Samuel Rosa: “Esse governo neoliberal combate tudo que é transformador”

“Há bem aventurança em duvidar; eu me pergunto por quê.” Brecht

Samuel Rosa, 53, se lembra com nitidez da época em que tocava nas noites de Belo Horizonte e recebeu, em um desses bares que serviam de palco para o Skank, uma letra do futuro parceiro Chico Amaral. “Réu & Rei” foi a primeira música que a dupla compôs para o conjunto, cuja separação foi anunciada em novembro, após quase três décadas de estrada. Na época, Samuel falou com Amaral de sua “ambição de formar uma banda com acento de reggae, mas que misturasse também música brasileira e rock”, recorda ele. A canção mais recente dessa trajetória é “Algo Parecido”, que, ao ser lançada, em novembro de 2018, rapidamente alcançou o topo das paradas de sucesso. Com ela, o vocalista conta que “ousou voltar a escrever letras, algo que tinha deixado de lado” e que pretende retomar agora. “Foi uma experiência incrível, porque essa música se tornou uma das de maior apelo do Skank nos últimos anos. Digo que ela é um pouco autobiográfica, porque se passou comigo uma experiência que acontece com milhares de pessoas quando elas começam um relacionamento”, entrega.

Conheça a “Lenda de Papai Noel na Terra dos Gnomos”

“os sonhos que rabiscam velhos mares não são mais daquela
finidade antiga; e ser, nesta meia-hora, é descascar sem muita
pressa, é interpretar nuances de magia.” Ana Cristina Cesar

Maria Inês Aroeira Braga tem um mundo próprio. Ela não é dona desse mundo, mas pertence a ele. Ali habitam duendes, fadas, gnomos, sacis-pererês e toda sorte de encantamento. Conversando com ela você vai perceber a existência de uma realidade que, transparente à nossa retina, fala diretamente ao coração, como uma flecha lançada por um cupido zombeteiro, meio anjo e meio criança, como são, afinal de contas, todas as figuras encantadas.

Ao escrever, Maria Inês utiliza uma linguagem simples, aquela mesma do verso bíblico que diz “ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos deuses, sem amor eu nada seria”; transformada pelo compositor Renato Russo (1960-1996) em música, outra de suas paixões. O afeto é o guia de suas criações e, por conta disso, qualquer sinônimo de excesso e afetação são deixados de lado, pois todos sabemos que ao amor interessa o discurso despido de segundas intenções. O texto de Maria Inês se entrega a nós com a nudez sincera, pura, simples, natural e humana de todos os amantes do mundo.

Milton Nascimento: “Nunca precisamos tanto de música, amor e educação”

“Não é possível adiar a vida.” Caio Fernando Abreu

Milton Nascimento começou a correr o país com a turnê “Clube da Esquina” em março, partindo de Juiz de Fora, onde ele vive atualmente. Além de capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Brasília e outras cidades mineiras, caso de Tiradentes, o esperado sucesso da empreitada o levou a extrapolar fronteiras, subindo em palcos de Paris, Berlim, Madri, Amsterdã, Lisboa, Porto, Londres, Zurique e Tel Aviv. “O carinho das pessoas nesses nove países diferentes mexeu muito comigo, a emoção é a mesma em todos os lugares. Eu nunca curti tanto uma temporada”, confessa o cantor. A ideia de revisitar o repertório dos dois álbuns duplos que formataram a identidade do movimento, que unia influências da música barroca mineira ao insurgente fenômeno dos Beatles, veio com as efemérides: os 45 anos do primeiro disco e os 40 do segundo.

10 figurinos extravagantes da música brasileira

“O mais louco grifo ou quimera não é uma suposição tão extravagante quanto uma escola sem contos de fadas” G. K. Chesterton

Frutas na cabeça, penachos por todo o corpo, cabelos de cores variadas. O que começou com Carmen Miranda teve continuações em Ney Matogrosso, Maria Alcina e Baby do Brasil em plena ditadura militar e chega aos tempos atuais com representantes de peso e estilo como Karol Conka, Pabllo Vittar, Gaby Amarantos e Duda Beat. Pródiga em melodias exuberantes e letras cheias de poesia, a música brasileira prova que também toma conta da cena quando o assunto é figurino. Listamos alguns dos mais exóticos e irreverentes.

Toquinho explica parceria com Chico Buarque sobre “perseguidos pela ditadura”

“Assim, hoje, passados dez anos, percebo que para um exilado não existe nenhum lugar onde possa viver; não existe nenhum lugar, porque aquele com o qual sonhamos, onde descobrimos uma paisagem, lemos nosso primeiro livro, tivemos a primeira aventura amorosa, continua sendo o lugar sonhado. No exílio, ele não passa de um fantasma, a sombra de alguém que nunca consegue alcançar sua completa realidade. Deixei de existir desde que cheguei no exílio; a partir de então, comecei a fugir de mim mesmo.” Reinaldo Arenas

Ao lado de Vinicius de Moraes, Toquinho aprendeu a cultivar, na década de 70, a prática de estar sempre bem acompanhado por uma intérprete de peso da música brasileira. Maria Creuza foi a primeira, e Miúcha, uma das mais recorrentes. Na Argentina, em 1971, eles levaram a então iniciante Maria Bethânia que, segundo Toquinho, “dispensa rótulos”. Com Clara Nunes, em 1973, realizaram uma extensa temporada nos circuitos universitários. “Clara tinha leveza na voz e muita graciosidade em cena, além de uma explosão no limite exato”, elogia Toquinho.

Badi Assad: “Momento político é caótico e humanamente despreparado”

“Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.” Pablo Neruda

Na beira do mar, Badi Assad, 52, sente a “brisa a acariciar o seu corpo” e sequer precisa sair de casa. A compositora paulista conta que é “transportada” para esse ambiente toda vez que escuta “Tarde em Itapoã”, um dos clássicos do conterrâneo Toquinho, 73, em parceria com Vinicius de Moraes. Apesar de nascidos no mesmo Estado, a diferença de gerações adiou o encontro entre eles, que finalmente se apresentam juntos em Belo Horizonte pela primeira vez. Mas a intimidade de Badi com a obra de Toquinho data de um tempo anterior.

1 – Quando foi que você tomou conhecimento da música do Toquinho pela primeira vez?
Como muitos brasileiros, o conheci através de ‘Aquarela’. Na época, eu tinha começado a tocar violão e achei incrível um cantor tocar violão daquele jeito enquanto cantava. Eu estava com 14 ou 15 anos mais ou menos, e com certeza ele plantou esta semente de possibilidades em meu jovem coração.