3 músicas brasileiras contra o machismo

“Vontade de esquecer o que aprendi:
Os castelos lendários são paisagens
Onde os homens se aquecem. Sós. Sumários
Porque da condição do homem, é o despojar-se.” Hilda Hilst

musicas-contra-machismo

O histórico paternalista que rege o mundo é um dos responsáveis diretos pela perpetuação do preconceito contra a mulher e da elevação do homem numa escala de poder. Esse machismo atávico está presente no comportamento e na visão de mundo de pessoas de todas as classes e todos os gêneros. Felizmente para combater o senso comum e a reiteração de práticas de violência, a arte dá seu alarde, lança seu sino, seu dardo. No Brasil, vários compositores falaram contra o machismo. Elegemos Pepeu Gomes, Gilberto Gil e o intérprete Ney Matogrosso em 3 músicas que se destacam nessa seara.

Romance De Três

“Primeiro é o beijo
Quente, procurando
A língua procurando a outra
E vendo se a boca combina
Se combina o beijo” Cazuza

Rene-Magritte-The-Lovers-1928

Posse
Na boca aberta estar dentro. Na boca de dentes e língua. Na boca molhada estar dentro. Na boca que é pura saliva. Na boca como na avenida. Libido dos dentes; tensão da língua. Os dentes que trincam. A língua que adoça a gengiva. A língua com seu sabor molhado. A língua se arrisca; entre os lados, o fim e o começo e, sobretudo, dentro. Dentro a língua; dentro da língua; a língua dentro. Língua de vida, língua saliva. E os dentes em seu cortejo. Abram alas para a língua. E os dentes em seu cortejo, na caverna da boca a língua-morcego. E os dentes em seu cortejo: mordem, arranham e soltam faísca. E os dentes em seu cortejo: marcam o corpo com o branco do leite. Abram alas para língua. Que desejo, que deseja… Dentro da boca, ser possuída…

O que você é?

“‘Quem é você?’, disse a Lagarta.
Não era um começo de conversa muito estimulante. Alice respondeu um pouco tímida: ‘Eu… eu… no momento não sei, minha senhora… pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então’.
‘O que você quer dizer?’, disse a Lagarta ríspida. ‘Explique-se!’
‘Acho que infelizmente não posso me explicar, minha senhora’, disse Alice, ‘porque já não sou eu, entende?’” Lewis Carroll

FotorCreated

Pesquisa empreendida por Raphael Vidigal e André Coelho durante o mês de março de 2015 pelas ruas de Belo Horizonte, que busca investigar, através do discurso, essa pergunta fundamental: “O que você é?”. Nos vídeos abaixo conversamos com Cida, vítima de violência contra a mulher antes da Lei Maria da Penha; e Wellington, que, segundo nos diz, é filho do maior meio-médio ligeiro da história.

Análise: Bel Garcia se entregou com força e gana ao teatro

“o céu era açúc ar lu minoso
comestível vivos cravos tímidos
limões verdes frio s choc olate
s. so b, uma lo co mo tiva c uspi
ndo vi o letas” e. e. cummings

bel-garcia

Pecado e virtude são os dois lados da mesma moeda, diria o outro. Esse pecado do teatro é o de não deixar registros, senão na memória e no coração dos que o viram naquele instante, donde reside também sua mágica. Bel Garcia, uma das fundadoras da “Cia dos Atores”, tida e havida por sua predileção pelo experimental, mas que nem por isso deixou de cativar e comover plateias; foi uma atriz que se entregou com força e gana ao teatro. Atuou em papéis que destacavam um lado cáustico e foi, principalmente, a Ofélia de “Ensaio.Hamlet”.

Análise: Domingos Oliveira e o cinema de François Truffaut

“ – De que me vale ter casa sem ter mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o como se vê nos cinemas…
O ideal seria uma que amasse fazer comparações de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno, gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas…” Manoel de Barros

domingos-oliveira

Só pode comparar Domingos Oliveira a Woody Allen quem nunca assistiu aos filmes de François Truffaut. Talvez este seja o principal equívoco da documentarista Maria Ribeiro ao contemplar seu ídolo no longa-metragem “Domingos”, dirigido por ela em 2011. O próprio cineasta desmente a fã. Ao enumerar as influências cinematográficas detém-se em 3 nomes fundamentais. Godard, que lhe “ensinou a liberdade, embora não tenha grandes filmes”; Fellini, “o maior de todos, que não filmou a vida, filmou o mistério”; e François Truffaut, “que me ensinou que posso usar música clássica em cenas do cotidiano”, afirma. Porém, a própria resposta de Domingos é traiçoeira.

O fato de ter passado a protagonizar os próprios filmes ao longo da carreira, assim como o citado diretor norte-americano, é ainda uma gota no oceano de similaridades ao se analisar a forma e o conteúdo das produções de Domingos e Truffaut. Não é apenas no uso da música erudita em passagens aparentemente banais que registra esses pontos de encontro. Sobretudo, a temática, centrada na veneração pela mulher e na escolha do amor como a principal dimensão da existência humana. Os títulos de suas obras mais conhecidas comprovam a tese. Truffaut era “O Homem que Amava as Mulheres”; e Domingos ainda é o homem de “Todas as Mulheres do Mundo”.

Dezoito de julho

“Era impossível imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de pó-de-arroz com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postiças, as sobrancelhas e pálpebras que pareciam pintadas com tição, e os lábios aumentados com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes para dissimular seu gênio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os lábios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga.” Gabriel García Márquez

In-Bed-The-Kiss-by-Henri-de-Toulouse-Lautrec

Abriu os olhos sem imaginar o que a esperava. Lia num papel creme as pregressas palavras. A pele morena de índia sadia espreguiçou-se silenciosa e saliente, enquanto o bocejo incontido soava irreprimível. O instante do despertar obedecia a esta rotina, agora quebrada, onde a herança japonesa recebia os primeiros raios de sol numa manhã quente e poucas vezes nublada. Esticado e puxadinho, como o sentido da visão, lhe estava, sobre os cabelos embaralhados, o gato. Estes traziam nos caracóis o charme de negras anjinhas, qual feiticeiras de invisíveis auréolas. As sobrancelhas, motivo de orgulho em prol da apuração ao delineá-las, em cima mantinham-se de finos e agitados cílios, delicados quanto borboletas em alvoroço. Metáfora semelhante poderia ser aplicada ao comportamento das duas cachorras, a primeira estando com o “delicada”, e a segunda, “alvoroço”.

Um a um aos nomes foram chamados, afinal se tratavam de membros da família e companheiros de sono inescapáveis. Rei de Espanha; o gato, Rainha dos Mares; a delicada, e Princesa do Oceano; a “em alvoroço”, atenderam cada qual à única e singular maneira de se portar frente a acontecimentos dessa natureza. Personalidades distintas sorriam plenas num momento de beijos, latidos, miaus e abraços. Apenas o coelho, de alcunha Leite Morno, dono de orelhas mescladas, inquieto focinho e patas impacientes, enviava o guincho à distância. Foi preciso se desvencilhar do afago de seus bichinhos para persistir no enigma. Pousada sobre si uma carta escrita à mão começava falando, após uma “pequena” introdução, a respeito de misteriosa caixa a seus pés. Antes, porém, reconhecera na capa a proteger tais folhas a própria fotografia, ao lado de outro do qual era possível sentir as mãos, tocar o cheiro, ouvir os olhos e o coração.

Ao mestre Mozart, com carinho

“Noite ao luar, todos se encontrarão
Minas, a bela dama, abre-se ao violão
Entre homens e mulheres, seresta e comunhão
Tudo é sorrir” Raphael Vidigal & André Figueiredo

Mozart-Secundino

Meus encontros com o mestre Mozart foram sempre breves, suaves, porém marcantes. No seu caso, era impossível dissociar a música do homem, o instrumento do coração. Mozart tocava a vida com gentileza, como tocava seu violão. Não é por acaso que nas rodas de choro era conhecida sua predileção pela música “Simplicidade”, de Jacob do Bandolim; esta palavra muitas vezes esvaziada de seu sentido, nele encontrava a tradução perfeita. O legado maior de mestre Mozart Secundino, por mais que possa parecer o contrário, não foram as músicas que tocou, a maneira como as interpretou, mas os amigos que tantas e tantas vezes ao seu redor e por sua conta se reuniram.

25 anos da morte de Reinaldo Arenas: poeta, homossexual e cubano

“estava diante de um homem que fizera da literatura sua própria vida; diante de uma das pessoas mais cultas que jamais conheci, mas que não fazia da cultura um meio de ostentação, e sim, muito simplesmente, algo a que se agarrava para não morrer; algo vital que o iluminava e que, por sua vez, iluminava quem estivesse ao seu lado.” Reinaldo Arenas

Reinaldo-Arenas

Reinaldo Arenas define a própria obra, em sua autobiografia “Antes que anoiteça”, como sua “vingança contra quase todo o gênero humano”. Perseguido e preso pela ditadura de Fidel Castro, a qual apoiou no início quando esta derrubou outro regime totalitário, o de Fulgencio Batista, Arenas sempre teve, do ponto de vista material, uma vida miserável, o que não o impediu de desfrutar uma pródiga e exuberante sexualidade.

Poeta, homossexual e cubano, para o bem e para o mal essas três circunstâncias marcaram a existência de Arenas. Seus manuscritos eram enviados através de amigos para a Europa e países da América Latina, e sua escrita, apaixonada e liberal; em romances, contos e poesias, não tardou a despertar a ira do Partido Comunista e seus correligionários. Além disso, no auge e esplendor de sua juventude Arenas descreve em detalhes no crepuscular romance sua intensa atividade sexual nas praias cubanas, inclusive com homens casados.

Dois ou três crimes que cometi dormindo

“Como se os caminhos familiares traçados nos céus de verão pudessem conduzir tanto às prisões quanto ao sono inocente.” Albert Camus

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“- É necessário que haja dolo”, intercedeu meu advogado.
“- Constatado”, retrucou o juiz.

Então eu havia sido condenado por dois ou três crimes que cometera dormindo. Não negava aquela acusação. O que me indignava era saber como aqueles crimes cometidos em sonho haviam alcançado a realidade. Quem fora o delator? Quem me entregara?

Eu mesmo era incapaz de tal ato, e também de dividi-lo com outras pessoas, tamanha a crueldade e a natureza, sem dúvida, grotesca, daqueles crimes. A vergonha, controle social de toda e qualquer sociedade civilizada me impediria de confessar. Mas nos sonhos, ambiente livre dos braços da repressão, eu era bem capaz de cometer aqueles crimes de novo, o que me preocupava ainda mais, pois já na prisão minha pena poderia ser triplicada.

História de tia Ofélia

“Hesito, é certo, mas aguardo o assombro
com que verei descer de céus remotos
o raio que me fenderá no ombro.” Ferreira Gullar

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Desde menina era arteira. Orgulhava-se dessa palavra. Repetia para si mesma: “arteira, sou uma menina arteira”. Vivia na roça, no interior das Minas Gerais. Tinha que plantar o que comer, ajudar a ordenhar as vacas, divertia-se vendo o leite escorrer daqueles animais tão grandes que ao mesmo tempo podiam ser tão mimosas, nome, aliás, muito adequado para uma vaca. Mas via também cenas de violência com as quais se acostumara. O ritual para matar um porco é dos mais estridentes, o bicho demonstra aos berros a agonia da morte. Para uma galinha também não é nada fácil, mas tia Ofélia se acostumara.

Agora uma mulher idosa recordava com saudades da infância. O pior período viera depois, embora ainda moça, tornara-se uma adulta quando aos quatorze anos foi desposada, e conheceu o inferno com requintes de crueldade. O homem que a desposou no início foi muito simpático, ganhou a confiança do pai e, sobretudo, da mãe. Mas bastaram estarem sós depois da primeira noite de núpcias para as maldades começarem. O homem, de quem, a essa altura da vida, recusava-se a repetir o nome, gostava de caçar. Saía todas as noites e voltava repleto de sangue, comemorando a vitória da matança.