O Estranho Desaparecimento do Procurado

“Alguma coisa dissolveu meu rosto. Coisa que aliás mal aparece em meio à névoa prateada da luz das velas.” Virginia Woolf

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O véu fulgurante e invisível esfola a planície nítida. A promessa de se voltar a isto. A confissão de que Tudo Não Passou Da Verdade. Um negro forte, sorridente, simples, de adjetivos laicos: dispostos um atrás do outro mais confundem, atrasam: a resignação da ignorância. A cabeça ao pender perpendicular revela a calvície histórica. A mão aperta com firmeza. Tensa, suada, o jeito meigo de impressionar com o tamanho dos dentes, a bravura do sorriso: desarma. Lembra o Negrinho do Pastoreio. Abonado com vestes trançadas e traçadas no próprio corpo ele sorri: um sorriso de gosto. Traças passeiam no paletó cinza-escuro. Baixo, torna-se ainda mais baixo, curva-se.

Roxo de susto: da visão da noite: não mais alado: no exato instante em que esta cor muda: não mais amarelo como a terra batida na qual insistem em bater: sem força, mas o tapa arde: nunca verde como os olhos escuros no friso de Ágata: nem roxo que agora mesmo fora de susto, de azedo, sufoco: sonhos incolores: cremos. A água é servida no copo quebrado na ponta. O negro é um búfalo. Os leões o cercam no mato, o capinzal é áspero. Porque nós outros a não sermos donos do terreno se tantos e ledos enganos foram proferidos à boca pequena que engoliu o trema, a lama, o lema, o limbo, o lodo, o Lundu. Ao som do farfalhar de hortaliças romenas, hinos de amor e medo, a revolver coloniais fantasias, o chifre como uma lápide de gesso, os ossos, as carnes, os pelos, afundam junto a todo resto.

Centenários 2016: Manoel de Barros deu grandeza infantil à poesia

“Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores. (…) Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!” Manoel de Barros

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Não é fácil falar de um poeta quando ele mesmo é a matéria prima de seu trabalho e costuma dominar como ninguém as palavras. Longe de ser o escritor “sem estilo” como Millôr Fernandes se autodenominou, Manoel de Barros atingiu em sua obra o estado que Clarice Lispector usou para se referir a pintores como Joan Miró e Pablo Picasso, “tornar-se puro”. Para ele a poesia era a “infância da língua”, o que o levou a constatar os absurdos e contradições da existência sem o obscurantismo e desilusão de um Franz Kafka ou de Samuel Beckett, mas a partir da curiosidade de quem descobre e sente através do susto uma grande excitação. A aparente ingenuidade que emana de suas criações emerge de uma complexa percepção inerente à tenra idade, desfeita de conceitos, tabus, morais, certezas e aberta para a dúvida e o espanto, universo onde tudo é possível e nada se proíbe, nem o sórdido nem o sublime.

Crítica: “Bipolar Show” atesta irreverência criativa de Michel Melamed

“Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefação; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente.” Eugène Ionesco

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Não deixa de ser elucidativo que no primeiro trabalho a dar dimensão nacional a Michel Melamed, o espetáculo “Regurgitofagia”, o ator recebesse descargas elétricas vindas da plateia. Assim o múltiplo artista transforma pensamentos elaborados em linguagens abusivas e escrachadas. Desde então, soube dar a esse processo as mais diversas formas, com trânsito por diferentes veículos e o mérito de sempre usar o suporte a favor do conteúdo. Melamed tem como intrínseca característica em seus projetos aliar ao máximo possível certo aspecto escandaloso, de imediata assimilação, sem com isto diluir a complexidade do que propõe. Em “Bipolar Show”, apresentado no Canal Brasil e que estreia sua segunda temporada, toda terça às 21h30, não é diferente. Michel mantém intactas as bases de seu estilo, dentre elas, a livre diversidade.

Análise: 90 anos de Marilyn Monroe, a força da beleza

“embora não confie em ninguém, não muito, ela se esforça feito um estivador para agradar a todos, ela quer fazer de cada um de nós seu protetor afetuoso, e consequentemente nós, a plateia, e seus conhecidos, ficamos presumidos, compassivos e excitados.” Truman Capote

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Marilyn é sempre Marilyn, ou seja, a personagem de si mesma, afinal de contas a própria alcunha artística foi uma criação para Norma Jeane. Nem é preciso dizer seu segundo nome para que se identifique a responsável por cenas memoráveis e inesquecíveis da sétima arte, especialmente quando soltava a voz. Subjugada a papéis que a relegavam ao protótipo da sensualidade desfeita de outras qualidades, é inegável que, para além do talento notório na arte de cantar, Monroe não descartava o domínio de seus atributos. É dispensável binóculo para reparar que Marilyn desenha as palavras com seus lábios carnudos, e que se movimenta em leves quebrares. Sempre afetada na frente das câmeras, atuando em filmes cujo apelo popular já seria forte sem sua presença por gênero e conteúdo, a artista erigiu uma imagem pública pautada no excesso, na exuberância, no modelo perfeito de beleza e vaidade.

O Susto do Fantasma

“Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)” Cecília Meireles

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Urros de dentro colocam uma questão de desordem. Quanto de distorção há na percepção da história? Quando escapole o último degrau da escada, o silêncio instaura. A dúvida se sempre houve o silêncio ou se em algum momento urros partiram não do peito, mas de rostos grosseiros e machucados a agora olharem. Uma mulher magoada por traições do marido. Duas crianças brincam, correm, seguram o coração no palito. O sabor amargo, já a enganadora superfície: vermelha: doce. Melhor uma ilusão à verdade e o desastre. Como se pode ocorrer vez ou outra um esboço de lucidez, um borrão, um ensaio. Apesar da intenção de respeito, o cenário endiabrado.

Patuscada e carnaval dançam o enredo sobre mesas cuidadosamente recortadas por toalhas brancas e copos de plástico. Ainda há de se ver ali uma suntuosa e provocativa caixa de salgados. Como há de se ver sobre o manto de Santa Maria – amarelo, trapo, no correr dos anos – um novo, desta feita azul, a encobrir o verde – já se vê bege – na paisagem de pasto, eucalipto e fuligem em abundância. Então há de se vê-la pela última vez e todo seu atrevimento: de se enfiar feito rato na ratoeira: e sair com o pescoço intacto: ainda com o queijo entre as garrinhas espertas: o queijo que ela procura naquela terra: já tão amarelada, difícil de identificar: justamente pela cor, a mesma: claro, existem tonalidades de amarelo: assim a ironia é uma tonalidade: um jeito de dizer as mesmas ofensas entre amantes: sem o carinho de antes: restando apenas o desejo mórbido do ser humano em ferir e machucar-se vez ou outra se regozijando com o sofrimento alheio.

Caderno H2O – 17/06/2016

“As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.” Manuel Bandeira

Evolução1

Evolução da espécie
Agora eu entendo,
Quando olho no olho de um cachorro,
No compasso, na orelha, no rabinho abanando, na baba, na língua,
Toda aquela pureza,
De que você me falava e eu não via.
Agora eu entendo,
Que o cachorro é um bicho,
Sinto um troço, esquisito,
Pois sou bicho também,
Mas pareço um anfíbio.

Quando olho no olho de um cachorro,

Centenários 2016: Marino Pinto criou as letras de sucessos inesquecíveis

“Você vem de um palacete,/Eu nasci num barracão,
Sapo namorando a lua/Numa noite de verão
Eu vou fazer serenata,/Eu vou matar minha dor,
Meu samba vai, diz a ela,/Que o coração não tem cor” Wilson Batista & Marino Pinto

Marino com Dalva de Oliveira

É compreensível que num ofício predominantemente sonoro como a música o autor da palavra não receba a mesma atenção, sobretudo, de seus intérpretes, mas também dos instrumentistas. É desse mal que sofreu Marino Pinto, carioca nascido no interior do estado, então capital federal, embora tenha acumulado inúmeros sucessos quase sempre sob a égide do anonimato, por ser ele jornalista e responsável pelas letras, sendo que nunca se atreveu a cantar ou tocar algum instrumento em público. A saída prematura de cena, com apenas 48 anos de idade, ainda na década de 1960, provavelmente contribuiu ainda mais para que sua identidade se apagasse aos poucos da memória dos mais aficionados por música. A força de sua obra reside em que as composições continuaram a ser gravadas, por nomes como Ney Matogrosso, João Gilberto, Luiz Melodia, Elza Soares, Maria Bethânia, Alaíde Costa e até Norma Bengell.

Análise: 70 anos de Wanderléa, símbolo da música jovem e romântica

“Mas a minha linguagem é mais clara. Eu poderia te dizer aonde se entrecruza a lenta gramática e o teu sexo de gatas” Ana Cristina Cesar

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Não deixa de ser espantoso que Wanderléa chegue aos 70 anos ainda como símbolo da música jovem e romântica. Mas muitos também irão se surpreender ao descobrir, a essa altura, que a musa da “Jovem Guarda” nasceu em Governador Valadares, no interior das Minas Gerais. Conservando até hoje o epíteto de “Ternurinha”, a artista se mudou cedo, aos nove anos de idade para o Rio de Janeiro, onde tudo acontecia culturalmente, mas não foi a única mudança ao longo de sua trajetória. Talvez Wanderléa tenha permanecido justamente pelo paroxismo que permite aos clássicos o cotejo da imobilidade. Intérprete, sobretudo, de ritmos e gêneros altamente populares, a cantora soube conciliar aspectos de forte apelo emocional a uma elegância ao mesmo tempo comedida e ingênua. Sucessos como “Pare o Casamento” e “Foi Assim” poderiam facilmente sucumbir à banalidade se não recebessem o seu canto.

Entrevista: Dulce Quental lança disco de inéditas com músicas antigas

“Todo mundo é parecido, quando sente dor
Mas nu e só ao meio-dia, só quem está pronto pro amor” Dulce Quental

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Dulce Quental prepara uma surpresa. Um disco de músicas inéditas com gravações antigas. Habituada ao paroxismo, a cantora de carreira espaçada retorna ao mercado fonográfico em grande estilo. Um dos motivos da ausência sentida encontra-se na incursão por outras áreas do conhecimento artístico, em especial a literatura.  “Eu gosto de escrever a beça. E acho que no futuro quando estiver cansada dos palcos irei só escrever. Tenho um livro de crônicas publicado e um romance (na ordem ‘Caleidoscópicas’ e ‘Memória Inventada’). Tudo feito de forma independente. Está por aí. Na ‘Amazon’ (empresa de vendas online). Fiquei cinco anos trabalhando nele. Mas foi muito sofrido o processo. É difícil demais escrever bem. Difícil ser simples. Ora dessas, eu volto. Estou de férias da literatura. Agora quero colocar a boca no trombone e cantar pra subir”, avisa. Como de costume, é bom não duvidar de Dulce.

“Música e Maresia” compila 11 gravações realizadas entre 1991 e 1994, período em que Quental não lançou disco, mas que mesmo assim apareceu como a compositora de sucessos da banda “Barão Vermelho”, “Cidade Negra” e de Leila Pinheiro, Simone, Anna Carolina, Roberto Frejat e outros artistas. A artista explica porque só agora a cria verá a luz do dia. “Eu sempre tive o desejo de lançar um disco com essas gravações. Estava esperando o momento certo. Mas foi preciso um empurrão de amigos e colaboradores para acontecer. A gente não faz nada sozinho. Acho também que só estou conseguindo por causa do momento da indústria. A volta do vinil. A possibilidade de um artista independente lançar seu próprio selo e distribuir diretamente através de uma plataforma digital sem o intermédio de uma gravadora”, justifica. Muitas dessas canções permanecem inéditas apenas na voz de Dulce, já tendo sido lançadas por alguns dos nomes citados acima.