DJ Zé Pedro: “Os letristas de hoje são um retrato da educação que tiveram”

“Devo meu sucesso a ter sempre ouvido respeitosamente os melhores conselhos, e depois ter feito exatamente o oposto.” G. K. Chesterton

Caymmi, Gil, Veloso, Baby, Moraes, Nogueira, Bosco e Buarque podem ludibriar, numa primeira vista, quem liga o nome à pessoa ou adquire o livro pela capa. Se a sentença seguinte afirmar que os sobrenomes pertencem a Alice, Bem, Moreno, Pedro, Davi, Diogo, Julia e Clara, ninguém terá sido enganado. Herdeiros de artistas famosos, os citados pertencem a uma geração que, ao contrário das que vieram antes, que já chegavam tentando afastar o peso do sobrenome famoso, não só optam por seguir os passos profissionais dos pais, como têm se lançado em empreitadas capitaneadas pelo nome mais famoso do clã. Dono e idealizador da gravadora Joia Moderna, o DJ Zé Pedro dá seus pitacos sobre o cenário atual da música brasileira e alguns sucessos da última hora.

6 clipes bombados de K-Pop no mundo

“Vocês sabem tão bem quanto eu: as pessoas nunca podem dizer claramente o que pensam do dinheiro, da morte, da fama ou do casamento, vocês precisarão apanhá-las nas entrelinhas; vocês terão que adivinhar.” Thornton Wilder

Fogos de artifício, dois monumentais tigres de bronze e, em cada um dos sete microfones, uma cor do arco-íris. Subitamente, alguém sobrevoa a plateia. É Jungkook, que, a exemplo dos demais membros do BTS, veste um alinhado terno branco feito sob medida pela renomada grife francesa Dior. Esse é um aperitivo da turnê “Love Yourself: Speak Yourself”, que começou na Califórnia, nos Estados Unidos, e chega ao Brasil no próximo final de semana, com apresentações nos dias 25 (sábado) e 26 (domingo) de maio, no estádio Allianz Parque, em São Paulo, com capacidade para 55 mil pessoas.

Parte de uma série de oito apresentações que vai percorrer as Américas, a Europa e a Ásia, o anúncio do show avisa que se trata do “maior grupo de pop do planeta”. O esgotamento de todos os ingressos na capital paulista, que custavam entre R$ 205 (meia) e R$ 975 (inteira), torna a propaganda difícil de ser rebatida. Mas não é só isso. Depois de estrear em 2013 com o lançamento do single “No More Dream”, o conjunto de sete garotos sul-coreanos, que atualmente têm entre 21 e 26 anos, iniciou uma escalada impressionante e se consolidou como o maior expoente mundial de k-pop. A expressão é uma abreviação para korean pop, ou, em tradução literal, “música pop coreana”.

6 hits bombados da música brasileira

“O único sucesso está no fracasso.” Eugene O’Neill

Ninguém recusa o sucesso. Ou, talvez, seja melhor dizer que poucos perseguem o fracasso. Mas é difícil saber o que vai dar certo antes de o tiro acertar o alvo. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1936, quando Francisco Alves e Carlos Galhardo, na época os maiores cantores do rádio, não quiseram dar voz a “Rosa”, de Pixinguinha, e certamente se arrependeram um ano depois, com o estouro de Orlando Silva, que eternizou os versos rebuscados escritos pelo mecânico Otávio de Souza: “tu és divina e graciosa, estátua majestosa…”. Como “a história se repete como farsa”, assim disse o comunista Karl Marx, o episódio voltou a acontecer em 2018, envolvendo dois músicos de Minas Gerais.

Gusttavo Lima, nascido em Presidente Olegário, foi o primeiro a cantar a música sobre uma garota descoberta no Tinder (aplicativo de relacionamentos). E ficou nisso. Sem o registro do sertanejo, a música teve que achar uma nova boca para ganhar vida e atingir os ouvidos e o coração do público. O que a minoria sabe é que antes de Gabriel Diniz carregar no colo a canção “Jenifer”, recordista de execuções no ano passado, ela foi gestada por um time de oito compositores, entre eles o belo-horizontino Junior Avellar, criado no interior do Estado, em Santo Antônio do Amparo. Confira abaixo uma lista com esse e outros hits bombados da música brasileira.

O homem que foi quase comido por um jacaré

“Mas sempre se encontra um círculo de pessoas para quem se tornam importantes as coisas que aos olhos dos outros são desimportantes.” Gógol

Há pessoas que são mesmo estranhas. Hickens disse que estava bem, mas o fato é que, dois segundos depois, caiu desfalecido na grama. Foi um tanto custoso tirá-lo de lá porque além do desespero e do pânico que tomou conta de todos, o sujeito ainda pesava umas boas toneladas. Não impressionava que Hickens estivesse constantemente se queixando de dores no estômago. O café da manhã do homem era um espetáculo para se ver de perto, preparado por sua esposa mais do que dedicada, que alguns acusavam de ser submissa com olhares reprovadores ou mesmo comentários sem a menor intenção de discrição, como era o caso de Elaine, que perguntava para todo mundo ouvir como era ter trocado uma mãe por outra quando ela chegava a tempo de conferir o desjejum do glutão, feito de ovos mexidos, bacon, dois a três pedaços de pão com manteiga, cereais e bananas mergulhados no leite, suco de melancia, quatro generosas fatias de bolo cujo sabor variava entre coco, chocolate com cenoura e formigueiro, uma broa de fubá, uma fatia de mamão, duas de melão e algumas rapaduras para terminar de embrulhar o estômago de quem assistia tudo aquilo, que serviam de desculpa para o sujeito enfiar ainda mais duas xícaras de café goela abaixo. Hickens tinha um certo deslumbramento com o modo de vida norte-americano, talvez pelo próprio nome que carregava. Mas Elaine, amiga de infância da esposa de Hickens que jamais se casara e que exibia uma certa altivez da solidão que aos poucos deixa as pessoas circunspectas nelas mesmas, não estava presente no dia do fatídico acidente.

5 tributos memoráveis da música brasileira, por Hugo Sukman

“É preferível ser alvo de um atentado do que de uma homenagem. É mais rápido e sem discurso.” Mario Quintana

Todas as noites, o pequeno segundo andar da boate Vogue se enchia de uma atmosfera sonora que condensava dores e amores do samba-canção, estilo predominante naquele período. Entre 1948 e 1952, havia uma estrela que era a dona absoluta do palco da boate carioca. Sem a mínima questão de agradar ao público como em cada gesto da contemporânea Carmen Miranda (1909-1955), a futura jurada de calouros Aracy de Almeida (1914-1988) não poupava maus-tratos e barbaridades contra os fãs (como cuspir e assoar o nariz), que ainda assim a aplaudiam.

O repertório que Aracy cantava nessas apresentações tinha um único astro e gerou dois álbuns em formato de 78 rotações, com as clássicas “Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”, “Último Desejo” e “Com Que Roupa?”, entre outras de autoria e em homenagem ao amigo Noel Rosa (1910-1937), falecido 13 anos antes e, desde então, esquecido. “Foi a primeira vez que se fez um tributo com critério no Brasil”, afirma o jornalista e crítico musical Hugo Sukman, 48. “Esse trabalho estabeleceu a obra do Noel e o transformou no maior compositor brasileiro”, completa.

6 orquestras lendárias de Minas Gerais

“Uma música na qual não somos eternos, mas nos tornaremos.” Emil Cioran

Fundada em 1976, a Sinfônica é a mais antiga das orquestras profissionais da cidade. Os ensaios e as apresentações acontecem no Palácio das Artes. Com um currículo invejável, a orquestra se notabilizou nos últimos anos por levar aos palcos óperas inéditas na capital mineira, casos de “Romeu e Julieta” (de Charles Gounod), “Porgy e Bess” (de George Gershwin), “Norma” (de Vincenzo Bellini) e a citada “O Holandês Errante” (de Richard Wagner).

A Filarmônica é a outra grande orquestra do Estado, tanto numericamente quanto no destaque. Regida por Fabio Mechetti desde sua criação, ela superou dificuldades na comemoração de seus dez anos de existência. Durante todo o 2018, a Filarmônica sofreu com a falta de verbas e o atraso de repasses da Secretaria de Cultura. O atual acordo com o governo expira no primeiro semestre de 2019, o que vai exigir um novo edital de seleção.

6 músicas brasileiras cheias de engajamento

“A cultura de massa (ou melhor seria dizer a política de massa) foi vista com toda a clareza por Borges como uma máquina de produzir lembranças falsas e experiências impessoais. Todos sentem a mesma coisa e recordam a mesma coisa, e o que sentem e recordam não é o que viveram.” Ricardo Piglia

O chocante assassinato da vereadora Marielle Franco (1979-2018) completa neste mês de março um ano, sem ter sido solucionado. Defensora dos direitos humanos, feminista, negra, bissexual e vinda da periferia, a socióloga e ativista tornou-se tema recorrente de canções e manifestações culturais desde a sua morte, transformando-se em um símbolo da luta contra as opressões. MC Carol dedicou música à vereadora, Criolo a citou no videoclipe “Boca de Lobo”, e, em 2019, o samba-enredo da Mangueira fará menção a Marielle.

A vereadora voltou a ser lembrada nas imagens de “Rumos e Rumores”. Lançada pelo rapper Vitor Pirralho com participação de Ney Matogrosso, a música apela contra a destruição dos povos indígenas. Por sinal, Ney esteve no centro de uma polêmica em 2017, ao ser criticado pelo cantor Johnny Hooker, que acusava o veterano de “desdenhar da causa gay” após uma entrevista em que o antigo vocalista do Secos & Molhados rejeitava ter se tornado um representante das minorias e se definia como “um ser humano”.

“Um single do Planet Hemp se chamaria ‘Ele Não, Ele Nunca’”, diz biógrafo

“Era o fim de uma época, clandestina e rebelde, porém carregada de criatividade, erotismo, lucidez e beleza.” Reinaldo Arenas

Antes de se tornar santa da Igreja Católica, Joana d’Arc (1412-1431) foi queimada na fogueira durante a inquisição promovida pela mesma instituição. Analfabeta e camponesa, a revolucionária francesa inspirou o nome de batismo de Dark. Os pais esperavam que fosse uma menina, mas o rebento nasceu menino e acabou herdando apenas a forma de se dizer o sobrenome da heroína. Anos depois chegava ao mundo o primeiro filho de Dark, hoje conhecido como Marcelo D2, um dos fundadores do Planet Hemp.

É a controversa trajetória da “banda mais perseguida do país” que o jornalista Pedro de Luna, 44, procura contar ao longo das quase 500 páginas de “Planet Hemp: Mantenha o Respeito” (editora Belas-Letras). “Nenhuma banda sentiu tanto na pele a repressão”, sublinha o autor. Dividida em 60 capítulos, a narrativa cronológica traça um perfil de cada integrante antes de entrar na história que eles construíram juntos. Assim, D2, Skunk (1967-1994), Formigão, Rafael Crespo e Bacalhau aos poucos se tornam íntimos do leitor.

Entrevista com Hamilton de Holanda: “O choro é como uma Mona Lisa”

“Ouvi-te e ouvi-a/ No mesmo tempo
E diferentes/ Juntas cantar.
E a melodia/ Que não havia.
Se agora a lembro,/ Faz-me chorar…” Fernando Pessoa

Representante da Era de Ouro do rádio, que consagrou os cantores de “dó de peito”, aqueles que cantavam até sem microfone, Nelson Gonçalves lançou, em 1962, “Seresta Moderna”, música de Adelino Moreira que dava um recado direto para João Gilberto, papa da bossa nova: “Um gaiato cantando sem voz/ Um samba sem graça/ Desafinado que só vendo”. Em 1966, foi a vez de Adoniran Barbosa se lamentar diante do sucesso da jovem guarda, com “Já Fui uma Brasa”: “Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro/ Tocava ‘Saudosa Maloca’”, cantava o autor da clássica “Trem das Onze”.

Um ano depois, em 1967, a Passeata contra a Guitarra Elétrica precedeu o álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”, que concretizava musicalmente as bases do movimento capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. E, quando a Blitz invadiu as paradas de sucesso no ano de 1982, o discurso combativo e politizado da MPB começou a ser substituído por histórias cotidianas, de amores e dores, que se voltavam para os próprios umbigos daquela juventude imersa nos acordes do rock.

Alceu Valença: “Não abrimos mão de acreditar num país mais fraterno e solidário”

“O rio de minha terra é o A B C
de minha meninice, o meu passado
a correr para o mar
com todas as pedrinhas com que eu criança
brincava a fingir que eram bois.” Jorge de Lima

Geraldo Azevedo, 73, teve um início de carreira prodigioso. Autodidata, começou a tocar violão aos 12 anos. Com a mudança de Petrolina, no interior de Pernambuco, para o Rio de Janeiro, ele agarrou a chance de acompanhar Eliana Pittman (que gravou sua primeira música, “Aquela Rosa”, em 1968), Geraldo Vandré, Naná Vasconcelos e Teca Calazans. Tudo isso antes de unir sua travessia à do conterrâneo Alceu Valença, 72, na capital fluminense. Juntos, eles estreariam em disco no ano de 1972.

O sucesso de ambos, porém, só aconteceria ao toparem com outra nordestina que partira para o sudeste do país em busca de um lugar ao sol. Elba Ramalho, 67, tinha abandonado o curso de sociologia e economia na Universidade Federal da Paraíba para se dedicar aos sonhos da arte: ela cantava, interpretava e dançava balé. Ao lado do ator e amigo Carlos Vereza, batia ponto com frequência nos bares do Baixo Leblon, e foi lá que conheceu Alceu, de quem gravaria “Anunciação” (1983).

A música é uma das que aceleram seu coração, tanto que foi escolhida para a abertura de dois DVDs da cantora. A outra eleita é “Dia Branco” (1981), de Azevedo. Elba, por sinal, é recordista em dar voz a obras do autor de “Dona da Minha Cabeça”, “Quando Fevereiro Chegar” e “Moça Bonita”. “São canções que você escuta e já se vê cantando. Eu conheço muitas das histórias e fatos que estão por trás delas. E não vou apenas cantar, tenho algo a transmitir”, ressalta Elba.