Crítica: Espetáculo “O Deszerto” manifesta ânsia de liberdade

“não insisto na memória
das coisas obsoletas
as cartas os namorados os poemas que escrevo
são filhos bastardos
sem colo
sem tetas” Bruna Kalil Othero

Nova montagem da companhia Mulheres Míticas mantém princípios do grupo

O rigor e a acuidade plástica não estão ali por acaso. “O Deszerto” é espetáculo que se sustenta em fortes bases estéticas, estruturando sua cenografia a partir de uma noção simbólica muito definida. Há consciência acima de tudo. Para chegar aonde pretende a montagem é habilidosa e inventiva ao combinar recursos caros à cena contemporânea. Mantém-se a concepção de que tudo não passa de teatro já no cenário, na minúcia dos figurinos, na presença da iluminação e outros objetos de cena, tais como microfones, rocas de fiar, reproduções no telão, a música e mais tantos detalhes, ao mesmo tempo em que a palavra e a movimentação das personagens procuram eclodir no espectador alguma constatação palpável e imediata. Essa transição é feita de maneira especialmente bem conduzida e desafiadora, propondo que o jogo se estenda até a realidade, com uma direção que, além de não se acomodar, encontra soluções pertinentes àqueles casos. O clamor que se vê no palco toma por medida a transformação compartilhada.