Análise: 80 anos de Tom Zé, o mais tropical dos tropicalistas

“Os vossos braços cruzados formam uma gigantesca corrente de aço (polida com sabonetes e aromatizada com perfumes importados) que tenta aprisionar meu pensamento. Os vossos olhos vidrados de múmias vivas formam um grande espelho mentiroso, que tenta retratar-me como um delinquente. Os versos musicados são o meio pelo qual eu vos devolvo a imagem.” Tom Zé

Tom Zé segue como o mais tropical dos tropicalistas

Quando David Byrne redescobriu Tom Zé numa loja de sebos pouca gente desconfiava que ali estavam presentes dois dos princípios básicos do “Tropicalismo”. Além da confluência entre nações a sofisticada obra do baiano encontrava-se no mais popular dos espaços. A tardia aclamação não impediu o compositor de canções tornadas clássicas como “Augusta, Angélica e Consolação”, “Menina, Amanhã de Manhã (O Sonho Voltou)” e “Tô” de revelar-se como o mais persistente proclamador dos princípios tropicalistas. Sempre, também, o mais tropical de todos eles, tanto na postura quanto nas vestimentas, reforçando o caráter performático das apresentações daquele que se diz “cantor que não sabe cantar, instrumentista que não sabe tocar e compositor que não sabe compor”, ao sublinhar a transformação das próprias misérias e precariedades em fonte de inspiração e motor criativo. De fato, o baiano nunca foi comum e muito menos “figurinha fácil” no contexto nacional.