Crítica: “Transando com Laerte” debate os temas mais relevantes da atualidade

“É preciso ir além da moral!” Eugène Ionesco

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Laerte é sinônimo de liberdade. Sempre foi, desde que começou a publicar seus quadrinhos e cartuns na década de 1970, e confirmou com veemência essa característica ao assumir a transexualidade. Mais do que liberdade, passou a ser sinônimo de libertação. Com contribuições pontuais para a televisão, sempre no gênero de humor e sempre como roteirista, como nos casos da “TV Pirata” e do “Sai de Baixo”, ganhou em 2015 a oportunidade dada pelo Canal Brasil, emissora a cabo vinculada à TV Globo, de apresentar seu próprio programa. “Transando com Laerte”, que vai ao ar na madrugada de terças-feiras a partir da meia noite, estabelece temas e recebe convidados que debatem acerca dos acontecimentos mais relevantes da atualidade com a, agora, apresentadora.

Ginga da Capoeira no Brasil

“esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.” João Cabral de Melo Neto

Joga, luta e dança. Perna, braço e atabaque. Berimbau, Brasil e África. Da ponta do pé ao corte dos olhos. Madame Satã. Zumbi dos Palmares. Besouro, diabo. Lança por cima da cabeça, comprida, diáspora. Volta como bumerangue, chicote. Estala. Pandeiro, agogô, viola. Discípulo, mestre, canto das águas. Vem Janaína, rainha do Mar. Vem Iemanjá. Luta, dança e joga. Por cima, por baixo, por entre os escravos. Trazidos da África. Brasil, berimbau, atabaque. Perna, amuleto, braço. Capoeira cai fácil gaivota. Terras, palmeiras e sábia. Gorjeiam os pilares. Passo na areia, estilete, corta. Peito pra frente, tronco pra trás, a revolta. Palmeiras, palmares, madame. Besouro zumbi satã.

Caderno H2O – 20/05/2016

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.” Clarice Lispector

POEMA1

Bufa
A vida é muito grave mas não é séria.
A vida já existia antes da comédia.
A vida já existia antes da Tragédia.
A vida é Hollywood, Shakespeare e a Grécia.
A vida ergue sua saia e espia a greta.
A vida é pó de aranha e mel de abelha.
A vida é ópera bufa, canto da sereia.
A vida é uma ilusão, como um espelho.
Quem olha pra vida sério ela faz careta
A vida é muito grave, mas não é séria.

3 filmes brasileiros sobre o Futebol

“quero a vitória/do time de várzea
valente/covarde/a derrota/do campeão
5×0/em seu próprio chão
circo/dentro/do pão” Paulo Leminski

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Considerado até hoje o esporte mais popular do mundo, criado pelos ingleses e reinventado pelos brasileiros, o futebol segue despertando paixões, e como terreno fértil da emoção não poderia ser deixado de lado por uma das artes que mais se valem desta qualidade, o cinema. No âmbito nacional, a peleja recebeu tratamento distinto de nossos diretores, atores e roteiristas, entre demais envolvidos, porém sempre com a habilidade que transformou o futebol brasileiro no mais reverenciado no planeta através das décadas, embora passe por período de triste decadência em função, principalmente, dos que se utilizaram dele na parte administrativa para benefício próprio. Pertence ao Brasil, porém, a hegemonia em Copas do Mundo, com 5 troféus conquistados, além, é claro, de aqui ter nascido o maior jogador da história, com seus 1281 gols, Edson Arantes do Nascimento, natural de Três Corações, conhecido Pelé.

A Porta de Todos os Mistérios

“Se as portas da percepção forem abertas, as coisas surgirão como realmente são, infinitas…” William Blake

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Trancada a porta. Gira a maçaneta uma, duas, três, quatro, cinco, incontáveis vezes, inutilmente. Todo o esforço de bíceps e tríceps comprimidos, avermelhados, músculos estouram. Suores chegam a formar pastosas babas de vacas ou dragões da Indonésia, o peso do volume embarga como náusea, ânsia de vômito. Olho caminha ao buraco da fechadura. Pálpebras apertam, depois afrouxam. Cílios caem como gotículas de neve na tempestade. Sobrancelhas reagem pelo barulho imediato. Teto, paredes e piso impõem a posição covarde. Ouve-se do outro lado. O amplo vazio da visão preenchido por solas de sapato no assoalho, talvez tamancos, arrisca o salto.

A esperança é uma abertura constituída de cabeça e tronco, porém agoniza: à falta de auxílio. Não há o manejo dos braços, o aconchego das mãos, o toque dos dedos, o equilíbrio das pernas, a firmeza dos pés, o fraco do calcanhar, nada se estende. O rosto opaco, lustroso e calvo. A nulidade dos membros. Veludo azul encobre a luz. A massa abarca órgãos vitais intermitentes. Respirar, bater, respirar, bater, respirar, bater, respirar. Sopra o tecido, a secura da boca cravada de fendas a oscilar, para cima e para baixo, e cor pálida, um leve esmorecer, pois permanece tapando a paisagem. Veludo grosso, escuro, ondula e mantém-se firme. Amar é do coração como trancar pertence às portas. A esperança uma abertura, uma porta escura, um coração. E está moldada às chaves.

Análise: 40 anos da morte de Madame Satã, símbolo da luta contra preconceitos

“Eis a noite encantada, amiga do bandido;
Ela vem como cúmplice, a passo escondido;
Lento se fecha o céu como uma grande alcova,
E o homem impaciente em fera se renova.” Baudelaire

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Trocado quando criança por uma égua, para que a mãe pudesse sustentar os dezessete irmãos que permaneceriam, Madame Satã tornou-se uma figura emblemática e contraditória na luta contra os preconceitos arraigados na formação nacional. Negro, pobre e homossexual distinguiu-se de seus pares, sobretudo, pela coragem e inconformidade. Não foram poucas as vezes que frequentou e passou longos períodos encarcerado, cujos motivos que se repetiam tinham a ver com desacato, quando não atingia a prática da violência física que resultou, inclusive, no assassinato de um policial em 1928. Neste famoso caso teria sido insultado reiteradamente por suas condições, inclusive porque Madame Satã não escondia de ninguém qual a sua preferência sexual.

Destacava-se também por outras práticas. Valente, feroz e temido na Lapa, onde passou a residir ainda jovem levando seguramente, para os parâmetros da época, uma vida de malandro, entre michês, bandidos, sambistas e prostitutas, ficou conhecido como dos mais habilidosos capoeiristas de todos os tempos, jogo que utilizava para se proteger e erguer assim sua fama. O que salta aos olhos na trajetória de Madame Satã, porém, cujo nome de batismo, João Francisco dos Santos, foi apagado diante da imagem impressionante de sua personagem, é a desconstrução de paradigmas e a união de paradoxos. Apresentando-se em cabarés decadentes, contra tudo e contra todos, teve, no peito e na raça, o mérito de se exibir travestido com roupas femininas e entoando canções lânguidas e românticas, isto num universo predominantemente machista que se fazia obedecer pela lógica da violência.

Entrevista: Iniciativa Rubisco propõe volta à natureza para o novo mundo

“Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes…” Mario Quintana

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A arquiteta Tereza Meireles e o administrador Pedro Henrique Oliveira têm algo em comum que desejam tornar corrente na vida cotidiana. Para isto foram responsáveis pela criação da “Rubisco”, iniciativa que visa transformar o ambiente das pessoas. Como uma decoradora de interiores nada ortodoxa, especializada em paisagismo e com singular preocupação ambiental, leva, literalmente, o jardim para dentro de casa. A inspiração para o batizado, portanto, não poderia vir senão de uma forma natural. “Surgiu em uma conversa informal com minha irmã, e ela me disse que as Crassuláceas (espécie de planta com flor), mais conhecidas como Suculentas, utilizam algumas enzimas no processo da fotossíntese. Uma dessas enzimas se chama Rubisco. Soou bem aos nossos ouvidos e de cara gostamos, então ficou então decidido assim. Um nome geral, mas que tem tudo a ver com as plantas”, explica Tereza.

Como numa gravidez, antes do nome, porém, veio o desejo da cria. “Nós sempre gostamos de estar em contato com a natureza por ser prazeroso e revigorante diante da correria e stress do dia-a-dia. E pensamos: por que não ter esse contato todos os dias? Daí surgiu a ideia de trabalhar com as plantas ornamentais e comestíveis e medicinais”, relembram sobre os primeiros passos dessa travessia. Alguns exemplos podem ser conferidos tanto no Facebook quanto no Instagram da iniciativa em fotos que provam que, para além do aspecto decorativo trata-se de um verdadeiro trabalho artístico em forma e conteúdo. “A Rubisco propõe uma reflexão sobre o modo de vida moderno, buscando resgatar os momentos simples e prazerosos do cotidiano com o uso das plantas, o que proporciona conforto estético para o ambiente e benefícios para a saúde das pessoas”, resumem.

Centenários 2016: urbanista Jane Jacobs viu nos problemas a solução

“vagabundeando sem destino até alta madrugada, procurando, entre as luzes e sombras turbulentas da populosa cidade, aquele infinito de excitação mental que somente a observação tranquila pode conceder.” Edgar Allan Poe

Jane Jacobs

Canadense nascida em território norte-americano, Jane Jacobs não teve formação acadêmica em nenhuma área do conhecimento, embora, na data de seu centenário de nascimento, já seja considerada ativista política e urbanista, e tenha escrito livro fundamental sobre o assunto. Ungida por contradições, Jane Jacobs desmistificou respostas prontas e certezas absolutas, no que sua condição de mulher contribuiu ainda mais nessa importante luta, se levarmos em conta que, como em quase todos os segmentos, o universo no qual se intrometeu à época era, também, dominado por homens e sua lógica própria.

Análise: 70 anos de Rogério Sganzerla, o mais marginal dos cineastas

“Ser marginal foi uma decisão poética. Os marginais estão mais perto de Deus. Toda ovelha desgarrada ama mais, odeia mais, sente tudo mais intensamente.” Cazuza

Se a estética do precário criava laços entre os criadores do “Cinema Novo” e os entusiastas do “Cinema Marginal” havia uma questão mais fundamental a separá-los: a do conteúdo. Rogério Sganzerla foi, sem dúvida, o mais inventivo e radical entre seus pares, que levou mais a fundo as considerações do modo de filmagem, em experimentalismo conceitual que, provavelmente, só encontra parâmetro na obra de Jean-Luc Godard. Não por acaso foi o mais difamado por Glauber Rocha no exterior, responsável por espalhar que Sganzerla era agente da CIA. Se o “Cinema de Autor”, ecos da francesa Nouvelle Vague era ponto em comum entre ambos, também se impunham ali egos e vaidades.

Entrevista: Agatha Almeida lança “Amordaça” para ninar gente grande

“Minha personagem me chama pelos corredores das folhas de papel
Ergue os dedos delicados
E é apenas quando ouço a voz de Vânia que permito-me escrever sem pensar que estou prestes a morrer

ou que hei de enlouquecer
e ceder a cada ruído ou aceno dissimulado” Agatha Almeida

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Logo que teve o primeiro poema publicado, no jornal de Passos, cidade do interior de Minas Gerais, Agatha se sentiu picada pelo “bichinho literário”, pois, como nos lembra Ferreira Gullar, “a poesia nasce de repente e não faz barulho. Pode acontecer no meio da rua e ninguém vai perceber”. Passados 20 anos desde a estreia inevitável, ela reuniu coragem e recursos para lançar “Amordaça”, pela editora Benvinda, que virá oficialmente à luz no próximo dia 14 de maio no Café do Carmo, no bairro Sion, a partir das 16h. A escritora, porém, não nega as origens, e pensa no futuro de olho no passado. “Ainda muito jovem, por volta dos sete anos, escrevi uma poesia em comemoração ao ‘Dia do Soldado’. O texto foi escolhido por colegas e professores para ser publicado na Folha da Manhã, jornal passense, na época o principal jornal do município e região. Me lembro vividamente do prazer sentido em poder dividir a escrita com leitores do periódico na cidade. Desde então dedico muito do meu tempo a leitura e à escrita, e tenho muito prazer em fazê-lo”, sublinha Agatha.

Muito diferente da temática relativa à primeira experiência “Amordaça” traz, já no título, uma provocação. Enquanto no dicionário o sentido da palavra é descrito como “impedir de falar, de opinar, de manifestar-se”, é claro e confesso que Agatha Almeida tem intenção contrária. “Paradoxalmente, ‘Amordaça’ foi escrito para escancarar, berrar, esganiçar, escandalizar, ser lido”, explica em consonância com o espírito rebelde dos melhores poetas. Como se não bastasse, o livro, composto por poemas e minicontos, envereda por questões polêmicas da atualidade, especificamente a de gênero e dos relacionamentos. “Foi preciso escolher e reunir poesias previamente escritas e organizá-las para construir uma história maior, com direito a linearidade e personagens. Além disso, a criação de capítulos também fez parte do processo de criação. Falar sobre questões de gênero através das de autoria e relacionamentos me pareceu uma forma de unir os temas de meu interesse e que, enquanto autora, tenho prazer e facilidade em abordar”, conclui a poetisa.