Rosa dos Ventos

“O vento assovia de frio
nas ruas da minha cidade
enquanto a rosa-dos-ventos
eternamente despetala-se” Mario Quintana

rosa-dos-ventos

Centros culturais espalham-se no Brasil. Entre os espalhados, amontoados, aqueles que carregam no sobrenome a alcunha de favelados.

Centros culturais oferecem atividades que a escola deveria oferecer. Mas não há escola por aqui.

Pois se a escola muitas vezes deturpa, aqui deturpados são sem escola e sem oração.

Vemos aqui sujeitos no palco, da vida e do teatro. Sujeitos na pista, de dança e de corrida. Música para os ouvidos, mente e coração.
Tudo se une, se amontoa, espalha.

O palco invade a pista, que invade a cabeça que liga direto ao coração dos que assistem e participam.

É uma iniciativa fundamental para o país. Merece louros e aplausos. Surgida por conta da mais pura necessidade, da falta total, do abandono, da exclusão.

A Música & a Dança de Lennie Dale

“Mais: que ao se saber da terra/não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas/fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra/e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,/para vencer quem duvida.” João Cabral de Melo Neto

lennie-dale-danca

Quando chegou ao Brasil, no início da década de 1960, trazido pelo produtor e diretor Carlos Machado para compor a coreografia de “Elas Atacam Pelo Telefone”, o ítalo-americano Lennie Dale, nascido Leonardo La Ponzina na periferia de Nova York; já desfrutara de relativo sucesso na terra natal. Era uma promessa cujo gênio ameaçava, desde cedo, as estruturas vigentes. Integrante do musical da Broadway “Amor, Sublime Amor”, foi barrado pelo diretor Jerome Robbins para a versão cinematográfica. Não deu outra, sem pensar duas vezes carregou as malas cheias de collant e brilho para Londres e passou a ensaiar em uma sala alugada com as portas abertas a fim de exibir seu rebolado.

Daí foi um pulo para participar de programa na televisão italiana com a presença do astro da dança e das telonas Gene Kelly e, logo em seguida, da coreografia do filme “Cleópatra”, protagonizado por ninguém menos que Elizabeth Taylor, de quem se tornou amigo e guardou histórias saborosas para contar entre os mais próximos. Anos depois, também encantou Liza Minelli, e a dirigiu em espetáculos. Tudo isso antes de desembarcar em terras brasilis. O que lhe deu mais do que a cancha necessária para fomentar o estilo de dança da bossa nova, e influenciá-la até no jeito de cantar. Ao registrar dois discos valia-se de estribilhos rítmicos e sonoros para compensar a ausência de voz.

Crítica: peça “O Marido da Minha Mulher” sustenta papéis consagrados

“As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.” Groucho Marx

marido-da-minha-mulher

Datada de 1987 a peça “O Marido da Minha Mulher” conta a história linear do homem que morre em um acidente e volta para atazanar a vida da viúva, do amigo e de um potencial desafeto. Com mudanças pontuais no enredo que contextualizam e se valem de bordões e situações contemporâneas e simpáticas ao espectador da cidade, o período de lançamento do espetáculo tem muito a nos dizer sobre ele. Os quase 30 anos em cartaz são parte importante para analisar o nível de transformação social que ocorreu no país, e, preponderantemente, a falta de uma política efetiva de educação e incentivo à cultura, que a modificasse na essência, não a que se atém às suas margens.

O texto de Sérgio Abritta, que também dirige, reforça e sustenta papéis consagrados na sociedade brasileira, em que o machismo e a homofobia, além de costumes de praxe, eram práticas comuns e bem aceitas, referendadas entre todas as classes. Se naquela época a história já buscava afrouxar e modificar esses estereótipos, para os tempos de hoje eles soam ainda mais inconvenientes e conservadores. Nesse sentido, o riso que desperta soa como um assentimento da montagem a esses papéis outrora bem mais estabelecidos. Há um sentido moral da peça que representa nichos ainda bastante protuberantes na sociedade moderna, e que se incomoda de ter que dividir cada vez mais espaço com as novas tendências.

2 marchinhas para o Carnaval de BH – 2016

“Me chame Baco ou Rei Momo
Do balacobaco eu tenho o trono
Mas se você quer ser mais direto e natural
Pode me chamar de Carnaval” Péricles Cavalcanti

giselle-couto-carnaval

Vem aí o Carnaval de BH versão 2016, e para animar a folia apresentamos 2 marchinhas inéditas; uma de teor político, relembrando a velha prática satírica que teve e ainda tem como pano de fundo (ou principal) nossas sempre simpáticas, e ousadas, autoridades; a outra, de teor romântico, trazendo de volta à tona outra tradição brasileira, a de fazer troça do próprio sofrimento, e transformar a desilusão amorosa num motivo para deboche, ironia, e claro, aproveitar para rogar aquela praga em quem nos deixou de coração partido. Divirtam-se!

Marchinhas gravadas no Liquidificador Estúdio, em Belo Horizonte, no dia 22 de janeiro de 2016.
Voz – Giselle Couto / Violão – André Figueiredo / Técnico de som: Marcos Frederico / Produção: Raphael Vidigal

Análise: Ettore Scola trouxe cinema de magia e sonho

“O cinema é um espelho pintado.” Ettore Scola

ettore-scola-cinema

Herdeiro do “Neorrealismo Italiano”, Ettore Scola acrescentou a comicidade sem eliminar a tragédia de seus romances. Sim, porque a narrativa do diretor manteve fortes ligações com esse estilo clássico, como o profundo afeto por suas personagens e o idealismo transformado em mágica. De maneira geral, o sonho, a poesia e a ilusão foram o tema central da obra de Scola. Adepto das grandes histórias e de cenários povoados, o cineasta foi mestre em captar o detalhe e tecer, através de uma delicada colcha de retalhos, uma linha harmônica, mas não óbvia, que ao mesmo tempo unia e separava deleites e dificuldades, aproximando o espectador, porém se mantendo no domínio das situações.

Contemporâneo de Pasolini, Godard, Truffaut, Éric Rohmer, Antonioni, Fassbinder e muitos outros, Scola pertenceu, no auge de sua maturidade artística, ao período discriminado por críticos como “Cinema de Autor”, e sem dúvida é possível assimilar sua marca em filmes como o musical “O Baile”, inteiramente mudo, “A Janta”, protagonizado por Fanny Ardant, o épico “Feios, Sujos e Malvados”, que lhe valeu a consagração como melhor diretor em Cannes, e tantos mais. Pois a capacidade em transitar do protagonismo da trilha sonora à de uma atriz, apenas reafirmava seus muitos recursos, voltados para contar uma história, em que a linguagem era auxiliar do conteúdo, e não sua carrasca.

Crítica: peça “Ignorância”, do grupo Quatroloscinco, denuncia estado de violência das relações

“Édipo não sabia que dormia com a própria mãe e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego, deixou Tebas. (…) O homem é responsável pela própria ignorância.” Milan Kundera

185529_Ignorancia_Credito-felipe-messias

Dividida em esquetes, a peça “Ignorância”, do grupo Quatroloscinco, também partilha seus integrantes, tendo Assis Benevenuto e Marcos Coletta a cargo do texto correto e da segura direção, e Italo Laureano e Rejane Faria na atuação, com performances dignas de aplausos. A linguagem buscada é a da representação marcada, antinatural. Encenado pela primeira vez em 2015 o espetáculo aborda situações contemporâneas de olho na origem, ao que parece ser seu grande trunfo. A cenografia de Eduardo Andrade e Cristiano Cezarino interfere, com méritos, diretamente na montagem. A iluminação de Rodrigo Marçal também dá seus recados. Já o figurino proposto por Lira Ribas cumpre a função de igualar os atores no palco. A trilha sonora do “Barulhista” causa o incômodo pertinente.

As cenas que se desenvolvem entre a introdução e o fechamento da peça se destacam no conjunto da obra. Na primeira delas a originalidade na distribuição das representações tem algo a nos dizer sobre os papéis sociais desempenhados, e evoca, ainda, sem o caráter da cópia ou repetição, os ecos de “Deus da Carnificina”, da dramaturga Yasmina Reza levada ao cinema, em 2011, pelo diretor Roman Polanski. Na segunda, a comicidade alivia a violência do diálogo. De tom predominantemente sarcástico, o enredo busca denunciar, em suma, esse estado de violência das relações, disfarçado pela aura da civilidade e do ato, quase constante, de “lavar as mãos”; a trágica indiferença.

13 músicas brasileiras a favor do meio ambiente

“Tem muitas claves a terra.
Lá, onde a melodia se ausenta,
Fica a desconhecida península.
A beleza é fruto da Natureza.” Emily Dickinson

musicas-meio-ambiente

Das preocupações com o mundo nossos compositores nunca se viram livres. Fossem elas de ordem política, sociais ou relacionadas, em suma, ao meio ambiente em que vivem. Dessa perspectiva tanto ecológica quanto de preservação do espaço, nomes como Luiz Gonzaga, Beto Guedes, Caetano Veloso, João Nogueira, Djavan, Jorge Benjor, Toquinho, Paulo César Pinheiro e intérpretes do porte de Clara Nunes e Baby do Brasil se valeram para cantar a terra com todo o verde que ela deseja e merece. Em um planeta cada vez mais cético e desenvolvimentista, impingido de lama e poluição, a arte ainda é um alento. Seguem, abaixo, 13 músicas brasileiras a favor do meio ambiente.

Centenários 2016: Clóvis Bornay representou elite carioca de sua época

“Mãe dos jogos latinos e gregas orgias,
Lesbos, dos beijos lânguidos e dos fogosos,
Ardentes como sóis, frescos quais melancias;
São o ornato das noites e dias gloriosos;” Baudelaire

clovis-bornay-carnaval

Num quadro satírico o comediante Agildo Ribeiro o apresenta como “um dos raros brasileiros alegres desse país”. Clóvis responde com bom humor, sua principal característica. Museólogo por formação e folião por farra, Bornay foi personagem carnavalesco fundamental na transição da música para a fantasia, dos adereços sonoros para os visuais, embora não tenha feito feio como intérprete de deliciosas e maledicentes marchinhas, tais como “Vamos furunfar”, “Dondoca” e “Fla Gay”, e como jurado de Chacrinha e Silvio Santos. Foi partícipe e emblema maior da tal “Cultura da Imagem”, fundada, sobretudo, nas aparências. Tanto que o diretor do “Cinema Novo” Glauber Rocha o utilizou no filme “Terra em Transe” para dar conta desse caráter alegórico.

Análise: Principal marca de David Bowie foi recriá-las

“manchados por esses brilhos úmidos, mudavam de cor com a alacridade de camaleões:” Truman Capote

david-bowie

Originalidade e proposição são paradigmas fundamentais para a arte, desde o princípio. David Bowie os cumpriu com rigor e teve todo mérito nessa honra. Andrógino, criou personagens para a música, o mais emblemático de todos eles Ziggy Stardust, com o qual abordava a vida interplanetária, e atuou como protagonista e com destaque também no cinema, nos filmes “Fome de Viver”, “Furyo, em nome da Honra”, “Labirinto”, em peça teatral da Broadway, “O Homem Elefante”, e mais uma infinidade. De fato, ficar parado não era para Bowie. Daí a dificuldade em sublinhá-lo, traçar um limite para o artista. Logo, é padrão associá-lo genericamente ao pop, gênero que, por método e na definição, apreende a vários. Ou como bem dito por um dos vértices do nosso Tropicalismo, o bom baiano Gilberto Gil: “Ser pop é querer gostar de tudo”.

Racismo nosso de cada dia…

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.” Joaquim Nabuco

antonio-pompeo

Embora comum a todos, a morte é sempre extraordinária. Nas circunstâncias que levaram o ator e artista plástico Antônio Pompêo, de 62 anos, é possível designar fortes traços de racismo. De acordo com a companheira e atriz Zezé Motta, com quem fundou e participou de movimentos favoráveis à causa negra, o colega estava “recluso e morreu de tristeza”, por ter tido um “talento mal aproveitado”. Para o artista não existe pior condenação do que o limite. E Pompêo estava confinado a uma sociedade de classes, onde os papéis que lhe cabiam, não raro, na arte e na vida, eram os do submisso.

Como para provar não se tratarem de fatos isolados na sociedade brasileira, o dia da morte de Pompêo também obrigou, horas antes, ao namorado misterioso da apresentadora do canal no Youtube Jout Jout Prazer a se posicionar e mostrar o rosto contra as retaliações de racismo sofridas na internet em razão de fotos do rapaz que começaram a circular. Caio causou furor ao quebrar a expectativa dos que o imaginavam segundo o modelo grego de beleza ocidental, ou o príncipe num cavalo BRANCO dos contos de fada. Ele que se considera “pardo”.