Crítica: Livro “Harmonia das Vozes” valoriza a música mineira

“Creio que é de água a raiz do vento,
Pois não soaria tão profundo
Se produzido pelo firmamento;
Os ares não contêm oceanos
Ou entonações mediterrâneas –
Mas, para o ouvido da corrente,
Há uma convicção marítima
Na atmosfera, por dentro” Emily Dickinson

Capa Livro Harmonia das Vozes

Rogério Leonel não nasceu ontem, já está na estrada há algum tempo. Para ser exato contabiliza quase meio século de carreira ligada à música. Um desses momentos cruciais aconteceu quando o violonista e compositor escreveu, no final da década de 1970, seus primeiros arranjos para o “Festival Ponteio”, promovido pela UFMG. Daí por diante não abandonou mais o ofício, e dedicou especial atenção aos arranjos para vozes. Trabalho que recebe agora a devida documentação e registro com o lançamento do livro “Harmonia das Vozes”, em que Leonel debruça-se sobre 20 canções de compositores mineiros. O projeto contou com o apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Análise: 90 anos de Jerry Lewis, o rei da comédia

“A graciosa besta humana perde o bom humor, ao que parece, toda vez que pensa bem; ela fica ‘séria’!” Nietzsche

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Para se ter uma ideia da força de Jerry Lewis basta uma estória verídica contada por Orlando Senna, à época diretor da “Escola de Cinema” cubana. Diz o brasileiro que embora a “linha dura” do regime fosse terminantemente contra, o governo decidiu por permitir a exibição de um filme do ator e humorista norte-americano, mas tomou as devidas providências. “Como era uma comédia deslavada, instruiu os militantes a lotarem as salas, mas com uma condição, que não rissem durante todo o filme, pois desta forma a atração ficaria desmoralizada”, recorda e completa que estes se esforçaram sinceramente para conter a atração de cair na gargalhada. Porém, foi em vão.

A música carnavalesca de Lamartine Babo

“Canto pelos espaços afora
Vou semeando cantigas
Dando alegria a quem chora (…)
Canto, pois sei que a minha canção
Vai dissipar a tristeza, que mora no teu coração” Alberto Ribeiro, Braguinha & Lamartine Babo

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Não é preciso tocar um instrumento para ser um grande músico. Que o diga o carioquíssimo Lamartine Babo, de quem, sobre sua relação com a festa mais popular do país, Braguinha disse: “existe o carnaval antes e depois de Lamartine”. Em marchinhas, valsas e samba-canções, Lamartine puxa o desfile: “A tua pena não nega Lalá, tu és músico com louvor!”.

Lenda do norte de Minas

“mas o reino da fantasia, assim como o da realidade evidente, pertence às bruxas.” Reinaldo Arenas

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Opulento, rústico, forte, grosseiro, mas afável. Adula o gesso da forma e não encontra meios para conter o ronco do motor. Faltam-lhe modos. De certo, faltam-lhe modos. Sem mover um músculo da face, herança e álibi dos escravos, Francisco desfia a mais interessante renda do céu de Santa Maria:

“– Numa noite silenciosa e larga, um menino saiu pelado pelas ruas da cidade gritando que tinha visto o diabo. As carolas ficaram rubras e desconjuraram o rapaz que antes era menino, mas agora que viam suas vergonhas eretas e hereges ele se transformara no mal e na moral (ou na falta dela) exposta e perturbadora. Mesmo com a revolta de todos contra ele, o menino pelado prosseguiu gritando que o diabo estava ali, à sua frente, rendendo a gôndola do mar invisível de Santa Maria, como roíam os ratos a terra amarela que ali se tinha. O padre foi o primeiro a ser chamado para contê-lo e usou de suas febres crentes:

Crítica: “Miniconto” apresenta fusão inédita de dança, ginástica e música

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.” Fernando Pessoa [Ricardo Reis]

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Analisando a obra de Júlio Bressane o crítico de cinema Inácio Araújo afirma ser dispensável o entendimento para compreensão de uma obra de arte. Mais do que isto, muitas vezes a maneira como as pessoas buscam entender uma obra serve de barreira, e não colo ou aceitação, no sentido de entrar em contato, com o que o autor propôs; isto estando aberto, inclusive, às possibilidades inerentes ao repertório de cada espectador, anulando-se a perspectiva vertical, “de cima para baixo”, em prol da horizontalidade. Em certa medida é o que se constata no expediente do duo curitibano “Miniconto”, formado por Karla Díbia e Daniel Amaral, inclusive na característica mais concreta do trabalho, para a qual a música “Canto” ganhou clipe já em rotação.

Crítica: “Papo de Segunda” lança olhar cômico e enviesado para qualquer assunto

“Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.” G. K. Chesterton

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Um dos conceitos básicos implementados pela dramaturgia clássica foi a criação de tipos. Ou seja, a congregação de características ao mesmo tempo diversas e complementares. É possível percebê-la, sobretudo, na comédia, de que são exemplos os filmes dos Irmãos Marx e dos Trapalhões, em que se distingue nitidamente na versão brasileira a presença marcada do nordestino, do negro e sambista do morro, do carioca metido a galã e do homossexual infantil. Conformação que atende às novelas românticas e até as chamadas “mesas redondas”, inventadas na televisão brasileira para o debate esportivo. Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira protagonizaram uma das mais emblemáticas do gênero. O “Papo de Segunda”, transmitido pelo canal fechado GNT na segunda-feira das 22h às 23h, não foge a esse contexto.

Análise: 80 anos de Zé do Caixão, rei do terror nacional

“como se estivesse tentando escapar do sopro sufocante de um pântano ou do hálito pestilento de uma praga.” Edgar Allan Poe

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Se é verdade que o Brasil nunca teve tradição em cinema de terror, também o é que um de seus cineastas mais tradicionais pertence ao gênero. Afora as características da originalidade e raridade, que já garantiriam vulto à obra de José Mojica Marins, colado à personagem que criou para realizar o desejo de filmar histórias mórbidas; é, sobretudo, a abordagem que sugere para Zé do Caixão lugar de destaque em nossas artes. Rogério Sganzerla teve a sabedoria de utilizá-lo como ícone em películas de seu “Cinema Marginal”, valendo-se de sua figura mítica, enquanto Ivan Cardoso sofreu influências do estilo de interpretação francamente marcada e caricatural. Nisso tudo o caráter brasileiro de folclores e lendas impõe-se sobre universo de escuridão pouco identificado à terra.

Crítica: exposição “Formas do Moderno” organiza síntese do movimento

“… e parecem ignorar que poesia é tudo: jogo, raiva, geometria, assombro, maldição e pesadelo, mas nunca cartola, diploma e beca.” Oswald de Andrade

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Com o intento de sintetizar o que foi a “Semana de Arte Moderna de 1922” e seus desdobramentos para a cultura brasileira, caracterizados pelo que se convencionou chamar “Modernismo”, a exposição “Formas do Moderno”, em cartaz na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte até o próximo dia 8 de maio, com entrada gratuita, alcança seu objetivo. Curta, a mostra dá conta dos principais pilares e elucidações mais caras aos artistas, o que é possível se constatar, por exemplo, na utilização das cores por Flávio de Carvalho e Cícero Dias, das formas por Hélio Oiticica e Bruno Giorgi e do motivo em Lasar Segall, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Alberto da Veiga Guignard, José Pancetti e muitos outros, dentre eles a reconhecida Tarsila do Amaral, cujas obras só aparecem em vídeo, esse o principal deslize da curadoria, a cargo de Valéria Piccoli, com quadros e esculturas da coleção que pertence à Fundação Edson Queiroz. O prospecto da exibição, diminuto em informações e impresso em apenas uma folha, também deixa a desejar.

Análise: Naná Vasconcelos foi músico da origem

“vento/que é vento/fica
parede/parede/passa
meu ritmo/bate no vento/e se
des pe da ça” Paulo Leminski

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Naná Vasconcelos foi um tipo raro na música brasileira. Não era pra qualquer um, e misturava, em seu caldo, todos os gostos, ciente da abordagem popular que sempre o caracterizou. Natural do Recife teve em seus primeiros anos as influências de Jimi Hendrix e Villa-Lobos, tão díspares quanto complementares para o estilo harmônico que criou. O percussionista, que brincou e reinventou tons e modalidades para diversos instrumentos, mas, sobretudo, o berimbau, tão caro e essencial aos nativos indígenas e povos africanos que aqui chegaram quanto da ocupação do país pelos portugueses, já era uma figura de destaque mundo afora, por diversas turnês que empreendeu pela Europa e América do Norte, fosse acompanhando as bandas de Gilberto Gil, Milton Nascimento e outros, ou como artista principal; quando gravou, com Jards Macalé, em 1994, uma espetacular jam session feita em uma tomada só, batizada, como o disco, de “Let´s Play That”, um marco de irreverência que deixa ainda mais claro o caráter inventivo e libertário da obra de Naná.

Centenários 2016: Silas de Oliveira pertence ao panteão do samba

“Sinto, abalada minha calma
Embriagada minha alma
Efeito da tua sedução” Silas de Oliveira & Joaquim Ilarindo

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Silas de Oliveira morreu e nasceu numa roda de samba. Embora o pai não tenha concordado, por suas convicções pastorais e protestantes, Silas começou a ser Silas quando fundou, junto de seus pares, dentre eles o inseparável Mano Décio da Viola, a Escola de Samba do Império Serrano, e para sempre foi batizado entre batuques, pandeiros e tamborins. Conhecido, sobretudo, pela atividade nos desfiles de carnaval, compositor arguto e perspicaz que era de temas históricos para os tradicionais sambas-enredo, também merecem destaque seus sambas de roda, tais como “Meu Drama”, popularmente chamado “Senhora Tentação”, “Cruel Paixão” e “Desprezado”. É destas canções que emergiram versos do quilate de “será que o amor por ironia/move esta fantasia, vestida de obsessão?”, regravados por ninguém menos do que Cartola; e “amanhece e anoitece/eu sei que nesse mundo tudo se fenece/então porque essa paixão/do meu coração não desaparece?”, e etc.