes, como sentenciou Jack. Figura lendária na história da música brasileira, principalmente na renovação da imagem do rock a partir dos anos 1990, Cássia Eller tem a sua trajetória contada em espetáculo dirigido por João Fonseca, o mesmo de Cazuza, com a ajuda fundamental de Vinícius Arneiro na mesma função e outros nomes importantes, como Gustavo Nunes, que idealizou e produziu a empreitada, Lan Lan, percussionista que namorou e trabalho com Cássia, na direção musical, Fernando Nunes, outro que conviveu com a protagonista, na codireção musical, e Patrícia Andrade, responsável pelos textos. Mas entre tantos brilhos individuais a cena é dos atores.

Cássia Eller, mimetizada por Tacy de Campos, que já fazia cover da cantora antes de estrelar a peça, entra de costas, em escolha acertada que logo de saída apresenta traço importante de sua personalidade: a timidez excessiva, ou até, quem sabe, certo desinteresse e enfastiamento de convenções sociais. Convenções estas que a intrépida artista fazia questão de colocar abaixo quando, no palco, transformava-se numa poderosa Cássia pelo simples poder de sua voz, nem eram precisos atos extremos que, vez ou outra, apareciam, como a mania de exibir os seios que a marcou anos depois. Mas tudo isto, fica claro, sempre foi muito mais fruto de uma espontaneidade genuína e duma criança indígena que cultivou em si do que atos mercadológicos.

Crítica: “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô” e encontra caminho num “TRIZ”

“o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam) ” e. e. cummings

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Companhia de dança de Belo Horizonte com maior prestígio o “Grupo Corpo” volta à capital mineira para apresentar dois espetáculos em uma única noite. No primeiro deles, “onqotô”, a presença de uma dramaturgia bem definida e as canções de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik são o ponto de ressalva. Bailarinos, iluminação e cenário conduzem a um mundo de estupefação, encantamento e deboche, dependendo do mote, com habilidade e presença física inquestionável. Porém o pensamento exposto não explora na totalidade a força do discurso que pode debandar para certo pedantismo distante, dependendo de como se encara.

A canção que aborda a teoria do “BIG-BANG”, por exemplo, ganharia em ironia em vozes de tom mais provocativo, que contribuiriam para uma personalidade mais incisiva e menos posada, como a de Zeca Baleiro. Por vezes, da maneira como foi colocado, Caetano corre o risco de soar com certo ar de superioridade. Por essa sintonia atravessada o “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô”, na força e na beleza da dança, dos passos, das imagens e do som instável, e encontra o caminho num “TRIZ”. Desta vez, com uma dramaturgia solta e menos definida, com um tema mais subjetivo e nada concreto, o grupo explora a beleza na totalidade, em todos os seus contornos, limites e céus.