Análise: Antônio Abujamra foi de canastrão a astro provocador

“Se têm a verdade, guardem-a!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da
técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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Antônio Abujamra era um canastrão. É o que “corria à boca pequena em Porto Alegre”, revela Paulo César Peréio na entrevista ao “Provocações”, programa que Abujamra conduziu por mais de 14 anos na TV Cultura. A figura imponente e segura, o tom grave e dramático, emprestado das tragédias gregas (“Ai de mim, essa palavra deveria ser dita por uma Medéia”, dizia na abertura), a recusa ao pedantismo e ao mesmo tempo da modéstia são adjetivos e observações que não dão conta do tamanho da importância de Antônio Abujamra para a cultura e a arte no Brasil. Talvez por isso a comparação seja um meio mais efetivo no esforço de analisa-lo, de defini-lo: em termos de qualidade a associação é a Pelé no esporte. O que também dá a dimensão da diferença de tratamento a essas duas esferas. Pegando-se emprestada outra provocação de seu amigo Peréio, pode-se dizer que, assim como Paulo César, Abujamra não era “um ator característico, mas essencial, aliás eu não tenho nenhum caráter”, concluía.

12 músicas brasileiras sobre prostituição

“Sendo uma criatura exilada, expulsa da sociedade, como você e eu, porque somos artistas, a prostituta é certamente nossa amiga e nossa irmã.” Van Gogh

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Se o poeta a tem em seus sonhos, de Oswald de Andrade a Aldir Blanc, não é por acaso que a prostituta merece destaque na nossa canção. E para não dar espaço à monocromia, embora timidamente, Zé Ramalho dá luz aos homens que desempenham igual profissão. Ao longo das décadas essa atividade foi descrita, cantada, e logo, vivenciada, por Noel Rosa, Nelson Gonçalves, Gal Costa, Trio Parada Dura, Odair José, e outros, com diferenças de abordagem e um enorme poder de identificação junto ao público. O que não nos deixa mentir, embora a hipocrisia prevaleça, e o preconceito muitas vezes as relegue a um ambiente violento e hostil, a prostituição é um patrimônio histórico da humanidade. Que deveria ser tratado como na arte. Com respeito e admiração. Levar a “vida fácil” requer coragem. Cazuza já cantava essa regra com deboche.

Um observatório sobre Lobão

“Todo bom artista é um criador de problemas!” Lobão

Lobão-crédito-Rui-Mendes

João Luiz Woerdenbag Filho, mais conhecido pelo nome artístico de Lobão (Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1957) é um cantor, compositor, guitarrista e baterista brasileiro. Sua carreira começou aos dezessete anos, depois de sair de casa formou a banda de rock progressivo Vímana, da qual faziam parte Lulu Santos, Ritchie, Luis Paulo e Fernando Gama. Três anos depois, fundou a banda Blitz com Evandro Mesquita, Fernanda Abreu e outros. Foi o baterista do primeiro disco, mas inconformado por não ter suas músicas incluídas no álbum, saiu do grupo antes mesmo do sucesso comercial.

Em 1982 inicia carreira solo com o lançamento do disco Cena de Cinema. Logo em seguida forma nova banda, Lobão e os Ronaldos lançam o disco Ronaldo foi pra Guerra, que tinha no repertório a canção Me Chama, maior sucesso comercial do músico e música mais executada na década de 80, sendo regravada por vários artistas do cenário musical brasileiro, dentre eles o ícone bossa novista João Gilberto.

Alistamento pela Democracia

“Ter o direito de fazer uma coisa não é, em absoluto, estar certo em fazê-la.” G. K. Chesterton

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De dois em dois anos, quando chega o período eleitoral no Brasil, pessoas de 18 a 69 anos que possuem alfabetização, são convocadas ou se oferecem para trabalhar nas eleições operando urnas e encaminhando eleitores que se apresentam às suas respectivas Zonas Eleitorais, sendo conhecidas popularmente como “mesários”.

Cinco pessoas são convocadas para trabalhar em cada Zona Eleitoral e desempenham as funções de presidente da mesa receptora de votos, primeiro e segundo mesário e primeiro e segundo secretário.

A Escolha de Sofia: Alguém tem que ceder

“A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.” Paulo Leminski

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A quatro meses das convenções partidárias, o PT vive em Minas Gerais situação parecida com a que seu rival histórico, o PSDB, vive no plano nacional. E o problema começou justamente quando integrantes do partido resolveram deixar a rivalidade de lado e uniram-se ao PSDB para levantar a bandeira branca de Márcio Lacerda, mais ou menos como se Cruzeiro e Atlético se unissem para torcer juntos pelo América.

Agora, a estrela vermelha está mais rachada do que nunca em Minas, e a briga é para ver quem consegue juntar mais pedaços, pois se uma estrela tem cinco pontas e a disputa está dividida em dois dentro do partido, a matemática prova que alguém há de sair perdendo.

Crítica: peça “Beije minha lápide” esmaece força do texto de Oscar Wilde

“É um absurdo nos dividirem em gente boa ou má. Somos apenas encantadores ou entediantes.” Oscar Wilde

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Numa definição clássica a linguagem é um fim em si para o texto literário, enquanto para o jornalístico serve como base à informação. Não significa que ambas não sejam nutridas por uma estética e, evidentemente, o conteúdo. No entanto, a arte, pela própria conotação, tem maior apreço pelo envelope, a forma, o invólucro. Ritmo, estrutura, vocabulário garantem, ou não, o impacto, que deve ser causado no jornalismo pelo fato em si. É este o pecado primeiro da montagem “Beije minha lápide”, com texto de Jô Bilac e direção de Bel Garcia, pois, ao se apropriar de passagens importantes da obra do dramaturgo, aforista e escritor britânico Oscar Wilde, elimina o contexto que lhes garantia o viço, mas essa originalidade, que por tal circunstância não seria lamentável, resulta numa leitura superficial, que tende para a demagogia e confere um tom entre o piegas e a piada.

É possível observar fenômeno parecido na internet. Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Caio Fernando Abreu e muitos outros, por caminharem, como um Lupicínio Rodrigues da canção popular, na tênue linha entre o derramamento de autoajuda e a precisão acabam arrolados junto a Paulo Coelho quando as frases são pinçadas a bel prazer e lançadas à deriva. Da mesma maneira uma declaração de um político ou celebridade para um jornal, retirada do todo, e que, por estratégia publicitária, estampará a manchete, ganhará contornos mais ridículos e escandalosos. Neste cenário não há como Marco Nanini, ator de reconhecidos recursos, e que protagoniza a peça, escapar de soar inseguro, hesitante, melodramático, com atropelos nas falas que desmentem a dicção quase sempre perfeita apresentada em outros trabalhos. Com esse abacaxi nas mãos não há como produzir omelete. Cenário e iluminação não contribuem, e a trilha sonora é discreta.

Para onde vamos?

“O futuro, ai de mim, me é mais próximo que o instante já.” Clarice Lispector

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Da onde viemos? Por quê estamos? Para onde vamos? Essas perguntas filosóficas sempre angustiaram o homem. E é essa última em especial que vem sendo feita com maior freqüência nos últimos dias.

Após um relativamente curto período de crise que atingiu o Brasil, a dúvida é saber o que vem a seguir. A descoberta do pré-sal e o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 terão papel decisivo na resposta dessa pergunta.

Liberdade e intolerância na internet

“Ele é um cidadão livre e seguro da Terra, pois está atado a uma corrente suficientemente longa para dar-lhe livre acesso a todos os espaços terrenos e, no entanto, longa apenas para que nada seja capaz de arrancá-lo dos limites da Terra. Mas é, ao mesmo tempo, também um cidadão livre e seguro do céu, uma vez que está igualmente atado a uma corrente celeste calculada de maneira semelhante. Assim, se quer descer à Terra, a coleira do céu o enforca; se quer subir ao céu, enforca-o a coleira da Terra. A despeito de tudo, tem todas as possibilidades e as sente, recusando-se mesmo a atribuir o que acontece a um erro cometido no primeiro ato de acorrentar.” Franz Kafka

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Sim, Chuck Berry fields forever, mas rock não é mais nosso tempo, como o ex-ministro e eterno tropicalista Gilberto Gil cantou. A rumba, o mambo, o samba e o rhythm ´n´blues são filhos de Xangô, mas e o pai do nosso virtual tempo? Será que já chegou? A internet, um dos suportes mais utilizados pelo virtual promove em certa escala uma inversão, na medida em que altera a relação entre produtor e consumidor, colocando-os numa disposição anárquica em referência à produção e escolha de conteúdo. Isso em parte, pois os filtros desses mecanismos ainda são controlados pelos mesmos, mas não apenas por eles, e essa é a grande novidade da internet, mais gente envolvida na produção e na recepção de conteúdo.

A internet não destrói os nichos geográficos e sociais construídos no território físico pelo homem, nem deixa de construir novos deles, posto que é notório que esse tal ser humano, em via de regra, sempre se sentiu mais confortável quando posto em contato com seu semelhante. O diferente tende a gerar um certo desconforto e desemboca algumas vezes pro que se costuma chamar de preconceito e discriminação. Assim sendo, têm-se uma coletividade individualista, ou um individualismo coletivo, gerado não pela internet, mas pelo homem desde que se viu como gente. É difícil determinar se a internet contribuiu para uma maior individualidade ou não, posto que estabelece-se um paradoxo a partir do momento que ela se propõe a e permite uma grande interação entre os agentes participantes, além de vasta diversidade de estética e conteúdo.

A história do Trio Elétrico no Brasil

“Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu…” Caetano Veloso

Osmar_e_Fobica

Na década de 40, Adolfo Nascimento, conhecido como Dodô, e Osmar Macedo, lançaram o “pau elétrico”, o primeiro instrumento eletrificado que não provocava microfonia. Amigos desde 1938, quando da reestruturação do grupo “O Três e Meio”, do qual fez parte Dorival Caymmi, os dois músicos se dedicaram durante dez anos à pesquisa que buscava amplificar o som dos instrumentos de corda. No Carnaval de 1950, os dois saíram às ruas de Salvador em cima de um Ford 1929, que eles chamavam de fubica, tocando as músicas da Academia de Frevo do Recife em instrumentos fabricados por eles. Daí nasceu a “Dupla Elétrica”, com Dodô e Osmar tocando suas “guitarras baianas”. Um ano depois, em 1951, Temístocles Aragão se juntou à dupla para tocar um terceiro “pau elétrico”, conhecido como violão tenor, de som médio. Nascia assim, o Trio Elétrico do carnaval baiano, que em 1952, recebeu um caminhão da empresa de refrigerantes Fratelli Vita para se apresentar e assumiu o formato que mantém até hoje, 60 anos após sua criação.

Centenários 2015: Billie Holiday cantou para viver

Me Ensina Dançar Como Lennie Dale
E A Morrer Como Charlie Chaplin
E O Canto De Billie Holiday
E A Extravagância Que Vezenquando Nus Ilumina Seres Humanos

Billie_Holiday,_Downbeat,_New_York,_N.Y.,_ca._Feb._1947_(William_P._Gottlieb_04251)

Se Miles Davis afirma que “só existe a música negra americana”, Billie Holiday tem parte nisso. Poço de contradições, ela foi pioneira em se apresentar com uma banda formada por brancos na época da segregação racial explícita nos Estados Unidos. Revelada como celebridade por Benny Goodman, o “Rei do Swing”, a cantora pertence a uma seleta categoria de artistas em que não se distingue obra e vida. A música para Billie Holiday era a extensão vocal de sua dolorosa existência, atravessada por percalços e raros momentos de brilho. A “felicidade quando se está distraído”, de Guimarães Rosa, cabe bem a Billie. Mas não se pode culpa-la pela constante tensão dos nervos. A infância é comparável à de Edith Piaf, abandonada pelo pai, também músico, tendo que se virar junto à mãe como lavadora de prostíbulos e vítima de abuso sexual aos dez anos. Já os seus progenitores a conceberam quando tinham 15 e 13 anos respectivamente. Ou seja, crianças tomando conta de outra criança.