6 músicas brasileiras para a Semana das Crianças

“A infância
É a camada
Fértil da vida” Nicolas Behr

Signac_-_Portrait_de_Félix_Fénéon

Mais do que uma simples questão de idade, o lugar da infância é o da ilusão, da fantasia, da “curiosidade”, como bem repetia Rubem Alves. É na infância que as portas para a brincadeira estão abertas, que os sonhos florescem e a diversão impera. Na música brasileira não é diferente. O tema foi tratado por Chico Buarque, Sidney Miller, Fernando Brant, Milton Nascimento, Cazuza, Aldir Blanc e muitos outros, com todo o frescor da primavera, a estação onde a infância floresce e onde “deve rezar todo adulto que se preze”, como nos alerta Fernando, autor de versos cantados por Milton, “Bola de meia, bola de gude…”.

Crítica: nova temporada de “Pé na Cova” combate preconceitos com didática

“nem vida nem morte é a resposta.
E do homem buscando o bem,
fazendo mal. (…)
onde andavam os mortos
e os vivos eram feitos de cartão.” Ezra Pound

pe-na-cova

Miguel Falabella conta que a inspiração para a série “Pé na Cova” veio com a experiência da própria velhice. Com o envelhecimento do ator e criador, a série chega também à sua quarta temporada em 2015, que será a penúltima. A última está prevista para 2016. Não muito diferente das anteriores, a atração busca combater preconceitos, mas resvala invariavelmente no didatismo.

Falta para os diálogos uma construção que torne as frases mais naturais e menos ensaiadas, ou seja, a alusão pode ser feita ao esporte ou ao humor clássico, de esquetes e quadros, quando o dito “escada” prepara a jogada para que o artilheiro “corte”. O problema nesse tipo de humor é a previsibilidade e a noção de distanciamento com o espectador, como se ele assistisse a uma aula.

Crise dos refugiados: 5 músicas para incentivar a tolerância à diversidade

“pariso
novayorquizo
moscoviteio
sem sair do bar

só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar” Paulo Leminski

Chico-Buarque

Com o mundo em convulsão devido às guerras no Oriente Médio, abastecidas pelas grandes potências, tais como Estados Unidos e o continente europeu e que, segundo relatórios da Anistia Internacional, continuam enviando armas para a região, onde há grande quantidade de petróleo, põe-se novamente à prova questões sobre a solidariedade humana e o modo como se comportar no mundo. Mais do que isto, a tolerância à diversidade é um tema que desafia a espécie e seus pares. A crise dos refugiados alimenta migrações em todo o planeta. Cinco músicas compostas por pessoas das mais diferentes tribos demonstram como é possível ter um ideal comum, propor a união e enriquecer a existência a partir da congregação; de culturas, instrumentos e vozes.

5 perguntas nunca respondidas por Paulo César Peréio

“Gênio não é eterno. Depois que ele morre, jamais nascerá outra coisa igual. O medíocre a gente nem percebe que morreu. E, já no dia seguinte à morte de um medíocre, aparece um igualzinho no lugar. A mediocridade, então, é eterna! O gênio, não: todos os gênios são perecíveis”. Paulo César Peréio

pereio

Ás vésperas de completar 75 anos, o ator Paulo César Peréio, um dos mais relevantes do cinema brasileiro, consentiu em receber e responder às perguntas de uma entrevista. No entanto, um tempo depois, com a habitual letargia que o caracteriza no período recente, desistiu, sob a alegação de não manobrar bem a tecnologia, ao descobrir que a distância entre São Paulo e Belo Horizonte nos separava e que não seria possível um encontro à vera, tête-à-tête, pessoalmente.

Como já havia sido feito, e com enorme sucesso, com a artista Elke Maravilha, resolvemos imaginar o que Peréio responderia a essas perguntas que chegaram até ele, mas nunca retornaram a mim. Com larga experiência no cinema, no teatro, e na televisão, o próprio intérprete diz se considerar “uma personalidade performática, um ator essencial, nunca fui um ator característico, aliás, eu não tenho nenhum caráter”, considera com o tom debochado que, quase sempre, empregou a suas personagens. Sem mais delongas, vamos ao exercício lúdico e fantasioso.

Sobre um artista e sua gaiola

“O corpo era uma gaiola e, dentro dela, uma coisa qualquer olhava, escutava, tinha medo, pensava e se espantava; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.” Milan Kundera

Um dia, colocaram o artista em sua gaiola. A gaiola, portanto, era a forma, e o artista, o conteúdo. Ele que sumira aos poucos na capa invisível da Literatura agora podia ser visto dentro da gaiola. Quem o colocara ali, ninguém sabia, mas isso pouco importava. O imprescindível era ver o artista dentro da gaiola. A gaiola tinha uma forma de pelagem, e o artista, pelugem. A gaiola apresentava certa falta de acabamento, mas o artista, apesar de carente de massa, era interminável, ininterrupto. O humor da gaiola era vário. Ás vezes chamava de ânsia, outras de ânimo, mas a maior parte das vezes era uma animosidade. Já o artista vivia em estado de espírito, em estado bruto.

Com o passar do tempo, alguns observadores perceberam, e esses eram ourives, é bom que se aponte; que dentro dos olhos do artista havia ouro. Não era um ouro comum, era um ouro como uma súbita gargalhada, outros associaram este ouro a uma flor de laranja, e o professor de gramática o definiu sem igual através da palavra “letargia”. Havia uma condição no ouro dentro do olho do artista da gaiola. Era uma condição animalesca, é verdade, daquelas querendo rimar cousa com louça, um certo tom Portugal que fazia troça com certas bobeiras e parodiava canções, caso daquela em que se diz d’essa “estranha mania de ter fé na vida”. Passado esse prólogo vamos falar do artista em sua gaiola. Ele vivia em estado de espírito, em estado bruto, com uma mola no olho.

Análise: 80 anos de Plínio Marcos, uma voz mordaz e audaciosa

“Já que a voz do injustiçado não é ouvida eles têm direito à cólera.” Plínio Marcos

pliniomarcos

Reza a lenda que Nelson Rodrigues não salvava quase ninguém no teatro brasileiro, na categoria dos dramaturgos, e mais do que para não cair ele mesmo num cenário unânime, elegera uma sonora exceção. “Esse Plínio Marcos é bom”, palavras que teriam sido ditas pelo autodenominado “anjo pornográfico”. Outra especulação curiosa sobre Plínio Marcos é a de ser o autor mais censurado do país. A essas benesses, respondia sem falsa modéstia, e com o senso de humor afiadíssimo: “Fiz por merecer. Nunca fiz nada para agradar ninguém”, e, quando finalmente o Brasil se livrou do regime militar, nem por isso deixou de marginalizar Plínio Marcos, que arrematava, “a nova censura é a mídia”.

O teatro de Plínio Marcos, suporte que abrigou com maior relevância e destaque suas produções artísticas, é tão característico quanto o daquele que o elogiou. Tanto Nelson Rodrigues quanto Plínio colocam o dedo em feridas sociais, nos quadros de imobilidade e no que o comportamento humano instaurou de artificial e hipócrita em suas construções civilizatórias. Em Plínio Marcos toda a afetação é extirpada e o que resta é o retrato humano em sua crueza e hostilidade, contra o qual grita com uma voz mordaz e audaciosa. O autor aponta sua lente para os excluídos, fala “da gente que sempre pega a pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove e que só berra da geral sem nunca influir no resultado”.

Crítica: exposição sobre Leonilson desnuda revolta e solidão

“Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.” Adélia Prado

leonilson

Desamparo, desalento, desolação são palavras que ajudam a explicar o universo dúbio do cearense Leonilson. Assim como revolta, ironia e indignação. Em ambos os casos, a causa comum do artista que se radicou e morreu em São Paulo. A palavra “abandono” talvez seja a mais forte de toda a literatura desse artista plástico, que embora tenha se valido, na prática, de inúmeras delas, deixou, sobretudo esta, impressa em imagens que contemplaram tanto cores fortes quanto o vazio, o branco. É certo que em toda arte procura-se o sentimento, o que em Leonilson é a própria matéria-prima; definida pelo minimalismo, a técnica apurada, o enorme arcabouço teórico e, principalmente, a forma íntima de se aproximar sob uma luz sincera e reveladora.

Rock in Rio 2015: controvérsias e destaques nos 30 anos do festival

“(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)” Allen Ginsberg

rock-in-rio

Passados 30 anos de sua primeira edição, o Rock in Rio 2015 começou as comemorações de sua efeméride com três dias de shows lotados na capital do Rio de Janeiro. Entre atrações nacionais e internacionais destacaram-se o reencontro do antigo casal Pepeu Gomes e Baby do Brasil, rememorando sucessos dos “Novos Baianos”, a apresentação com o vocalista Adam Lambert substituindo Freddie Mercury no “Queen”, o sempre aclamado Elton John, além de bandas de heavy metal como Korn, Metallica, e homenagem para Cássia Eller feita por Zélia Duncan, Mart’nália e outros.

O clima de nostalgia predominou, e diferenças substanciais puderam ser notadas entre um momento e outro. Por exemplo, na primeira edição somente “Barão Vermelho”, que ainda tinha Cazuza à frente de seus vocais, e os “Paralamas do Sucesso”, saíram imunes das vaias e agressões entre as bandas brasileiras que se apresentaram no festival. Herbert Vianna, inclusive, protagonizou uma defesa ostensiva de Eduardo Dussek, que se apresentara antes de sua banda, convidando quem vaiava a trabalhar para subir ao palco no próximo festival. Fato este que não foi privilégio daquele ano.

Análise: cineasta Carlos Manga priorizou o riso clássico

“e sorriu como um velho sorri da insensatez de uma criança e conserva atrás do sorriso seu verdadeiro pensamento.” Franz Kafka

Carlos-Manga

“Mas eu vou ganhar pra fazer isso?”, esse foi o principal questionamento de Carlos Manga quando começou a trabalhar com cinema. Para tanto abandonou uma carreira de bancário e um posto no almoxarifado da Atlântida, principal companhia do cinema brasileiro durante toda a década de 1950 e primeiros anos de 1960. Se não ganhou tanto dinheiro, certamente engordou os cofres da companhia, com filmes que alcançaram incríveis marcas até hoje difíceis de serem comparadas no número de espectadores. Eram os chamados “anos dourados” do cinema nacional e da “chanchada”, movimento que, com o advento do audiovisual no país transformou-se na principal referência do gênero durante muito tempo, com uma óbvia influência da chamada “comédia de costumes”, advinda, principalmente dos italianos.

O cinema brasileiro voltaria a alcançar marcas parecidas de popularidade somente nos anos da ditadura militar, principalmente quando, na década de 1970, criou-se a expressão “pornochanchada”, que se valia do enredo da matriz e acrescentava a esta um erotismo banal. O humor simples, ligeiro, e até ingênuo das chanchadas era uma marca de Carlos Manga. Seu estilo bonachão imprimia à figura uma imediata simpatia que certamente contribuiu para que astros como Oscarito, Grande Otelo, Norma Bengell e Jô Soares, cujo primeiro papel de destaque nas telonas foi em “O Homem do Sputnik”; se sentissem à vontade e passassem essa impressão para o público. Esse mesmo humor Manga carregou para filme e episódios de “Os Trapalhões”, além de diversos programas com Chico Anysio, Dercy Gonçalves, e outros.

Análise: Betty Lago reinterpretou a própria irreverência e estilo

“A moda sai de moda, o estilo jamais.” Coco Chanel

Betty-Lago

Betty Lago surgiu para as passarelas, como modelo, na década de 1970, o que por si só já guarda diferenças nada sutis em relação aos anos 1990 e 2000, e torna descabidas as comparações com Gisele Bündchen. A época aplaudia e dava espaço para mais personalidade e menos comedimento, o que logo de cara se percebe ao constatar a beleza que uma e outra representam.

Betty levou para a TV o próprio estilo e personalidade. Não se absteve em pertencer à categoria de intérpretes cuja maneira de ser prevalece ao personagem. Betty Lago é sempre Betty Lago, desfilando para os fotógrafos de Nova York ou sob os olhos atentos dos que a viam de longe, como atriz ou apresentadora, mas que se aproximavam da artista pelo caráter ao mesmo tempo despojado e elegante que conferia às suas atuações.