Cerimônia Fúnebre

“Da mesma forma, deve haver inúmeras realidades, não só esta que percebemos com nossos sentidos embotados, mas um amontoado de realidades se sobrepondo umas às outras. É medo e presunção acreditar em limites. Não existem limites, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos. É a ansiedade que impõe limites.” Ingmar Bergman

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O acontecimento mais expressivo de nossas vidas é a morte. Engraçado – era com ironia e desencanto que utilizava a palavra; o velório com que sonhara durante a juventude, com todos e os mais variados amigos ao redor, uns malucos, drogados, pervertidos sexuais, mulheres lascivas e recatadas, algumas que apenas desejara, outras das quais provara o sabor da carne, e mais inúmeros tantos sérios como uma gravata, com a mesma morbidez nos olhos característica dos guaxinins, jamais aconteceria.

Sonhara com a cerimônia, aquela espécie de ritual macabro como uma apolínea consagração para uma existência dionisíaca, crente de que poderia aproveitar da vaidade que os choros e lágrimas vertidas em sua memória tornariam, de certa maneira, e nesse momento, digna, ignorando o seu quase absoluto ceticismo. Pois na hora da nossa morte o sonho vale mais à caveira que apodrece, filosofou em voz baixa, quase para si, disperso que estava do público, e somos coroados e reverenciados como uma perfeita Madonna, límpida e livre de pecados, tão puros e festejados qual na hora do nascimento, só que já passamos pela vida, agora nos tornamos conhecidos e as pessoas estabeleceram razões e motivos concretos para debruçar sobre nós suas emoções, angústias, desejos e expectativas, constatou ainda mais para dentro de suas entranhas, aquele resto de rancor mastigado que o reduzia a bolor.

Caderno H2O – 08/07/2016

“Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores.” Zélia Gattai

Deboche

Bicicletas
O deboche
Vem pedalando a bicicleta
Com óculos arredondados
De aros azuis
Puxa a manilha aos dentes.

O deboche
No – jor-na-lis-mo
é uma Qualidade Crítica.

QUE AINDA ACREDITA EM INDEPENDÊNCIA
SOU DE UMA GERAÇÃO
POIS QUE A AR
TE
IMITA TUDO

quanto ao jor-na-lis-mo,
ocupa papel de platéia
em minhas prioridades,
com sua relativa importância,
onde quem sobe ao palco?

É a Arte!

Centenários 2016: O Samba, Raiz Cultural do Brasil

“O Samba da minha terra deixa a gente mole/Quando se canta todo mundo bole
Quem não gosta de samba, bom sujeito não é/É ruim da cabeça, ou doente do pé
Eu nasci com o samba, no samba me criei/E do danado do samba, nunca me separei” Dorival Caymmi

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O samba já começou com um buchicho, pois ao contrário do que cantaria décadas depois a música de Evaldo Rui e Fernando Lobo sobre a tal “Nega Maluca”, todos se imputavam a paternidade da cria. Do estribilho para o muxoxo foi um passo, tudo porque a canção cantada aos milhares no terreiro de Tia Ciata foi registrada somente no nome de um par: Donga e Mauro de Almeida. Bem verdade que o segundo nunca fez muita questão do fato, ao contrário do primeiro. “Pelo Telefone”, gravada em dezembro de 1916 e lançada em disco Odeon recebeu assim a voz do cantor Bahiano e da Banda da Casa Edison. Tal como o samba que inaugurava morreu, ressuscitou e requebrou em diversas vozes, em períodos e com abordagens das mais variadas. Ainda naquela década teve por “cavalo” Almirante, e mais tarde nomes como Martinho da Vila, Beth Carvalho, Chico Buarque e Paulo Moura.

3 livros brasileiros sobre o futebol

“manchete:
CHUTES DE POETA
NÃO LEVAM PERIGO À META” Paulo Leminski

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Que o futebol está na gênese da cultura miscigenada do brasileiro, eis uma ausência de novidade, porém que esta influência e transformação foi reportada e contada em livros por nossos maiores e melhores autores do gênero, e fora dele, inclusive, pode constituir alguma informação, se não de surpresa, ao menos reveladora. Afinal de contas se o drible, especialmente alguns deles, e lances geniais inventados por nomes como Didi, Garrincha, Pelé, Tostão, Sócrates, Manga, e outros, tais como a “folha seca”, o “elástico”, o “drible da vaca”, o “lençol”, e o “gol de placa” constituem para muitos entendedores e apaixonados verdadeiras obras de arte, mais certo ainda é que se o lugar de origem do esporte mais amado pelos brasileiros é o campo, ele também dá a suas canjas no cinema, na música, nas artes plásticas, no teatro, na dança e, porque não, no terreno fértil da literatura.

Análise: Cinema de Abbas Kiarostami investiga as emoções humanas

“Um homem caminha por uma floresta sombria, perigosa, repleta de bestas selvagens. Uma rede circunda toda a floresta. O homem tem medo. Ele corre para fugir das bestas, mas cai num fosso negro como breu. Milagrosamente, ele fica preso por duas grandes raízes. Ele sente o hálito quente de uma enorme cobra que jaz no fundo do fosso, pronta para dar o bote.” Krishna Dvapayana Vyasa

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O mistério se impõe nos filmes de Abbas Kiarostami, embora, até mesmo a sua existência, seja revelada aos poucos. Esse talvez seja o grande trunfo de seu cinema que, sob uma aparente monotonia, aos poucos distende as presilhas de um rigoroso véu submetido também a um rigor estilístico. Há, portanto, duas peças que se movimentam simultaneamente nas películas de Kiarostami, embora pareçam distintas, pois a forma, o estilo, as invenções, rupturas, quebras, que o experimentalismo por vezes radical do cineasta oferece não são nunca enfeites retóricos, mas servem para contar a história ou, ainda, encobrir o mistério que como nos clássicos filmes se revelará no final quando não em doses homeopáticas distribuídas ao longo de seu processo. Tudo a serviço de uma obsessão de Kiarostami, as emoções e os sentimentos da alma humana, tão ou mais misteriosa do que a resposta duma equação desvendada.

Correntes

“Mas os retratos nunca são reais. Devia-se tirar o retrato das pessoas como as flores, depois da tempestade. É quando são mais belas, depois de terem sofrido.” Augustina Bessa-Luís

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O nosso amor começou com Charlie Chaplin.
Depois de um tempo apareceu Oscar Wilde, e logo em seguida, Caio Fernando Abreu.
E nós ali, tateando no escuro, tentando ver o que era ficção e o que era eu você nós dois.
Nunca tivemos certeza, mas acho que por algum momento chegamos a sentir nós dois naquele dia.
Não foi quando sua perna tocou a minha nem quando eu ri nervosamente tentando disfarçar o meu estado já alterado no final da noite.
Talvez tenha sido na hora de ir embora.
De nos despedirmos.
E aquela mão ficou no céu entre nós tentando se prender a correntes invisíveis.
Correntes que depois nos aprisionariam e nos jogariam nisso que chamamos fim, acontecimento ou separação.
Ou mesma parte da vida. Prosseguimento da vida, eu diria.
A sua vida seguiu e eu nunca mais tive notícias.
Mas ainda guardo nesse céu invisível que há entre nós dois um pedaço de corrente que nos prendeu e infelizmente hoje só me resta liberdade.

Caderno H2O – 01/07/2016

“Oh, senhor, sabe muito bem que a vida é cheia de infinitos absurdos, os quais, descaradamente, nem ao menos têm necessidade de parecer verossímeis. E sabe por que, senhor? Porque esses absurdos são verdadeiros.” Luigi Pirandello

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Boca do Inferno
o céu da boca tem estrelas, lua e aftas,
o céu da boca espia para baixo
e vê um lindo prado,
montanhas e a faringite,
o céu da boca é algo muito afastado, e tão perto,
que nem deus sabe se é feito
de teto, de palha, fumaça,
é um estado periférico.

o céu da boca ás vezes é forma concreta
ás vezes é só soneto.
o céu da boca em alguns mete medo,
noutros pede clemência.

o céu da boca é entre o azul e o vermelho,
é algo assim, amarelo.

Centenários 2016: Emeric Marcier aliou barroco mineiro ao expressionismo europeu

“O Deus de que vos falo/ Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe/Da grandeza do homem
(Da vileza também) /E no tempo contempla
O ser que assim se fez./ (…) E podereis amá-Lo
Se eu vos disser serena/Sem cuidados,
Que a comoção divina/Contemplando se faz?” Hilda Hilst

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Embora tenha pintado nus e auto-retratos o grande reconhecimento à obra do romeno Emeric Marcier aconteceu quando ele começou a elaborar, em seus trabalhos, a paisagem mineira das cidades históricas, em especial Ouro Preto, Mariana e Barbacena, tendo esta última como residência em boa parte da vida, e aliou a elas a influência do expressionismo europeu que trazia de sua origem. Logo, Marcier, que fugiu da Segunda Guerra Mundial para Lisboa e depois aportou no Brasil, sendo recebido no Rio de Janeiro por nomes do Modernismo como Mário de Andrade e Jorge de Lima, construiu obra incomum, única, em que se conjuga a temática religiosa a formas e cores preponderantemente emocionais, para além da objetivação descritiva. Foi de Giotto a Pablo Picasso.

Crítica: Programa “Nasi Noite Adentro” exalta estilo de vida libertário

“Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa.” Allen Ginsberg

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De volta à programação do Canal Brasil, emissora paga vinculada à Rede Globo, toda quinta-feira a partir da meia-noite, o programa “Nasi Noite Adentro” confirma sucesso ao emplacar a sua quarta temporada. A atração comandada pelo histórico vocalista da banda paulistana Ira! explora justamente espaços recônditos da capital, ou nem tanto, pois embora anti-convencionais os lugares visitados recebem número significativo de pessoas, como comprovam os episódios; alguns, inclusive, temáticos – de que são exemplos os bastidores de uma filmagem pornô, um hotel dedicado a gays e o bar com estética punk. O estilo de vida libertário exaltado por Nasi e seus convidados recebe abrigo contundente pela noite que esconde e revela seus tabus e segredos.

Análise: 70 anos de Maria Bethânia, a abelha-rainha da música brasileira

“tudo me impulsa para o coração do mundo” Wally Salomão

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Não é exagero dizer que Bethânia é música em cada fibra, até por que suas interpretações lancinantes nunca pecaram pelo comedimento, numa tênue linha em que é preciso dominar o instrumento para que a entrega não se torne gratuita. E o instrumento da cantora está além da voz, pois é capaz de transformar um simples gesto numa proporção de palavras prenhes de significado. Aí está, dentre tantos, o legado, é bem possível, de maior relevância desta artista ímpar na música popular brasileira, apelidada de “abelha-rainha” após interpretar canção escrita pelo poeta baiano Wally Salomão e musicada pelo irmão Caetano Veloso, “Mel”. Foi Caetano, aliás, quem batizou Bethânia, em insistência junto à matriarca do clã para que desse à filha o nome da música gravada, à época, com enorme sucesso, por Nelson Gonçalves, composta pelo pernambucano autor de frevos inesquecíveis Lourenço da Fonseca, mais conhecido como Capiba. Idos da década de 1940.