Crítica: “Colóquio Sentimental” analisa degradação das relações afetivas

“uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor” Ana Martins Marques

Colóquio Sentimental aborda tema comum a todos

Se o título pomposo implicar numa distância à primeira vista, lembre-se: não se deve julgar pela capa o livro. Aos primeiros passos de “Colóquio Sentimental” o conteúdo se descobrirá conhecido, íntimo. A aparente banalidade do tema diz muito a seu respeito: os movimentos mecânicos, repetitivos, os automatismos das relações que se denominam “afetivas” e a lenta degradação que instalam, revelando, outra vez, que não se deve julgar a capa antes do livro; por trás da palavra “afetiva” se concentrarão sentimentos de angústia, ansiedades reprimidas e a necessidade de controle e domínio presentes na forma estabelecida como a consensual para constituir uma existência plena. Os sentimentos são esgarçados através de linguagem mimética, em que a dança desempenha papel decisivo, não apenas pela concisão dos movimentos, prenhes de sentido, mas por que sublinha com beleza o que se imagina. Precisa, contundente e criativa, direção e dramaturgia partem de um amplo campo analítico; detentoras desse embasamento remodelam as intenções e os discursos guiadas por sede estética, que se sacia. O texto é cabal, vai às veias.