O Silêncio do Tempo

“É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo.” Caio Fernando Abreu

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Não sabia ao certo o nome. Um filete comprido, longo, esverdeado, cuja língua arriscava furos na superfície lenta do ar, com duas bolinhas tão velozes quanto o rabo no lugar dos olhos. Alguns o chamavam lagarto, mas a maioria de calango. Era um bicho arredio, que ao menor sinal de ser cutucado rápido se desvencilhava das possíveis mãos ou pernas ou cabos de vassoura. Mas, ao contrário, se o deixassem de lado, se a mesma indiferença demonstrada fosse recíproca, permanecia coalhando ao sol, lento, lerdo, espreguiçado. Numa tranqüilidade assustadora para quem se remoía e martelava os perigos iminentes do mundo e a inexorabilidade da morte. Afinal aquele lagarto ou calango não devia ter pensamentos muito profundos. No entanto, e bota entanto nisto, era profunda a sua inveja, e, até, pasmem, o seu ciúme. Para o lagarto o mundo, embora menos proveitoso, parecia também não exigir muito.

Era uma imagem engraçada. A maior parte do tempo estática, como uma foto, envelhecida, pela textura corporal do réptil, e mais, pelo ar de constrição que exibia. O estoicismo do lagarto parecia dizer que tudo estava no lugar, e que tudo aconteceria no tempo certo, sendo inúteis e absurdos os esforços para modificar a ordem natural do planeta e suas circunstâncias essenciais, tão arraigadas quanto as raízes de batatas ou cenouras presentes naquele ambiente. As quais ele admirava imóvel e para as quais eventualmente furtava um olhar mais atrevido, mas sempre sereno, inóspito, inteiro. Havia a noção de exatidão no corpo do lagarto, na sua medida, em como se acoplava junto às pedras, com o sol lhe iluminando numa cenografia perfeita para aquele espetáculo, do qual sabia todas as falas, todas as deixas, quando arroubar e quando permanecer quieto, somente por instinto, por ser exatamente aquilo para o que fora concebido, sem indagações, suspeitas, escolhas, diretrizes.

Caderno H2O – 22/07/2016

“… palavras agrupam-se de súbito como para uma
procissão ou dança sem pedir-me ordem ou conselho.” Marie Noël

PALAVRA

Coloque um preço
Quanto vale esta palavra?
Na soma da matemática
Ou na subtração dos átomos

Quanto vale esta palavra?
O pescoço é de girafa
Nada rápida como uma alga

Quanto vale esta palavra?
Qual o peso, a largura, o tamanho?
Um prédio de Niemeyer ou a cordilheira dos Andes?

Quanto vale,
Vala,
Relva.

Toda arte,
Coma,
Destra.

Na esquerda da política
Ou na conjugação dos verbos

Esta palavra não presta.

Análise: Crítico, Sábato Magaldi foi além do óbvio

“Poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi.” Oswald de Andrade

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Sábato Magaldi pertenceu a uma época em que era permitido e incentivado conciliar rigoroso arcabouço teórico à fluidez e pontualidade do texto jornalístico. Natural de Belo Horizonte cedo migrou para o Rio de Janeiro e logo depois São Paulo, capitais onde praticamente tudo acontecia em termos de inovação estética e criativa, recebendo cantores, escritores, artistas plásticos, cineastas e encenadores de todas as regiões do país. Sua preocupação era especificamente com o teatro, embora nesse meio não se restringisse a nada. Sábato dava pitacos em textos alheios, auxiliava atores em início de carreira e discutia concepções de cenografia com os montadores, mas foi, sempre, e, sobretudo, um crítico que soube enxergar além do óbvio. Que o digam Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Oswald de Andrade, entre inúmeros outros.

Análise: Guilherme Karan tinha embocadura própria para as personagens

“Eles se habituam logo com o deboche. Basta um pouco de tédio…” Jean Genet

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Fala-se muito no humor da importância da respiração, da pausa, do momento certo de enumerar a piada, ou a deixa, ou a fala. Essencial, tal aspecto, porém, não raramente precisa do acompanhamento de outro, que nem sempre recebe a mesma atenção da crítica e nem dos próprios atores, mas que, em benefício dos que o percebem e utilizam cria para estes a possibilidade de uma “marca”, o que em outros tempos era adquirido pelo “bordão”, capaz de diferenciá-los ainda que confinados a um mesmo espectro de personagem. Com a paulatina desvalorização das intérpretes de um número só, o que se configurava como certo “estilo” para os atores esmaeceu-se em privilégio de certa diversidade.

Análise: Hector Babenco produziu cinema voltado a temas marginais

“sonhos de poeta
que terminam numa fábrica
um em um milhão despercebidos
compram sonhos vendidos em bares…” Miguel Piñero

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Freqüentemente o cinema produzido pelo diretor Hector Babenco é adjetivado como áspero, cru, direto, e, sobretudo, pessoalíssimo. Não há dúvidas de que a condição de estrangeiro emprestou às películas do argentino naturalizado brasileiro todos os tons descritos acima e que o caracterizavam assim como sua visão e posição frente a um mundo diversas vezes injusto, excludente e reacionário. Portanto não é de se espantar que Babenco escolhesse olhar para seu semelhante, com o qual tinha hábil poder de dialogar pela imediata identificação, proveniente do conhecimento de causa. O semelhante era ele mesmo, refletido pelo espelho do cinema. Dentre os filmes de maior impacto, “O Beijo da Mulher Aranha”, “Pixote” e “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”.

Lamento muito que a gente tenha se separado

“E ela se contorce toda
presa em minha teia:
Era pétala amputada
Tornou-se flor inteira.” Simone Teodoro

fragonard

Dizem dessa história há muito tempo, mas é tudo mentira, nunca passou por aqui. Alto, magricela, delicado como uma pluma de boneca da menina a pairar por sobre os porcos do chiqueiro, serve e insiste para que se repita: cachaça. Fina no gargalo e rechonchuda no espalho dos quadris largos imprime à garrafa uma força espirituosa na rolha. O aroma da cana de açúcar é unânime em sua graça. Copos aproximam corpos e esbaldam. Quiquito é só alegria e cortesia irritante. Insiste a um gole mais e mais e mais outro. Como se necessário fosse. Com a espontaneidade e devoção de soldados de guerra após o abate dos inexperientes carrascos o álcool molha os vitoriosos.

A magreza de vacas, vielas e ruas interrompe as falas, lacrimejantes. Sondam com rigor e astúcia os mosquitos: sangue. Nem só rotura e vergalhões nesta paisagem seca. Os bípedes trazem aos trancos e barrancos ossos secos. Muitos se prendem às tocas como a cutia ao buraco. Não adianta oferecer o sol áspero. Preferem a treva da luz. E quem disse dela beleza não há? Velhas superfícies gastas, ranzinzas e rugosas não almejam tocar o ouro, nelas cresceram ramos por sobre elas para cultivar raízes por sobre os ossos e desprende-las todos sabemos é um trabalho de flores. Movidas pela inércia de ali nascidas, criadas e só desejam sair mortas.

Análise: 90 anos de Allen Ginsberg, ícone da geração desbunde

“vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco
antes de morrer.” Allen Ginsberg

GINSBERG

Ele aparece nas palavras do poeta Paulo Leminski e também numa canção de Cazuza. Seja analisado de maneira rigorosa numa espécie de ensaio ou elogio, e ainda mais, expresso em palavras que conclamam aos jorros à marginalidade, Allen Ginsberg não perde uma característica, a de servir como ferramenta de impudor e provocação. Foi esta, pois, a verdadeira vocação de sua obra, cujos maquinados versos adquiriam velocidade que possibilitavam ao leitor a experiência da coisa viva, sendo feita e nascida naquele instante, diante dos próprios olhos, quando na verdade emergia fruto de um requintado processo de gestação, em que as demandas do universo estético e carnal convergiam juntas num movimento vertiginoso e de entrega total, pura, fatídica.

Entrevista: Cátia de França apresenta seu caleidoscópio multicolorido

“À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.” Cecília Meireles

Cátia de França3_Mariana Kreischer

Se para o artista a definição é um limite, deste mal Cátia de França não padece. Na estrada, literalmente, há praticamente 40 anos, embora sempre retorne às origens, na Paraíba, em João Pessoa e seguindo a tradição lírica dos maiores prosadores e poetas de sua terra de palmeiras onde canta o sabiá, a cantora, compositora, escritora, artista plástica, com bem aventuranças pela sétima arte, une o regionalismo ao universal mantendo a essência de seu trabalho. Para este ano, prepara novidades, depois de algum tempo longe das estantes fonográficas. A música que nomeia o novo e aguardado álbum, “Hóspede da Natureza”, como de costume, carrega influências literárias. “A identidade do disco é múltipla. A veia aorta é Henry David Thoreau, a letra da canção-título veio diretamente do livro dele, ‘Walden ou, A Vida nos Bosques’ (de 1847, considerada a bíblia do movimento hippie). Mas nem todas as faixas são preocupadas com ecologia. É um apanhado de quem sou eu nesse tempo todo de careira. É um olhar que passeia por diversas circunstâncias, é como se fosse uma foto minha, feita de vários ângulos”, compara com sabedoria, Cátia.

Com lançamento feito pelo selo Porangareté, iniciativa do filho e da ex-companheira de Cássia Eller, Maria Eugênia, em parceria com a Natura Musical, o disco teve um longo processo de gestação, com gravações iniciadas no ano de 2005 e finalizadas em 2006, há quase dez anos atrás. Toda essa demora foi também fruto da falta de apoio e incentivo ao projeto que, agora, segundo Cátia, recebe as “condições à altura do que merecia”. Uma turnê já está programada por regiões do país em que a entrevistada morou e fez história, como Recife, João Pessoa, sua terra natal, Vitória no Espírito Santo, e as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. O novo álbum conta com 14 faixas, quase todas inéditas, e traz no currículo a produção de Rodrigo Garcia, além de músicos de peso acompanhando a cantora que é também instrumentista, tais como Marcelo Bernardes (integrante de longa data da banda de Chico Buarque), a percussionista Lan Lan, o guitarrista Walter Villaça e outros não menos importantes, como o baterista Alex Merlino, Jander Ribeiro, responsável pela pandeirola, Zé Marcos nos teclados, e, por fim, Nando Vásques no baixo.

A história de Frida, uma guerreira

“Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.” Clarice Lispector

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Ninguém ganha o nome de Frida à toa, seja por batismo consentido ou escolha alheia. Desde que a pintora mexicana tornou-se quase uma unanimidade mundial, nos idos de 1930 e 1940, a palavra se transformou, para além de seu sentido designativo, em símbolo de luta, perseverança, força, e, principalmente, ícone da liberdade feminina e valorização da mulher, além de trazer intrínseca a capacidade de reelaborar a dor real em beleza, fantasia e superação. Frida sofreu com doenças e acidentes, e a cada martírio que lhe atingia o corpo, preenchia com tintas as cores de sua alma em quadros impressionantes. Há que se dizer que a suprema consagração e alegria, para um artista, ao contrário dos políticos e outras figuras proeminentes de nosso estrato social, não é virar nome de rua, ponte, avenida, mas sim nome de cachorro.