Entrevista: Mano Brown defende Lula e critica a mídia

“Ah, aprende-se o que é preciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mesmo com o chicote; à menor resistência flagela-se a própria carne.” Franz Kafka

Todo o trabalho de Mano Brown à frente dos Racionais MC’s está fundamentado na observação social e na defesa da camada mais pobre da sociedade, frequentemente atingida pela violência no país. Por essas e outras, não é de se espantar a tomada de posição do rapper diante do estado de coisas que têm determinado a política nacional desde as manifestações de junho de 2013.

“Eu acompanhei esse processo desde o início, quando começaram a cogitar o impeachment da Dilma, com a história das pedaladas fiscais, a gente já sabia que o desfecho seria a prisão do Lula”, garante. No final do ano passado, o rapper chegou a postar em suas redes sociais uma foto ao lado do ex-presidente e de Chico Buarque, após uma partida de futebol em que os três participaram. Sem esconder o apoio, ele entoou em seus shows, mais de uma vez, o coro de “Lula Livre”.

Crítica: Musical “O Fantasma da Ópera” é clássico ultrapassado

“pode escapar-nos, porventura, e desvanecer-se, porque não confiamos em fantasmas.” Virginia Woolf

A parafernália em torno de “O Fantasma da Ópera” justifica sua grandiosidade. Cumprindo a premissa dos musicais da Broadway, a nova versão brasileira do musical aposta numa estrutura que impressiona pelos atributos físicos. O cenário não deixa de destacar os itens que terão papel narrativo no desenrolar da trama, em especial o gigantesco lustre colocado sobre a cabeça dos espectadores. A reprodução de um coral de anjos e um brinquedo de um macaco instrumentista também chama atenção pela beleza dos objetos. A atuação da orquestra é outro ponto alto.

Mas, como de praxe, afora o que se impõe pela presença física ou sonora, todo o resto fica a dever. Um musical é, por mania, grandiloquente, ainda mais quando se encontra com o universo operístico. A expansão de gestos, vozes e cores é tamanha que chega ao nível da pirotecnia, o que não anula a capacidade do time de intérpretes líricos, em especial a do protagonista, cuja voz se destaca. Thiago Arancam compõe um Fantasma ao gosto dos fãs: ele toma a cena com vigor, pela força de sua garganta e a rudeza de seu gestual.

Entrevista: O caminho do rap de Marcelo D2 a Hungria Hip Hop

“É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba escutar o palrar os signos.” Ana Cristina Cesar

Encontros de astros do rap com artistas de outros segmentos ficaram comuns. Criolo gravou com Ivete Sangalo. Marcelo D2 se dedicou a cantar o samba de Bezerra da Silva. Renegado está em turnê com a Orquestra Ouro Preto. Enquanto isso, Emicida, Hungria Hip Hop e Karol Conka dividem a trilha sonora da atual temporada de “Malhação” com uma nova safra de funqueiros. “Ter uma música em novela da Globo é uma quebra de barreiras. O rap está alcançado lugares que nunca imaginamos”, afirma Hungria. Para completar, o rapper canadense Drake fez história ao se tornar o primeiro artista a bater os 50 bilhões de reproduções em streaming.

Marcelo D2

1 – Qual a importância para você de participar de um festival como o Saravá, que já traz no próprio nome uma ode às raízes negras e reúne um time de artistas como DJ Negralha, DJ Xeréu, Parceria Fina e outros, cuja trajetória esteve sempre voltada para o hip hop, reggae, rap e soul?
Esse lance de raiz é uma parada muito presente pra mim. Meu próximo trabalho, o “Amar é para os Fortes”, por exemplo, é todo produzido por um coletivo que chamamos de “mulato”. E, longe do significado pejorativo que muita gente associa ao termo, mulato é essa mistura que é indissociável ao brasileiro, é essa miscigenação de raízes que define a nossa identidade. Então, pra mim é uma honra participar da primeira edição de um festival como o Saravá. E dividir o palco com essa rapaziada é uma responsabilidade grande.

21 músicas brasileiras da polêmica rap raiz x rap Nutella

“Esses moleque arrastaram, causaram
Derrubaram as moto, bateram nos carro
Tretaram com as tia, zarparam
Festa é festa, fica na paz” Emicida & Rael

Desde os primórdios, o rap nacional bebia na fonte do samba e suas diversas intersecções com a música negra. Os próprios Racionais MC’s e Mano Brown já apresentavam influências trazidas por Jorge Benjor, assim como o rapper Athalyba Man se aproximava da canção de tradição romântica. Apesar disso, atualmente o gênero sofre com a febre do meme “Nutella x raiz”. O rap Nutella supostamente prioriza um discurso calcado nas relações afetivas e na ostentação de bens materiais, em detrimento do histórico engajamento político e da crítica social presente nas letras dos Racionais MC’s, Sabotage, MV Bill, Rappin’ Hood e Black Alien. Esse segundo time pertenceria ao chamado rap de raiz. Confira abaixo alguns clipes que traduzem esses dois estilos.

Entrevista: Projota, entre o rap Nutella e de raiz

“Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.” Paulo Leminski

Como muitos ditados populares, a origem é incerta. Fato é que a rivalidade criada por meio do meme “raiz x nutella” começou a se alastrar na internet em 2016. Curiosamente, dois anos antes, uma banda que hoje é vítima do termo já tinha se referido à marca especializada em creme de avelã com cacau e leite.

Foi em 2014 que os garotos do quarteto fluminense Oriente lançaram “O Vagabundo e a Dama”, que dizia: “Ele chegou da pista, viu a cama e foi cochilar/ Ela acordou, abriu a janela, e viu o sol nascendo no mar/ Ele abriu a geladeira, de novo pão com mortadela/ Ela comeu croissant, com Ovomaltine e Nutella”.