7 parcerias de Cazuza e Lobão

“Não escondam suas crianças
Nem chamem o síndico
Nem chamem a polícia
Nem chamem o hospício, não” Cazuza e Lobão

Foto sem dataCazuza e Lobão.

Numa entrevista para Marília Gabriela em dezembro de 1988, Cazuza afirmava que “roqueiro não tem mais cara de bandido”. Com exceção de dois. Ele e Lobão. As mães preferiam ver as filhas casadas com Paulo Ricardo a cruzar o caminho de ambos. Amigos de longa data, Cazuza e Lobão compuseram juntos cinco músicas, ainda que haja ruídos e especulações de que sejam mais. Isto porque Cazuza apropriou-se de tal maneira da canção “Vida, Louca, Vida” – letra de Bernardo Vilhena com música de Lobão – ao cantá-la quando já lutava contra o vírus da AIDS, que muitos ainda cometem o deslize de credenciá-la ao intérprete, incluindo, aí, alguns músicos. A outra intrusa nesta parceria deu-se em razão do temperamento de Cazuza que, não se conformando com a recusa de Lobão em participar de música dedicada a Rogéria decidiu credenciá-la assim mesmo ao “parceiro rebelde”. Só tempos depois Lobão descobriu que “escrevera ‘Quero Ele’” com Cazuza. Para não deixar ponto sem nó, ou arame sem farpa, seguem as sete músicas.

Análise: Hugo Carvana, um artista de esquerda

“Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há apenas que saber errar bem o seu idioma.” Manoel de Barros

Hugo Carvana sempre desempenhou sua atividade artística a partir de um viés predominantemente político. Por mais que se possa argumentar que toda ação carrega no bojo tal vício, a referência, no caso, é à concepção menos abrangente e mais incisiva do termo. Política no que diz respeito aos embates entre necessidades sociais, economia, classes, modelo de governança para um número considerável de cidadãos. E a postura adotada pelo ator e diretor foi a do homem pertencente ao povo, à maioria, coagido e reprimido pelo poder de uma minoria que detém formas de controle sobre os demais. No entanto, há artimanhas importantes tanto no campo político quanto na arte, que se entrecruzam em Carvana, para furar esta barreira, por exemplo: o riso, a ironia, o movimento, a capacidade de mobilização e aglutinação entre os pares. Típico anti-herói que lança mão da perspicácia e criatividade para driblar os fatos.

Entrevista: O Balanço Diferente de Mario Broder

“‘Tome conta do sentido, e os sons tomarão conta de si mesmos’.” Lewis Carroll

Mario-Broder-diferente

Mario Broder tem o seu trabalho reconhecido como cantor principalmente pelo desempenho à frente do grupo “Farofa Carioca”, mas ele também é ator – interpretou o sambista célebre Wilson Batista na cinebiografia de Noel Rosa dirigida por Ricardo van Steen em 2006 (“Noel – Poeta da Vila”) – e compositor. Lançou, em 2013, o primeiro trabalho solo, “Balanço Diferente”, já disponibilizado no iTunes, em que assina algumas das faixas, como “Navegar”, ao lado de Sandro Márcio, e “Operária brasileira”, cuja parceira é ninguém menos que Elza Soares, que também canta na faixa. “O disco acabou de entrar nos Estados Unidos pelo iTunes”, celebra Mario, que revela o incentivo decisivo do produtor Eduardo Chermont para a concretização do álbum. “Ele foi bastante incisivo ao dizer que estas composições já deveriam ter saído da gaveta há bastante tempo”, orgulha-se.

Composto por onze faixas, o disco de Mario Broder transita por ritmos consagrados e contemporâneos, com a utilização de música eletrônica e instrumentos tradicionais do samba. A alternativa em lançar o trabalho prioritariamente pela plataforma virtual o faz analisar o atual cenário da cultura brasileira. “Eu acredito que seja a grande virada dos artistas que deixaram de depender única e exclusivamente das gravadoras”, analisa, não sem antes considerar esta uma época “bem democrática, com muita gente lançando EP´s e discos na internet”, sublinha. Sobre as suas preferências e o que vê de novo e interessante na atualidade, o entrevistado é enfático. “Muito me interesso pelos artistas independentes, o cenário do Rap nacional está muito estruturado e com bons representantes. No nordeste, por exemplo, tem o Rapadura, que na sua maneira de rimar usa o repente como base. Gosto muito!”, enaltece.

Entrevista: O Carnaval Melancólico de Rogério Skylab

“O pequeno crocodilo
Enfeita a lustrosa cauda,
Despeja as águas do Nilo
Sobre as escamas douradas!

Com que deleite arreganha-se
E calmo desdobra as garras,
Chama os peixes às entranhas
Da sorridente bocarra!” Lewis Carroll

rogerio-skylab-entrevista

“Eu dava pra Rogéria”, encerra o cantor, músico, escritor e entusiasta das travestis Rogério Skylab, um dos mais provocativos e indefiníveis sujeitos dentro da música brasileira, ou fora dela. “sou um sobrevivente. Todavia, me defino como um cadáver dentro da MPB”, afirma paradoxal em texto de caráter biográfico publicado no site oficial. Embora fuja de definições e aplauda “Qualquer tentativa de eliminação do discurso”, Skylab é, sobretudo, um artista conceitual. E se esbalda com perspicácia na hora de teorizar suas incursões. No mais recente trabalho “Melancolia e Carnaval”, segundo da trilogia iniciada com “Abismo e Carnaval”, que já prenuncia os desdobramentos da obsessão por séries, o entrevistado, outra vez, já que não assusta, desta vez surpreende. “Eu sou um tipo de compositor que sempre vai buscar caminhos ainda não explorados. Isto é, inexplorados ainda por mim. Se você der uma examinada no conjunto do meu trabalho, vai chegar a essa conclusão”, garante.

Bem mais lírico e palatável que vários trabalhos da carreira de Skylab, e com a participação da Velha Guarda da Mangueira, Rômulo Fróes e Jards Macalé, o compositor costura e destrincha os caminhos que o levaram até esse disco. “A concepção dessa trilogia dos carnavais é o mergulho no coração da MPB, com uma espécie de linguagem muito própria a esse estilo. Ao mesmo tempo, eu dou andamento a um trabalho experimental que comecei com ‘Rogerio Skylab e Orquestra Zé Felipe’, e que deve redundar num novo disco. Por outro lado, tem o projeto ‘SKYGIRLS’, ligado ao eletrônico e que bebe na fonte de bandas como ‘Stereolab’. E tem a série dos Skylabs, que é um som com o qual eu fui mais reconhecido em função também dos dez discos lançados dessa série, um deles inclusive ganhou o Prêmio Claro de Música Independente, o SKYLAB V”, demarca. Além das já citadas participações, o álbum também conta com release de peso, escrito por um dos ídolos de Skylab, a lenda Fausto Fawcett.

A invenção de Baden Powell por Mauro Zockratto e Lucas Telles

“Na lua de pergaminho
Preciosa tocando segue
por um anfíbio caminho
de cristais e louros verdes.” García Lorca

Baden-Powell

Baden Powell é um dos mais inventivos e originais violonistas da música brasileira, não por acaso influenciou o iconoclasta Jards Macalé. Invenção e originalidade que já carregava no nome, obra do pai, o também violonista Lino de Aquino, numa homenagem ao fundador da atividade dos escoteiros. Agora ele recai sobre a voz de Mauro Zockratto e o violão de Lucas Telles, que não deixam barato.

80 anos de Sylvinha Telles: só começando…

“Domingo
Canto dos passarinhos
Doce que dá para pôr no café” Paulo Leminski

Sylvinha-Telles

Sylvia Telles estava só começando a carreira quando, em 1955, cantou num Teatro, em Copacabana, o samba “Amendoim torradinho”, composição de Augusto Garcez e Ciro de Sousa de intrínseca sensualidade, depois reinventada por Ney Matogrosso. Nessa época ainda não chegava a ser Sylvinha, título que só apareceria em sua discografia em 1962, ainda assim sem o Y. Se mudou de nome muitas vezes na carreira, passando de Silvia a Silvinha e depois Sylvinha, a intérprete manteve ilesas duas características: a leveza e o refinamento. Claro que existem outras, mas cabe aqui eleger tais.

Crítica: Exposição “Barroco – Brasil / Itália – Prata e Ouro”, exibe martírio na forma de beleza

“Para trazer ao feno
o senso da escultura,
concentro-me: sou boi.” Carlos Drummond de Andrade

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Os românticos já choravam, os hebreus já choravam e os barrocos também. Por trás dessa ideia de sofrimento a redenção como combustível para a esperança humana. No caso da exposição “Barroco – Brasil / Itália – Prata e Ouro” oferecida pela Casa Fiat de Cultura em Belo Horizonte, ocorre uma divisão entre a arte dos napolitanos, talhada com o primeiro material, e a dos homens das Minas Gerais, com a madeira e o segundo. Além de exibirem figuras santas, deixam clara a capacidade artística de extrair do martírio o belo, e talvez nisso a chave para suportar as idiossincrasias da vida e do universo.

5 Sucessos do Quarteto em Cy

“para quê expressar-se melhor do que estes lótus, estas rosas, estes jasmins quietos, inapanhados: já não tinham dito tudo?” Mallarmé

quartetoemcy

A história do “Quarteto em Cy” é uma estória de mudanças. Da Bahia, no interior, em Ibirataia, para o Rio de Janeiro. Do Rio para os Estados Unidos. Dos Estados Unidos para a Europa e da Europa para o Japão. De Cyva, Cynara, Cybele e Cylene, as irmãs iniciais, para Sônia Ferreira, Dorinha Tapajós, Sandra Machado, Regina Werneck, Cymíramis e Keyla. Neste caminho passaram Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, MPB-4, Ivan Lins, e outros. Pois uma coisa é permanente, nessa história e nesta estória, o “Quarteto em Cy” não dá ponto sem nó, nem deixa sem pingo o Y. E a música flui sabiámente.

7 Músicas de Paulo Leminski

“um pouco de mao
em todo poema que ensina
quanto menor
mais do tamanho da china” Paulo Leminski

paulo-leminski

O “samurai malandro”, como ficou conhecido o poeta de Curitiba Paulo Leminski, traduz, logo no codinome, a gama de contradições e opostos que atraíram o artista. Com descendência polonesa e africana, Paulo furou o umbigo do Paraná e de lá puxou oriente, Brasil e Europa. Cinema, judô e arte plástica. Aquele que com aparente superficialidade ia do raso ao profundo, do clássico ao populacho. E foi sendo “mínimo em matéria de máximo” que Paulo Leminski construiu uma obra cuja precisão e musicalidade o eternizou junto a gentes variadas. Pois como pede o mendigo da praça, sobre os poetas deixem os poemas falarem.

Entrevista: O Universo Cabeludo de Carlos Careqa

“Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.” Allen Ginsberg

carlos-careqa

Rogério Skylab esquece de perguntar o assassino de Carlos Careqa em sua canção “Eu Quero Saber Quem Matou”, mas Cida Moreira, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Tetê Espíndola não deixaram de prestigiá-lo em seu CD de estreia, “Os Homens São Todos Iguais”, em 1993, com sugestiva capa recheada de ironia, e eis aí bom indício de por onde trafega o compositor, ainda que afirme em seu terceiro disco: “Não Sou Filho De Ninguém”, lançado em 2004. Dez anos depois contabiliza dez títulos na discografia, além de participações e trabalho como produtor. Muito longe desses números, ao acaso, redondos, Carlos traça seu caminho na inventividade. “O mercado não quer um cara rebelde como eu. Não quero ficar cantando a mesma música a vida toda”, afirma.

Nascido em Lauro Muller, interior de Santa Catarina, o intérprete mudou para Curitiba aos cinco anos, e lá se formou como artista frequentando grupos de teatro e participando de campanhas publicitárias. Sobre a importância da arte dramática em seu processo de composição musical, define: “Importância Suprema. Tudo é cena. E a todo o momento tenho que prestar atenção no que está acontecendo, e isto vai virando música”. Já a possível “escolha” por uma carreira pautada no mercado independente é rechaçada. “Eu não optei. As coisas foram acontecendo. Tenho ideias, e assim vou caminhando. A música independente é isto, sem amarras, sem gente mandando. Faço o que quero, o que me der na telha. Não faço música experimental. Acho que eu faço coisas bem palatáveis, mas sou independente por que a vida me quis assim”.