Prefácio: Amor de Morte Entre Duas Vidas

“na altura de dez polegadas ou mais
homem, terra : duas metades da talha
mas sairei disso sem conhecer ninguém
nem eles a mim” Ezra Pound

Capa do livro "Amor de Morte Entre Duas Vidas"

Quando da estreia de um poeta, a via mais usual de apresentá-lo é por meio do cotejo, dizendo a quem ele soa, mas não, necessariamente, como e o que ele soa – manifesta, expressa, exalta. Tentemos, diferentemente, pelo menos de início, o caminho pelas próprias faces deste livro de Raphael Vidigal, entre elas: a proposta da rapidez, na simbiose entre o artifício vagaroso e o texto velocíssimo, ou, como dito bem melhor por um outro autor, coisas de balística; o movimento nem sempre fácil, pois também no espaço (gráfico), de ancoragem entre as palavras e os sentidos, o que demanda engenho também por parte do leitor; um certo tom trágico, porém performático – logo, autoconsciente –, de equilibrista entre o biográfico, o sensível e o burlesco de um Lennie Dale, citado em “Iluminação ou Prefácio”. Afinal, cautela, pois como coloca ironicamente outro poema deste livro: “esse sentimento grego,/é a vontade de tomar um iogurte”.

A importância da presença feminina nos Jogos Olímpicos

“O que importa é a não-ilusão. A manhã nasce.” Frida Kahlo

Dupla brasileira no vôlei de praia, Ágatha e Bárbara conquistaram a prata

Num país em que a Presidenta sofre um golpe de Estado e o ministério formado exclusivamente por homens brancos do governo impostor distribui declarações do tipo “Os homens vão menos ao médico porque trabalham mais, são os provedores da família” e “O México é um perigo para os políticos brasileiros porque quase a metade das Senadoras são mulheres”, é um alívio ouvir a um time tão competente de comentaristas mulheres nessas Olimpíadas, ter acesso a elas, à suas falas embasadas sobre esportes que ignoramos por completo fora desse período. Para quem afirma que o brasileiro só gosta de ganhar a reação do público nas derrotas das seleções femininas de vôlei e de futebol nos prova o contrário. Ele gosta é de se identificar com os esportistas.

O Violão Brasileiro por Lucas Telles

“Era um vale./De um lado/Seu verde, suas brancuras.
Do outro/Seus espaços de cor/Trigais e polpas
Azuladas de sol/Ensombradas de azul.
Era um vale./Deveria/Ter pastores/E água
E à tarde umas canções,/Alguns louvores.” Hilda Hilst

Lucas Telles apresenta o concerto "O Violão Brasileiro"

Lucas Telles não brinca em serviço. Ou melhor, brinca e faz do serviço uma obra artística, capaz de entreter e levar o espectador a estados de emoção e reflexão ao mesmo tempo. Para isto ele mune-se de seu violão, com o qual, aliás, já ganhou vários prêmios, entre e fora das Minas Gerais, mas também do repertório de nomes salutares ao nosso choro, um dos primeiros e mais autênticos estilos musicais desta terra descoberta por índios e oficializada por portugueses, quais sejam Garoto, Juarez Moreira, Cristóvão Bastos, Egberto Gismonti, Radamés Gnattali, além de criações do próprio protagonista.

3 músicas brasileiras para as Olimpíadas

“O homem
É o único animal que joga no bicho.” Murilo Mendes

Moreira, Elis e Trio Irakitan cantam músicas olímpicas

De quatro em quatro anos o mundo volta os olhos para mais um ciclo olímpico, a mais antiga e tradicional disputa envolvendo diversas modalidades esportivas. Em 2016, pela primeira vez na história as Olimpíadas são disputadas no Brasil, com sede na cidade do Rio de Janeiro. Com bom humor e muito ritmo, unindo a inventividade brasileira à sua típica diversidade, elaboramos uma lista com 3 músicas nacionais apropriadas para essas Olimpíadas, pelos mais variados motivos, mas sempre levando em conta alguma alusão, mesmo que simbólica, aos esportes. Abram alas para desfilarem as vozes de Elis Regina, Moreira da Silva, Trio Irakitan e seus respectivos compositores, por certo haverá medalha de ouro, prata e bronze.

Três receitas infalíveis

“Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante?” Murilo Rubião

Pintura do expressionista alemão Edvard Munch

O cemitério convida a entrar: “Bem-Vindo!”. Ignora o pedido e a educação recebida em casa de tia Laura. Foge pela culatra o tiro no pé descalço. Não é possível um cemitério convidar com tamanha pompa. De certo um trocadilho, engano, piada. Na mesa ou janela… Sim, existem janelas em cemitérios, observe a lápide… Na mesa ou janela, havia um cardápio… Onde se lia fraco: “Bem-Vindo!”. E o garçom, um pouco constrangido, responde: “Vá à panela e tire um pedaço do bolo, sem muito esforço, a melhor fatia para a tua fome”. Foi aí que atolamos o carro. Presos pelos cipós das correntes telúricas não é possível seguir viagem.

Crítica: A vida de Teresa D’Ávila ganha o palco do CCBB BH

“Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.” Adélia Prado

Ana Cecília Costa e Joca Andreazza na peça "A Língua em Pedaços"

No ano passado, a atriz Ana Cecília Costa teve o insight de levar aos palcos brasileiros um pouco da vida e da obra da espanhola Teresa D’Ávila (ou Santa Teresa de Jesus – 1515/1582). O que ela descobriu, na seqüência, é que esse, digamos assim, “chamado”, acontecia justamente às vésperas das comemorações alusivas aos 500 anos de nascimento da poetisa e freira, canonizada em 1622 pelo papa Gregório XV. Uma coincidência “pra lá” de feliz, portanto. “A Língua em Pedaços”, espetáculo baseado no texto (inédito no Brasil) do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, sob a direção do competente Elias Andreato, chega agora ao CCBB BH (Circuito Cultural Praça da Liberdade), cumprindo temporada até início de setembro. Em cena, Ana Cecília mostra o embate entre a religiosa e um inquisidor, apresentado como “arauto da poderosa Igreja Católica no final da Idade Média, e que a acusa de heresia” e interpretado por Joca Andreazza (que substituiu Marco Antônio Pâmio, da montagem original). A estreia, na quinta-feira, 11, foi dedicada à memória do cantor e compositor mineiro Vander Lee, falecido (precocemente) há pouco mais de uma semana.

10 músicas brasileiras para os pais

“Ah, o pai! O pai vaquejava e vaquejava.
Ele tinha um olhar soberbo de ave.
E nos ensinava a liberdade.” Manoel de Barros

Caetano, Mautner, Rita Lee, Gil e Luiz Gonzagão compuseram músicas sobre pais

Com a proximidade da celebração do “Dia dos Pais”, vêm à memória canções que de uma forma ou de outra citam a figura paterna, tão fundamental na vida e na criação de várias crianças que hoje se tornaram adultas e que, talvez, passem a assumir esse papel daqui por diante. A canção brasileira é pródiga não só em ritmo, gênero, como também em temas, e por isso concede aos pais os mais variados tipos de interpretações e abordagens. Seja através da pena sangrenta de Lupicínio Rodrigues, o deboche presente nas marchinhas cantadas por Blecaute ou na dolente homenagem de Caetano Veloso a texto de Guimarães Rosa, o pai assume sua nobre vocação musical: de emocionar…

O momento olímpico e político do Brasil

“Falávamos em índios, e ela me perguntou se era verdade que eles andavam completamente nus, mesmo em plena cidade, em meio aos civilizados. Disse-lhe que sim, acrescentando que no Brasil era comum os próprios civilizados andarem nus – os pobres por falta de roupa, os ricos por excesso de calor. A inglesinha fez uns olhos enormes e ficou absolutamente deslumbrada.” Fernando Sabino

Seleção Brasileira de Futebol Feminino celebra em ritmo de descontração

Em suma, a abertura olímpica, que é festa e é celebração, atendeu ao aspecto dionisíaco e antropofágico do país. O interino não recebeu mais vaias porque não lhe deram tempo nem para recitar um haicai do próprio punho. Interessante notar que nenhuma delegação exibiu tamanha diversidade de fisionomias quanto a brasileira, nem mesmo a potência norte-americana, ressaltando o atributo da miscigenação como a característica fundamental do Brasil. Até o momento o melhor golpe foi o desferido por Rafaela Silva, que conquistou o primeiro ouro brasileiro em 2016. Duro golpe é o que vem recebendo também a presidenta afastada Dilma Rousseff, agora no Senado.

Análise: 80 anos de Tom Zé, o mais tropical dos tropicalistas

“Os vossos braços cruzados formam uma gigantesca corrente de aço (polida com sabonetes e aromatizada com perfumes importados) que tenta aprisionar meu pensamento. Os vossos olhos vidrados de múmias vivas formam um grande espelho mentiroso, que tenta retratar-me como um delinquente. Os versos musicados são o meio pelo qual eu vos devolvo a imagem.” Tom Zé

Tom Zé segue como o mais tropical dos tropicalistas

Quando David Byrne redescobriu Tom Zé numa loja de sebos pouca gente desconfiava que ali estavam presentes dois dos princípios básicos do “Tropicalismo”. Além da confluência entre nações a sofisticada obra do baiano encontrava-se no mais popular dos espaços. A tardia aclamação não impediu o compositor de canções tornadas clássicas como “Augusta, Angélica e Consolação”, “Menina, Amanhã de Manhã (O Sonho Voltou)” e “Tô” de revelar-se como o mais persistente proclamador dos princípios tropicalistas. Sempre, também, o mais tropical de todos eles, tanto na postura quanto nas vestimentas, reforçando o caráter performático das apresentações daquele que se diz “cantor que não sabe cantar, instrumentista que não sabe tocar e compositor que não sabe compor”, ao sublinhar a transformação das próprias misérias e precariedades em fonte de inspiração e motor criativo. De fato, o baiano nunca foi comum e muito menos “figurinha fácil” no contexto nacional.

No ambiente das flores

“A segunda eu espero mais que a sexta
Sábado, te quero mais que terça
Na quarta, me lembro da quinta
E me despeço do domingo que não chega
Em maio, você não vem
Em junho, você viaja
Diz que volta em julho
E eu aqui a gosto” Agatha Almeida

Obra do pintor francês Georges Seurat

Ouvi o uivo do lobo, o piar da coruja, a badalada do sino, ouço neste momento as preces para meu espírito: vá em paz, vem convicto, não tenhas medo. Encare essa revolta de gente, esse mar inflamado não te pode nada, a não ser afogá-lo na indolência. Veja uma flor ser atropelada. E não sente nada por ela. A leveza amortece a queda, rouba isto duma menina sã. Flor cai aos poucos, durante longa espera permanece subliminar o fim. Sabe que a enlaçará, monstruosamente arranha portas e amassa latas na locomotiva monção dos milênios. Trava no céu a flor: anseia o término do desespero: não encontra pés nem asas: no ventre sem raiz e sem cabo.