Crítica: Em “No Limiar da Vida”, Bergman dessacraliza a maternidade

“Volta e meia, seu corpo treme todo diante da dor, sempre presente.” Ingmar Bergman

Dor, angústia, desespero, exasperação. Esse é, em poucas palavras, o retrato que Ingmar Bergman (1918-2007) pinta sobre a maternidade no filme “No Limiar da Vida”, de 1958. Além de dessacralizar a concepção, o diretor sueco vai além e nos oferece uma perspectiva que chega às raias do realismo. Exatamente por isso, ela não é nada consagradora acerca da vivência física, psicológica e emocional de dar à luz. O sublime, próprio da sublimação, fica mesmo de fora.

O longa-metragem é baseado em um conto da autora Ulla Isaksson (1916-2000), conterrânea de Bergman, e o fato de ter sido escrita por uma mulher é fundamental para a história. Estamos no quarto de um hospital dividido por três gestantes que lidam com a gravidez de maneiras distintas. Stina, interpretada por Eva Dahlbeck, idealiza a maternidade; Cecilia, vivida por Ingrid Thulin, acaba de sofrer um aborto espontâneo; enquanto a jovem Hjördis, com a extraordinária Bibi Andersson em sua pele, tentou abortar e, sem sucesso, agora enfrenta o dilema de ser mãe solteira. Nos três casos, o milagre da vida é confrontado com a dureza da morte. A elas une-se a enfermeira Brita, com Barbro Hiort af Ornäs em seu papel, que tem a missão de ampará-las em suas variadas necessidades.