Análise: Tereza Rachel foi uma autêntica atriz de vanguarda

“Deixai que assim se faça o teatro e comecem
As cenas de verdade
Penetrai bem fundo em toda a vida humana!
Se cada qual a vive, não muitos a conhecem,
A muitos ela engana.” Goethe

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Erguer um teatro no período da ditadura militar no Brasil não é para qualquer um. Talvez só para Tereza Rachel e Ruth Escobar, que lhe inspirou. Mulher, descendente de judeus nascida na baixada fluminense, no Rio de Janeiro, Tereza se destacou como uma das mais importantes atrizes do cenário nacional, não apenas por sua atuação diante das câmeras ou nos palcos, mas, em especial, pelas atitudes destemidas e corajosas, conferindo à palavra artista o seu valor de origem. Vanguarda é uma das melhores expressões que se usa para se referir à Tereza, quase sempre ligada a causas nobres, que iam contra o conservadorismo dos costumes e as tentativas de tolher as liberdades. Encenou em seu teatro autores que para além das nacionalidades traziam esses temas para o centro do debate. De Millôr Fernandes a Tennessee Williams, passando por Anton Tchekhov e Mario Vargas Llosa.

Centenários 2016: Newton Teixeira representou a música brasileira de duas décadas

“A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar” Jorge Faraj & Newton Teixeira

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É da condição dos nossos compositores tornarem-se menos conhecidos que suas obras e mesmo os intérpretes delas. Também permanece na penumbra o motivo pelo qual Newton Teixeira supostamente fugia da polícia quando se encontrou com Sílvio Caldas numa noite de seresta. O bairro era a Vila Isabel, no Rio de Janeiro, reduto da boemia carioca que não podia deixar de contar com Noel Rosa, seu poeta, e outros bambas menos notórios, mas que foram fundamentais na consolidação do gênero mais arraigado à miscigenada raiz musical brasileira, o samba. Newton começou pelo estilo, mas se consagrou, sobretudo, pela marchinha “Mal me quer”, em parceria com Cristóvão de Alencar, gravada por Orlando Silva, e a valsa “Deusa da minha rua”, com Jorge Faraj, o maior sucesso de toda sua carreira, lançada pelo Caboclinho Querido.

Causo do sul de Minas

“O silêncio sustenta caules
em que o perigo gorjeia.” Ferreira Gullar

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A balança pende para o lado dos mais fortes. A balança pende para o progresso. Reprimido num corpo por demais curto para suas náuseas e ataques histéricos, naquilo onde se confina a invocação da pessoa: um cão de guarda, pronto para o ataque todo tempo. Caçador de onça atrevida aproveita a caminhada ao morro onde a bichana deve estar escondida. Diz sem indignação na voz, certo de que fala com obediência a Deus e convicção do pleito. O pai afunda-se na bebida. A mãe cuida das atividades domésticas, cuida dos filhos. Triste realidade. E que encruzilhada. E que armadilha. A que preparam para a onça conta com o medo e a coragem de homens dispostos ao enfrentamento. De frente, pois o tal mamífero só encontra vítimas quando distraídas recebem pelas costas a surpresa. Ao contar é ainda dia, ao pé do morro esperam do sol o castigo até se recolher. Como o senhor de engenho após bater com chibata no lombo do escravo negro, até deixar-lhe rubras marcas, encaminha-se para a cama, recolhe-se ao lençol branco e dorme lembrando o sangue que tanto ama: de sua virgem esposa, de sua amante crioula, do homem regenerado em dores a lembrar o sacrifício cristão.

Crítica: “Urgente”, nova peça da Luna Lunera, deflagra opressões do cotidiano

“Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto” Carlos Drummond de Andrade

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Existe o tempo circular, e o cronológico. Algumas coisas se repetem, outras mudam. Em seu novo espetáculo a Cia Luna Lunera traz Zé Walter Albinati de volta aos palcos, e arrisca parceria inédita com a Areas Coletivo de Arte, o que resulta na direção de Miwa Yanagizawa e Maria Sílvia Siqueira Campos, também participantes no texto com a trupe lunática e do cenário, junto de Yumi Sakate. A ousadia revela-se exitosa. Permanece, como de outras montagens e que se estabelece a cada nova peça como identidade da Luna Lunera a investigação das emoções e razões humanas, numa abordagem predominantemente existencial que não exclui contanto aspectos políticos, sociais e estéticos, sobretudo. A iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho, o figurino e o cenário conseguem ótimas soluções para emoldurar o conteúdo. “Urgente” parte da vivência de cinco personagens que têm algo em comum para além do espaço compartilhado. Os atores trafegam entre fantasias reais.

A morte da mãe de João Cornélio

“mas a política que domina a nossa edilidade não é aquela que Bossuet definiu. A nossa tem por fim fazer a vida incômoda e os povos infelizes; e os seus partidos têm por programa um único: não fazer nada de útil.” Lima Barreto

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Ainda na sala da lady. Embora um recuasse e o outro não percebesse. Na hora em que a botija faz o estreito colo virar asa. Pelos lados o detém: num abraço ameno. Os biscoitinhos fritos são aceitos: um a um: mais de um: prenhe os dedos. Para o café a espera que talvez nunca chegue. Oferece inédito prato de biscoitinhos fritos a fim de interromper o aperto. Enquanto o papo desbarata o bico de pelicano: comem por deferência. A insuficiente conversa fiada na terra não se destina a costurar a camisa aberta, nem a pregar os botões soltos da calça comprada na feira, muito menos a mexericos no caule da nêspera esbelta. Para acalentar o dia preenche a tarde ignorante de tarefas: das básicas às irrestritas. João Cornélio tem porte e gala para botar medo no ragazzi e no guri. O chapéu de áspero couro descai da cabeça ao entrar em qualquer recinto, parte da educação recebida através da mãe, uma católica enferma que há tempo agoniza numa retinta cama.

5 músicas brasileiras a favor da diversidade sexual

“nada importa a não ser a valia do afeto
boca, o sol é a boca de deus” Ezra Pound

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Em tempos de polarização e tendências radicais é bom relembrar o quanto a música e a arte podem contribuir positivamente para esse debate, principalmente quando se trata de aplaudir a diversidade. No caso as diversas formas de amor e união afetiva, já reconhecidas, inclusive, pelo Estado brasileiro, são cantadas em verso e prosa por nomes como o performático Edy Star, Cássia Eller, Angela Ro Ro, Caetano Veloso e Erasmo Carlos, que homenageou a mais famosa transexual do país, Roberta Close. São cinco canções que exaltam, sobretudo, a beleza da liberdade. Mas poderiam ser muitas mais, já que o amor não tem limites tal qual a música e a arte. Saravá!!!!

Estória de Vanessa

“A sensualidade, que nasce conosco e se manifesta ainda cega,” Raymond Radiguet

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Capivara, paca, jaguatirica, pássaro, mico na beira da estrada colhe fruta, onça no meio do caminho avista a vítima turca. Mil animais à cabeça para decifrá-la. A secretária tira o fôlego, coloca em risco a saúde. Nos contornos duma embarcação, duma duna: naufraga. Quer se afogar nas coxas da mulher robusta, pernas bem torneadas: quanto custa? Vanessa não protege o decote de indiscretos olhos. Lógico: eles procuram. Feitos um para o outro. Como espiga de milho cozido e manteiga: faca de suicida e veia: decote e olhos: o perigoso joio de unir o útil ao agradável trigo. No relance das ambulâncias o impulso as sirenes dispara: jogá-la debruçada sobre a mesa, espalhar papéis, niná-la com uma bela canção de Camões, ora se vejam, pensam abobrinhas, dispensa.

Volta ao território do qual havia sido expulso dias antes, por conta da indiscrição jornalística: essa buzina de arguir posições aos que se deitam sem Kama Sutra ante os cotovelos, ou dos que se derramam em bares negros e ignoram a presença de Lupicínio Rodrigues ao chorar de vingança pela azeitona no espeto onde jaz Martini. O pescoço de Vanessa para vampiro nenhum botar defeito. Nele se invoca a aura de um anjo despido de moral, vergonha ou culpa. Nele se reivindica: o direito de ser colar de pérolas, bijuterias, pedras chinfrins. Nele se propicia o ataque de vândalos sanguinários que ainda assim seriam perdoados por todos os júris, tribunais, advogados. Tamanha a devastação, o impacto no amante, o voyeur é puro.

A folia e a dor na música de Herivelto Martins

“Nem sequer no apartamento
Deixaste um eco, um alento
Da tua voz tão querida
E eu concluí num repente
Que o amor é simplesmente
O ridículo da vida” Herivelto Martins & Aldo Cabral

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O carioca Herivelto Martins compôs clássicos da canção brasileira ao longo de frutífera carreira que também incluiu as atividades de violonista e cantor do “Trio de Ouro” em todas as suas formações, tendo sido ele o principal idealizador e entusiasta do conjunto. A briga espalhada através de jornais e músicas com Dalva de Oliveira rendeu-lhe a pecha de arrogante, mal humorado e machista, mas mais do que isso, rendeu pérolas do quilate do nome que acompanhava o trio no qual cantou por mais de cinco décadas, até o último ano de sua vida.

Crítica: música do “Tao do Trio” desfia harmonia celestial

“desculpe a hora
em que vim lhe acordar
É que o sol
vem tingindo de ouro
a barra do mar” Lydio Roberto & Etel Frota

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Antes de dizer, já sabemos. Que Etel Frota é poeta. Que a música é de Curitiba. Essa evocação celeste que permeia todo o disco do “Tao do Trio”, formado por Suzie Franco, Fernanda Sabbagh e Cris Lemos, e que se dedica inteiramente pela primeira vez ao cancioneiro de uma mulher, permite-nos aferir conjecturas que vão além do visto, pois sobrepuja alguma coisa do instinto. É de se sublinhar a intimidade com que as vozes nos laçam logo à primeira ouvida. Por isso lhe percebemos o sotaque “terreiro e universal”. “Flor de Dor” capta em harmonias delineadas por Vicente Ribeiro, responsável pelos arranjos e a direção musical, o lirismo de uma poetisa que trama suas histórias.

3 músicas brasileiras para a Páscoa

“Ainda em desamor, tempo de amor será.
Seu tempo e contratempo.
Nascendo espesso como um arvoredo
E como tudo que nasce, morrendo

À medida que o tempo nos desgasta.

Amor, o que renasce.
Voltando sempre. Docilmente sábio
Porque na suavidade nos convence
A perdoar e esperar. Em vida. In pace.” Hilda Hilst

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Para além das adaptações de mercado, o sentido da Páscoa, principalmente em sua tradição cristã e religiosa, está ligado ao renascimento, ao recomeço e, principalmente, à ressurreição de Cristo, três dias depois da sua crucificação. No calendário católico, a Páscoa, celebrada aos domingos, é precedida pela Semana Santa, a Sexta-Feira da Paixão e o Sábado de Aleluia, repercutindo o martírio do filho de Deus e sua apoteótica consagração. Muito representada nas artes plásticas, principalmente no período da Renascença, por pintores e escultores, a Páscoa também encontra consonância na música do Brasil. Alguns de nossos mais celebrados compositores trataram de ressaltar a continuidade da vida e seu ciclo infinito em canções populares. Listamos abaixo três das mais significativas, por voz e verso dos nossos artistas.