Entrevista: Octávio Cardozzo canta do âmago suas liberdades

“Então, coragem! Larga os humanos sentidos,
E no âmago do mundo entremos comovidos!
E digo com razão: o homem, ser pensante,
É como um animal no deserto perdido” Goethe

Octávio Cardozzo se prepara para lançar "Âmago"

As pouco mais de duas décadas de existência enganam. Nesse período Octávio Cardozzo participou de coletivos musicais, lançou álbuns em grupo, esteve em cena em espetáculo em que se misturavam poemas e canções, apareceu em rede nacional em programa de auditório com direito a jurados, dentre outras peripécias semelhantes. Provas de que soube aproveitar, ou melhor, dedicou parte considerável de seu tempo à arte. Agora, a prosa não poderia ser outra. Cantor, compositor e produtor executivo na empresa Peleja Musical, atualmente Octávio concilia o curso de Literatura na UFMG com os preparativos para o lançamento de seu primeiro álbum solo, financiado coletivamente. “‘Âmago’ é meu primeiro disco solo, que é um resgate da minha essência como cantor e uma busca por maior entendimento daquilo que me toca, do que faz realmente sentido pra mim musicalmente. É este movimento de ir ao âmago e relembrar alguns desejos perdidos ou esquecidos pelo caminho”, retrata. Também a escolha de como fazê-lo não nasceu por acaso.

Análise: A relação estreita entre a política e a caricatura

“É uma imagem verdadeira, nascida de um espetáculo falso.” Jean Genet

Política nacional por Renato Aroeira

Para o político não há consagração maior do que tornar-se charge. Significa que o seu rosto é conhecido, e digno de nota. Muitos preferirão, neste caso, a morte à vida, pois é quando serão transformados em pontes, avenidas, ruas, teatros, arenas, estádios, com os devidos nomes cravados na língua e nos dentes dos cidadãos.  Já o artista costuma-se virar melhor como nome de gato, peixe, cachorro e outros animais mais simpáticos e estimáveis. No sentido em que é possível estimá-los. São animais de estimação. Não raro encontra-se uma cadela Frida e um gato Picasso. Mas é curiosa, para não dizer hilária, a íntima e estreita relação estabelecida através dos anos entre a política e a caricatura. Ofício que hoje em dia adquiriu traços realmente físicos e desenháveis já foi naqueles tempos de outrora função decorrente da sátira, daqueles que versavam em praça pública para debochar dos de toga, como é o caso conhecidíssimo de Gregório de Matos, aclamado como a Boca do Inferno.

De peruca não entendo nada

“A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto, de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços,
ficando buracos irreversíveis…” Maria Antonia de Oliveira

Georges Braque passou por vários movimentos artísticos

Só se chega desacompanhado. Gênero, título ou brasão são formas insuficientes de conhecer uma profundidade. Caminha distante, sublime, desconfiado, altera turbulências e emoções à indiferente paz. Tão longe, igual e sonolenta como as demais pessoas? A não ser uma igreja: vazia: uma gente: sozinha: uma chuva: escorrida e metálica. Escovada e precária como as demais pessoas, os açoites cotidianos, as remadas na beira do lago. A falta, cada vez mais presente onde se anda solitário, não se chega sozinho, sai-se pasmo. E, no entanto, afoito, e no princípio verbo, e no finito gasto calendário de palavras para a primeira e pacífica intenção: nada me deu de novo, apenas uma fome não saciada pulando dentro do estômago.

Crítica: peça “Memórias de Ana” é acessível porque diz respeito a todos

“Uma maneira simples de sentir a linguagem é quando ela falta.” Heidegger

Memórias de Ana traz recursos para inclusão de cegos, surdos e mudos

Somente a proposta inovadora não seria suficiente para tornar “Memórias de Ana” um espetáculo interessante. O mérito reside justamente de que essa linguagem democrática e inclusiva usa dos gestos em sua qualidade cênica que, para além de informar, capta e distribui emoções. Pois é com sentimentos e sensações que se conta uma história. Protagonistas em cena, Dinalva Andrade e Andressa Miranda atravessam com segurança e delicadeza as nuanças da personagem, com destaque para o tom jocoso, e criam, ainda, uma relação harmônica entre si. Dinalva também participa da dramaturgia, ao lado de Allan Machado, que é, sem dúvida, o grande trunfo do espetáculo. Como foi dito, tudo é observado e tido como recurso cênico, extrapolando, assim, sua condição exposta. A função da arte é propor a liberdade, ou alguma libertação.

Análise: 10 anos de Inhotim, museu reconecta arte à natureza

“A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.” Manoel de Barros

Inhotim é reconhecido como maior museu de arte a céu aberto da América Latina

Reconhecido como o maior museu de arte a céu aberto da América Latina, o instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, no interior de Minas Gerais, circula a sua, até aqui, exitosa trajetória ao comemorar 10 anos de história. Exitosa não apenas por que a efeméride é digna de aplausos, mas pelo fato de ter sabido construir, ao longo do tempo, um espaço de celebração da cultura quase sempre democrático. Além das exposições de arte contemporânea, principal cartão-postal do projeto conduzido pelo empresário Bernardo Paz, o instituto passou a produzir e oferecer também espetáculos de música, teatro, cinema, dança e a abrigar, inclusive, a literatura. Tudo isso, portanto, transformou o Inhotim em importante foco de debate e experiência cultural. Experiência esta, esteticamente, sempre ligada à natureza, verdadeiro diferencial da atração, para onde, de alguma forma, tudo converge, sempre. Obras célebres de Hélio Oiticica e Adriana Varejão têm por companhia tulipas, frondosas árvores e borboletas, além de uma infinidade de cantos de pássaros.

Entrevista: Artistas de Minas exaltam espírito rebelde da música de Janis Joplin

“pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,” Allen Ginsberg

Janis Joplin foi símbolo de rebeldia na década de 1960

Ela se foi aos 27 anos há mais de quatro décadas, mas se é verdade que na música o tempo é fundamental, também o é que, através dela, os limites se transpõe. Ao menos no caso de Janis Joplin. Cantora de rock e blues a norte-americana despontou junto à geração de Jimi Hendrix e Jim Morrison, influenciada por nomes como Billie Holiday, Aretha Franklin e Etta James. A voz rascante e os excessos dentro e fora do palco foram algumas de suas marcas, além das canções carregadas de desvios amorosos e hinos à libertação. Kícila Sá, multiartista, atriz e cantora, acredita que Janis se diferenciou de seus pares pela “interpretação e atitude. Só não digo que ela era uma atriz por que realmente sinto que ela viveu cada palavra que cantou, cada lágrima que derramou, cada grito que berrou. Janis tirava do útero uma voz difícil de ser comparada com qualquer outra cantora da época. Além de tudo ela foi uma mulher a frente do seu tempo”, constata.

Escute seu coração…

“Nosso corpo é infinitamente mais sábio que a nossa cabeça. O corpo é sábio mesmo sem ter consciência da sua sabedoria. Inconsciente é o nome para a sabedoria do corpo.” Rubem Alves

Fitas da consciência alertam para prevenção de doenças

O uso de laços coloridos na área da saúde para ajudar na mobilização e conscientização da população sobre riscos e tratamentos começou ainda na década de 1990, com a tradicional fita vermelha da AIDS. Hoje em dia elas são várias, e se relacionam também com os meses. Em referência ao “Dia Mundial do Coração”, por exemplo, celebrado no dia 29 do mês, instituiu-se o “Setembro Vermelho”, com o intuito de prevenção a doenças cardíacas. Nessa linha a Oncocentro de Belo Horizonte oferece acompanhamento cardiológico especializado para pacientes em tratamento de câncer.

A doutora Ariane Macedo, fundadora e atual vice-presidente do Grupo de Estudos de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia desde 2014 esclarece que “o tratamento oncológico (rádio ou quimioterapia) pode afetar o coração a curto ou a longo prazo, por isso a importância do acompanhamento”. De acordo com Ariane “o tratamento oncológico pode causar em alguns pacientes uma intoxicação no sistema cardiovascular (no músculo cardíaco, no pericárdio – que é a membrana que envolve o coração -, ou nos vasos sanguíneos)”. A medida adotada pela Oncocentro de BH para prevenir complicações foi determinar a presença do médico cardiologista dentro da clínica e oferecer aos pacientes o tratamento. “Eu atendo a todos os pacientes, o que permite um acompanhamento preciso e imediato, além do contato direto com o oncologista para discussão dos casos”, sublinha Ariane.

9 músicas carnavalescas de Moraes Moreira

“Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia
De todos os santos, encantos e axé, sagrado e
Profano, o baiano é carnaval…” Moraes Moreira & Armandinho Macedo

Moraes Moreira é o autor de vários sucessos de carnaval

Baiano de Ituaçu, no interior do estado, Moraes Moreira escreveu uma canção apenas para dizer que não era Alceu Valença. Ele mesmo reconhece que o engano tem fundamento, pois, apesar de usar “bigode e ele não”, as influências pernambucanas são recorrentes em suas músicas, especialmente a predileção por frevos. Moraes foi dos principais artífices na consolidação do “Trio Elétrico” com voz, sendo um de seus primeiros cantores, e, por muitos carnavais, despontou ao lado de Armandinho, Dodô e Osmar nas ruas da Bahia. Um dos fundadores dos “Novos Baianos” o espírito e a energia inovadora e entusiasmada jamais o abandonaram e, talvez por isso, Moraes soe como carnavalesco mesmo quando compõe baladas com o poeta Paulo Leminski ou lega à nossa música popular brasileira o melhor de suas reflexões existenciais.

Artigo: Como Temer entrará para a história do Brasil?

“Certamente não é alegre; há espetáculos mais joviais, leituras mais leves; mas o interesse não está na leveza nem na alegria. A tragédia é terrível, é pavorosa, mas é interessante. Depois, se é verdade que os mortos governam os vivos, também o é que os vivos vivem dos mortos.” Machado de Assis

Michel Temer chegou ao poder após a polêmica deposição de Dilma

Quando Cristo reuniu seus apóstolos para celebrar a Santa Ceia disse que seria traído por um deles, de acordo com as escrituras bíblicas. Joaquim José da Silva Xavier, também conhecido como o alferes Tiradentes não tinha a mesma consciência, tampouco o imperador romano Júlio César, apunhalado pelas costas pelo filho adotivo Brutus. De acordo com lógica vigente há quem diga que quem votou em Cristo votou em Judas, e quem votou em Tiradentes também votou em Joaquim Silvério, e assim por diante. Fato é que a história não costuma ser muito simpática a tais personagens, não por acaso malhadas em celebrações até hoje típicas nas cidades. Michel Temer, talvez, tenha calculado mal o peso do tempo, embotado pela fricção momentânea que a estimativa de poder é capaz de causar. Em cima agora, de baixo para sempre.

Análise: A herança das Carmen’s na música brasileira

“Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.” Florbela Espanca

Carmen Costa, Carmen Silva e Carmen Miranda, cantoras do Brasil

Com a morte de Carmen Silva encerra-se, ao menos em vida, a dinastia deste nome na música brasileira. A herança das três, no entanto, permanece, em seus diferentes espectros e singularidades. A mais conhecida delas, Carmen Miranda, representa também o maior número de paradoxos. Símbolo de brasilidade, nascida em Portugal, alçou o país à fama internacional ao se apresentar nos palcos e participar de filmes emblemáticos na terra do Tio Sam, os Estados Unidos da América.

Carmen Costa guarda mais semelhanças com a outra xará, exemplo o fato de ambas terem trabalhado como empregada doméstica, o que expõe também traço marcante da sociedade brasileira. Também participou de chanchadas nacionais e gravou sucessos carnavalescos, cujo mais expressivo continua sendo “Cachaça”, que tem entre seus compositores Mirabeau.