Crítica: “Migrações de Tennessee” tenta apreender universo do dramaturgo

“Não quero realismo. Quero mágica. Sim, mágica. Tento dar isso às pessoas. Sei que deturpo as coisas! Digo o que deveria ser verdade. Se isso é pecado, castigue-me!” Tennessee Williams

Migrações de Tennessee recria histórias do dramaturgo

Decidir levar ao teatro a vida de um dos mestres no ofício não é tarefa fácil, e requer coragem. “Migrações de Tennessee” procura apreender com reverência o universo do autor de “Um Bonde Chamado Desejo”, “Gata em Teto de Zinco Quente”, “De repente, no último verão” e outros clássicos, ao oferecer em pílulas alguns episódios e personagens que teriam servido de inspiração para o dramaturgo. Um dos inúmeros méritos da obra de Tennessee Williams foi o de infundir a tramas novelescas aspectos que inspecionavam prodigiosamente a alma humana, salpicando de poesia situações sórdidas e trágicas, sem que a fluência fosse prejudicada, justamente do que se ressente a atual montagem. Ao optar por uma dramaturgia de forte teor descritivo, com recorrente utilização do texto na substituição de ações, nem sempre a transição de uma situação a outra alcança a coesão necessária, travando a peça em ocasiões importantes. A música, ao contrário, sempre presente nos textos do homenageado, é quem consegue em alguns instantes amarrar esse laço. E configura, aqui, um acerto. Outra solução que surte efeito, e que está, por sinal, agregada à trilha, é a de recriar o som de objetos no palco, garantindo calor às cenas e preenchendo a atmosfera com uma certa aura dos anos em que o rádio teve o seu esplendor.