Análise: Hector Babenco produziu cinema voltado a temas marginais

“sonhos de poeta
que terminam numa fábrica
um em um milhão despercebidos
compram sonhos vendidos em bares…” Miguel Piñero

hector-babenco

Freqüentemente o cinema produzido pelo diretor Hector Babenco é adjetivado como áspero, cru, direto, e, sobretudo, pessoalíssimo. Não há dúvidas de que a condição de estrangeiro emprestou às películas do argentino naturalizado brasileiro todos os tons descritos acima e que o caracterizavam assim como sua visão e posição frente a um mundo diversas vezes injusto, excludente e reacionário. Portanto não é de se espantar que Babenco escolhesse olhar para seu semelhante, com o qual tinha hábil poder de dialogar pela imediata identificação, proveniente do conhecimento de causa. O semelhante era ele mesmo, refletido pelo espelho do cinema. Dentre os filmes de maior impacto, “O Beijo da Mulher Aranha”, “Pixote” e “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”.

Lamento muito que a gente tenha se separado

“E ela se contorce toda
presa em minha teia:
Era pétala amputada
Tornou-se flor inteira.” Simone Teodoro

fragonard

Dizem dessa história há muito tempo, mas é tudo mentira, nunca passou por aqui. Alto, magricela, delicado como uma pluma de boneca da menina a pairar por sobre os porcos do chiqueiro, serve e insiste para que se repita: cachaça. Fina no gargalo e rechonchuda no espalho dos quadris largos imprime à garrafa uma força espirituosa na rolha. O aroma da cana de açúcar é unânime em sua graça. Copos aproximam corpos e esbaldam. Quiquito é só alegria e cortesia irritante. Insiste a um gole mais e mais e mais outro. Como se necessário fosse. Com a espontaneidade e devoção de soldados de guerra após o abate dos inexperientes carrascos o álcool molha os vitoriosos.

A magreza de vacas, vielas e ruas interrompe as falas, lacrimejantes. Sondam com rigor e astúcia os mosquitos: sangue. Nem só rotura e vergalhões nesta paisagem seca. Os bípedes trazem aos trancos e barrancos ossos secos. Muitos se prendem às tocas como a cutia ao buraco. Não adianta oferecer o sol áspero. Preferem a treva da luz. E quem disse dela beleza não há? Velhas superfícies gastas, ranzinzas e rugosas não almejam tocar o ouro, nelas cresceram ramos por sobre elas para cultivar raízes por sobre os ossos e desprende-las todos sabemos é um trabalho de flores. Movidas pela inércia de ali nascidas, criadas e só desejam sair mortas.

Análise: 90 anos de Allen Ginsberg, ícone da geração desbunde

“vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco
antes de morrer.” Allen Ginsberg

GINSBERG

Ele aparece nas palavras do poeta Paulo Leminski e também numa canção de Cazuza. Seja analisado de maneira rigorosa numa espécie de ensaio ou elogio, e ainda mais, expresso em palavras que conclamam aos jorros à marginalidade, Allen Ginsberg não perde uma característica, a de servir como ferramenta de impudor e provocação. Foi esta, pois, a verdadeira vocação de sua obra, cujos maquinados versos adquiriam velocidade que possibilitavam ao leitor a experiência da coisa viva, sendo feita e nascida naquele instante, diante dos próprios olhos, quando na verdade emergia fruto de um requintado processo de gestação, em que as demandas do universo estético e carnal convergiam juntas num movimento vertiginoso e de entrega total, pura, fatídica.

Entrevista: Cátia de França apresenta seu caleidoscópio multicolorido

“À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.” Cecília Meireles

Cátia de França3_Mariana Kreischer

Se para o artista a definição é um limite, deste mal Cátia de França não padece. Na estrada, literalmente, há praticamente 40 anos, embora sempre retorne às origens, na Paraíba, em João Pessoa e seguindo a tradição lírica dos maiores prosadores e poetas de sua terra de palmeiras onde canta o sabiá, a cantora, compositora, escritora, artista plástica, com bem aventuranças pela sétima arte, une o regionalismo ao universal mantendo a essência de seu trabalho. Para este ano, prepara novidades, depois de algum tempo longe das estantes fonográficas. A música que nomeia o novo e aguardado álbum, “Hóspede da Natureza”, como de costume, carrega influências literárias. “A identidade do disco é múltipla. A veia aorta é Henry David Thoreau, a letra da canção-título veio diretamente do livro dele, ‘Walden ou, A Vida nos Bosques’ (de 1847, considerada a bíblia do movimento hippie). Mas nem todas as faixas são preocupadas com ecologia. É um apanhado de quem sou eu nesse tempo todo de careira. É um olhar que passeia por diversas circunstâncias, é como se fosse uma foto minha, feita de vários ângulos”, compara com sabedoria, Cátia.

Com lançamento feito pelo selo Porangareté, iniciativa do filho e da ex-companheira de Cássia Eller, Maria Eugênia, em parceria com a Natura Musical, o disco teve um longo processo de gestação, com gravações iniciadas no ano de 2005 e finalizadas em 2006, há quase dez anos atrás. Toda essa demora foi também fruto da falta de apoio e incentivo ao projeto que, agora, segundo Cátia, recebe as “condições à altura do que merecia”. Uma turnê já está programada por regiões do país em que a entrevistada morou e fez história, como Recife, João Pessoa, sua terra natal, Vitória no Espírito Santo, e as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. O novo álbum conta com 14 faixas, quase todas inéditas, e traz no currículo a produção de Rodrigo Garcia, além de músicos de peso acompanhando a cantora que é também instrumentista, tais como Marcelo Bernardes (integrante de longa data da banda de Chico Buarque), a percussionista Lan Lan, o guitarrista Walter Villaça e outros não menos importantes, como o baterista Alex Merlino, Jander Ribeiro, responsável pela pandeirola, Zé Marcos nos teclados, e, por fim, Nando Vásques no baixo.

A história de Frida, uma guerreira

“Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.” Clarice Lispector

frida-guerreira

Ninguém ganha o nome de Frida à toa, seja por batismo consentido ou escolha alheia. Desde que a pintora mexicana tornou-se quase uma unanimidade mundial, nos idos de 1930 e 1940, a palavra se transformou, para além de seu sentido designativo, em símbolo de luta, perseverança, força, e, principalmente, ícone da liberdade feminina e valorização da mulher, além de trazer intrínseca a capacidade de reelaborar a dor real em beleza, fantasia e superação. Frida sofreu com doenças e acidentes, e a cada martírio que lhe atingia o corpo, preenchia com tintas as cores de sua alma em quadros impressionantes. Há que se dizer que a suprema consagração e alegria, para um artista, ao contrário dos políticos e outras figuras proeminentes de nosso estrato social, não é virar nome de rua, ponte, avenida, mas sim nome de cachorro.

Cerimônia Fúnebre

“Da mesma forma, deve haver inúmeras realidades, não só esta que percebemos com nossos sentidos embotados, mas um amontoado de realidades se sobrepondo umas às outras. É medo e presunção acreditar em limites. Não existem limites, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos. É a ansiedade que impõe limites.” Ingmar Bergman

goya

O acontecimento mais expressivo de nossas vidas é a morte. Engraçado – era com ironia e desencanto que utilizava a palavra; o velório com que sonhara durante a juventude, com todos e os mais variados amigos ao redor, uns malucos, drogados, pervertidos sexuais, mulheres lascivas e recatadas, algumas que apenas desejara, outras das quais provara o sabor da carne, e mais inúmeros tantos sérios como uma gravata, com a mesma morbidez nos olhos característica dos guaxinins, jamais aconteceria.

Sonhara com a cerimônia, aquela espécie de ritual macabro como uma apolínea consagração para uma existência dionisíaca, crente de que poderia aproveitar da vaidade que os choros e lágrimas vertidas em sua memória tornariam, de certa maneira, e nesse momento, digna, ignorando o seu quase absoluto ceticismo. Pois na hora da nossa morte o sonho vale mais à caveira que apodrece, filosofou em voz baixa, quase para si, disperso que estava do público, e somos coroados e reverenciados como uma perfeita Madonna, límpida e livre de pecados, tão puros e festejados qual na hora do nascimento, só que já passamos pela vida, agora nos tornamos conhecidos e as pessoas estabeleceram razões e motivos concretos para debruçar sobre nós suas emoções, angústias, desejos e expectativas, constatou ainda mais para dentro de suas entranhas, aquele resto de rancor mastigado que o reduzia a bolor.

Caderno H2O – 08/07/2016

“Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores.” Zélia Gattai

Deboche

Bicicletas
O deboche
Vem pedalando a bicicleta
Com óculos arredondados
De aros azuis
Puxa a manilha aos dentes.

O deboche
No – jor-na-lis-mo
é uma Qualidade Crítica.

QUE AINDA ACREDITA EM INDEPENDÊNCIA
SOU DE UMA GERAÇÃO
POIS QUE A AR
TE
IMITA TUDO

quanto ao jor-na-lis-mo,
ocupa papel de platéia
em minhas prioridades,
com sua relativa importância,
onde quem sobe ao palco?

É a Arte!

Centenários 2016: O Samba, Raiz Cultural do Brasil

“O Samba da minha terra deixa a gente mole/Quando se canta todo mundo bole
Quem não gosta de samba, bom sujeito não é/É ruim da cabeça, ou doente do pé
Eu nasci com o samba, no samba me criei/E do danado do samba, nunca me separei” Dorival Caymmi

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O samba já começou com um buchicho, pois ao contrário do que cantaria décadas depois a música de Evaldo Rui e Fernando Lobo sobre a tal “Nega Maluca”, todos se imputavam a paternidade da cria. Do estribilho para o muxoxo foi um passo, tudo porque a canção cantada aos milhares no terreiro de Tia Ciata foi registrada somente no nome de um par: Donga e Mauro de Almeida. Bem verdade que o segundo nunca fez muita questão do fato, ao contrário do primeiro. “Pelo Telefone”, gravada em dezembro de 1916 e lançada em disco Odeon recebeu assim a voz do cantor Bahiano e da Banda da Casa Edison. Tal como o samba que inaugurava morreu, ressuscitou e requebrou em diversas vozes, em períodos e com abordagens das mais variadas. Ainda naquela década teve por “cavalo” Almirante, e mais tarde nomes como Martinho da Vila, Beth Carvalho, Chico Buarque e Paulo Moura.

3 livros brasileiros sobre o futebol

“manchete:
CHUTES DE POETA
NÃO LEVAM PERIGO À META” Paulo Leminski

garrincha-pele

Que o futebol está na gênese da cultura miscigenada do brasileiro, eis uma ausência de novidade, porém que esta influência e transformação foi reportada e contada em livros por nossos maiores e melhores autores do gênero, e fora dele, inclusive, pode constituir alguma informação, se não de surpresa, ao menos reveladora. Afinal de contas se o drible, especialmente alguns deles, e lances geniais inventados por nomes como Didi, Garrincha, Pelé, Tostão, Sócrates, Manga, e outros, tais como a “folha seca”, o “elástico”, o “drible da vaca”, o “lençol”, e o “gol de placa” constituem para muitos entendedores e apaixonados verdadeiras obras de arte, mais certo ainda é que se o lugar de origem do esporte mais amado pelos brasileiros é o campo, ele também dá a suas canjas no cinema, na música, nas artes plásticas, no teatro, na dança e, porque não, no terreno fértil da literatura.