Entrevista: Iniciativa Rubisco propõe volta à natureza para o novo mundo

“Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes…” Mario Quintana

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A arquiteta Tereza Meireles e o administrador Pedro Henrique Oliveira têm algo em comum que desejam tornar corrente na vida cotidiana. Para isto foram responsáveis pela criação da “Rubisco”, iniciativa que visa transformar o ambiente das pessoas. Como uma decoradora de interiores nada ortodoxa, especializada em paisagismo e com singular preocupação ambiental, leva, literalmente, o jardim para dentro de casa. A inspiração para o batizado, portanto, não poderia vir senão de uma forma natural. “Surgiu em uma conversa informal com minha irmã, e ela me disse que as Crassuláceas (espécie de planta com flor), mais conhecidas como Suculentas, utilizam algumas enzimas no processo da fotossíntese. Uma dessas enzimas se chama Rubisco. Soou bem aos nossos ouvidos e de cara gostamos, então ficou então decidido assim. Um nome geral, mas que tem tudo a ver com as plantas”, explica Tereza.

Como numa gravidez, antes do nome, porém, veio o desejo da cria. “Nós sempre gostamos de estar em contato com a natureza por ser prazeroso e revigorante diante da correria e stress do dia-a-dia. E pensamos: por que não ter esse contato todos os dias? Daí surgiu a ideia de trabalhar com as plantas ornamentais e comestíveis e medicinais”, relembram sobre os primeiros passos dessa travessia. Alguns exemplos podem ser conferidos tanto no Facebook quanto no Instagram da iniciativa em fotos que provam que, para além do aspecto decorativo trata-se de um verdadeiro trabalho artístico em forma e conteúdo. “A Rubisco propõe uma reflexão sobre o modo de vida moderno, buscando resgatar os momentos simples e prazerosos do cotidiano com o uso das plantas, o que proporciona conforto estético para o ambiente e benefícios para a saúde das pessoas”, resumem.

Centenários 2016: urbanista Jane Jacobs viu nos problemas a solução

“vagabundeando sem destino até alta madrugada, procurando, entre as luzes e sombras turbulentas da populosa cidade, aquele infinito de excitação mental que somente a observação tranquila pode conceder.” Edgar Allan Poe

Jane Jacobs

Canadense nascida em território norte-americano, Jane Jacobs não teve formação acadêmica em nenhuma área do conhecimento, embora, na data de seu centenário de nascimento, já seja considerada ativista política e urbanista, e tenha escrito livro fundamental sobre o assunto. Ungida por contradições, Jane Jacobs desmistificou respostas prontas e certezas absolutas, no que sua condição de mulher contribuiu ainda mais nessa importante luta, se levarmos em conta que, como em quase todos os segmentos, o universo no qual se intrometeu à época era, também, dominado por homens e sua lógica própria.

Análise: 70 anos de Rogério Sganzerla, o mais marginal dos cineastas

“Ser marginal foi uma decisão poética. Os marginais estão mais perto de Deus. Toda ovelha desgarrada ama mais, odeia mais, sente tudo mais intensamente.” Cazuza

Se a estética do precário criava laços entre os criadores do “Cinema Novo” e os entusiastas do “Cinema Marginal” havia uma questão mais fundamental a separá-los: a do conteúdo. Rogério Sganzerla foi, sem dúvida, o mais inventivo e radical entre seus pares, que levou mais a fundo as considerações do modo de filmagem, em experimentalismo conceitual que, provavelmente, só encontra parâmetro na obra de Jean-Luc Godard. Não por acaso foi o mais difamado por Glauber Rocha no exterior, responsável por espalhar que Sganzerla era agente da CIA. Se o “Cinema de Autor”, ecos da francesa Nouvelle Vague era ponto em comum entre ambos, também se impunham ali egos e vaidades.

Entrevista: Agatha Almeida lança “Amordaça” para ninar gente grande

“Minha personagem me chama pelos corredores das folhas de papel
Ergue os dedos delicados
E é apenas quando ouço a voz de Vânia que permito-me escrever sem pensar que estou prestes a morrer

ou que hei de enlouquecer
e ceder a cada ruído ou aceno dissimulado” Agatha Almeida

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Logo que teve o primeiro poema publicado, no jornal de Passos, cidade do interior de Minas Gerais, Agatha se sentiu picada pelo “bichinho literário”, pois, como nos lembra Ferreira Gullar, “a poesia nasce de repente e não faz barulho. Pode acontecer no meio da rua e ninguém vai perceber”. Passados 20 anos desde a estreia inevitável, ela reuniu coragem e recursos para lançar “Amordaça”, pela editora Benvinda, que virá oficialmente à luz no próximo dia 14 de maio no Café do Carmo, no bairro Sion, a partir das 16h. A escritora, porém, não nega as origens, e pensa no futuro de olho no passado. “Ainda muito jovem, por volta dos sete anos, escrevi uma poesia em comemoração ao ‘Dia do Soldado’. O texto foi escolhido por colegas e professores para ser publicado na Folha da Manhã, jornal passense, na época o principal jornal do município e região. Me lembro vividamente do prazer sentido em poder dividir a escrita com leitores do periódico na cidade. Desde então dedico muito do meu tempo a leitura e à escrita, e tenho muito prazer em fazê-lo”, sublinha Agatha.

Muito diferente da temática relativa à primeira experiência “Amordaça” traz, já no título, uma provocação. Enquanto no dicionário o sentido da palavra é descrito como “impedir de falar, de opinar, de manifestar-se”, é claro e confesso que Agatha Almeida tem intenção contrária. “Paradoxalmente, ‘Amordaça’ foi escrito para escancarar, berrar, esganiçar, escandalizar, ser lido”, explica em consonância com o espírito rebelde dos melhores poetas. Como se não bastasse, o livro, composto por poemas e minicontos, envereda por questões polêmicas da atualidade, especificamente a de gênero e dos relacionamentos. “Foi preciso escolher e reunir poesias previamente escritas e organizá-las para construir uma história maior, com direito a linearidade e personagens. Além disso, a criação de capítulos também fez parte do processo de criação. Falar sobre questões de gênero através das de autoria e relacionamentos me pareceu uma forma de unir os temas de meu interesse e que, enquanto autora, tenho prazer e facilidade em abordar”, conclui a poetisa.

Crítica: espetáculo “19:45!”, da Miúda Cia, apresenta cena viva e pulsante

“nos dois estados encontro pontos de contato – o principal é a distância. Ainda que só diante da loucura tenha experimentado a sensação de eternidade.” Maura Lopes Cançado

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Original desde o princípio, a ousadia da “Miúda Cia.” aparece logo no prospecto do espetáculo, que em nada lembra a economia em voga no tal aspecto, e já anuncia bons prenúncios. De fato, a peça mostra a que veio, embora necessite certo tempo de maturação, o que encontra em seus 80 minutos de duração, com momentos mais altos do que outros, constatação compreensível, afinal de contas mesmo os clássicos dão suas derrapadas ou apresentam situações mornas que muitas vezes servem de preparação para o que seria o ápice. É certo que a narrativa fragmentada, quase episódica, dispersa a forma habitual que pressupõe início, meio e fim, o que não anula, contudo, o que podemos chamar de escalas na construção dramatúrgica. Os degraus de “19:45!”, por fim, se equilibram sobremaneira, com ritmo e harmonia.

A direção de Rita Clemente, que também assina a dramaturgia, toma conta da cena como principal responsável pelo êxito da montagem, compensando até eventuais irregularidades no texto, especificamente quando adota a tonalidade dramática. A narração em off soa empapada, e sua gordura a torna excessivamente artificial e sofisticada, sem o apuro da simplicidade. Nessas horas ocorre um óbvio distanciamento ante a história, inclusive na apreensão das metáforas que, reverente à estética, deixa vazar o seu conteúdo. A utilização dos objetos cênicos segue caminho contrário, é viva, inventiva, veloz, pulsante, e, com todo o lúdico permitido ao teatro ele toca e costura os temas mais espinhosos da atualidade com a fineza e ferocidade duma lâmina. Sempre que opta pelo sarcasmo, a abordagem tem sua pertinência ampliada.

Entrevista: Coletivo A.N.A. desnuda a obra de jovens autoras

“Olhos, orelhas, nariz,
Um gris
Celofane que não fendo.
Em minhas costas nuas

Sorrio, um buda, querendo
Tudo, desejos
Caem de mim como anéis
Abraçando suas luzes.” Sylvia Plath

Foto-de-Henrique-Boccelli

Elas são 8, mas podem se dividir em duas ou expandir, como nos mostra o belo ensaio fotográfico feito por Paula Huven, em que se refletem e multiplicam. Nesse caso, mais importante do que os números são as palavras, que na trajetória do Coletivo A.N.A preponderantemente vêm acompanhadas de sons, das quais elas fazem questão de serem as donas irrevogáveis. As vozes e letras em questão, além de habilidades instrumentais, pertencem a Irene Bertachini, Luana Aires, Michelle Andreazzi, Leopoldina, Luiza Brina, Laura Lopes, Leonora Weissmann e Deh Mussulini, de quem pinçamos a última informação. “Mesmo sendo um coletivo de compositoras, até hoje vejo demais as pessoas nos divulgando como um coletivo de cantoras”, ela aponta.

O erro, certamente, não ocorre apenas por lapsos, erros de digitação ou distração, é preciso abandonar a superfície da história para tentar compreendê-lo sob ótica um pouco mais apurada. Na ativa desde 2011, o grupo pioneiro de mulheres, cuja sigla significa Amostra Nua de Autoras, pretendia dar voz e espaço para criadoras mineiras com talentos em diversas áreas, dentre elas a música, a literatura e as artes plásticas, com profissionais da atuação artística e da produção. A primeira demonstração prática que pôde ser registrada aconteceu em julho de 2014, com o lançamento do CD “Ana”, que conta com 11 faixas, direção e produção de Rafael Martini, arranjos de Joana Queiroz, Aline Gonçalves, e outros, e participações de Ná Ozzetti, Déa Trancoso, e etc.

Crítica: exposição em homenagem a Lêda Gontijo revela caráter jovial da artista

“A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos reinos que inventei.” Hilda Hilst

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Viva, produtiva e jovial. Aos 101 anos de idade a escultura, pintora e ceramista mineira Lêda Gontijo, natural de Juiz de Fora, no interior do estado, recebe exposição em sua homenagem. “Força Estranha”, em cartaz na Galeria de Arte do Centro Cultural Minas Tênis Clube até o dia 8 de maio, com entrada franca, prima, em primeiro lugar, pela ambientação, com farto material sobre a vida e obra da artista, onde se incluem depoimentos dela própria, em linguagem simples e emocionada, tanto em vídeo quanto nas paredes do local, decisão criativa e rara que causa um efeito ainda maior junto ao espectador, capaz de, logo de cara, aproximar-se. É aí que a exposição dá conta da face mais reveladora de Lêda, artista na acepção da palavra, clássica e contemporânea.

Centenários 2016: Murilo Rubião causou fascínio e espanto com literatura fantástica

“Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.” Murilo Rubião

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Se a vida bastasse uma expressão como o jornalismo seria suficiente. Ou, ainda, os fatos nos contentariam. É notório, porém, que o homem vive pela imaginação, e sobrevive, principalmente, através dela. Mineiro do Carmo, Murilo Rubião foi um sujeito comum, pacato, simples, descrito pelos amigos com certos adjetivos nada representativos de sua obra literária: tímido, quieto e até, pasmem, de poucas palavras. Não foi o único escritor de poucas palavras. Rubião publicou, ao longo de toda a vida, 33 contos, concisos e variados, com uma característica em comum, o fantástico que mais tarde se perceberia com outra nitidez nos textos do argentino Julio Cortázar e do colombiano Gabriel García Márquez. Noutras décadas, Murilo teve algumas obras adaptadas para o teatro, o cinema e a televisão, e traduzidas em inglês, espanhol e até alemão.

A homossexualidade na música brasileira: da década de 30 aos anos 2000

“Mas viver como flores refletidas,
como luar,
livre de todas as possessões nos afetos” Ezra Pound

homossexualidade-musica-brasileira

Década de 30:

1- Mulato bamba (samba) – Noel Rosa:
Esse samba de 1931 é a primeira música de relevante importância para a música popular brasileira no que diz respeito à representação do homossexual. Noel Rosa a compôs como forma de homenagem a Madame Satã, famoso capoeirista e malandro homossexual da Lapa. Como já foi dito, a canção é uma homenagem e retrata o homossexual de maneira respeitosa e até com certa admiração. Interessante notar que foi feita em um meio musical (samba) e uma época (década de 30) extremamente conservadoras.

Alvarenga de 6 às 2

“Comemorando dolorosamente uma nova década numa única multidão selvagem.” Jack Kerouac

alvarenga

Se a bebida é a melhor amiga do homem, por certo é uma amiga muito ciumenta, o que explica a ressaca. De toda forma, não convém desmentir os poetas. A verdade é que não sei como saí dali. Passavam das quatro horas da tarde quando comecei a remendar os cacos da noite anterior e, embora estivesse na minha cama, ou algo parecido com isto, minha sensação era a de ainda estar naquele ambiente de outrora. Engraçado como a lembrança muitas vezes se dá por outros sentidos que não a visão. Muito embora as imagens fossem embaçadas o paladar mantinha-se na minha boca, assim como o aroma daquelas cervejas especiais. Pouco a pouco as recordações me reconstruíram o mosaico. Evidente que não garanto a verossimilhança deste relato, afinal de contas não estava no amplo domínio de todas as minhas faculdades. Mas se nos ativéssemos apenas aos fatos, quanto desperdício…