Crítica: “Papo de Segunda” lança olhar cômico e enviesado para qualquer assunto

“Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.” G. K. Chesterton

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Um dos conceitos básicos implementados pela dramaturgia clássica foi a criação de tipos. Ou seja, a congregação de características ao mesmo tempo diversas e complementares. É possível percebê-la, sobretudo, na comédia, de que são exemplos os filmes dos Irmãos Marx e dos Trapalhões, em que se distingue nitidamente na versão brasileira a presença marcada do nordestino, do negro e sambista do morro, do carioca metido a galã e do homossexual infantil. Conformação que atende às novelas românticas e até as chamadas “mesas redondas”, inventadas na televisão brasileira para o debate esportivo. Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira protagonizaram uma das mais emblemáticas do gênero. O “Papo de Segunda”, transmitido pelo canal fechado GNT na segunda-feira das 22h às 23h, não foge a esse contexto.

Análise: 80 anos de Zé do Caixão, rei do terror nacional

“como se estivesse tentando escapar do sopro sufocante de um pântano ou do hálito pestilento de uma praga.” Edgar Allan Poe

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Se é verdade que o Brasil nunca teve tradição em cinema de terror, também o é que um de seus cineastas mais tradicionais pertence ao gênero. Afora as características da originalidade e raridade, que já garantiriam vulto à obra de José Mojica Marins, colado à personagem que criou para realizar o desejo de filmar histórias mórbidas; é, sobretudo, a abordagem que sugere para Zé do Caixão lugar de destaque em nossas artes. Rogério Sganzerla teve a sabedoria de utilizá-lo como ícone em películas de seu “Cinema Marginal”, valendo-se de sua figura mítica, enquanto Ivan Cardoso sofreu influências do estilo de interpretação francamente marcada e caricatural. Nisso tudo o caráter brasileiro de folclores e lendas impõe-se sobre universo de escuridão pouco identificado à terra.

Crítica: exposição “Formas do Moderno” organiza síntese do movimento

“… e parecem ignorar que poesia é tudo: jogo, raiva, geometria, assombro, maldição e pesadelo, mas nunca cartola, diploma e beca.” Oswald de Andrade

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Com o intento de sintetizar o que foi a “Semana de Arte Moderna de 1922” e seus desdobramentos para a cultura brasileira, caracterizados pelo que se convencionou chamar “Modernismo”, a exposição “Formas do Moderno”, em cartaz na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte até o próximo dia 8 de maio, com entrada gratuita, alcança seu objetivo. Curta, a mostra dá conta dos principais pilares e elucidações mais caras aos artistas, o que é possível se constatar, por exemplo, na utilização das cores por Flávio de Carvalho e Cícero Dias, das formas por Hélio Oiticica e Bruno Giorgi e do motivo em Lasar Segall, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Alberto da Veiga Guignard, José Pancetti e muitos outros, dentre eles a reconhecida Tarsila do Amaral, cujas obras só aparecem em vídeo, esse o principal deslize da curadoria, a cargo de Valéria Piccoli, com quadros e esculturas da coleção que pertence à Fundação Edson Queiroz. O prospecto da exibição, diminuto em informações e impresso em apenas uma folha, também deixa a desejar.

Análise: Naná Vasconcelos foi músico da origem

“vento/que é vento/fica
parede/parede/passa
meu ritmo/bate no vento/e se
des pe da ça” Paulo Leminski

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Naná Vasconcelos foi um tipo raro na música brasileira. Não era pra qualquer um, e misturava, em seu caldo, todos os gostos, ciente da abordagem popular que sempre o caracterizou. Natural do Recife teve em seus primeiros anos as influências de Jimi Hendrix e Villa-Lobos, tão díspares quanto complementares para o estilo harmônico que criou. O percussionista, que brincou e reinventou tons e modalidades para diversos instrumentos, mas, sobretudo, o berimbau, tão caro e essencial aos nativos indígenas e povos africanos que aqui chegaram quanto da ocupação do país pelos portugueses, já era uma figura de destaque mundo afora, por diversas turnês que empreendeu pela Europa e América do Norte, fosse acompanhando as bandas de Gilberto Gil, Milton Nascimento e outros, ou como artista principal; quando gravou, com Jards Macalé, em 1994, uma espetacular jam session feita em uma tomada só, batizada, como o disco, de “Let´s Play That”, um marco de irreverência que deixa ainda mais claro o caráter inventivo e libertário da obra de Naná.

Centenários 2016: Silas de Oliveira pertence ao panteão do samba

“Sinto, abalada minha calma
Embriagada minha alma
Efeito da tua sedução” Silas de Oliveira & Joaquim Ilarindo

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Silas de Oliveira morreu e nasceu numa roda de samba. Embora o pai não tenha concordado, por suas convicções pastorais e protestantes, Silas começou a ser Silas quando fundou, junto de seus pares, dentre eles o inseparável Mano Décio da Viola, a Escola de Samba do Império Serrano, e para sempre foi batizado entre batuques, pandeiros e tamborins. Conhecido, sobretudo, pela atividade nos desfiles de carnaval, compositor arguto e perspicaz que era de temas históricos para os tradicionais sambas-enredo, também merecem destaque seus sambas de roda, tais como “Meu Drama”, popularmente chamado “Senhora Tentação”, “Cruel Paixão” e “Desprezado”. É destas canções que emergiram versos do quilate de “será que o amor por ironia/move esta fantasia, vestida de obsessão?”, regravados por ninguém menos do que Cartola; e “amanhece e anoitece/eu sei que nesse mundo tudo se fenece/então porque essa paixão/do meu coração não desaparece?”, e etc.

Análise: 400 anos da morte de William Shakespeare, o bardo inglês

“‘Há algo de estranho, e que agora se
julgaria muito afetado na linguagem de Shakespeare
Cujos pensamentos comuns estão expressos em palavras
incomuns.’” Ezra Pound

Shakespeare

Muitos já questionaram se ele realmente existiu, tal como Cristo ou até mesmo Deus. E a comparação não é em nada gratuita. Para além do “Ser ou não ser”, o autor de “Romeu & Julieta” talvez seja tão conhecido quanto os outros dois, ao menos indiretamente. Está, por exemplo, na culinária mineira, uma das mais tradicionais do Brasil, na combinação de queijo com goiabada que leva o nome de uma das peças românticas do dramaturgo. Vira e mexe reaparece nos comentários políticos, quando se diz que algo não anda bem: “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, recorrem, trocando por vezes o nome do país.

Crítica: “Amor & Sexo” é melhor quando não se leva a sério

“Amor é bossa nova/Sexo é carnaval” Arnaldo Jabor & Rita Lee

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Transmitido agora aos sábados à noite, o programa “Amor & Sexo”, comandado por Fernanda Lima na Rede Globo dá um respiro de liberdade na grade da sempre tão vigilante emissora. Longe de ser ousada, a atração atende ainda às premissas da nossa classe média, mas serve como aperitivo para dispersar nosso pedantismo anacrônico e o conservadorismo latente. Embora não chegue perto da transgressão com que programas da TV por assinatura já trataram do assunto para os padrões da nossa TV aberta é algo novo.

Fernanda Lima tem desenvoltura com o tema e, de acordo com a abordagem proposta, não incomoda ninguém, pelo contrário. Mas o melhor da festa são os comentaristas amadores, que garantem, senão rebeldia, ao menos alguma irreverência. São os casos de Xico Sá, Mariana Santos, José Loreto e Otaviano Costa, além de outros convidados que se revezam, e que não se levam absolutamente a sério, a grande consagração do programa, não sendo a única, mas certamente a mais efetiva. Nem tudo são flores nesse reino da Dinamarca.

Entrevista: A arte plural de Delia Fischer

“parti-me para o vosso amor
que tem tantas direções
e em nenhuma se define
mas em todas se resume.” Carlos Drummond de Andrade

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“Sou uma artista multifacetada, faço direção de espetáculos musicais, sou compositora e cantora. Já trabalhei como pianista, e acompanhei vários artistas. Tudo isso me influenciou a fazer e ser o que sou hoje. Não tenho nada que não me orgulhe de ter feito, embora o que me dê maior prazer seja mesmo gravar e realizar meus projetos. Todos os acontecimentos da vida me ajudaram e me amadureceram para me tornar a artista que sou hoje!”, para não precisar de legenda é a própria Delia quem se auto-define, com direito a exclamações e vírgulas. Acrescente-se o fato de ser uma carioca da gema, natural da capital carioca, sem nenhuma vocação pra monotonia. Não é força de expressão dizer que Fischer faz quase tudo. A artista apareceu na cena no final dos anos 1980.

À época, fazia parte do “Duo Fênix”, com Claudio Dauelsberg. A dupla, formada por pianistas, executava peças instrumentais, e lançou um único disco, em 1988. Depois disso Delia nasceu e renasceu muitas vezes como cantora, compositora, instrumentista e tudo mais, e já planeja, inclusive, a volta deste antigo trabalho, agora repaginado e com novo nome: FENIXDUO. Imersa nesses tempos novos, a artista tem uma boa definição para o presente momento da cultura. “O cenário atual é pulverizado, o que permite uma infinidade de gêneros e artistas habitando a rede. Vejo isso de forma positiva”, comemora. Claro que nem tudo são flores, mas Fischer, ávida pelo impulso criativo e não seu contrário adota uma posição proativa distante do comodismo.

5 parcerias raras de Supla

“Desconfio, pois, dos contrastes superficiais e do pitoresco aparente; eles sustentam sua palavra por muito pouco tempo. O que chamamos exotismo traduz uma desigualdade de ritmo, significativa no espaço de alguns séculos e velando provisoriamente um destino que bem poderia ter permanecido solidário.” Wally Salomão

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Batizado Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy, filho da sexóloga, apresentadora e política Marta Suplicy e de Eduardo Suplicy, um dos senadores mais atuantes da história do PT, Supla sempre foi uma figura exótica no cenário da música brasileira, provavelmente por se considerar, ele próprio, um “bicho estranho” nesse meio. Identificado com a cultura norte-americana desde cedo, foi um dos primeiros a adentrar o universo punk com o apoio da mídia. Ao longo da vida Supla fez de quase tudo, e não se pode afirmar a presença inconteste da qualidade, mas se estabeleceu como uma autêntica celebridade. Cantou com Cauby Peixoto e Roger, da banda “Ultraje a Rigor”, participou de filme com Angélica e “Os Trapalhões”, além de escrever música com Cazuza. Abaixo apresentamos um pouco dessas raras parcerias.

Análise: Umberto Eco foi celebrado como erudito e popular

“Para sobreviver é preciso contar histórias.” Umberto Eco

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Umberto Eco pegou o tempo em que era possível, com enorme arcabouço crítico e teórico, ser muito popular. Algo parecido com o que Caetano Veloso, Gilberto Gil e os tropicalistas experimentaram no Brasil na década de 1970. Caminhos que para a literatura, em qualquer parte do mundo, em geral, sempre foram muito mais difíceis do que para a música. Um exemplo claro é a citação ao queridinho das academias num dos romances mais célebres do italiano, “O Pêndulo de Focault”. Eco, também, desfrutou de prestígio incomum junto aos acadêmicos durante a maior parte de sua trajetória. E vendeu mais de um milhão de livros com seu romance “O Nome da Rosa”, traduzido para 43 idiomas, dentre eles, o português. Esses não foram os únicos feitos do filósofo.