Crítica: espetáculo “19:45!”, da Miúda Cia, apresenta cena viva e pulsante

“nos dois estados encontro pontos de contato – o principal é a distância. Ainda que só diante da loucura tenha experimentado a sensação de eternidade.” Maura Lopes Cançado

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Original desde o princípio, a ousadia da “Miúda Cia.” aparece logo no prospecto do espetáculo, que em nada lembra a economia em voga no tal aspecto, e já anuncia bons prenúncios. De fato, a peça mostra a que veio, embora necessite certo tempo de maturação, o que encontra em seus 80 minutos de duração, com momentos mais altos do que outros, constatação compreensível, afinal de contas mesmo os clássicos dão suas derrapadas ou apresentam situações mornas que muitas vezes servem de preparação para o que seria o ápice. É certo que a narrativa fragmentada, quase episódica, dispersa a forma habitual que pressupõe início, meio e fim, o que não anula, contudo, o que podemos chamar de escalas na construção dramatúrgica. Os degraus de “19:45!”, por fim, se equilibram sobremaneira, com ritmo e harmonia.

A direção de Rita Clemente, que também assina a dramaturgia, toma conta da cena como principal responsável pelo êxito da montagem, compensando até eventuais irregularidades no texto, especificamente quando adota a tonalidade dramática. A narração em off soa empapada, e sua gordura a torna excessivamente artificial e sofisticada, sem o apuro da simplicidade. Nessas horas ocorre um óbvio distanciamento ante a história, inclusive na apreensão das metáforas que, reverente à estética, deixa vazar o seu conteúdo. A utilização dos objetos cênicos segue caminho contrário, é viva, inventiva, veloz, pulsante, e, com todo o lúdico permitido ao teatro ele toca e costura os temas mais espinhosos da atualidade com a fineza e ferocidade duma lâmina. Sempre que opta pelo sarcasmo, a abordagem tem sua pertinência ampliada.

Entrevista: Coletivo A.N.A. desnuda a obra de jovens autoras

“Olhos, orelhas, nariz,
Um gris
Celofane que não fendo.
Em minhas costas nuas

Sorrio, um buda, querendo
Tudo, desejos
Caem de mim como anéis
Abraçando suas luzes.” Sylvia Plath

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Elas são 8, mas podem se dividir em duas ou expandir, como nos mostra o belo ensaio fotográfico feito por Paula Huven, em que se refletem e multiplicam. Nesse caso, mais importante do que os números são as palavras, que na trajetória do Coletivo A.N.A preponderantemente vêm acompanhadas de sons, das quais elas fazem questão de serem as donas irrevogáveis. As vozes e letras em questão, além de habilidades instrumentais, pertencem a Irene Bertachini, Luana Aires, Michelle Andreazzi, Leopoldina, Luiza Brina, Laura Lopes, Leonora Weissmann e Deh Mussulini, de quem pinçamos a última informação. “Mesmo sendo um coletivo de compositoras, até hoje vejo demais as pessoas nos divulgando como um coletivo de cantoras”, ela aponta.

O erro, certamente, não ocorre apenas por lapsos, erros de digitação ou distração, é preciso abandonar a superfície da história para tentar compreendê-lo sob ótica um pouco mais apurada. Na ativa desde 2011, o grupo pioneiro de mulheres, cuja sigla significa Amostra Nua de Autoras, pretendia dar voz e espaço para criadoras mineiras com talentos em diversas áreas, dentre elas a música, a literatura e as artes plásticas, com profissionais da atuação artística e da produção. A primeira demonstração prática que pôde ser registrada aconteceu em julho de 2014, com o lançamento do CD “Ana”, que conta com 11 faixas, direção e produção de Rafael Martini, arranjos de Joana Queiroz, Aline Gonçalves, e outros, e participações de Ná Ozzetti, Déa Trancoso, e etc.

Crítica: exposição em homenagem a Lêda Gontijo revela caráter jovial da artista

“A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos reinos que inventei.” Hilda Hilst

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Viva, produtiva e jovial. Aos 101 anos de idade a escultura, pintora e ceramista mineira Lêda Gontijo, natural de Juiz de Fora, no interior do estado, recebe exposição em sua homenagem. “Força Estranha”, em cartaz na Galeria de Arte do Centro Cultural Minas Tênis Clube até o dia 8 de maio, com entrada franca, prima, em primeiro lugar, pela ambientação, com farto material sobre a vida e obra da artista, onde se incluem depoimentos dela própria, em linguagem simples e emocionada, tanto em vídeo quanto nas paredes do local, decisão criativa e rara que causa um efeito ainda maior junto ao espectador, capaz de, logo de cara, aproximar-se. É aí que a exposição dá conta da face mais reveladora de Lêda, artista na acepção da palavra, clássica e contemporânea.

Centenários 2016: Murilo Rubião causou fascínio e espanto com literatura fantástica

“Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.” Murilo Rubião

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Se a vida bastasse uma expressão como o jornalismo seria suficiente. Ou, ainda, os fatos nos contentariam. É notório, porém, que o homem vive pela imaginação, e sobrevive, principalmente, através dela. Mineiro do Carmo, Murilo Rubião foi um sujeito comum, pacato, simples, descrito pelos amigos com certos adjetivos nada representativos de sua obra literária: tímido, quieto e até, pasmem, de poucas palavras. Não foi o único escritor de poucas palavras. Rubião publicou, ao longo de toda a vida, 33 contos, concisos e variados, com uma característica em comum, o fantástico que mais tarde se perceberia com outra nitidez nos textos do argentino Julio Cortázar e do colombiano Gabriel García Márquez. Noutras décadas, Murilo teve algumas obras adaptadas para o teatro, o cinema e a televisão, e traduzidas em inglês, espanhol e até alemão.

A homossexualidade na música brasileira: da década de 30 aos anos 2000

“Mas viver como flores refletidas,
como luar,
livre de todas as possessões nos afetos” Ezra Pound

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Década de 30:

1- Mulato bamba (samba) – Noel Rosa:
Esse samba de 1931 é a primeira música de relevante importância para a música popular brasileira no que diz respeito à representação do homossexual. Noel Rosa a compôs como forma de homenagem a Madame Satã, famoso capoeirista e malandro homossexual da Lapa. Como já foi dito, a canção é uma homenagem e retrata o homossexual de maneira respeitosa e até com certa admiração. Interessante notar que foi feita em um meio musical (samba) e uma época (década de 30) extremamente conservadoras.

Alvarenga de 6 às 2

“Comemorando dolorosamente uma nova década numa única multidão selvagem.” Jack Kerouac

alvarenga

Se a bebida é a melhor amiga do homem, por certo é uma amiga muito ciumenta, o que explica a ressaca. De toda forma, não convém desmentir os poetas. A verdade é que não sei como saí dali. Passavam das quatro horas da tarde quando comecei a remendar os cacos da noite anterior e, embora estivesse na minha cama, ou algo parecido com isto, minha sensação era a de ainda estar naquele ambiente de outrora. Engraçado como a lembrança muitas vezes se dá por outros sentidos que não a visão. Muito embora as imagens fossem embaçadas o paladar mantinha-se na minha boca, assim como o aroma daquelas cervejas especiais. Pouco a pouco as recordações me reconstruíram o mosaico. Evidente que não garanto a verossimilhança deste relato, afinal de contas não estava no amplo domínio de todas as minhas faculdades. Mas se nos ativéssemos apenas aos fatos, quanto desperdício…

Análise: Ícone da música negra Billy Paul falou com afeto aos corações

“tudo o que é amor suave e sentimento
e pejo pintarei de rosa e negro:” Jorge de Lima

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Quase quarenta anos depois do sucesso de “Me & Mrs. Jones”, Amy Winehouse deu a sua versão dos fatos. Inspirada pela canção trocou o gênero de senhora para senhor e, como sempre autobiográfica, desabafou sobre as desventuras e cicatrizes de sua vida amorosa. Além do título similar, o suingue e a influência da música negra marcam as duas canções. Porém, a diferença se mostra mais forte na audição. Billy Paul, intérprete do sucesso de 1972 envereda pela seara romântica e oferece um canto sutil e suave à trama, enquanto Amy não nega suas raízes blues e derrama roucamente toda a voz.

3 músicas brasileiras para o Dia do Trabalho

“O caminho do sábio é trabalho sem esforço.” Tao-Te-Ching

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Cantado em prosa em verso o trabalho que “dignifica o homem”, nas palavras do sociólogo Max Weber, recebeu de nossos compositores tratamento exemplar e como sempre bastante inventivo. Valendo-se da observação dos costumes, como autênticos cronistas, e conferindo a eles pitadas de ironia, irreverência e até romantismo, o tema foi tratado desde os tempos de Wilson Batista e Herivelto Martins até Chico Buarque de Hollanda, em sua exaltação ao malandro. Seja como for, as 3 músicas brasileiras listadas abaixo em homenagem ao Dia do Trabalho não deixam de revelar certa característica do nosso povo, que leva e trata o ofício como der e vier, das mais diversas formas.

Análise: Umberto Magnani vestiu de humanidade suas personagens

“Cresce destroço em minhas aparências.
Nesse destroço finco uma açucena.
(É um cágado que empurra estas distâncias?)
A chuva se engalana em arco-íris.
Não sei mais calcular a cor das horas.
As coisas me ampliaram para menos.” Manoel de Barros

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Talvez os principais papéis interpretados pelo ator Umberto Magnani estejam fora do alcance do público em sua maioria, não apenas pelo teatro que, além de prescindir do registro se habituou a um nicho, mas, sobretudo, pelo cinema, e que ainda poderá ser revisto. Foi através da sétima arte que Magnani teve a oportunidade de desenvolver, munido de seu rosto expressivo, ao mesmo tempo bondoso e marcado, uma das principais qualidades do ofício, a de desmentir a aparência, e oferecer uma personagem contraditória em si. Com sua habitual verve sarcástica e pessimista o diretor Sérgio Bianchi dirigiu Umberto em “Cronicamente Inviável” na pele de um escritor com as mais escusas premissas. A sensibilidade com que o ator leva a história é chocante.

Análise: Fernando Faro procurou a essência

“Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora…” Rubem Alves

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Foi na ausência de Fernando Faro que Antônio Abujamra ganhou a incumbência de entrevistar Maysa para o programa “Estudos”, da TV Cultura, fortemente influenciado pelo mais que clássico “Ensaio”. “Baixo”, como era conhecido o sergipano de Aracaju criado em Salvador, na Bahia, teve uma reunião de última hora e passou o bastão para o âncora do também marcante “Provocações”. O resultado foi uma das mais fortes entrevistas já concedidas por uma artista, muito pelo temperamento de Maysa e o despojamento oferecido pela atração. Esse episódio, no entanto, em que a participação de Faro se deu em forma de ausência é fundamental na compreensão da ética e dos valores do jornalista que visava alcançar, sobretudo, a essência, o sentido.