Alvarenga de 6 às 2

“Comemorando dolorosamente uma nova década numa única multidão selvagem.” Jack Kerouac

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Se a bebida é a melhor amiga do homem, por certo é uma amiga muito ciumenta, o que explica a ressaca. De toda forma, não convém desmentir os poetas. A verdade é que não sei como saí dali. Passavam das quatro horas da tarde quando comecei a remendar os cacos da noite anterior e, embora estivesse na minha cama, ou algo parecido com isto, minha sensação era a de ainda estar naquele ambiente de outrora. Engraçado como a lembrança muitas vezes se dá por outros sentidos que não a visão. Muito embora as imagens fossem embaçadas o paladar mantinha-se na minha boca, assim como o aroma daquelas cervejas especiais. Pouco a pouco as recordações me reconstruíram o mosaico. Evidente que não garanto a verossimilhança deste relato, afinal de contas não estava no amplo domínio de todas as minhas faculdades. Mas se nos ativéssemos apenas aos fatos, quanto desperdício…

Análise: Ícone da música negra Billy Paul falou com afeto aos corações

“tudo o que é amor suave e sentimento
e pejo pintarei de rosa e negro:” Jorge de Lima

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Quase quarenta anos depois do sucesso de “Me & Mrs. Jones”, Amy Winehouse deu a sua versão dos fatos. Inspirada pela canção trocou o gênero de senhora para senhor e, como sempre autobiográfica, desabafou sobre as desventuras e cicatrizes de sua vida amorosa. Além do título similar, o suingue e a influência da música negra marcam as duas canções. Porém, a diferença se mostra mais forte na audição. Billy Paul, intérprete do sucesso de 1972 envereda pela seara romântica e oferece um canto sutil e suave à trama, enquanto Amy não nega suas raízes blues e derrama roucamente toda a voz.

3 músicas brasileiras para o Dia do Trabalho

“O caminho do sábio é trabalho sem esforço.” Tao-Te-Ching

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Cantado em prosa em verso o trabalho que “dignifica o homem”, nas palavras do sociólogo Max Weber, recebeu de nossos compositores tratamento exemplar e como sempre bastante inventivo. Valendo-se da observação dos costumes, como autênticos cronistas, e conferindo a eles pitadas de ironia, irreverência e até romantismo, o tema foi tratado desde os tempos de Wilson Batista e Herivelto Martins até Chico Buarque de Hollanda, em sua exaltação ao malandro. Seja como for, as 3 músicas brasileiras listadas abaixo em homenagem ao Dia do Trabalho não deixam de revelar certa característica do nosso povo, que leva e trata o ofício como der e vier, das mais diversas formas.

Análise: Umberto Magnani vestiu de humanidade suas personagens

“Cresce destroço em minhas aparências.
Nesse destroço finco uma açucena.
(É um cágado que empurra estas distâncias?)
A chuva se engalana em arco-íris.
Não sei mais calcular a cor das horas.
As coisas me ampliaram para menos.” Manoel de Barros

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Talvez os principais papéis interpretados pelo ator Umberto Magnani estejam fora do alcance do público em sua maioria, não apenas pelo teatro que, além de prescindir do registro se habituou a um nicho, mas, sobretudo, pelo cinema, e que ainda poderá ser revisto. Foi através da sétima arte que Magnani teve a oportunidade de desenvolver, munido de seu rosto expressivo, ao mesmo tempo bondoso e marcado, uma das principais qualidades do ofício, a de desmentir a aparência, e oferecer uma personagem contraditória em si. Com sua habitual verve sarcástica e pessimista o diretor Sérgio Bianchi dirigiu Umberto em “Cronicamente Inviável” na pele de um escritor com as mais escusas premissas. A sensibilidade com que o ator leva a história é chocante.

Análise: Fernando Faro procurou a essência

“Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora…” Rubem Alves

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Foi na ausência de Fernando Faro que Antônio Abujamra ganhou a incumbência de entrevistar Maysa para o programa “Estudos”, da TV Cultura, fortemente influenciado pelo mais que clássico “Ensaio”. “Baixo”, como era conhecido o sergipano de Aracaju criado em Salvador, na Bahia, teve uma reunião de última hora e passou o bastão para o âncora do também marcante “Provocações”. O resultado foi uma das mais fortes entrevistas já concedidas por uma artista, muito pelo temperamento de Maysa e o despojamento oferecido pela atração. Esse episódio, no entanto, em que a participação de Faro se deu em forma de ausência é fundamental na compreensão da ética e dos valores do jornalista que visava alcançar, sobretudo, a essência, o sentido.

Análise: 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, o inventor do Dom Quixote

“O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados.” Miguel de Cervantes

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Dom Quixote está na música, nas artes plásticas, no cinema e no teatro, e por trás do herói mais romântico da literatura moderna está Miguel de Cervantes, responsável por cunhá-lo na origem: a literatura. Famoso por combater os moinhos de vento, o “Cavaleiro da Triste Figura” tornou-se um símbolo da ilusão, do lúdico, o que talvez contribua para seu encanto junto a crianças e adultos; os primeiros, ainda esperançosos, e os últimos saudosos da inocência perdida. Para além dos dois volumes que contam a trajetória do Quixote – que designou termo utilizado para expressar “loucura” – Cervantes escreveu pouca coisa, nenhuma delas conhecida do grande público na posteridade nem em seu tempo. Este único êxito foi suficiente para cravá-lo na história da literatura.

Uma viagem inesperada

“E é sempre melhor o impreciso que embala do que
o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba
não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido
da vida…” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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Na cidade aonde ir para o treinamento ela própria lateja calma, saliente, distante. Como duas moças abandonadas num abraço para se proteger do frio. Esfinge de perfil silencioso, bege ao céu, cinza ao mar. O peito quer escapar do espartilho como pombas da gaiola. Carrega consigo o doce de mamão. No interior do automóvel isolante e sereno as mãos a aviltar vasilhas, lavar as louças de uma pia entupida e metálica prestes a derrapar em espiral. Pela janela a tarde pasma. Da anfitriã são escusas as explicações: passarinho na gaiola, gato no sofá, e coordenadas. Uma mulher e um homem. Ele é entroncado, porte médio, braços largos. Ela, baixinha de simpatia fácil, corpo lento, anda com dificuldade.

Análise: Prince colocou os limites em debate

“já que a noite é um pasto livre, um campo ilimitado, já que a noite é riqueza por moldar, convém abrir na sua escuridão um túnel.” Virginia Woolf

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Se havia uma questão para Prince era a dos limites, ou, antes, da falta deles. Instrumentista completo apareceu no final da década de 1970 para o começo dos anos 1980 como um furacão, e assim permaneceu, lançando um álbum atrás do outro com sucesso de crítica e público. As referências eram várias e a comparação inevitável com Michael Jackson se daria tanto por esse viés quanto a questão da personalidade. Prince, porém, sempre teve uma postura mais proativa, provocadora e imprevisível, o que permite, para trazer ao terreiro nacional, recorrer a uma frase de Cazuza, dita em 1989: “Eu quero ser um Caetano Veloso, amado por uns e odiado por outros, não uma unanimidade como o Roberto Carlos”. Dispensável dizer quem seria Prince nessa história.

Artigo: Como Dilma entrará para a história do Brasil?

“Nossa história é uma história de traições, alistamentos, deserções, conspirações, motins, golpes de Estado; tudo dominado pela infinita ambição, abuso, desespero, orgulho e inveja. Duas atitudes, duas personalidades parecem sempre estar em conflito na nossa história: a dos rebeldes constantes, amantes da liberdade e, portanto, da criação e da experiência, e a dos oportunistas e demagogos, amantes do poder e, portanto, praticantes do dogma, do crime e das ambições mais mesquinhas. Essas atitudes têm se repetido ao longo do tempo; sempre a mesma retórica, sempre os mesmos discursos, sempre o estridente aparato militar asfixiando o ritmo da poesia ou da vida.” Reinaldo Arenas

Ainda é muito cedo para determinar a conjuntura geral, mas uma coisa é certa, Dilma entrará para a história do Brasil ao menos por dois motivos. Terá sido a primeira mulher a ser eleita presidente da nação e, muito provavelmente, a única que perderá o mandato por operações de crédito. Eleita pela primeira vez em 2010, inventada politicamente por Lula, cumpriu a função até 2014 e se reelegeu no mesmo ano para mais quatro anos, interrompidos antes da metade. Presa e torturada durante o período da ditadura militar, não é de se espantar que seja descrita por seus pares como uma pessoa rígida e fechada, o que certamente contribuiu para que os apoios políticos em torno de sua figura paulatinamente desmoronassem. Dilma nunca possuiu a habilidade de Lula.

Ao contrário de Fernando Collor, impedido em 1992, por denúncias de corrupção, e eleito à frente de um partido nanico, Dilma, embora com larga trajetória pelo PDT de Leonel Brizola, se elegeu pelo Partido dos Trabalhadores. Aos que apregoavam o enterro da bandeira que desestimulou muitos de seus apoiadores ao longo do tempo, a surpresa, pois o efeito pode ter sido o contrário. Uma das conclusões que se pode tirar do longo processo até a queda de Dilma é que o PT, um partido nitidamente de porte médio, se acreditou grande, afinal esteve por mais de 13 anos dominando o poder no âmbito federal. Porém, só o conseguiu ao se unir às bancadas conservadoras, o que, mais uma vez, apenas foi possível de ser costurado pela ampla capacidade política de Lula, e que contemplou em seu governo evangélicos e radicais de esquerda, Paulo Maluf e Aloizio Mercadante. Mas a convivência chegou ao fim.

Crítica: “Nós”, novo espetáculo do grupo Galpão, enaltece a comunhão

“Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama
Viveu na lama também/Comendo a mesma comida
Bebendo a mesma bebida/Respirando o mesmo ar…” Paulo Marques & Ailce Chaves

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A capacidade de lançar um olhar novo sobre textos clássicos permitiu ao grupo “Galpão” priorizar dramaturgias de autores consagrados ao longo de sua trajetória, sem, com isto, cair na reiteração ou na reverência pura, muito pelo contrário. Desta feita, porém, a companhia leva à cena um espetáculo contemporâneo, com direção de Marcio Abreu que também auxilia na dramaturgia com Eduardo Moreira. “Nós” alcança o mérito de abordar questões de momento sem perder a sua complexidade histórica e temporal, inclusive a partir do recurso cênico da repetição; e prova o quanto é possível panfletar com inteligência e resultado, desde que munido de duas características básicas: humor e sagacidade. O que é válido, até, para o enfoque trágico, quando se apontam dramas modernos sem resvalar no piegas, graças à poética proposta.