Entrevista com Arnaldo Antunes: “Lula é um político brilhante”

“O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.” Fernando Pessoa [Bernardo Soares]

Uma das obras mais perturbadoras do espanhol Francisco Goya (1746-1828), pintada diante de seu horror com as guerras napoleônicas, traz a inscrição “O sono da razão produz monstros”. Foi “tomado por esse mesmo estado de perplexidade” que Arnaldo Antunes, 59, compôs, logo após o segundo turno das últimas eleições, “O Real Resiste”.

A música dá nome a seu mais novo disco, já disponível nas plataformas digitais. Lançada como single em dezembro, ela teve o seu videoclipe retirado, sem explicações, da grade de programação da TV Brasil. A letra, ácida, afirma em tom de ironia: “Miliciano não existe/ Torturador não existe/ Fundamentalista não existe/ Terraplanista não existe/ Monstro, vampiro, assombração/ O real resiste/ É só pesadelo, depois passa/ Múmia, zumbi, medo, depressão”.

12 brigas homéricas da música popular brasileira

“a maior parte das ocasiões de confusão no mundo vem da gramática.” Montaigne

Desde que o samba é samba e a música brasileira se entende por si própria, desavenças entre seus integrantes renderam hits e até incidentes mais graves, com direito a ações na Justiça e agressões físicas. Relembramos algumas das mais marcantes.

Noel Rosa x Wilson Batista
A rivalidade entre Noel Rosa e Wilson Batista está na capa de um LP da Odeon intitulado “Polêmica”, com uma caricatura de Nássara. “Rapaz Folgado”, de Noel, foi respondida com “Lenço no Pescoço”, de Wilson. “Palpite Infeliz” foi retrucada com “Mocinho da Vila”. “Feitiço da Vila” e “Terra de Cego” deram fim ao embate.

Marchinha tem refrão “O Lula tá livre, babaca”; Ouça

“Um teatro do qual não se pode rir, é um teatro do qual se deve rir. Gente sem humor é ridícula.” Brecht

Depois de passar 580 dias preso em Curitiba, o ex-presidente Lula foi solto no dia 8 de novembro de 2019, em uma sexta-feira que se tornou histórica para os brasileiros. Primeiro metalúrgico a ser eleito ao posto mais alto da República no país, o petista deixou o cargo com 87% de aprovação e ajudou a eleger Dilma Rousseff como sua sucessora. Com a prisão de seu líder mais popular, a esquerda passou a empunhar a bandeira “Lula Livre”, que ganhou a adesão de autoridades internacionais, como Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, Alberto Fernández, presidente da Argentina, e até do Papa Francisco, que, discretamente, recebeu uma camiseta com a imagem de Lula.

Majur: “Hoje sabemos com quem estamos lutando”

“exalando de todo seu corpo um perfume de seiva, de verdura e de ar livre.” Gustave Flaubert

Majur, 23, que se define como não binária, ambientou o clipe de “Africaniei” na sua cidade natal, Salvador. “É uma aula sobre a história do nosso povo. Somos um país laico que tem a diversidade como qualidade”, informa Majur, que, aliás, é uma das atrações mais aguardadas do Planeta Brasil, assim como seu “padrinho”, Caetano. Levada por Maria Gadú à casa dele, ela logo despertou o interesse do músico, que escreveu um texto para enaltecer suas qualidades. “Caetano é uma das minhas maiores referências, e estar com ele hoje me traz um sentimento de gratidão”, agradece Majur, que começou a cantar aos 5 anos, no coral da Orquestra Sinfônica da Juventude de Salvador. Em junho de 2019, ela gravou com Emicida e Pabllo Vittar o clipe de “AmarElo”, que considera “um ‘start’ para o mundo”. “Nós três temos histórias de luta e resistência e encontramos um jeito de deixar uma mensagem de ânimo, utilizando a música como tecnologia de afeto”, afirma Majur.

10 obras-primas de Federico Fellini

“Sonhar é acordar-se para dentro.” Mario Quintana

Federico Fellini deixava-se filmar dormindo nos sets de gravação. A indiscrição (permitida) das lentes revelava não apenas a sua propensão para o espetáculo como a defesa que ele fez durante toda a vida do sonho – em duplo sentido: tanto literal quanto metafórico. Antes de se tornar um diretor consagrado, o italiano começou a carreira como caricaturista e manteve um hábito até o final da vida: desenhar os próprios sonhos, que depois ganhavam opulência, cores e movimentos diante das câmeras.

10 filmes internacionais com músicas brasileiras

“A música entrava, imediatamente, como os primeiros compassos de qualquer música logo fazem por sobre a fantástica textura do seu espírito, dissolvendo-a sem dor e sem ruído como uma repentina onda dissolve as torres de areia construídas por crianças.” James Joyce

Durante uma cena de bar, emerge num filme sobre máfia protagonizado por Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, um chorinho com influência de baião, batizado de “Delicado”. Composta, em 1951, por Waldir Azevedo, a música compõe a trilha sonora de “O Irlandês” (2019), filme dirigido por Martin Scorsese. Na versão, a canção recebeu um arranjo para orquestra e reafirmou a tradição musical brasileira de estar presente em produções internacionais.

Crítica: Em “No Limiar da Vida”, Bergman dessacraliza a maternidade

“Volta e meia, seu corpo treme todo diante da dor, sempre presente.” Ingmar Bergman

Dor, angústia, desespero, exasperação. Esse é, em poucas palavras, o retrato que Ingmar Bergman (1918-2007) pinta sobre a maternidade no filme “No Limiar da Vida”, de 1958. Além de dessacralizar a concepção, o diretor sueco vai além e nos oferece uma perspectiva que chega às raias do realismo. Exatamente por isso, ela não é nada consagradora acerca da vivência física, psicológica e emocional de dar à luz. O sublime, próprio da sublimação, fica mesmo de fora.

O longa-metragem é baseado em um conto da autora Ulla Isaksson (1916-2000), conterrânea de Bergman, e o fato de ter sido escrita por uma mulher é fundamental para a história. Estamos no quarto de um hospital dividido por três gestantes que lidam com a gravidez de maneiras distintas. Stina, interpretada por Eva Dahlbeck, idealiza a maternidade; Cecilia, vivida por Ingrid Thulin, acaba de sofrer um aborto espontâneo; enquanto a jovem Hjördis, com a extraordinária Bibi Andersson em sua pele, tentou abortar e, sem sucesso, agora enfrenta o dilema de ser mãe solteira. Nos três casos, o milagre da vida é confrontado com a dureza da morte. A elas une-se a enfermeira Brita, com Barbro Hiort af Ornäs em seu papel, que tem a missão de ampará-las em suas variadas necessidades.

“Fargo”: Resumo do 1º episódio da 2ª temporada

“O cristianismo proibia estritamente matar o seu semelhante, mas permitia a matança de animais e tinha-se o direito de matar homens na guerra e para punir crimes contra o governo. Acho que não precisamos contar sobre as formas de governo e de negócio porque é o gênero de coisas que as pessoas transmitem umas às outras, em primeiro lugar.” Thornton Wilder

O filho caçula de uma família de mafiosos de Dakota do Sul, nos Estados Unidos, sente-se insatisfeito e diminuído com as atividades que lhe são destinadas pelos irmãos mais velhos dentro desse esquema, o que ocorre, justamente, por ser ele o mais novo e, além de tudo, inseguro do grupo. Para provar o seu valor, ele aceita a oferta de um vendedor de máquinas de escrever para coagir uma juíza. No entanto, é nesse momento que sua característica mais marcante vem à tona, e sua inabilidade emocional, aliada ao descontrole produzido pelo uso de cocaína, o leva a cometer uma série de três assassinatos de maneira descuidada e banal na lanchonete aonde tinha ido para colocar em prática o plano de coagir a juíza. Além desta, entre suas vítimas figuram uma garçonete disposta a demonstrar simpatia e disposição frente aos clientes e o cozinheiro do local, sendo que este último mantinha o recorde de pontos numa partida de futebol escolar da cidade. Antes de deixar a cena do crime o filho avista um óvni no céu.

Samuel Rosa: “Esse governo neoliberal combate tudo que é transformador”

“Há bem aventurança em duvidar; eu me pergunto por quê.” Brecht

Samuel Rosa, 53, se lembra com nitidez da época em que tocava nas noites de Belo Horizonte e recebeu, em um desses bares que serviam de palco para o Skank, uma letra do futuro parceiro Chico Amaral. “Réu & Rei” foi a primeira música que a dupla compôs para o conjunto, cuja separação foi anunciada em novembro, após quase três décadas de estrada. Na época, Samuel falou com Amaral de sua “ambição de formar uma banda com acento de reggae, mas que misturasse também música brasileira e rock”, recorda ele. A canção mais recente dessa trajetória é “Algo Parecido”, que, ao ser lançada, em novembro de 2018, rapidamente alcançou o topo das paradas de sucesso. Com ela, o vocalista conta que “ousou voltar a escrever letras, algo que tinha deixado de lado” e que pretende retomar agora. “Foi uma experiência incrível, porque essa música se tornou uma das de maior apelo do Skank nos últimos anos. Digo que ela é um pouco autobiográfica, porque se passou comigo uma experiência que acontece com milhares de pessoas quando elas começam um relacionamento”, entrega.

Conheça a “Lenda de Papai Noel na Terra dos Gnomos”

“os sonhos que rabiscam velhos mares não são mais daquela
finidade antiga; e ser, nesta meia-hora, é descascar sem muita
pressa, é interpretar nuances de magia.” Ana Cristina Cesar

Maria Inês Aroeira Braga tem um mundo próprio. Ela não é dona desse mundo, mas pertence a ele. Ali habitam duendes, fadas, gnomos, sacis-pererês e toda sorte de encantamento. Conversando com ela você vai perceber a existência de uma realidade que, transparente à nossa retina, fala diretamente ao coração, como uma flecha lançada por um cupido zombeteiro, meio anjo e meio criança, como são, afinal de contas, todas as figuras encantadas.

Ao escrever, Maria Inês utiliza uma linguagem simples, aquela mesma do verso bíblico que diz “ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos deuses, sem amor eu nada seria”; transformada pelo compositor Renato Russo (1960-1996) em música, outra de suas paixões. O afeto é o guia de suas criações e, por conta disso, qualquer sinônimo de excesso e afetação são deixados de lado, pois todos sabemos que ao amor interessa o discurso despido de segundas intenções. O texto de Maria Inês se entrega a nós com a nudez sincera, pura, simples, natural e humana de todos os amantes do mundo.