Folclore indígena do leste de Minas

“Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino

Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas

Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.” Sylvia Plath

frida-kahlo

O veludo detém a resposta e impede a passagem. Veludo azul encobre a luz. Veludo grosso, escuro, ondula e mantém-se firme. Como todo ser dotado de expectativa e preconceito surpreende-se. As palhas cobrem os telhados das ocas e também sobre o chão. A erva incinera vermelha no cachimbo de espiga de milho. O lago abundante de peixes e crianças nuas a brincar. Cabelos lisos cobrem toda a testa e chegam a tocar sobrancelha. Mas isso foi no princípio.

Ao clima quente e seco não se acostumaram. Como todo ser dotado de costume é também de saudade. Penas enfeitam pescoços, calcanhares e robustos alargadores de madeira pelas orelhas. A vida que se modifica finda e volta. Como água. O massacre dos jesuítas não os diz nada. Mas a restauração da água. Pelas costas veio o boi bravo. Pela sombra das crianças mortas. Tentaram lhe tocar o chifre, acostumadas com a espécie nova de búfalo.

Análise: Phedra de Córdoba foi exemplo de arte e coragem

“É um limite igual ao véu
Por sobre o rosto da dama –
Mas cada dobra é um fortim
Com dragões por entre a renda.” Emily Dickinson

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Numa época em que se discute a transexualidade torna-se imperativo lembrar a partida de uma das nossas pioneiras. Phedra de Córdoda, nascida Rodolfo na Cuba de Fidel Castro, adotou o nome artístico e feminino aos 21 anos de idade, inspirada na mitologia grega, cuja tradução literal é “brilhante”. Nada mais apropriado para a atriz e dançarina que não dispensava o glamour. Phedra conheceu o produtor Walter Pinto, famoso pelo teatro de revistas, durante uma excursão da companhia à qual pertencia em Buenos Aires, e decidiu não mais retornar à terra de origem, fixando-se no Rio de Janeiro. Para quem não conhece o tratamento dado pelo regime de Fidel aos homossexuais cabe a autobiografia de Reinaldo Arenas, “Antes que Anoiteça”, de 1990.

Análise: Rogério Duarte manteve princípios da Tropicália até o fim

“qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.” Torquato Neto

rogerio-duarte

Rogério Duarte foi uma dessas personagens periféricas da “Tropicália” à qual muitos não ligam o nome à arte. Muito embora sua contribuição tenha sido fundamental para o movimento. Músico e artista gráfico natural do interior baiano, Duarte foi responsável pela criação das capas de discos icônicos de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jorge Mautner, os primeiros a esbanjar a estética psicodélica e colorida do tropicalismo. Mas não foi só isso, o sucesso o levou a ser chamado para o mesmo feito a serviço de Gal Costa, Jorge Benjor e o ídolo supremo de todos eles, um dos artífices da bossa nova, João Gilberto. No teatro, foi referência para o inventivo Zé Celso Martinez Corrêa.

A Parábola do Poder

“E ele disse: Por Deus, isto é incrivelmente engraçado,
Ter metade do óleo do mundo, e não poder ter o bastante
Para acionar uma máquina de governo!’” Ezra Pound

charge-aroeira

Dá voltas ao redor do ouvido: zumbindo. O movimento é rápido e escapa do braço, sem franzido de testa, sem alarde: pica. Não dá tempo, é demais para o tempo, o tempo não pega Fernanda. Com livros, papéis, sarapatéis e paparicos: cai no colo. O louvor ao ócio é incapaz de acompanhá-la. O raciocínio lógico de tão matemático determina: aonde devem estar as causas e circunstâncias: Fernanda é exata. A amplitude dos movimentos crepusculares escapa da crônica: Fernanda amanhece de noite: fora de tempo dos arredores: quer revanche, revolução, progresso: dar à Santa a bofetada de adrenalina: que ela merece tirar do conforto provocar no útero contrações do parto: brindá-la com gêmeos, trigêmeos, quádruplos. Comprime os beiços na ansiedade, martírio, angústia: é preciso mexer com essa gente, vivendo no mundo da lua.

Crítica: David Tavares expande territórios da música

“Açougueiro sem cãibra nos braços.
Acontece que não acredito em fatos,
magarefe agreste,
pego a posta do vivido,
talho, retalho, esfolo o fato nu e cru,
pimento, condimento,
povôo de especiarias,
fervento, asso ou frito,
até que tudo se figure fábula” Wally Salomão

David-Tavares

Jards Macalé já disse que “a carteira de identidade da música é a música”, e que não entende essa de “samba, bolero, rumba, tango, rock…”. Embora seja pontual na descrição dos estilos que percorre no álbum, “Nem tão rei, nem tão rato”, grafado em espanhol, o violonista David Tavares, natural de Guarapuava, no interior do Paraná, e residente na terra do Rei Filipe VI há quase 30 anos, atém-se aos ritmos mais na teoria do que na prática. Com sua natural inclinação para o virtuosismo, é de praxe, nesse disco, sermos primeiro apresentados à maneira clássica da canção que se inicia, para, num segundo momento, sofrermos o arrebatamento decorrente da inventividade criativa do artista. Assim, David expande os territórios da música sem precisar de bússola.

Entrevista: Chico Salem abre os braços para o mundo

“Pesa dentro de mim
o idioma que não fiz,
aquela língua sem fim
feita de ais e de aquis.
Era uma língua bonita,
música, mais que palavra” Paulo Leminski

Chico-Salem-entrevista

Chico Salem não chegou até aqui por acaso, sua história vem de berço, como a da maioria de nós, mas, no seu caso, já regada a música, e não apenas canções de ninar. “Isso me lembra que antes de falar eu já cantava algumas coisas. Lembro do meu pai tocando violão pra mim, Caetano, Gil e eu acompanhando com um ‘nanana’”, recorda. A influência decisiva veio também pelo lado materno. Sobre a primeira lembrança musical, não titubeia: “Minha mãe cantando para mim muito pequeno e eu cantarolando depois”. O músico se apresenta em Belo Horizonte no próximo dia 16 de abril, no Parque Municipal, em programação que faz parte do projeto cultural “Momentos Aymoré”, patrocinado pela fábrica de biscoitos. Já munido de novo repertório Chico receberá no palco o cantor Arnaldo Antunes, numa troca de posições, já que, ao longo da carreira, foi Salem que se acostumou a acompanhar o ex-titã.

Análise: Naum Alves de Souza aderiu à arte sem limites

“O menino poisa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada…” Jorge de Lima

Capa CircoMist:Digipack

Talvez nenhuma outra atividade do pensamento seja tão subjetiva, nem mesmo a física, mas há aqueles que levam a ferro e fogo a falta de limites da arte. Naum Alves de Souza foi dramaturgo, figurinista, cenógrafo, artista plástico e professor que estendeu suas habilidades sobre o balé, a ópera, a música, a televisão, o cinema e o teatro. De nome incomum, natural do interior de São Paulo, espantou proibições e foi capaz de provar a superação do conteúdo sobre a forma. Independente do suporte, de onde ou para quem estivessem seus trabalhos, o que fazia Naum era arte.

Ele está na capa, no figurino e no cenário do espetáculo “Falso Brilhante”, de Elis Regina; também lhe pertence a arte feita para o balé “O Grande Circo Místico”, com músicas de Edu Lobo e Chico Buarque inspiradas em poesia do alagoano Jorge de Lima; são dele os desenhos que ilustram o álbum; como se não bastasse dirigiu a peça “Suburbano Coração”, adaptou poemas de Adélia Prado para Fernanda Montenegro recitar e interpretar em “Dona Doida”, foi responsável pela direção artística do “Macunaíma” de Antunes Filho e criou a versão brasileira do boneco Garibaldo para a clássica Vila Sésamo.

Análise: arquiteta Zaha Hadid levou a ética do belo a qualquer custo

“O golpe de calcanhar categórico de minha pena escande como uma perna esquerda o zapateado mais altivo, o zapateado das mandíbulas de meu cérebro! Olé!” Salvador Dalí

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Dois dos maiores poetas brasileiros divergem quanto à condição da poesia. O pantaneiro Manoel de Barros alude às “máquinas que servem para não funcionar” e que podem um dia “milagrar de flores”. E arremata: “Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!”. Mario Quintana, gaúcho, prefere outra imagem, diz que “um poema que não te ajuda a viver e não te prepara para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!”. Como sempre a poesia, território por natureza do lúdico e do contraditório, em sua concisão e densidade, abrange interpretações, não raro, complexas e incompatíveis, que vão além do exposto. Interessante notar, portanto, que Manoel usa a metáfora da “máquina” para louvar o “imprestável”, e Quintana a do “chocalho”, um brinquedo, a fim de mencionar função e conferir sentido ante o mundo ao redor.

Crítica: Silvio Biondo cria clássicos ao unir tradição e modernidade

“Jovens de rosto impassível
na ribeira se desnudam,
aprendizes de Tobias,
também Merlins de cintura,
para aborrecer o peixe
em irônica pergunta
se ele quer flores de vinho
ou saltos de meia-lua.” García Lorca

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A identificação revela-se logo no primeiro momento, ou antes, no primeiro acorde. Acreditamos já conhecer aquelas músicas quando, na verdade, tratam-se de novidades criadas e apresentadas por Silvio Biondo que, ao unir a tradição à modernidade, nos apresenta estruturas que têm todos os componentes para se tornarem clássicos da canção popular brasileira, basta que a chance lhes seja dada. Músico de Santa Catarina, natural de Chapecó, mas residente em Curitiba, ele é acompanhado, neste trabalho de estreia em estúdio por Simone Mello ao violão, Marcelo Wengart na percussão e Glauco Sölter a cargo do baixo e da direção musical. Valderval de Oliveira Filho e Eron Barbosa adicionam suas percussões em algumas faixas. Todos irretocáveis.

Crônica do nordeste de Minas

A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.” João Cabral de Melo Neto

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O velho encontrado no mato aos pedaços. Pedaço de pano rasgado para enxugar o chão. Carpir desavenças: desaforadas lágrimas. Todas as mortes do entardecer. Não hesita em afirmar: há um cachorro bravo, branco, quase lobo, na região. Depena as galinhas, engole os porcos, assusta os humanos e seus ancestrais (almas varam pelas alamedas de Santa Maria). O velho de orelhas grandes e inválidas: é preciso berrar. À pergunta de onde avistara o tal cachorro sucede a luta inglória, que não perece nunca. O velho nos entendeu. E nós entendemos o velho. Sem nenhuma compreensão. Aponta o rastro do degolador de galinhas, porcos, humanos, e outros animais menos importantes para o sustento da região tão impactada por dias presentes, por virem.

A lenda do cachorro branco e bravo acende a dúvida: o encontro com a onça: uma veleidade do sol que castiga, fatiga as vistas e alucina? Os velhos, mais velhos a cada diâmetro, fossem pelos espelhos do automóvel, ou pela antiga caixinha empoeirada de música, com a bailarina contradizendo as horas por suas pernas espichadas que eram ponteiros do relógio, desliza para o enxame de abelhas a cutucar o mel na espremida flor de lótus. Os velhos repercutem nos cascos da cavalgada, e imitam o relinchar de cavalos que já não são nem bravos, nem espertos, nem animados, apenas mansos e tolos. A igrejinha contemplativa é coberta de terra esvoaçante: o martírio dos caminhões e das máquinas de sondagem. Quer dizer: aos meus.