O sonho de amor de Zé da Luz

“Rezam meus olhos quando contemplo a beleza.
A beleza é a sombra de Deus no mundo.” Helena Kolody

Modigliani é um dos pintores italianos mais reconhecidos

Zé da Luz afunda as botinas roxas na lama onde o carro morre, e também os sonhos. Qual detém o maior peso? O mais sublime peso? Maciço e irregular varia sob nossas patas, insetos ou aves, pouco importa, nada importa, voamos ao redor de luzes, e Zé com a sua lanterna de séculos ilumina nossas caras magras. Os dedos indicam povos, pivôs, palcos, perfídias e pururucas, mas é muita volta para pouco laço, muito cadarço e faltando sapato. O saber aristotélico aristocrático erótico asiático dessa gente de olhos claros, sotaque puxado para o alemão na roça, paulista na cidade, ribanceira duma enseada que inevitavelmente naufraga, ou naufragará rebentando o bucho o bicho a broa de fubá enrolada num papel jornal. Improvável. Tímido como uma tartaruga é difícil lhe arrancar palavra: Zé da Luz: e o sonho.

4 músicas históricas gravadas por Simone

“Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda,
Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando,
Coração na boca, peito aberto, vou sangrando,
São as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando…” Gonzaguinha

Cantora Simone gravou clássicos inesquecíveis da música brasileira

Baiana, natural de Salvador, nascida no dia 25 de dezembro, data em que se comemora o Natal, e jogadora de basquete profissional, inclusive convocada para a disputa de Mundial da categoria pela Seleção Brasileira, Simone trazia inúmeros adjetivos para se tornar conhecida. Porém, a cantora de nome único, sem a necessidade de sobrenome ou alcunha, uma raridade no meio, tornou-se consagrada justamente através da música. Como se não bastasse a voz, ao mesmo tempo suave e marcante, agregou como característica indissociável de suas gravações a interpretação única, positiva, temperada pela galhardia e o desbravamento inerentes à própria personalidade. Pois música, como arte, é isto: viver intensamente o que se produz, mais até do que de seu resultado. A voz de Simone pontuou, como poucas, vários de nossos momentos históricos.

Crítica: “Transformação” expõe o coração da mulher através do corpo

“Fascinado pelo contraste entre a porcelana, tão vívida e alerta, e o vidro, tão contemplativo e calado, ele se perguntou, pasmo e perplexo, como os dois tinham vindo a existir no mesmo mundo, para plantar-se, além do mais, no mesmo cômodo, na mesma estreita faixa de mármore. Mas a pergunta permaneceu sem resposta.” Virginia Woolf

Transformação é a segunda exposição de Raquel Albernaz

Segunda exposição de Raquel Albernáz, “Transformação” propõe início, meio e fim e, ao mesmo tempo, possui trajetória circular como os corpos das mulheres esculpidas em bronze e mármore. A primeira característica guarda-se nos textos que acompanham as obras e que, longe da tradição explicativa, trazem para o espectador justamente o complemento da poética instaurada. São frases de reflexão, existencialistas e, para além de afirmar, revogam a dúvida em favor da contemplação e da sabedoria inerente ao curso inefável da existência. Daí que as curvilíneas mulheres apontam para o movimento externo sempre calcado numa ebulição – por mais que serena – interior. Têm alma as personagens de Raquel Albernáz, que com o corpo seduzem para dentro de si.

Entrevista: Ana Cecília Costa cria mundos com sua arte

“Uma mulher que ama poderá desejar muito ser mãe, porém, o desejo apenas, embora profundo e intenso, não é suficiente. Entretanto, um dia ela se tornará mãe, sem, contudo, ter-se apercebido do momento em que isso se deu. O mesmo acontece com o artista: vivendo, ele reúne em si um sem-número de germes de vida e nunca poderá afirmar ‘como’ e ‘por que’, num determinado momento, um desses germes vitais penetrou a sua fantasia para tornar-se, também ele, uma criatura viva, no plano da vida superior, acima da volúvel existência de todos os dias.” Luigi Pirandello

Atriz Ana Cecília Costa é protagonista da peça "A Língua em Pedaços"

Ana Cecília Costa não nasceu ontem, mas também não se atrela ao tempo para determinar os próximos passos. Com ganas e energia de quem está sempre começando, ela segue em cartaz com o projeto “A Língua em Pedaços”, do qual foi mentora e onde interpreta a protagonista Santa Teresa D’Ávila, que tem partes de sua vida contadas no espetáculo dirigido por Elias Andreato com texto de Juan Mayorca e atuação de Joca Andreazza. “Esse é um espetáculo que desejo levar por muito tempo, porque Teresa D’Ávila é uma personagem inesgotável, atemporal, me faz muito bem interpretá-la, e percebo que também faz bem ao público ouvi-la. Temos tido uma recepção maravilhosa por onde passamos. Possivelmente, voltaremos com a peça em São Paulo ano que vem no Mosteiro de São Bento”, anseia. Mas não para por aí, ao contrário.

Varanda Aberta – Epifania sonora

“… cênicas nuvens com a lua cravada
num fundo azul pedras
cortadas por uivos
de um vento bravo.” Deh Mussulini

Cantora Deh Mussulini lança o disco Varanda Aberta

Deh Mussulini, “fazer música que não se desvincule do feminino/feminismo e da espiritualidade. Meu desejo: pudera minha música curar as dores da alma.”

Ouvir Varanda Aberta é sermos tomados de assalto como em vigília do sono: melodias que silenciam e ecoam num espaço etéreo de sensações, refazenda de memórias.

A mata sonora quer dançar/ utê utê  utê utê andaiaia/ furar o chão igual tatu, todo em terra mergulhar/ topar subir num jatobá e ver o céu se aproximar/

Cada processo criativo desnuda-se de formas sutis e inusitadas na feitura do disco, Deh Mussulini nos diz: um apanhado de músicas que fiz sobre o universo feminino num viés mais existencial: o filho no ventre, campos santos de Dona Música, a paixão e o envelhecimento em Fé Menina.

A Farra do Amor na cidade dos ratos

“Quando cheguei aqui o que havia estava no fim
e o que estava por vir andava disperso pelo sonho de alguns.
Mas a maioria vivia o seu dia-a-dia
e todos contentes por serem todos assim.
Eles não davam pelo fim
quanto mais pelo que já assomava mais além
– isto que já começava nos sonhos de alguém.” Almada Negreiros

Célebre pintura "Banhistas", de Georges Seurat

Dispensa o falar macio e exala rudeza rústica ruminando o pasto da vida agrária agradecida. Reles e mera, capataz, protagonista, do Teatro sem cortina: exibe o ventre, as nádegas, os seios, escapolem vergonhas da época da condessa húngara e de Lucrécia Bórgia. Não tem pudor essa tal violência: que esconde os corpos das vítimas. Do tráfico de sonhos: e do consequente consumo inconsequente. Da água purificada por menstruações e da pobreza a escandir a costela, o osso palita os dentes. Um homem, apenas. Veste camisa xadrez, abotoada, e o cigarro de palha na boca: amarela. Mas as palavras, mesmo desamparadas, desnutridas: acabam-se correlatas: e não explicam.

Crítica: Aldo Barreto percorre trilhas diversas em “Marangê”

“Mundaú! – soube depois
que quer dizer rio torto.
Quem te inventou Mundaú, das minhas lavadeiras
seminuas, dos meus pescadores de traíras? –
Mundaú! – rio torto – caminho de curvas,
por onde eu vim para a cidade
onde ninguém sabe o que é caminho.” Jorge de Lima

Aldo Barreto estreia em disco solo

Andar sozinho não é andar separado, assim como guarda diferenças com o estar em conjunto. Há quem sugira até o deslocamento proverbial, quando afirma que “antes só do que desacompanhado”. Logo, a percepção de que o estar supera o estado aparente das coisas, extrapola a condição exposta. Pois a mortal função da arte é propor a liberdade ou, ao menos, alguma libertação. Aldo Barreto, em sua estreia solo, apresenta disco de caminhos, em que os movimentos se fazem sentir e notar com expressividade, sobretudo pela qualidade rítmica que o passado e ainda presente e futuro de baterista do artista imprime às telas que pinta. Sim, são telas, pois perpassadas de imagens que servem tanto de metáfora quanto para descrições do ambiente. O que dá unicidade ao álbum “Marangê” é justamente sua identificação com a natureza.

10 sucessos da música infantil brasileira

“As Nações já tinham casa, máquina de fazer pano,
de fazer enxada, fuzil etc.
Foi uma criançada mexeu na tampa do vento
Isso que destelhou as Nações” Manoel de Barros

O universo infantil deu vários sucessos para a música brasileira

A música que versa sobre o universo infantil nem sempre é só para crianças, embora tenda a atendê-las. Ou seja, talvez, para a criança que teima em existir em cada um de nós. Afinal tudo na vida é feito para se ter alegria, voltar a brincar com a leveza e plenitude dos primeiros anos. Com essa intenção, muitos dos nossos cantores e compositores cravaram verdadeiros sucessos da música infantil brasileira no nosso imaginário popular, desde a década de 1940, passando pelos anos 1950, 1960 e assim por diante até os anos 2000. Com múltiplas abordagens, reafirmando o caráter diversificado da nação, passeamos ao sabor de Braguinha, Carequinha, Mamonas Assassinas, Os Trapalhões, Zacarias, Jô Soares, Adriana Partimpim e relembramos a infância.

Entrevista: Octávio Cardozzo canta do âmago suas liberdades

“Então, coragem! Larga os humanos sentidos,
E no âmago do mundo entremos comovidos!
E digo com razão: o homem, ser pensante,
É como um animal no deserto perdido” Goethe

Octávio Cardozzo se prepara para lançar "Âmago"

As pouco mais de duas décadas de existência enganam. Nesse período Octávio Cardozzo participou de coletivos musicais, lançou álbuns em grupo, esteve em cena em espetáculo em que se misturavam poemas e canções, apareceu em rede nacional em programa de auditório com direito a jurados, dentre outras peripécias semelhantes. Provas de que soube aproveitar, ou melhor, dedicou parte considerável de seu tempo à arte. Agora, a prosa não poderia ser outra. Cantor, compositor e produtor executivo na empresa Peleja Musical, atualmente Octávio concilia o curso de Literatura na UFMG com os preparativos para o lançamento de seu primeiro álbum solo, financiado coletivamente. “‘Âmago’ é meu primeiro disco solo, que é um resgate da minha essência como cantor e uma busca por maior entendimento daquilo que me toca, do que faz realmente sentido pra mim musicalmente. É este movimento de ir ao âmago e relembrar alguns desejos perdidos ou esquecidos pelo caminho”, retrata. Também a escolha de como fazê-lo não nasceu por acaso.

Análise: A relação estreita entre a política e a caricatura

“É uma imagem verdadeira, nascida de um espetáculo falso.” Jean Genet

Política nacional por Renato Aroeira

Para o político não há consagração maior do que tornar-se charge. Significa que o seu rosto é conhecido, e digno de nota. Muitos preferirão, neste caso, a morte à vida, pois é quando serão transformados em pontes, avenidas, ruas, teatros, arenas, estádios, com os devidos nomes cravados na língua e nos dentes dos cidadãos.  Já o artista costuma-se virar melhor como nome de gato, peixe, cachorro e outros animais mais simpáticos e estimáveis. No sentido em que é possível estimá-los. São animais de estimação. Não raro encontra-se uma cadela Frida e um gato Picasso. Mas é curiosa, para não dizer hilária, a íntima e estreita relação estabelecida através dos anos entre a política e a caricatura. Ofício que hoje em dia adquiriu traços realmente físicos e desenháveis já foi naqueles tempos de outrora função decorrente da sátira, daqueles que versavam em praça pública para debochar dos de toga, como é o caso conhecidíssimo de Gregório de Matos, aclamado como a Boca do Inferno.