O fim da cidade

“É uma hora irreal o cair da tarde. Não estamos vivos nem mortos. É a hora em que nos despedimos, nos arrependemos, ou esquecemos até o espírito de vingança, a grande nostalgia toma conta de nós, devia ser belo, e não é.” Augustina Bessa-Luís

Pintura de Paul Gauguin

Invadem a cidade, esterilizam os pais, abrem as vaginas, expulsam o clitóris de lá. Exilada exala um ocre odor vagabundo. Famintos cachorros devoram ossos. Uma dinâmica inocula a cólica. Bebem catre. A cidade entope: gente, cimento, animal. É-lhe peculiar e cúmplice: o incesto, o estupro. Pedra de néon: a vermelha flor: uma bromélia: o domo: lilases: povo: roxo. Querem parir as barrigas de nove meses querem partir as clandestinas visões de sêmen: creches engolem crianças: asilos internam velhos. Platina o tédio.

Há mais dinheiro. Há mais comida. Há nos canteiros arrotos de fibra. Há um prisioneiro na jaula torcida. Meu desejo é o de te ver o quanto antes, mas o relógio não é exato quando se tem: saudade: o ponteiro anda lento coração bate celerado a expectativa aumenta na medida em que a espera cansa vai chegando ao fim te amo. Saudade: essa palavra larga só comprime e não exprime o tamanho: do que sinto: falta nome apenas: grito: meu pedacinho doce de jabuticaba: geleia de framboesa: amora. Sacrificar o filho pelo bem do pai. A cidade afunda em banzo.

24 Sucessos de Chico Buarque

“Que vive nas ideias desses amantes/Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados/Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes/Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos/Em todos os sentidos” Chico Buarque

Chico Buarque é um dos compositores que mais acumula sucessos no Brasil

Se a história da música popular brasileira possui uma linhagem, nela não pode faltar o nome de Chico Buarque de Hollanda. Filho do historiador Sérgio Buarque – e irmão das também cantoras Miúcha, Cristina Buarque e Ana de Hollanda – o garoto prodígio da canção nacional, como era de se esperar, começou cedo. Enfileirou sucessos desde o princípio da carreira, nos anos 1960, auge da bossa nova, passando por vários ritmos, gêneros e inclusive movimentos musicais, alinhavando parcerias com nomes como o poeta Vinicius de Moraes, o maestro Tom Jobim, o dramaturgo Ruy Guerra e o tropicalista Gilberto Gil, além de outros compositores de peso, tais como Milton Nascimento, Francis Hime e Edu Lobo. Mas Chico Buarque foi e ainda é por si só um emblema, símbolo da qualidade musical tanto em texto quanto em melodia. Não se considera um poeta, nem é preciso, as músicas o confirmam.

Como democratizar o Teatro no Brasil?

“A rã queria ser um passarinho.
Só se for em teatro, meu amor.
Em teatro você faz o passarinho
e eu faço a rã.
Teatro não é troca de experiências?” Manoel de Barros

Grupo Maria Cutia se apresenta em espaço aberto

Há que se praticar preços populares. Mas não é o suficiente, como comprova a experiência atual. Também há que se compreender que democratizar não passa só por torná-lo popular, mas, sim, em incentivar e alcançar o acesso de pessoas que pertençam a diferentes camadas sociais e grupos. Não raras são as montagens de caráter contundente e forte apelo no tangente a dramas sociais do país – como os relativos a preconceitos de toda ordem, exemplificando-se os contra gays, lésbicas e mulheres – e em que se presume que os ouvidos e olhos mais necessitados de encontrar tais discursos se encontram longe daquelas plateias. Também não é novidade espetáculos de expressiva adesão numérica, mas todos, por assim dizer, do mesmo algarismo, ou do mesmo alfabeto, mantendo inócua e ineficiente a tal democratização do teatro que é, ainda, e, sem dúvida, uma das artes mais restritas a guetos. Infelizmente.

Análise: 80 anos de Moacyr Franco, do riso ao choro

“Ainda ontem chorei de saudade…
Relendo a carta e sentindo o perfume…
O que fazer com essa dor que me invade?
Mato esse amor ou me mata o ciúme…” Moacyr Franco

O cantor, humorista e autor Moacyr Franco

“Saio da montanha, mas a montanha não sai de mim” é um ditado inventado que poderia facilmente ser atribuído a Moacyr Franco. Embora tenha deixado Ituiutaba, no interior das Minas Gerais, há uns bons tempos, o artista jamais se furtou de carregar certo semblante típico dessas paragens. E isto para quem se especializou em desenvolver mais de uma atividade artística, como se todas formassem os “cinco dedos da mesma mão”, parodiando Jô Soares. Franco surgiu como ator, explodiu como cantor, assentou a carreira de compositor, arriscou-se na apresentação e traçou até passos sérios, como político filiado a diversos partidos. Para as duas condições que mais exercitou, entre a música e a dramaturgia, alcançou sucesso através de características díspares, sendo motivo de riso numa e oferecendo sensações para o choro noutra. Pura arte. Moacyr é contemporâneo da época de ouro do rádio no Brasil, e certamente influenciado por essa vertente levou os ensinamentos aprendidos tanto para a televisão quanto a música. Discípulo do bordão, da marca, da canção narrada.

3 músicas políticas de Martinho da Vila

“Dinheiro, pra quê dinheiro?
Se ela, não me dá bola,
Em casa de batuqueiro,
Só quem fala alto é viola…” Martinho da Vila

Martinho da Vila interpreta sucessos em show

Martinho da Vila exibe trajetória singular na música brasileira por ter, no meio do samba – a mais tradicional manifestação popular brasileira – costurado estilo facilmente identificado à sua pessoa, tanto na maneira de viver como na de pronunciar-se. Alterando o andamento do ritmo, puxando-o “para trás”, em suas próprias palavras, concedeu ao gênero toda a malemolência e ginga características do povo, trazidas de Angola por seus ancestrais. Com esta mesma calma, Martinho jamais deixou de posicionar-se em relação à suas crenças musicais, religiosas e, consequentemente, políticas. É sem dúvida um dos artistas que mais contribuiu para a questão, seja para falar de dinheiro, racismo e os mais diversos preconceitos de gênero e sexualidade. Apreciar a música de Martinho da Vila, além de divertimento, também é aula de história.

O destino das cartas de amor

“O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,” Florbela Espanca

"Vênus ao Espelho", do pintor espanhol Diego Velázquez

Com preconceito diz o pai de Maria que moça bonita só estuda para escrever carta ao namorado. Mas não há privilégios nessa categoria de declaração do amor: as feias também. Maria é uma enrustida senhora, pois não se sente ou veste-se como tal. Maria é, ainda, simplória, portanto as vestes não traduzem uma exibição. Maria o é assim: natural. E quantas pessoas são naturais? Tão difícil, umas dores áridas, umas esparsas falas falsas. Que mal assina o nome. Rabisca e também rabisco por semelhante analfabetismo, discípulos da fantasia. Lábios de Maria onde ardem promessas dos amantes que a abandonaram embuchada, farta de prole. Os filhos de Maria, estes estudaram. Mas Maria enxerga nas cartas escritas as cartas não escritas, os pretendentes espantados a espingarda e bombinha, o passado que não se deu por inteiro.

Prefácio: Amor de Morte Entre Duas Vidas

“na altura de dez polegadas ou mais
homem, terra : duas metades da talha
mas sairei disso sem conhecer ninguém
nem eles a mim” Ezra Pound

Capa do livro "Amor de Morte Entre Duas Vidas"

Quando da estreia de um poeta, a via mais usual de apresentá-lo é por meio do cotejo, dizendo a quem ele soa, mas não, necessariamente, como e o que ele soa – manifesta, expressa, exalta. Tentemos, diferentemente, pelo menos de início, o caminho pelas próprias faces deste livro de Raphael Vidigal, entre elas: a proposta da rapidez, na simbiose entre o artifício vagaroso e o texto velocíssimo, ou, como dito bem melhor por um outro autor, coisas de balística; o movimento nem sempre fácil, pois também no espaço (gráfico), de ancoragem entre as palavras e os sentidos, o que demanda engenho também por parte do leitor; um certo tom trágico, porém performático – logo, autoconsciente –, de equilibrista entre o biográfico, o sensível e o burlesco de um Lennie Dale, citado em “Iluminação ou Prefácio”. Afinal, cautela, pois como coloca ironicamente outro poema deste livro: “esse sentimento grego,/é a vontade de tomar um iogurte”.

A importância da presença feminina nos Jogos Olímpicos

“O que importa é a não-ilusão. A manhã nasce.” Frida Kahlo

Dupla brasileira no vôlei de praia, Ágatha e Bárbara conquistaram a prata

Num país em que a Presidenta sofre um golpe de Estado e o ministério formado exclusivamente por homens brancos do governo impostor distribui declarações do tipo “Os homens vão menos ao médico porque trabalham mais, são os provedores da família” e “O México é um perigo para os políticos brasileiros porque quase a metade das Senadoras são mulheres”, é um alívio ouvir a um time tão competente de comentaristas mulheres nessas Olimpíadas, ter acesso a elas, à suas falas embasadas sobre esportes que ignoramos por completo fora desse período. Para quem afirma que o brasileiro só gosta de ganhar a reação do público nas derrotas das seleções femininas de vôlei e de futebol nos prova o contrário. Ele gosta é de se identificar com os esportistas.

O Violão Brasileiro por Lucas Telles

“Era um vale./De um lado/Seu verde, suas brancuras.
Do outro/Seus espaços de cor/Trigais e polpas
Azuladas de sol/Ensombradas de azul.
Era um vale./Deveria/Ter pastores/E água
E à tarde umas canções,/Alguns louvores.” Hilda Hilst

Lucas Telles apresenta o concerto "O Violão Brasileiro"

Lucas Telles não brinca em serviço. Ou melhor, brinca e faz do serviço uma obra artística, capaz de entreter e levar o espectador a estados de emoção e reflexão ao mesmo tempo. Para isto ele mune-se de seu violão, com o qual, aliás, já ganhou vários prêmios, entre e fora das Minas Gerais, mas também do repertório de nomes salutares ao nosso choro, um dos primeiros e mais autênticos estilos musicais desta terra descoberta por índios e oficializada por portugueses, quais sejam Garoto, Juarez Moreira, Cristóvão Bastos, Egberto Gismonti, Radamés Gnattali, além de criações do próprio protagonista.

3 músicas brasileiras para as Olimpíadas

“O homem
É o único animal que joga no bicho.” Murilo Mendes

Moreira, Elis e Trio Irakitan cantam músicas olímpicas

De quatro em quatro anos o mundo volta os olhos para mais um ciclo olímpico, a mais antiga e tradicional disputa envolvendo diversas modalidades esportivas. Em 2016, pela primeira vez na história as Olimpíadas são disputadas no Brasil, com sede na cidade do Rio de Janeiro. Com bom humor e muito ritmo, unindo a inventividade brasileira à sua típica diversidade, elaboramos uma lista com 3 músicas nacionais apropriadas para essas Olimpíadas, pelos mais variados motivos, mas sempre levando em conta alguma alusão, mesmo que simbólica, aos esportes. Abram alas para desfilarem as vozes de Elis Regina, Moreira da Silva, Trio Irakitan e seus respectivos compositores, por certo haverá medalha de ouro, prata e bronze.