6 músicas feministas de Rita Lee

“Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem” Rita Lee & Zélia Duncan

Rita Lee escreveu canções de teor feminista

Não é de hoje que as mulheres bradam na música brasileira. O clamor pela igualdade e contra práticas abusivas vem de tempos remotos até os mais atuais. Ícones da cultura nacional influenciam e influenciaram nossas compositoras, como Leila Diniz, Elvira Pagã, Pagu e Luz Del Fuego, além de histórias cotidianas vividas por anônimas com as quais muitas se identificam; é o caso da “Maria da Vila Matilde” cantada por Elza Soares. Em verso, prosa e muito ritmo selecionamos 6 músicas feministas compostas por ninguém mais e ninguém menos do que Rita Lee, algumas das quais interpretadas por ela, e outras emprestadas a outras intérpretes que deram todo o charme às canções.

3 quadros de humor sobre o futebol no Brasil

“Se eu não fosse otimista já teria me naturalizado dinamarquês.” João Saldanha

3 quadros de humor sobre o futebol brasileiro

Há, pelo menos, duas formas de arte bem populares no Brasil: uma é o riso, a outra é o drible. Juntas concederam ao público uma mistura capaz de gerar alegria e entusiasmo, crítica e reverência aos nossos craques. Em épocas distintas nossos humoristas optaram, invariavelmente, pela paródia, que aqui veremos representada em três exemplos, o primeiro fornecido pelo mestre de todos eles, vindo do interior do Ceará, o icônico Chico Anysio. Em seguida, pertencente à trupe “Casseta & Planeta”, mas com destaque próprio, toda a irreverência de Bussunda. E mais recentemente um quadro protagonizado pelo coletivo “Porta dos Fundos”, em que a atenção se volta para o gesto da torcida.

A Noite Da Revolta

“se eu estiver em fugas e
uma língua de vulcão
extrair de meus ossos
minhas carnes eu vos rogo
jamais preencham minha
carcaça com gesso ou com
outras substâncias
moldáveis

Jamais, vos suplico
aprisionem meu medo
num rosto apavorado de
estátua.” Simone Teodoro

"Ronda Noturna", obra de Rembrandt

A senhora é um buldogue. Ora morde: outra ladra. Tem aromas clandestinos da planta de almíscar. O enxoval bravio da seriema grávida. Pisa nas superfícies traiçoeiras, móveis e crepitantes. Os jeans amortalhados brilham pela agulha que lhes fere o âmago. Flores de plástico sobem ao alto por ventiladores que destinam voo aos incapazes. A falta de pano para a calça resolve-se com o excesso da saia. Inexistem asas e os papelões debatem-se: os instrumentos de madeira velha, as poesias de palavra reciclada, as agonias de antigas almas, as esperanças de verde lápis, as mentiras de quem diz a verdade. As novas e as idosas, as de cabelos brancos e as de ainda ralos, os desdentados por motivos vários. Tremulam como as bandeiras das ruínas gregas. Uma overdose de açúcar, um decomposto estado, um vazio existencial, um corpo, um cosmos: a Via Láctea. Mais do que é possível dar: entorna o leite, derruba o líquido. Apesar das desavenças, leve senhora.

Análise: 80 anos de Agnaldo Timóteo, performance do tamanho da voz

“Ai que vontade de gritar,
Seu nome bem alto e no infinito,
Dizer que o meu amor é grande,
Bem maior do que meu próprio grito” Roberto Carlos & Erasmo Carlos

Cantor Agnaldo Timóteo completa 80 anos em 2016

Agnaldo Timóteo é descendente direto de Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Silvio Caldas, entre tantos outros, embora nenhum deles tenha nascido no interior das Minas Gerais, em Caratinga. Pertence à linhagem de Altemar Dutra, Nelson Ned, Wando, estes sim seus contemporâneos e conterrâneos de terras mineiras, embora o último sem a força e extensão vocal dos demais, mas listado entre os propagadores da música romântica que, em seu período auge de atuação, provavelmente pelo inconformismo dos que não obtinham os mesmos números de vendagem, foram pejorativamente taxados como “cafonas”, e, mais tarde, “bregas”. A primeira expressão, inclusive, teria sido fortemente divulgada pelo irreverente Carlos Imperial, segundo palavras do próprio Agnaldo Timóteo, cuja voz límpida, clara e potente ainda ecoa. Lá se vão 80 anos de polêmica existência.

Um abraço para se proteger do frio

“projeto-me num abraço
e gero uma despedida.” Cecília Meireles

Egon_Schiele_-_Zwei_sich_umarmende_Frauen_-_1911

Na terra uma margarida afofa o vaso. A primeira, gorda, acentua a banha ao apertar sobre ela o cafona cinto dourado de tiras alaranjadas. A segunda, magra, espirra em questão de segundos, e para conter a profecia do vírus abana irritada o lenço. Apesar da educação e cultura não sabe que vêm caracterizadas, a dupla: O Gordo e o Magro. Por cima das almofadas como poodles de madames abrem o sorriso largo: as duas têm dentes de ouro. Mas a boca da dupla definha quando abre: qual carniça desprezada por urubus: a revirar no lixo: remexer no lixo: e não se encontra a espinha do peixe cuspido entre frutas, alfafas e alfaces. Tanto falam que não falam nada. No fundo elas formam uma – dentre as muitas serpentes de Medusa uma cobra instaura a suprema fome.

Crítica: “MY NAME IS NOW” explora impacto imagético da voz de Elza Soares

“O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.” Hilda Hilst

My Name Is Now, Elza Soares.

Um dos diferenciais do documentário dirigido por Elizabete Martins Campos em reverência a Elza Soares é que cabe à cantora conduzir a própria história através das palavras, cantadas ou faladas, às quais se acoplam imagens selecionadas pela equipe que tornam ainda mais vigorosos os discursos. Esse é um dos trunfos, mas não é o único. O roteiro, escrito a quatro mãos por Elizabete e Ricardo Alves Jr., longe de ser cronológico, tampouco procura tornar hermética personagem tão popular. E há os recursos cênicos em favor da história. Elza, de frente para um espelho, permite-se captar e absorver na intimidade, ultrapassando formalidades e superfícies, mesmo, e paradoxalmente, quando elabora e oferece uma performance de si, dando ao espectador a possibilidade de apreender características como a vaidade, a carência e a solidão, além das supracitadas força, determinação e coragem.

Mito do Grilo & da Onça

“Mas, testemunha de seu solo
E testemunha de seu mar,
O grilo é a maior elegia
Que a Natureza me faz.” Emily Dickinson

clark-lygia-bicho

Acode a savana. Nas costas o grilo pula. Sorri o tempo todo. Aprecia novela e romances. Não entendeste o insulto, sigamos. O grilo não é nenhum bicho que avoa, de hábeis pernas em verdes arbustos, com o olhar guloso para algumas plantas, vítima da maldade alheia – no caso: aranhas. Grilo é um moço feio: esbanja vitalidade. A peleja dos anos na roça dá-lhe a experiência que pelo tempo de vida falta. Tem a verdade inteira na boca: desce como uma bolacha pelo estômago de Grilo os quitutes à disposição. Aqui a cidadezinha, a pobre cidadezinha, parece relegada à orfandade, destas que não se nota, pois há sempre um grilo para lhe jogar por cima um pano: verde, amarelo, áspero.

3 imagens marcantes sobre o futebol brasileiro

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.” Nelson Rodrigues

portinari - futebol

Não é de hoje que a expressão “pintura” juntou-se ao esporte mais popular do país. Assim como “gol de placa” que, dizem, teria surgido de mais um lance genial do atleta do século, Pelé, ao anotar tento consagrado com a devida homenagem. Por essas também, e, sobretudo pelo drible, artifício capaz de desconcertar o adversário e provocar êxtase na torcida, o futebol é considerado e aclamado em sua plasticidade, donde se extraíram inovações como a “folha seca”, o “drible da vaca”, o “elástico”, a “caneta”, além das defesas de mão trocada e tantas outras praticadas por aqueles que evitam o momento maior do futebol, de maior alegria, o gol. Assim, o futebol provocou e inspirou imagens marcantes capturadas pelas lentes fotográficas, mas, também por artistas do traço, da pintura, que apresentamos agora com suas peculiares visões do jogo.

Futebol em Brodósqui (pintura, 1935) – Cândido Portinari
Cândido Portinari, um dos mais talentosos e respeitados pintores brasileiros de todos os tempos, no Brasil e no exterior, reverenciado por alguns modernistas, concebeu, em 1935, o quadro “Futebol em Brodósqui”, pintura que remete à infância do artista na cidade do interior onde nasceu e reserva à atividade o espírito lúdico de sua descoberta e dos primeiros anos. Com os traços habituais e característicos do pintor, retrata-se o conhecido futebol de várzea, em que a precariedade de recursos é substituída pela invenção e criatividade. É em meio a vacas, próximas de paus, pedras e cemitérios, que as crianças brasileiras de Portinari improvisam o jogo de expressivo apelo popular cultural.

Crítica: exposição sobre Mondrian reitera força da arte feita para interferir no mundo

“Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.” João Cabral de Melo Neto

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Embora tenha se destacado de seus pares o holandês Piet Mondrian foi um artista de grupo, de movimento e estilo. Primeiro porque acreditava no público em detrimento do privado e no coletivo em detrimento da esfera individual. Munido de concepções advindas da teologia, filosóficas e políticas, concebeu, através dos anos, o que viria a se denominar como “Neoplasticismo”, aonde a arte adquiria um novo domínio, pois ao abandonar as convicções realistas não apenas deixava de ser mera captadora do ambiente como emergia frente a uma nova e reveladora ambição, a de interferir, objetivamente, sobre a percepção humana e, com isto, modificar os seus atos, por conseqüência direta. Eram os anos que precederiam a Primeira Guerra Mundial, e mesmo durante e um pouco depois as relações humanas pareciam tão ou mais absurdas do que estruturas geométricas se estipularem como a modernidade.

Crítica: Eduardo Dussek domina palco e plateia com repertório misto

“Nada acabará, grita o matagal!
Nada ainda começou…” Eduardo Dussek & Luiz Carlos Góes

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Formado pela escola do teatro “besteirol” na década de 1980, Eduardo Dussek recusa-se a revelar a idade, “algo entre os 50 e a morte”, debocha, figura de linguagem com a qual se esbalda e cativa o público que assistiu à apresentação do artista na sala Juvenal Dias, pertencente ao Palácio das Artes, como encerramento do 2º Inverno das Artes, na última segunda-feira. Com a mistura característica de humor e música, e pleno domínio tanto do instrumento, um luxuoso piano de cauda, das obras e até das reações do público, com trajetória calcada na irreverência que lhe aperfeiçoou, inclusive, o dom do improviso, Dussek presenteou os fãs também com um repertório misto, indo com desenvoltura do romantismo ao escracho, ou, como gosta de dizer, as “baixarias”. Em comemoração aos 40 anos de carreira, desfilou sucessos em versões renovadas, como “Rock da Cachorra”, ao estilo bossa nova, e “Cantando no Chuveiro”, interpretada em inglês. Não faltaram piadas e sátiras.