Joyce Moreno: “Nunca tinha visto um governo com este ódio à cultura”

“Procuro palavras para definir o que sinto e não encontro. Talvez elas nem sequer existam, talvez seja apenas um fluxo mais forte de vida abrindo os sentidos, embrutecendo o raciocínio.” Caio Fernando Abreu

Logo que surgiu, a cantora Joyce Moreno, 71, chamou atenção por ser uma mulher dona do próprio discurso. Ou seja, além de cantar, ela era a autora de obras que, com melodias inspiradas na bossa nova e uma lírica particular, desvendavam o universo feminino sob o prisma único da mulher que se colocava como detentora dos próprios desejos e vontades. Ao festejar, em 2018, os 50 anos de seu LP inaugural, ela decidiu regravá-lo na íntegra. Ali estava presente “Me Disseram”, que integra a sétima coletânea da Mostra Cantautores. Joyce comemora o lançamento mas, com todo seu tempo de estrada, se revela preocupada com a valorização da autoria, grande mote da mostra.

Zélia Duncan: “Lula é preso político” e “bandidos tiraram Dilma do poder”

“Eu ficarei em ti, mísera, inútil, mas rebelde,
última estrela só, do campo infiel aos céus escassos.” Cecília Meireles

Há pelo menos dez anos, desde “Pelo Sabor do Gesto” (2009), Zélia Duncan, 54, não lançava um disco com a sua “cara”. Nesse tempo, a carioca homenageou dois vanguardistas paulistas: Itamar Assumpção (1949-2003), em “Tudo Esclarecido” (2012); e Luiz Tatit, com “Totatiando” (2013); e também prestou tributo à obra não menos singular de Milton Nascimento, na parceria com o violoncelista Jaques Morelenbaum, que resultou no álbum “Invento +” (2017). Para completar, colocou na praça uma coleção de sambas, com “Antes do Mundo Acabar” (2015), a exemplo do que Adriana Calcanhotto havia feito em 2011.

Agora, Zélia está de volta às origens. Por mais que tenha procurado e alcançado a diversidade que pautou discos como “Eu Me Transformo em Outras” (2004) e “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band” (2005), é inegável que a identidade da artista se formou nos primeiros anos da carreira, iniciada na década de 90 e que, para além da mistura bem fomentada entre folk e pop, tinha na construção poética o seu grande trunfo. É isso o que a cantora recupera em “Tudo É Um”.

8 encontros musicais marcantes entre brasileiros e latinos

“A poesia e a literatura criam comunhão, e a gente descobre que é igual ao outro.” Rubem Alves

Idealizado pelo crítico musical Carlos Albuquerque, o festival Ultrasonidos teve a sua primeira edição realizada em junho deste ano, no Rio de Janeiro. Com o intuito de promover encontros entre músicos brasileiros e os seus vizinhos latino-americanos, a iniciativa levou ao palco apresentações de Alice Caymmi com a chilena Yih Capsule, MC Carol com o equatoriano Ataw Allpa e Aori com o colombiano Las Hermanas, entre outros. Aproveitando o ensejo, relembramos 8 encontros musicais marcantes entre brasileiros e latinos.

Zeca Baleiro: “A prisão de Lula é parte de um plano da direita para ocupar o poder”

“O homem jovem é um animal rebelde à dor.” Raymond Radiguet

Zeca Baleiro, 53, avisa logo de cara: “Ando bastante rebelde ultimamente”. “Mas, hoje, sou um rebelde estratégico, calculista. Como disse o poeta: ‘Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro’”, afirma, valendo-se dos versos de Belchior (1946-2017), presentes na música “Sujeito de Sorte”, lançada em 1976. Habilidoso em citar referências que navegam por universos aparentemente distintos, Baleiro acaba de colocar na praça “O Amor no Caos: Volume I”.

Moro e Dallagnol viram tema de música da Orquestra Royal

“Não duvido do cumprimento
De uma lei concebida e redigida
Expressamente para aniquilar-me.
Ai da vítima quando aquele mesmo
Que a lei forjou, lavra a sentença!
Podeis negar que se visou perder-me?” Friedrich Schiller

Sempre atenta aos acontecimentos mais quentes da política brasileira, a Orquestra Royal não deixou passar a oportunidade de criar mais uma pérola, dessa vez em cima da polêmica dos vazamentos envolvendo o ex-juiz e atual Ministro da Justiça Sergio Moro e o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol. Na canção, Moro e Deltan são comparados a diversas outras duplas ou uniões, no mínimo, peculiares. A composição ainda aproveita para tirar um sarro com a versão “Juntos e Shallow Now” de Paula Fernandes e Luan Santana.

Mano Brown: “A prisão do Lula é racial, cultural e social, estou lá com ele”

“Sua palavra será sagrada somente quando for a resposta correta a uma pergunta do povo.” Brecht

Mano Brown tem fama de marrento, difícil, às vezes ácido. Esse personagem controverso do rap nacional, nascido no bairro de Capão Redondo, na periferia de São Paulo, tem o seu nome cravado na história da música brasileira. Com o trabalho no grupo Racionais MC’s, onde versava sobre a dura realidade de pessoas excluídas por um sistema violento, racista e desigual, baseado na concentração de renda, ele apareceu pela primeira vez, nos anos 90. O histórico álbum “Sobrevivendo no Inferno”, lançado em 1997, é um dos capítulos dessa trajetória de lutas, mas Brown prova que ainda tem muito a dizer sobre um país cada vez mais dividido e polarizado, que nos últimos anos viu a desigualdade de renda aumentar após um longo período de bonança e estabilidade. Na entrevista abaixo, ele fala sem papas na língua, e com a costumeira habilidade de criar fortes metáforas e imagens impactantes, sobre o Brasil atual, o papel da música nesse contexto, o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva.

10 sucessos eternos de Nelson Gonçalves

“Sei, o teu coração sobeja
De amores velhos arrancados,
Como uma forja ainda flameja,
E na garganta tens guardados
Uns orgulhos dos condenados;” Charles Baudelaire

Nelson Gonçalves era um homem vaidoso, a ponto de dizer que ele mesmo se emocionava com as próprias interpretações. Nascido há cem anos, em Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul, o homem de voz potente, charmosa e grave acumulou polêmicas, quedas e reerguimentos ao longo dos 78 anos de vida que teve, a maior parte deles dedicados à música. Recordista de gravações da música brasileira, Nelson recebeu um prêmio da RCA-Victor por ter ficado 55 anos na gravadora. Além dele, só Elvis Presley obteve tal feito. Mas foi a aclamação popular a maior de todas as conquistas do intérprete, cuja obra continua ecoando. Em 2018, a gravadora Nova Estação lançou o álbum “Angela Maria e Nelson Gonçalves Ao Vivo”, em registro que permanecia inédito e enfileira os sucessos da carreira do cantor.

Michel Melamed: “É hora de dizer não aos nazistas, e sim aos nossos artistas”

“A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito.” Thomas Mann

A primeira vez que ouvi falar em Michel Melamed foi na Faculdade de Comunicação e Artes, durante o curso de jornalismo, em 2008. O professor Márcio Serelle, que mais tarde escreveria o prefácio do meu primeiro livro (“Amor de Morte Entre Duas Vidas”), falava entusiasmado sobre o trabalho “Regurgitofagia”, um marco da dramaturgia nacional que unia diversas linguagens, como poesia, teatro e artes plásticas, e propunha uma radical interação com a plateia, onde cada reação sonora emitida por esta era captada por microfones e transformada em descargas elétricas que atingiam em cheio o corpo de Melamed. Como as aulas do professor Serelle me impressionavam, a partir deste momento ambos passaram a me impressionar.

O encontro “pessoal” com Melamed se daria pouco tempo depois, quando o ator, escritor, poeta, diretor teatral e futuro apresentador de televisão apresentou uma palestra para lá de performática na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais. Da cadeira onde eu estava, a poucos metros de distância do convidado, as provocações de uma palestra que nada afirmava, mas, ao contrário, lançava questões uma atrás da outra, borrando e rompendo as barreiras entre representação e realidade, confirmaram definitivamente a admiração pela personalidade artística de Melamed. Ao ter a oportunidade de entrevista-lo, também busquei as memórias remotas do personagem. Antes de ser contratado pelo Canal Brasil, ele foi espectador da emissora.

DJ Zé Pedro: “Os letristas de hoje são um retrato da educação que tiveram”

“Devo meu sucesso a ter sempre ouvido respeitosamente os melhores conselhos, e depois ter feito exatamente o oposto.” G. K. Chesterton

Caymmi, Gil, Veloso, Baby, Moraes, Nogueira, Bosco e Buarque podem ludibriar, numa primeira vista, quem liga o nome à pessoa ou adquire o livro pela capa. Se a sentença seguinte afirmar que os sobrenomes pertencem a Alice, Bem, Moreno, Pedro, Davi, Diogo, Julia e Clara, ninguém terá sido enganado. Herdeiros de artistas famosos, os citados pertencem a uma geração que, ao contrário das que vieram antes, que já chegavam tentando afastar o peso do sobrenome famoso, não só optam por seguir os passos profissionais dos pais, como têm se lançado em empreitadas capitaneadas pelo nome mais famoso do clã. Dono e idealizador da gravadora Joia Moderna, o DJ Zé Pedro dá seus pitacos sobre o cenário atual da música brasileira e alguns sucessos da última hora.

6 clipes bombados de K-Pop no mundo

“Vocês sabem tão bem quanto eu: as pessoas nunca podem dizer claramente o que pensam do dinheiro, da morte, da fama ou do casamento, vocês precisarão apanhá-las nas entrelinhas; vocês terão que adivinhar.” Thornton Wilder

Fogos de artifício, dois monumentais tigres de bronze e, em cada um dos sete microfones, uma cor do arco-íris. Subitamente, alguém sobrevoa a plateia. É Jungkook, que, a exemplo dos demais membros do BTS, veste um alinhado terno branco feito sob medida pela renomada grife francesa Dior. Esse é um aperitivo da turnê “Love Yourself: Speak Yourself”, que começou na Califórnia, nos Estados Unidos, e chega ao Brasil no próximo final de semana, com apresentações nos dias 25 (sábado) e 26 (domingo) de maio, no estádio Allianz Parque, em São Paulo, com capacidade para 55 mil pessoas.

Parte de uma série de oito apresentações que vai percorrer as Américas, a Europa e a Ásia, o anúncio do show avisa que se trata do “maior grupo de pop do planeta”. O esgotamento de todos os ingressos na capital paulista, que custavam entre R$ 205 (meia) e R$ 975 (inteira), torna a propaganda difícil de ser rebatida. Mas não é só isso. Depois de estrear em 2013 com o lançamento do single “No More Dream”, o conjunto de sete garotos sul-coreanos, que atualmente têm entre 21 e 26 anos, iniciou uma escalada impressionante e se consolidou como o maior expoente mundial de k-pop. A expressão é uma abreviação para korean pop, ou, em tradução literal, “música pop coreana”.