Sobre um artista e sua gaiola

“O corpo era uma gaiola e, dentro dela, uma coisa qualquer olhava, escutava, tinha medo, pensava e se espantava; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.” Milan Kundera

Um dia, colocaram o artista em sua gaiola. A gaiola, portanto, era a forma, e o artista, o conteúdo. Ele que sumira aos poucos na capa invisível da Literatura agora podia ser visto dentro da gaiola. Quem o colocara ali, ninguém sabia, mas isso pouco importava. O imprescindível era ver o artista dentro da gaiola. A gaiola tinha uma forma de pelagem, e o artista, pelugem. A gaiola apresentava certa falta de acabamento, mas o artista, apesar de carente de massa, era interminável, ininterrupto. O humor da gaiola era vário. Ás vezes chamava de ânsia, outras de ânimo, mas a maior parte das vezes era uma animosidade. Já o artista vivia em estado de espírito, em estado bruto.

Com o passar do tempo, alguns observadores perceberam, e esses eram ourives, é bom que se aponte; que dentro dos olhos do artista havia ouro. Não era um ouro comum, era um ouro como uma súbita gargalhada, outros associaram este ouro a uma flor de laranja, e o professor de gramática o definiu sem igual através da palavra “letargia”. Havia uma condição no ouro dentro do olho do artista da gaiola. Era uma condição animalesca, é verdade, daquelas querendo rimar cousa com louça, um certo tom Portugal que fazia troça com certas bobeiras e parodiava canções, caso daquela em que se diz d’essa “estranha mania de ter fé na vida”. Passado esse prólogo vamos falar do artista em sua gaiola. Ele vivia em estado de espírito, em estado bruto, com uma mola no olho.

Análise: 80 anos de Plínio Marcos, uma voz mordaz e audaciosa

“Já que a voz do injustiçado não é ouvida eles têm direito à cólera.” Plínio Marcos

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Reza a lenda que Nelson Rodrigues não salvava quase ninguém no teatro brasileiro, na categoria dos dramaturgos, e mais do que para não cair ele mesmo num cenário unânime, elegera uma sonora exceção. “Esse Plínio Marcos é bom”, palavras que teriam sido ditas pelo autodenominado “anjo pornográfico”. Outra especulação curiosa sobre Plínio Marcos é a de ser o autor mais censurado do país. A essas benesses, respondia sem falsa modéstia, e com o senso de humor afiadíssimo: “Fiz por merecer. Nunca fiz nada para agradar ninguém”, e, quando finalmente o Brasil se livrou do regime militar, nem por isso deixou de marginalizar Plínio Marcos, que arrematava, “a nova censura é a mídia”.

O teatro de Plínio Marcos, suporte que abrigou com maior relevância e destaque suas produções artísticas, é tão característico quanto o daquele que o elogiou. Tanto Nelson Rodrigues quanto Plínio colocam o dedo em feridas sociais, nos quadros de imobilidade e no que o comportamento humano instaurou de artificial e hipócrita em suas construções civilizatórias. Em Plínio Marcos toda a afetação é extirpada e o que resta é o retrato humano em sua crueza e hostilidade, contra o qual grita com uma voz mordaz e audaciosa. O autor aponta sua lente para os excluídos, fala “da gente que sempre pega a pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove e que só berra da geral sem nunca influir no resultado”.

Crítica: exposição sobre Leonilson desnuda revolta e solidão

“Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.” Adélia Prado

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Desamparo, desalento, desolação são palavras que ajudam a explicar o universo dúbio do cearense Leonilson. Assim como revolta, ironia e indignação. Em ambos os casos, a causa comum do artista que se radicou e morreu em São Paulo. A palavra “abandono” talvez seja a mais forte de toda a literatura desse artista plástico, que embora tenha se valido, na prática, de inúmeras delas, deixou, sobretudo esta, impressa em imagens que contemplaram tanto cores fortes quanto o vazio, o branco. É certo que em toda arte procura-se o sentimento, o que em Leonilson é a própria matéria-prima; definida pelo minimalismo, a técnica apurada, o enorme arcabouço teórico e, principalmente, a forma íntima de se aproximar sob uma luz sincera e reveladora.

Rock in Rio 2015: controvérsias e destaques nos 30 anos do festival

“(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)” Allen Ginsberg

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Passados 30 anos de sua primeira edição, o Rock in Rio 2015 começou as comemorações de sua efeméride com três dias de shows lotados na capital do Rio de Janeiro. Entre atrações nacionais e internacionais destacaram-se o reencontro do antigo casal Pepeu Gomes e Baby do Brasil, rememorando sucessos dos “Novos Baianos”, a apresentação com o vocalista Adam Lambert substituindo Freddie Mercury no “Queen”, o sempre aclamado Elton John, além de bandas de heavy metal como Korn, Metallica, e homenagem para Cássia Eller feita por Zélia Duncan, Mart’nália e outros.

O clima de nostalgia predominou, e diferenças substanciais puderam ser notadas entre um momento e outro. Por exemplo, na primeira edição somente “Barão Vermelho”, que ainda tinha Cazuza à frente de seus vocais, e os “Paralamas do Sucesso”, saíram imunes das vaias e agressões entre as bandas brasileiras que se apresentaram no festival. Herbert Vianna, inclusive, protagonizou uma defesa ostensiva de Eduardo Dussek, que se apresentara antes de sua banda, convidando quem vaiava a trabalhar para subir ao palco no próximo festival. Fato este que não foi privilégio daquele ano.

Análise: cineasta Carlos Manga priorizou o riso clássico

“e sorriu como um velho sorri da insensatez de uma criança e conserva atrás do sorriso seu verdadeiro pensamento.” Franz Kafka

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“Mas eu vou ganhar pra fazer isso?”, esse foi o principal questionamento de Carlos Manga quando começou a trabalhar com cinema. Para tanto abandonou uma carreira de bancário e um posto no almoxarifado da Atlântida, principal companhia do cinema brasileiro durante toda a década de 1950 e primeiros anos de 1960. Se não ganhou tanto dinheiro, certamente engordou os cofres da companhia, com filmes que alcançaram incríveis marcas até hoje difíceis de serem comparadas no número de espectadores. Eram os chamados “anos dourados” do cinema nacional e da “chanchada”, movimento que, com o advento do audiovisual no país transformou-se na principal referência do gênero durante muito tempo, com uma óbvia influência da chamada “comédia de costumes”, advinda, principalmente dos italianos.

O cinema brasileiro voltaria a alcançar marcas parecidas de popularidade somente nos anos da ditadura militar, principalmente quando, na década de 1970, criou-se a expressão “pornochanchada”, que se valia do enredo da matriz e acrescentava a esta um erotismo banal. O humor simples, ligeiro, e até ingênuo das chanchadas era uma marca de Carlos Manga. Seu estilo bonachão imprimia à figura uma imediata simpatia que certamente contribuiu para que astros como Oscarito, Grande Otelo, Norma Bengell e Jô Soares, cujo primeiro papel de destaque nas telonas foi em “O Homem do Sputnik”; se sentissem à vontade e passassem essa impressão para o público. Esse mesmo humor Manga carregou para filme e episódios de “Os Trapalhões”, além de diversos programas com Chico Anysio, Dercy Gonçalves, e outros.

Análise: Betty Lago reinterpretou a própria irreverência e estilo

“A moda sai de moda, o estilo jamais.” Coco Chanel

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Betty Lago surgiu para as passarelas, como modelo, na década de 1970, o que por si só já guarda diferenças nada sutis em relação aos anos 1990 e 2000, e torna descabidas as comparações com Gisele Bündchen. A época aplaudia e dava espaço para mais personalidade e menos comedimento, o que logo de cara se percebe ao constatar a beleza que uma e outra representam.

Betty levou para a TV o próprio estilo e personalidade. Não se absteve em pertencer à categoria de intérpretes cuja maneira de ser prevalece ao personagem. Betty Lago é sempre Betty Lago, desfilando para os fotógrafos de Nova York ou sob os olhos atentos dos que a viam de longe, como atriz ou apresentadora, mas que se aproximavam da artista pelo caráter ao mesmo tempo despojado e elegante que conferia às suas atuações.

Caio Fernando Abreu: um retrato de sua vida e obra

“cheio de projetos e sonhos, molhado de amor por tudo, procurando a síntese.” Caio Fernando Abreu

caio-fernando-abreu

Caio Fernando Abreu costumava dizer que escrevia seus textos como lentes de aproximação, a partir de uma referência cinematográfica, um zoom que vai aos poucos revelando o que há por trás das aparências, por trás, inclusive, de todo lodo e de toda lama, já que, segundo ele mesmo, o que “há dentro de uma pessoa, está dentro de todas”. Não por acaso o escritor cuja obra se desvelou nas décadas de 1970, 1980 e 1990 é hoje uma referência do estilo, e já pode ser tratada como um clássico, tal como os ídolos Clarice Lispector, Virginia Woolf e a mentora exotérica e espiritual Hilda Hilst, entre outros. Abaixo, pequenos retratos e descrições de sua vida e obra.

Crítica: Sátiro e irreverente, Jards Macalé lança primeiro DVD ao vivo

“Quando eu nasci
Um anjo louco
Um anjo torto
Um anjo doido
Veio ler a minha mão” Torquato Neto & Jards Macalé

Macalé - foto de Dulce Helfer

Sátiro, selvagem, gaiato. Com essas palavras alguns músicos e convidados definem o protagonista nos extras do DVD. Há também os que preferem as atribuições propícias ao nome: MACALÍSTICO, MACALÉA, JARDS JACARÉ. Não são raros os artistas cultos que utilizam a irreverência para fugir do pedantismo. De Antônio Abujamra a Paulo César Peréio, passando por Cazuza, com parada providencial em Paulo Leminski, Jards Macalé é mais um deles. Só que Macalé, como seus pares, nunca foi só mais um.

Relegado ao lugar de “maldito”, o músico que tentou suicídio na década de 1980, renasce. Além de ter música no próximo álbum de Ney Matogrosso, Macalé agora lança seu primeiro DVD. Com formação erudita e goles na fonte de João Gilberto e Baden Powell, o músico apresenta trabalho coerente com a sua trajetória, subvertida pela tradição da diversidade. Há de tudo um pouco em Jards Macalé, e seus parceiros comprovam. Dos tropicalistas Torquato Neto e Wally Salomão ao samba de breque malandro de Moreira da Silva.

Entrevista: As surpresas musicais de Mariana Arruda

“Mas nem uma mulher em chamas
Cede o beijo assim de antemão
Há sempre um tempo, um batimento
Um clima que a seduz
E eis que nada mais se diz
Os olhos se reviram para trás
E os lábios fazem jus” Chico Buarque

Mariana-Arruda-Francisco

Mariana Arruda surpreende. Inclusive para quem já a conhece. Atriz do grupo “Maria Cutia” desde 2006, ela estreia o espetáculo em que homenageia Chico Buarque, uma de suas maiores, senão a maior, paixão. E canta, entretém, diverte. A busca de originalidade e a mescla em sua vida são duas constantes. “Minha paixão por Chico Buarque vem desde cedo. Quando criança ouvia suas canções cantadas por Elis, Gal e Nara. Esse amor foi crescendo e, em 2005, a paixão tornou-se objeto e o Chico foi tema da minha dissertação de mestrado na Faculdade de Letras da UFMG”. “Francisco”, o atual projeto, foi realizado através do financiamento coletivo na plataforma “Variável 5”. Mariana retorna, então, ao início desse processo que desemboca em apresentação criativa.

“Foram dois anos intensos, ele e eu, suas tantas letras e histórias. Sua obra, inúmeras outras vezes, foi também motor inspirador dos meus experimentos de cena nas pesquisas no teatro, dos meus cartões de aniversário, das dedicatórias de livros… finalmente, chegou o dia de celebrar esse amor platônico”, sublinha. Mas Mariana não está sozinha nesse embalo. E o afeto aparece também para conduzir as participações. “O show começou a surgir nas minhas aulas de canto com a Babaya. Convidei o Leandro Aguiar que também é professor e tem uma história com a música e o teatro, assim como eu. Ele foi do grupo ‘Ponto de Partida’ e escolheu a dedo cada músico para compor a banda e, já no primeiro ensaio, vivemos uma sintonia plena”, garante.

Entrevista: O charme musical de Kícila Sá

“Pés, para quê os quero, se tenho asas para voar?” Frida Kahlo

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Se todo grande time começa com um bom goleiro, a busca de autenticidade começa pela assinatura, no que Kícila Sá não faz por menos. “Posso dizer que sou eu mesma. Quando escrevo, penso no que estou sentindo e como gostaria de me expressar. Pode ser algo do dia a dia, ou um ideal. Acredito que buscar a minha própria voz é uma auto-descoberta, pois a cada dia descubro que posso ser tantas e todas, mas que sou honesta quando sou eu mesma”, afirma. Cantora, atriz e compositora, a artista dispensa, por ora, a “dançarina”, apesar de se expressar no palco com desenvoltura e também posar para fotos com domínio de cena. Natural de Belo Horizonte, emerge no cenário independente da capital. Lançou o primeiro EP em 2012, e atualmente prepara tributo ao centenário de nascimento de Billie Holiday, ao lado de seis outras cantoras.

Esse e outros projetos fazem parte da agenda de Kícila Sá, que não dispensa o mistério. “Sem previsão de show no momento. Minha banda e eu vamos fazer uma imersão para trabalhar num projeto novo. É hora de parar de fazer show e focar. Quero lançar um disco em breve, mas ainda vou soltar na rede um clipe e um vídeo-poema. Estou gravando um curta-metragem com o diretor Ivo Costa que se chama ‘O Presente de Camila’, que deve sair no segundo semestre, e também fica pronto o longa-metragem ‘OTTO’, em que também participo como atriz. Tenho um show dia 28 de junho com o ‘Farside’, que é um projeto de música eletrônica, em que participo com o produtor Daniel Romano, o músico Gabriel Guedes e o baterista Rodrigo Carioca. Têm várias produções em andamento. Não vou contar tudo, pois muita coisa precisa ser finalizada”.