Crítica: musical “Elza” celebra presente político, musical e humano

“Vagueia, devaneia
Já apanhou à beça
Mas pra quem sabe olhar
A flor também é ferida aberta
E não se vê chorar” Chico Buarque

A voz do milênio segundo a BBC de Londres não saiu pela tangente, com uma daquelas respostas burocráticas, quando questionada pelo apresentador Antônio Abujamra no programa “Provocações” (em 2010) sobre o que seria caso não fosse cantora. “Prostituta”, respondeu Elza Soares. O episódio não é abordado no musical “Elza”, mas a força desse gesto é o que rege a dramaturgia desse inquestionável sucesso de público. Pobreza, miséria, fome e luto foram palavras que atravessaram mais de uma vez o caminho da intérprete de timbre único, capaz de arrancar sons da garganta com uma técnica que, segundo ela, teria sido imitada por Louis Armstrong, numa das boas sacadas cômicas da peça. Aliás, o humor também é usado para explicar a voz de Elza. Pois, para além de vividos, os dramas, quando surgem, são todos enfrentados.

Prefácio para “O sol áspero” de Raphael Vidigal: Copo vazio

“Faça milagres se quiser desvendá-los. Só assim chegará lá.” Godard

Fiquei por muito tempo resistindo antes de escrever este prefácio. Pensava: qual a necessidade de fazê-lo se, aqui, tudo já está tão evidente e oculto? Qualquer coisa que escreva irá destoar dos ritmos, das sonoridades, das construções tão cuidadosamente armadas deste livro que é como um pequeno mundo circular e, ao mesmo tempo, aberto, com sua lógica própria e seus enigmas. O prefácio corre o risco de mitigar as linhas de sentido, de explicar, quando o livro não quer explicar nada, assim como a cidade que inventa não explica nada.

Mas, afinal, já comecei. Talvez seja interessante voltar um pouco. Raphael me pediu uma imagem para a capa. De uma primeira leitura ainda muito intuitiva, lembrei-me de um desenho que fiz há alguns anos. Tentei fazer outras ilustrações, mas esse desenho ainda insistia e, ao final, foi realmente o que Raphael mais gostou. Nele, uma luz fria artificial hospitalar ilumina uma cama de solteiro. A cama está coberta por uma pirâmide de folhas. Essa ilustração veio de um sonho que tive e cria um enigma. Há um frescor das folhas e a frieza da luz. Como o “tártaro que suja o poema”. Como a lembrança da finitude da vida no caracol que desliza entre as frutas da natureza morta. Como um vanitas.

Raphael Vidigal estreia no romance com “O Sol Áspero”

“Num mundo de cartas de amor e de analfabetismo, de cartas que não puderam ser entregues, de vidas que não se deram por inteiro. Num mundo de instantes concretos iluminados asperamente, sem redenção” (trecho do prefácio escrito por Clara Albinati)

Quatro anos depois de lançar o seu primeiro livro, com “Amor de Morte Entre Duas Vidas” (2014), que reunia 75 poesias, e de produzir e colocar letra em 12 chorinhos para o álbum “Waldir Silva em Letra & Música” (2016), no qual se tornou parceiro musical de Zé Ramalho, o jornalista, poeta e letrista Raphael Vidigal explora um novo formato para a sua escrita. Não bastaram poesia e a letra de música para sanar a curiosidade do autor com passagens pelo jornal Hoje em Dia, rádio Itatiaia, portal Uai e que desde 2012 mantém o blog Esquina Musical. Especializado na área cultural e pós-graduado em roteiro para cinema e televisão pela PUC Minas, Vidigal é repórter do jornal O Tempo desde 2017.

As primeiras linhas de “O Sol Áspero” começaram a nascer no ano de 2012, quando o autor trabalhava numa empresa de consultoria ambiental e foi contratado para escrever da forma mais lírica e livre possível sobre a experiência de visitar 16 pequenas cidades do interior de Minas Gerais, a maioria com média menor a 10 mil habitantes. Entre elas estavam nomes como JOANÉSIA, TUMIRITINGA, FERROS, AIMORÉS, SANTA MARIA DE ITABIRA, MESQUITA, AÇUCENA, ITANHOMI, NAQUE, BELO ORIENTE, CARMÉSIA, IAPU, FERNANDES TOURINHO, ENGENHEIRO CALDAS, dentre outras mais.

Crítica: peça “Josephine Baker: a Vênus Negra” conta história de dançarina com graça e didatismo

“Como disciplina,/Passa o lírio pelo solo negro;
Seu alvo rizoma não se abala/E sua fé nada teme.
Mais tarde, por entre a erva,/Balança a campânula de berilo;
A vida, entre torrões, esquecida agora,/Em êxtase e precipício.” Emily Dickinson

Quem procurar fotos de Josephine Baker (1906-1975) na internet vai encontrar de tudo: desde caretas a poses sensuais, com muita nudez e roupas extravagantes, algo que não era assim tão comum de ser registrado na década de 1920. Essa dicotomia entre o sublime e o ridículo marcou toda a trajetória da cantora e dançarina norte-americana, que foi uma das pioneiras na libertação feminina, mas que, em sua época, teve de travar ainda uma outra batalha: aquela contra o racismo que, a despeito dos que pregam alguns, permanece incrustado em nossa sociedade.

Entrevista: Renato Teixeira segue tocando em frente com sua viola

“Quem ornamenta o azul
das manhãs
são os sabiás.” Manoel de Barros

Numa noite de Natal, na madrugada de 25 de dezembro, o compositor Geraldo Roca (1954- 2015) atirou contra a própria cabeça e pôs fim a sua vida. Assim, ele escolheu a mesma data da morte do cineasta Charlie Chaplin para sair de cena. Naquele ano, Renato Teixeira, 73, e Almir Sater, 61, dupla responsável pela histórica “Tocando em Frente”, colocara em prática um sonho antigo. Depois de décadas, os dois finalmente gravaram um disco inteiro juntos. Em 2018, “AR” (que alude tanto às primeiras letras dos nomes de ambos quanto ao sentido de respirar) ganhou um segundo volume. Foi inevitável em “+ AR” homenagear Roca. Confira abaixo a entrevista completa de Renato Teixeira.

Entrevistas: Simone Zuccolotto e Paulo Mendonça celebram 20 anos do Canal Brasil

“Se quiser, banco o francês
Quase tão bem como ele.
Sou brasileiro, bem sei,
Mas sou mais universal.” Murilo Mendes

Malabarismos automobilísticos e consultas de ocultismo. Foi assim que o Canal Brasil “começou”, há 20 anos, num dia 18 de setembro de 1998. A descrição corresponde à sinopse do primeiro filme exibido pela emissora. “Sonho Sem Fim”, dirigido por Lauro Escorel, não por acaso contava a história de um dos precursores do audiovisual no país: o gaúcho Eduardo Abelim, que, para conseguir produzir seus filmes, subia em veículos em movimento e jogava cartas para adivinhar o futuro. Como o protagonista, a trajetória do Canal Brasil também se firmou nesses três pilares: pioneirismo, resiliência e coragem. Confira abaixo as entrevistas com a apresentadora Simone Zuccolotto e o diretor-geral do canal, Paulo Mendonça.

22 programas marcantes na história do Canal Brasil

“A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil” Manuel Bandeira

Para comandar um programa na emissora é preciso ter estilo. Esse parece ser o principal recado que o canal enviou ao longo de uma história em que se dedicou a fomentar a cultura nacional, abarcando cinema, música, teatro, literatura e as artes plásticas, sem deixar o humor de lado e priorizando, sempre, a liberdade criativa. Listamos abaixo 20 programas inesquecíveis dessas duas décadas no ar.

Entrevistas: especialistas debatem o cenário do funk em BH

“a poesia
me chupa gostoso
prova o meu
gosto
me provoca me
morde me dá o
gozo” Bruna Kalil Othero

“Pulsos e camadas sutis que se acumulam, como um pano de fundo misterioso, uma camada de suspense que é liderada por um ponto minimalista, sinuoso, causando uma sensação estranha, um ritmo deslizante, solto, um tanto imprevisível”. Com essas palavras, o pesquisador e jornalista Gabriel Albuquerque, natural do Recife, procura desvendar a marca de um gênero que, não raro, é tachado de pobre, violento e pornográfico.

“O funk mineiro tem um toque espacial, evanescente, atmosférico e fragmentado. Eu diria que é um funk espectral”, completa Albuquerque, que faz referência ao uso de um beat (andamento rítmico) conhecido pelo nome de “panela”, “latinha” ou “garrafa”, em músicas como “Viciei Nessa Garota”, de MC Dennin, “Nóis É Bandido Vida Loka”, de MC L da Vinte, e “Bota Tudo Nela”, de MC Kaio, expoentes da nova cena belo-horizontina. Confira abaixo o depoimento de três especialistas sobre esse tema que está cada vez mais quente!

Entrevista: Funkeiro MC Papo vai da Piriguete ao Texas

“quero gozar da comida: quero gozar da bebida: quero ser bom quero ser amante quero ser amigo mas não consigo: sobre o tatami, os gusanos me servem de coberta.” Wally Salomão

“Pulsos e camadas sutis que se acumulam, como um pano de fundo misterioso, uma camada de suspense que é liderada por um ponto minimalista, sinuoso, causando uma sensação estranha, um ritmo deslizante, solto, um tanto imprevisível”. Com essas palavras, o pesquisador e jornalista Gabriel Albuquerque, natural do Recife, procura desvendar a marca de um gênero que, não raro, é tachado de pobre, violento e pornográfico. Um dos precursores do funk mineiro, MC Papo, responsável pelos hits “Piriguete” e “BH É O Texas”, analisa o cenário atual do gênero na cidade. Confira a entrevista completa na íntegra abaixo.

10 sucessos inesquecíveis do funk de BH

“Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
– Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel
principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou gozar da
vida; vocês poetas são uns intersexuais…” Manoel de Barros

Não é apenas de pesquisadores e jornalistas que o funk produzido nas Gerais tem chamado atenção e despertado curiosidade. O público foi quem mais comprou a ideia. Uma prova é o sucesso nacional alcançado por MC Papo e MC Delano, graças aos hits “Piriguete” (2006) e “Na Ponta Ela Fica” (2015). Confira abaixo uma seleção com dez sucessos do funk de BH, feita por Kdu dos Anjos, poeta, professor e coordenador do centro cultural Lá da Favelinha, localizado no Aglomerado da Serra.